domingo, maio 10, 2015

Para Vovó Nina.

Querida Vovó Nina,

Já faz cerca de 15 anos que tu não está mais aqui. Eu tenho, agora, 30 anos. Metade da minha vida transcorreu sem te ver nem ouvir.

Mas, antes da tua partida, eu já te via muito pouco.

Eu lembro de ti, nessa época, me convidando, pelo telefone, a te visitar mais. Eu quase nunca ia.

Eu lembro de tu me perguntar o porquê de eu não te visitar com mais frequência. Eu lembro de você perguntar se a razão era você ser pobre, você morar no seu cantinho, em Jardim Brasil.

Eu lembro bem do seu cantinho. Eu ia muito lá, na minha primeiríssima infância. Quantos anos eu tinha? Três? Quatro? Não lembro. 

Eu lembro que, nesta época, eu só pensava em bolinhas de gude e em coletar pedras que eu achava serem preciosas, para formar uma mina de pedras preciosas parecida com a da ilustração do Manual do Escoteiro Mirim da Disney.

Quantos anos eu tinha, quando deixei de frequentar o teu cantinho? Também não lembro.

Eu lembro que, antes disso, quando eu ainda frequentava o teu cantinho, a gente lia, com frequência, a Bíblia. Você sentava no canto de um sofá, eu sentava no canto de um outro sofá. A gente formava um ângulo de 90 graus um com o outro.

Eu não lembro se a gente lia os mesmos trechos juntos, se a gente alternava, ou ambos. Eu lembro que eu focava muito mais no som do que no sentido, do qual eu entendia muito pouco. 

Mas eu percebia que, ao pronunciar bem todos os sons de todas as palavras, eu te deixava contente.

Eu deixei de ler a Bíblia quando deixei de frequentar o teu cantinho.

Hoje eu tive um dia difícil. Problemas sérios no trabalho, que me fizeram questionar não apenas a minha competência profissional, mas também a viabilidade dos meus sonhos.

O trânsito estava parado quando eu saí do trabalho. Eu entrei numa livraria para aguardar o Tempo melhorar o deslocamento.

Antes que eu me desse conta, eu estava lendo a Bíblia. Antes que eu me desse conta, eu estava lendo os Salmos e Provérbios.

Eu percebi que a leitura não apenas me acalmou, mas me propôs um caminho. Um caminho que viabiliza meus sonhos.

Ao chegar em casa, abri o livrinho de Salmos e Provérbios. Que eu sabia que tinha, mas que não me lembrava de ter aberto.

Ao abri-lo, talvez pela primeira vez, me deparei com a tua dedicatória. Ofertado a Bernardo, pela vovó Nina. Outubro de 1990.

Eu levei 25 anos para perceber o valor contido nos Salmos e Provérbios. Que você me deu de presente, no meu aniversário de seis anos.

Eu fiquei muito contente por ter, finalmente, achado e valorizado as pedras preciosas das minas do Rei Salomão.

Eu queria dividir esta alegria, tão tardia, contigo.

Eu espero que você possa, de alguma forma, ler este texto.

Ofertado à Vovó Nina. Pelo Bernardo. Abril de 2015.

domingo, julho 06, 2014

Tu foge de ti

Tu foge de ti
mas teu algoz te persegue
ainda que tu não te entregue
não há como fugir

Tu vai te dividir

em várias mentes distintas
que não se restringem às tintas
tua vida vão colorir

Vão emergir

imagens há muito esquecidas
não importa se sonhadas ou vividas
as portas terão que se abrir

Tu vai te despir

de tuas personas anacrônicas
sorrindo ao reler tuas crônicas
deixando de te medir contra ti

Tu vai te iludir

achando já ter superado
sonhando com um ser integrado
que tu nunca vai ver surgir

domingo, junho 29, 2014

Escrever é crer para ver

Escrever para afirmar
a potência criadora
se fazer admirar
inocência motivadora

Escrever e transformar

o concreto em abstrato
o prazer de delirar
com o feto antes do parto

Escrever para escapar

das amarras do real
para o ser se dilatar
com as farras do banal

Escrever para acreditar

no que não sabemos crer
para passar a enxergar
o que não podemos ver

sábado, julho 20, 2013

O elo central

Ninguém esperava, quando ele se foi. Um acidente não se espera, por definição. Ele era o elo central de uma corrente de cinco irmãos: os dois mais velhos mais materialistas, as duas mais novas mais espirituais. Ou pelo menos assim era, há quase trinta anos.

Cerca de um ano antes, um menino nascia. Também por acidente, ou melhor, não planejado. O pai, o segundo mais velho; o amor, numa terra distante. Terra que o elo central tinha sido o primeiro a desbravar, e recomendara para o irmão, também aventureiro.

O menino cresceu ouvindo histórias sobre o elo central. Ele gostava de ouvi-las: era como se já as conhecesse, mesmo antes da primeira audição. Bem nítidos se imprimiam o chapéu, a yoga e o banho frio às cinco da manhã do elo central na imaginação do menino. Ah claro, e as várias mulheres também.

O menino, filho único, brincava na infância com histórias nos livros. Na adolescência, passou a ser o elo central dos seus amigos. Numa sede de sociabilidade, o menino bebia muito, fumava muito. Muito novo para tudo isso. Durante o ensino médio, o menino ficou louco.

O pai não entendia, nem a mãe, nem ninguém. E o menino sentia que o elo central entenderia. Porque o elo central também tinha passado por aquilo tudo. Também ele buscara se libertar do ego, da prisão dos irmãos mais velhos. Também ele se afundara na loucura, na ausência de um princípio ordenador. E como ele, também dali o menino emergiria um novo homem.

O homem gosta de entender, não perdeu a curiosidade de menino. E se pergunta: como se explica a influência do elo central sobre ele? Vê-lo, só quando bebê, ou ainda no ventre, nada que se lembre. Apenas memórias de histórias, da boca de familiares, de amigos e, principalmente, do pai.

O pai falava sempre da produtividade pós-metamorfose do elo central. Para ele, a grande marca da transformação do irmão. Mas o menino intuía que o pai deixava de lado algo muito importante, na sua avaliação. Uma peça chave, sem a qual o quebra-cabeças não se monta. Afinal, o pai também é bastante produtivo, assim como o irmão mais velho. E o menino sentia essa peça-chave faltar em ambos.

Num jantar pós-natal, na casa de uma grande amiga da corrente, uma história jogou luz na peça-chave, até então fora de foco. A anfitriã falava sobre grandes festas com muita gente, sobre como o elo central acordava cedo no dia seguinte e providenciava o café da manhã para todos, mesmo sem ter vínculo com muitos. O menino viu ali uma capacidade de amar, para além de laços de sangue e matrimônio, um amor que se estende à humanidade, ao mundo. Um amor enorme, que jamais caberá numa prisão.

O homem sabe que sua imaginação de menino é cega para defeitos e hipersensível a qualidades. E agradece por só ter conhecido o elo central através da imaginação.

domingo, janeiro 27, 2013

für Emilia

Die Realität unterscheidet sich immer von deiner Vorstellung. Du dachtest, dass es zwei Möglichkeiten gäbe: eine Liebesgeschichte zu erleben oder eine normale Freundschaft zu behalten und auf jeden Fall unser Tandem weiter zu machen. Deshalb hast du ihr erzählt, dass du in sie verliebt bist.

Sie findet besser, wenn ihr euch nicht mehr seht. Das tut dir natürlich Leid. Du hast kein Problem mit den schönen Momente mit ihr, die du dir ausgedacht hast, die nicht verwirklicht werden. Du hast schon seit langer Zeit gelernt, dass deine Vorstellung einfach zu viel redet, du musst nicht an alles glauben, was sie sagt.

Aber ein ganz anderes Ding ist zu verlieren, was schon zur Realität gehört, was zweimal pro Woche passierte, bevor du dein Gefühl mit ihr geteilt hast.

Viele Leute versuchen den Schmerz zu vermeiden, selbst wenn er mit großer Freude verbunden ist. Du machst es nicht, aber du kannst es verstehen. Deine Art und Weise, mit Gefühlen umzugehen, kannst du nicht von anderen erwarten.

Es ist traurig zu beobachten, wie die Realität kapput geht, weil du an deine Vorstellung geglaubt hast. Deine Vorstellung kann die Realität verändern, sogar wenn auch nicht immer in deiner erwünschten Richtung. Aber du weißt, dass du ihr immer wieder zuhören wirst, weil sie einfach zu schön redet. Viel schöner als die Realität.

sexta-feira, dezembro 30, 2011

A “deusa” razão, as rotas do barco e o rodízio entre capitães

A razão duvida de tudo, mas tem uma fé cega em si própria. Tudo aquilo que está fora de seu campo de observação, tudo que não pode ser percebido nem mensurado pelos cinco sentidos ou pela tecnologia que os amplia, a razão não reconhece que existe. Todas as tradições e sistemas que lidam com tais elementos são desprezados pela razão. Ela se comporta como um adolescente deslumbrado com as façanhas que se descobre capaz de realizar, sem uma percepção clara de seus limites, nem do dano ou bem que tais proezas trazem para o seu utilizador, o homem.

A razão se crê onipotente na medida em que considera impossível tudo o que contraria suas leis. A razão se acha onisciente na medida em que nega a existência do que não pode ser explicado pelos seus princípios. Ela procura substituir Deus (empregue o nome que quiser), buscou libertar o homem das prisões religiosas que passaram a dominar as ligações com o divino, e ao negar a existência de tudo que está fora de sua de sua compreensão, condena o homem a novas prisões. Talvez com a maturidade a razão venha a entender muitas das coisas que por enquanto ignora, dissolvendo suas próprias prisões e reaproximando o homem do divino.

O mundo é o barco pelo qual o homem navega em si mesmo. Ter apenas a razão ao leme significa fazer sempre as mesmas rotas, visitando sempre as mesmas ilhas, ignorando continentes inteiros. Através da razão o homem neutralizou as ameaças da natureza à existência dele, ao menos enquanto catástrofes naturais não acontecem para relembrá-lo da diferença de poderes. Mas as proezas equivocadas da razão trazem novas ameaças à sobrevivência de seu utilizador.

A razão não é a única disponível para conduzir o barco. Ela é a mais eficaz para fins de sobrevivência, que mudam de acordo com a época: um dia significaram saber caçar e plantar, hoje significam saber ganhar dinheiro. Mas sobreviver é diferente de existir em toda sua plenitude. As proezas acertadas da razão movimentam o barco nessa direção, mas elas não podem navegar nos mares que a razão ignora, por onde os caminhos rumo a uma existência plena continuam, sem talvez jamais serem completados, mas cada centímetro de avanço valendo muito a pena: significam se aproximar do divino.

Tais avanços exigem outros comandantes para o barco, outras formas de usar a mente, como o sonho, o delírio, o transe provocado pela meditação, rezas, jejuns, dança, música ou seja qual for a forma de arte, que pode ao mesmo tempo se valer da razão e escapar das suas leis e prisões, fenômeno normalmente mais intenso nos criadores/praticantes das artes, exigindo grande concentração de seus espectadores/consumidores para alcançar um efeito semelhante. Os estados alterados de consciência provocados por algumas drogas podem ser bastante proveitosos nesse sentido, embora (talvez justamente por isso), seu abuso possa limitar perigosamente os poderes da razão.

Essas rotas de aproximação do divino permanecem essencialmente as mesmas em todas as épocas. Elas são freqüentemente inúteis para fins de sobrevivência: nesse campo, a razão e suas proezas acertadas permanecem imbatíveis. Por isso não vale a pena tentar ter apenas um comandante no barco o tempo todo. Melhor tentar refinar o rodízio entre capitães, fazendo a embarcação navegar pelos diversos mares, ilhas e continentes, tarefa para uma vida inteira, talvez mais. Missão impossível se acreditamos na onipotência e na onisciência da razão, ou se esquecemos de zelar pelo seu bom funcionamento.

segunda-feira, maio 23, 2011

Além mar

Não sei dizer por quanto tempo
não buscarei outros amores.
Por te guardar no pensamento
como um avaro a seus valores.

Flashbacks de cada momento
trazem à boca os teus sabores.
Teu riso sempre tão intenso
não sai dos amplificadores.

Das pontes entre nossas mentes
saltamos em águas ardentes
nadamos até onde se pôde.

Puxados por outras correntes
seguimos rotas diferentes
que hão de se encontrar de novo.