quinta-feira, julho 27, 2006

A soberba humildade

Soberba, um dos sete pecados capitais. Segundo São Tomás de Aquino, o mais problemático, pois impede que se reconheça todos os outros. O elemento que “se acha” muito se empenha pouco em melhorar. Afinal, não há muito o que melhorar, ele já é “O” cara...

Alguns consideram a humildade incompatível com uma auto-estima elevada. Se sua vida vai bem nas diversas áreas que lhe importam, não lhe faltam motivos para mandar a humildade para bem longe, certo ? A soberba é divertida, e a humildade é apenas o refúgio daqueles que não são tão bons quanto você.

Quando nos consideramos de fato bons em algo, a soberba nos tira para dançar, assim como nas vitórias importantes. Poucos recusam o convite. Recusar por quê, se a dança é instigante, embriaga o ego, faz sentir-se importante? Podemos até aparentar modéstia, porque uma arrogância descarada atrai antipatia, enquanto dizemos para nós mesmos como somos os tais.

Há, porém, uma razão soberba para manter a soberba afastada: ela atrai infortúnio. A vida logo procura ensinar aos arrogantes que salto alto não é bom para trilhar seus caminhos. Quantas trajetórias promissoras não foram desperdiçadas pelo deslumbramento? Isso fica evidente em competições. Já observei que o momento em que relaxo por achar que a partida está ganha muitas vezes é seguido de uma virada inesperada. Lidar com derrotas, então, é um problema para os “assoberbados”. Eles procuram, com ansiedade e frustração, uma razão para o seu desempenho pior, porque não aceitam que o desempenho adversário tenha sido melhor por méritos do oponente. Afinal, o oponente não pode ter mais méritos do que eles próprios.

“O sábio abandona a obra assim que ela se termina”. Desapego do resultado. Manter a serenidade quando algo dá muito errado já não é fácil, mas o mais complicado é manter a serenidade quando algo dá muito certo. E é nessa serenidade perdida que floresce o infortúnio, adubado pela arrogância que descuida do que trouxe o bom resultado. A menina está rindo, gostando do papo. No momento em que você “se acha” por isso, o papo começa a declinar, o foco não mais está onde deveria.

Este texto, por exemplo, teria ficado muito melhor se eu não tivesse “me achado” pelo jogo de palavras do título.

quinta-feira, julho 20, 2006

A voz de dentro

A voz de dentro não fala muito alto;
não é aquela que toca na sua mente
o trecho das canções preferidas
ou as conversas de fim de tarde.
A voz de dentro não gosta de chamar atenção.
fala pra quem escuta, sem repetir ou aumentar o tom
o oposto daquela voz que toca na sua mente.
Sempre gritando, clamando por atenção... e consegue
que a voz de dentro se cale, por falta de atenção
ou a falta de atenção nos impede de ouvir o seu falar ?

Quando conseguimos escutar a voz de dentro
convém prestar atenção;
pela raridade do momento
pela tranquilidade da sensação.
Não há tédio quando se a escuta;
tédio é coisa daquela voz
que faz tudo que pode na luta
para afastar o silêncio de nós
porque a ausência de som a apavora.
Mas é só nele que se encontra o remédio
oferecido por aquela senhora
que não fala muito alto, não gosta de chamar atenção.

sexta-feira, julho 14, 2006

Brainstorm

Consciência, cara ? Consciência é uma loucura. Neste momento escrevo sem o crivo da censura, o que vem à mente direto para o papel, o chamado Brainstorm. O desafio é não parar o deslizar da caneta sobre o papel. O sentido é prejudicado, mas o tédio é afastado e eu me satisfaço. Já li não lembro onde que Brainstorm é bom para organizar e liberar o fluxo de idéias. Me ocorre que o funcionamento da mente não é lógico, ou melhor, não se reduz ao lógico. Talvez um grande fator de insatisfação mental seja o esforço de reduzir a mente ao lógico. Nossa irracionalidade se revolta com isso, e puxa os cordões de nossos instintos, fazendo-nos pular de um lado pro outro, como marionetes-baratas-tontas. Será ? Eu acho que sim. Agora por exemplo, que finalizei essa idéia, não me vem a mente um tópico relacionado, como seria de se esperar se a mente fosse só lógica. O que me vem a mente é um verso do GOG, que me arrepia: "Moleque um momento, ainda há tempo se conserta/Moleque, um momento, fique atento ouça o alerta/As notícias da favela não são nada animadoras/Há guerra todo, mais cruel devastadora". E na sequência, a mente informa que tal verso foi para driblar a ausência de pensamento do momento. E que tal ausência vem da vontade de se pensar algo interessante, inteligente, LÓGICO. Então voltamos à idéia anterior. Talvez a mente funcione em círculos, ou em pentágonos, hexágonos. Hexa ? Vexame, decepção, cabeçada de Zidane no italiano mamão. Mamão uma ova, o cara foi que garantiu o tetra. Feio que doeu, como costuma ser o futebol da Itália, mas o tetra de 94 também não foi belo. Talvez seja destino, o tetra de todos ser medíocre. Mas a comemoração independe da beleza do futebol. A aula está acabando, boa hora pra finalizar o brainstorm. Na próxima vou cronometrar os minutos, e vender a idéia como solução milagrosa para estudantes tediosos. Vou ficar rico.

segunda-feira, junho 19, 2006

Espantando o Tédio

Escrever para espantar o tédio. Escrever para atingir um estado alterado de consciência. Diferente daqueles que se alcança por atalhos. Trata-se de uma atividade que envolve esforço, e, portanto, benefícios mais duradouros. Uma maneira sadia de dialogar consigo mesmo, trazendo para superfície conteúdos imersos no inconsciente.

Deixar a linguagem em forma melhora a qualidade do pensamento. Seria razão suficiente para dedicar algum tempo à leitura e à escrita, se não houvessem milhares de distrações, hipnotizantes e estéreis. Tornamo-nos reféns de nossas maneiras de fugir do tédio. E a maioria delas não nos acrescenta nada.

A loucura do mundo X o desenvolvimento espiritual. Para um monge tibetano, que nada faz além de meditar, a iluminação é meta árdua e incerta. Para nós, do caos urbano, iluminação só se for a dos postes. Queria ver o Dalai Lama cultivando a serenidade e o amor ao próximo com 15 carros buzinando no seus tímpanos e um possível assaltante se aproximando suspeitamente no sinal fechado. Tudo bem que existe uma consciência que media a resposta ao estímulo. Mas tem estímulo que chega pra consciência e diz: "Ó, tu fica aí, quietinha, sem encher o saco da resposta, que vai sair do jeito que EU quero". Se assim não fosse, não haveria condicionamento.

Lembrei do verso de Drummond: "Escrever, verbo que atrapalha a conjugação de tantos outros verbos". Será que eu me tornarei um ser humano melhor quando terminar esse texto ? E os pratos que não lavei, o assunto que não estudei, a corrida que não dei e o amor que não declarei ? Ora, que preocupação ridícula. Ninguém age para se tornar um ser humano melhor. Ou melhor, ninguém pode medir o impacto do que deixou de fazer na melhoria do seu ser. A velha questão: até onde é possível modificar, pela vontade, o próprio ser ? Responder, muitos já o fizeram, de Platão ao Dalai Lama, passando por Freud e pelo slogan da Nike. Difícil é demonstrar a possibilidade. Eu, que nem respondo nem demonstro, e na falta de final melhor para esse texto, desejo a todos um ótimo jogo do Brasil, com 3 gols de El Gordito, para tostar a língua de seus detratores. Maneira garantida de espantar o tédio.

terça-feira, maio 30, 2006

Considerações sem Foco

Paixões deformam
são lentes amadas, odiadas
a editar o mundo.

Ausência de paixões
pode, um dia, vir a ser o Nirvana
quase sempre é só vazio.

Ego = sofrimento
não conseguimos viver sem egos
o mundo entraria em colapso.

Ditadura do prazer
instantes de satisfação
por períodos de inquietude.

Considerações sem foco
exercício estéril
fortalece o ego

que já inflou, já explodiu e torna a inflar
que a sabedoria manda esvaziar
e a vaidade não mede esforços em recompor.

sábado, maio 27, 2006

Manutenção

A conquista é estimulante. Qualquer conquista. Emprego, afeto, status, mercado, poder. Há um objetivo em mente, estratégias para alcançá-lo. Enfim, chega-se aonde quer. E agora? Agora entra em cena a tal da Manutenção, sempre a exigir uma contribuição, tal qual um fiscal da Receita Federal. Bastam algumas faltas com ela para todas as conquistas irem por água abaixo. Ela não tem muita paciência para caloteiros.

Os motivos do calote não importam muito, porque dona Manutenção parte da idéia que sempre há algo que você pode fazer para pagar o imposto que ela cobra. Se não o fez, é porque não era importante o suficiente. Se não é importante o suficiente, não há motivos para manter.
Não dá pra tirar a razão dela. Em última análise, é isso mesmo. Alguns percebem isso logo, e agem de acordo com as regras da Dona. Há, porém, os que têm maior obediência a uma outra senhora, chamada Liberdade. Tão permissiva quanto Manutenção é intransigente, ela está sempre a indicar caminhos diferentes, que muitas vezes passam longe dos pedágios de Manutenção. As pessoas com preferência por Dona Liberdade acabam castigadas por Dona Manutenção, com a perda de suas conquistas.

É uma maneira mais excitante de se viver, diriam alguns. O movimento de perda e recuperação das conquistas parece bem mais aventureiro do que a segurança da conquista que persiste no tempo, protegida por Manutenção. Mais excitante e mais doloroso, por ter que enfrentar a dor da perda das conquistas diversas vezes.

Pesquisas apontam que muito de nossa personalidade depende mais dos genes do que das experiências. Deve haver um cromossomo responsável pela preferência entre Manutenção e Liberdade. É a desculpa perfeita para quem não quer mudar.

Para os que querem mudar, o carimbo genético tem quer se desconsiderado. Afinal, a imagem que fazemos de algo tem muito mais efeito sobre nós do que o algo em si. Se acho Genética uma bobagem, não tenho porque acreditar na tirania de um cromossomo. Se não acredito, não existe para mim. Logo, a mudança é possível.

Da possibilidade à concretização, vai um longo caminho. A ser preenchido com estratégias, para alcançar o objetivo em mente. Chegando aonde se quer, impossível não perguntar: e agora ? Talvez seja o caso de relembrar os caminhos percorridos, e honestamente agradecer a oportunidade da viagem.

segunda-feira, maio 22, 2006

Seminário de Rádio e Tv

Os ataques do PCC em São Paulo mostram o que séculos de injustiças sociais podem produzir. Revelam a fragilidade do estado, incapaz de lidar com terrorismo bem articulado. Confirmam o poder desse estado paralelo, que dita as leis dos presídios e favelas do Brasil.
Aconteceu em São Paulo, mas poderia ter ocorrido em várias capitais. Talvez ocorra muito em breve. E o mais assustador é saber que a situação só tende a piorar. Achar que mais policiais e penitenciárias resolverão o problema é como achar que o combate aos sintomas pode curar a doença. Essa hemorragia não pode ser estancada por PMs, Civis, Federais ou Militares. A ferida é bem mais grave, e só pode ser curada com a melhoria das condições sociais.
Não existe cura a curto prazo para tal doença. E são poucos os sinais de avanço para a cura a longo prazo. Talvez seja preciso uma guerra civil, com milhares de mortos por todo o país. Mas é melhor acreditar que eventos como o de São Paulo ajudem a sociedade a acordar. E começar a tratar a doença de fato. A sociedade brasileira precisa de um tratamento de choque. Bom seria se documentários como Meninos do Tráfico chocassem o suficiente para levar à ação. Infelizmente, só olharemos para o monstro que criamos quando ele ameaçar nos engolir.

segunda-feira, maio 01, 2006

Sentidos

Desejo:
Uma tensão que pede relaxamento.
Em alguns, exige;
Noutros, ordena.

Alma:
Um pedido de renúncia ao desejo.
Sacarifício sem tortura;
Cultivo do desapego.

Mundo:
Um lugar onde alma não importa.
Sonhos de consumo;
Indústrias de sentido.

Sentido:
Bússola de qualquer um.
Um enorme ponteiro material,
Um minúsculo ponteiro espiritual:

rachaduras de angustia constante;
ilusões de satisfação.

quinta-feira, abril 20, 2006

Falcão: meninos do tráfico

Um desenho traçado com canetas roubadas
por um menino nascido no berço da miséria
onde as trajetórias já estão tragicamente traçadas
e as alternativas são desprezadas, ingênuas idéias

O menino pintara um homem em combustão
castigado por transgredir a lei do silêncio
os dentes ainda moles rangeram ante o suplício
o fogo levava embora o seu irmão

A crueldade das imagens parece ficção
Realidade inverossímil para quem dela não faz parte
Ao choque da sociedade deveria suceder o debate
que conjugasse ações e soluções para a questão

Mas um monstro alimentado por décadas
não se mata em um único dia
por mais certeiras que sejam as setas

Enquanto isso, mais canetas serão roubadas
mais vidas serão desperdiçadas
na tragédia em que todo dia um novo ator estréia.

terça-feira, abril 04, 2006

Brincadeira Boa

O que resta dizer ?
O que já foi dito, de forma diferente ?
Um ajuste no passado, para enganar no presente ?
Quantos não disseram antes, e melhor ?
Questões que separam a mão da caneta.

Qual a razão desse uso do tempo ?
Vaidade, elogios dispersos ?
Talvez ser lembrado por meia dúzia de intelectos ?
Desenvolvimento pessoal, estruturar idéias
talvez já escritas em outra língua, outro país, outra época ?

A consciência precisa brincar
Escrever é brincadeira boa
E isso basta.

domingo, março 19, 2006

Malandragem e Responsabilidade

"Se eu precisar algum dia, de ir pro batente, não sei o que será... pois vivo na malandragem, e vida melhor, não há!" Este sambinha me vem à mente nos momentos que reservo para ficar à toa, na sinuca ou no dominó, acompanhado de uma loira gelada e dos colegas de ócio relaxante. "Estes momentos são essenciais para a manutenção do equilíbrio psicológico do cidadão", já cansei de dizer isso, para os outros e para minha consciência, quando há tantas tarefas por fazer e estou altamente atarefado fazendo nada. Nada de responsáel, melhor dizendo, chamar de "nada" algo a que dedico tanto tempo prazeroso seria uma injustiça. Durante muito tempo, busquei o ponto de equilíbrio entre a malandragem e a responsabilidade. Os mais chatos diriam que se trata de equilibrar água com fogo, ou, pra citar outro sambinha, que "o sol não pode viver perto da lua". Mas o que é a vida, além de um equilíbrio entre forças antagônicas ? Equilíbrio idealmente falando, porque o que mais ocorre é um dilema, seguido de exageros para um lado ou outro. E, de fato, se você quiser ser excepcional em algo, terá que optar por ele em detrimento do seu oposto.

Para quem tem ambições mais modestas, a combinação entre os opostos torna-se mais viável. Ainda difícil, porém, já que é bem fácil perder o referencial de equilíbrio, e escorregar além da conta para um dos lados. O conhecimento popular afirma que "tem hora pra tudo", basta saber administrar o tempo adequadamente. Será ? Mesmo as pessoas bastante organizadas, que encontram tempo para muitas atividades diferentes, provavelmente sentem falta da imprevisibilidade da desorganização, das agradáveis surpresas de caminhar ao sabor do vento, algo que uma agenda rígida demais não pode proporcionar.

Talvez o calor da malandragem transforme a água da responsabilidade em vapor. Talvez o vapor só vire chuva quando a vida assim exige, naqueles momentos em que paramos para repensar o caminho que está sendo trilhado. Ou talvez tenhamos um São Pedro dentro de nós, capaz de combinar o calor e a chuva com sabedoria. Talvez ele esteja dormindo, e não acorde com nosso chamado de leitura de manuais de fórmulas de como agir. Talvez não haja fórmula para acordá-lo, e cada um tenha de resolver sozinho esta equação do 7° grau, chegando a diversas soluções. E talvez a solução seja a permanente revisão da equação, aprimorando-a para os vários momentos da vida.

domingo, março 05, 2006

Quinta-feira pós carnaval, aula de literatura portuguesa. A professora tinha pedido para procurar cantigas de amor, de escárnio, de amigo, de mal-dizer... estamos estudando o Trovadorismo. Eu, como bom folião, logicamente nem toquei em livros durante o carnaval. Eis que ela começa a chamar um por um, perguntando sobre a pesquisa:
- E você, Bernardo, o que procurou ?
- Bem professora, devo reconhecer que não procurei nada, porque priorizei o carnaval em detrimento dos compromissos acadêmicos.
(risadas abafadas se espalham pela sala)
- Ah é, né ? Pois então você vai fazer uma cantiga de amor, tendo como tema o carnaval, para próxima aula.
Que maravilha! Fazer a cantiga nem foi problema, a bronca foi ir pra ufpe num sábado, pra ter aula das 7 às 13h, já derrubado pela virose pós carnaval. Mas consegui, heroicamente, honrar meu compromisso.
Eis a cantiga:

Nada além de um devaneio

Tantas ladeiras para fugires do meu olhar
agitado como um frevo, a te buscar na multidão
O calor não incomoda quando noto a tua mão
empunhando o estandarte do bloco que está a tocar
"Você diz que ela é bela, ela é bela sim senhor..."
Tão bela que não faz idéia de como é grande o meu amor
E continua, majestosa, com seus divinos passos a me maltratar

Deus, como queria, a ti na dança me igualar
Fazer o povo parar para acompanhar nosso gingado
Faria tudo para me livrar destas pernas de desengonçado
E contigo arrancar aplausos e assobios da multidão a gritar
Talvez assim olharias pra mim com algum desejo...
E quem sabe, algum dos passos terminaria num beijo
E Olinda ficaria pequena, para tanta alegria abrigar

Sei, no entanto, que isso nunca passará de um devaneio
Me contento em te admirar com o fascínio que teus encantos exigem
Trato a ferida em meu peito com algumas bebidas que dão vertigem
Espero você terminar, e à casa retornar em seu tranquilo passeio
Também eu retorno ao lar, cambaleando pelo álcool e pelo vazio
que tua ausência me traz à alma, soprando-lhe um vento cortante e frio
que suportarei até minha morte, ou até tua morte, o que vier primeiro
Mas disso, ó minha amada, jamais saberás; não te trarei nenhum receio

quarta-feira, março 01, 2006

Laboratório

Se não conseguimos expressar uma idéia com palavras, será que tal idéia de fato existe dentro de nós ? Às vezes ocorre a sensação de que compreendemos algo, mas na hora de transformar este algo em palavras, não conseguimos. Há quem afirme que palavras são a expressão do pensamento; se uma idéia não pode ser comunicada (transformada em palavras), é porque ela não está completa, madura ou clara o suficiente; ainda não existe como deveria.

O que é um sentimento ? Uma variação biológica que produz sensações ? Será que idéias e sentimentos não passam de partículas microscópicas atuando no cérebro, gerando este ou aquele efeito ? Ou existe o tal mundo das idéias, a alma, e as variações biológicas não passam de indícios do que acontece neste mundo inacessível aos sentidos ? Existindo um, ou outro, ou os dois sendo a mesma coisa, que regras regem este laboratório de idéias e sentimentos ? Quantas vezes uma idéia ou sentimento aparece de repente, do nada, como uma paisagem revelada pelo desaparecimento súbito da cortina que a escondia ? E até onde somos capazes de mexer nessas cortinas ?

"A luz negra de um destino cruel / Ilumina o teatro sem cor / onde estou desempenhando o papel / de palhaço do amor". O que foi preciso para que este verso magistral aparecesse na mente de Nelson Cavaquinho ? Um destino generoso, que jogou a cortina longe com um vendaval de inspiração ? Ou será que a cortina foi aberta pouco a pouco, à custa de muitas cervejas e guardanapos de bar ? É um mistério, ninguém sabe onde termina a inspiração e começa a transpiração. Quando desvendarem os mistérios do tal laboratório, se é que um dia o farão, a humanidade ganhará muito em conforto e bem-estar. E perderá a mesma coisa em fascínio e aventura. Haja tecnologia para driblar tanto tédio.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Apreço pelo silêncio

A maioria das pessoas não lida bem com o silêncio. É comum, durante conversas, exigirem da pessoa calada: "fala alguma coisa!" ou "fulano fala tanto que meu ouvido dói". Quando o calado se encontra em silêncio por timidez, isso provoca sorrisos de desconforto, seguidos de uma ou outra frase breve. Às vezes o silêncio é medo de demonstrar ignorância; neste caso, são comuns os "ahams", e os acenos de cabeça indicando concordância. Afinal, um tolo calado oculta mais facilmente sua tolice do que um tolo falante. Como se vê, o silêncio é frequentemente associado à idéias negativas: timidez, tédio, ignorancia, falta de assunto.

O valor de um vaso, copo, ou garrafa está justamente nos seus espaços vazios, que dão utilidade a tais objetos. Na música os silêncios são tão importantes quanto as notas; eles são modeladores decisivos da sonoridade. É o uso dos silêncios que vai diferenciar duas frases musicais com as mesmas notas; desrespeitá-los destrói a beleza de uma melodia.

Atualmente os estímulos são tão variados e tão atraentes que as pessoas não conseguem passar vinte minutos paradas, em silêncio, na companhia da própria mente. Esta vai perdendo sua capacidade de gerar significados e com eles preencher os vazios, devido ao bombardeio de estímulos de significação descartável. As pessoas procuram estar o tempo todo ocupadas, distraídas com o que quer que seja, porque ficar a sós com a própria mente é inquietante, entediante, angustiante.

Osho dizia que a mente é como nuvens, sempre a turvar nossa visão, impedindo-nos de perceber as coisas claramente. A iluminação seria o desenvolvimento da "não-mente", o emergir de uma consciência livre das ilusões que a mente não cansa de fabricar. E o caminho para isso seria a meditação.

Esta iluminação parece algo inatingível para a maioria das pessoas. Talvez de fato seja um privilégio para poucos. Mas parece possível observar a mente, seus medos e desejos, o angustiante vazio que ela se esforça para preencher. E, em vez de tratá-los com paliativos, aprender a conviver com eles. Desenvolver o apreço pelo silêncio, em vez de passar a vida fugindo dele, em vão.

domingo, janeiro 29, 2006

Talento e Disciplina

Ontem, na casa de Tina, Manuel deu uma divertida bronca em Paulo Mineiro. Manuel está conseguindo ganhar grana através da arte. E indigna-se com Mineiro, que é "artista duas ou três vezes na sua frente" (palavras do próprio Manuel), e está parado, sem grana e sem agir para ter uma produção rentável. "Com o talento que você tem, tá vacilando", foi o veredicto de Manuel. E todos que conhecem Mineiro e sua arte estão de acordo.

No documentário "Vinícius", Toquinho relata um encontro do poetinha com João Cabral de Melo Neto. Este o aconselhava a trabalhar com mais seriedade e disciplina na poesia, afirmando que se existisse um poeta com o talento de Vinícius e a disciplina de João Cabral, o Brasil teria um poeta insuperável.

Talento e disciplina muitas vezes não caminham juntos. E a falta de disciplina pode levar o talento à estagnação. Medíocres esforçados normalmente vão mais longe que talentosos preguiçosos, a não ser quando se trata dum Romário da vida, cujo talento não há indisciplina que ofusque. Não ofusca, mas nega oportunidades, por causa dela o baixinho ficou fora da Copa de 2002. Já o disciplinado Belletti, mesmo sem um décimo do futebol de Romário, teve a alegria de ser pentacampeão.

Talento, costuma-se dizer, a gente já nasce com ele. Tudo bem que o ser humano tem uma incrível capacidade para aprender e desenvolver novas habilidades. Mas os talentosos aprendem muito mais rápido e com menos esforço do que os sem talento. Só que essa facilidade traz consigo a armadilha do acomodamento: como o talentoso, com menos empenho, consegue os mesmos resultados da maioria, pode atrofiar o tendão do esforço, que é o principal componente do músculo da disciplina.

Os que driblam a armadilha, estes vão longe. Mas a maioria cai no alçapão, e vai parar na masmorra dos "que poderiam ter sido e não foram". Para sair de lá, só com uma rotina intensiva de exercícios para desatrofiar aquele tendão, pois o músculo precisa estar vigoroso para conseguir derrubar a porta.

Pena que na masmorra encontra-se Dona Preguiça, insinuando-se na cama, com seu mais alto poder de sedução. Difícil levantar para se exercitar, com uma companhia tão paralisante. Como a ocasião pede o clichê, "ninguém disse que seria fácil". Mas disciplina é algo que se pode conquistar. Ao contrário de talento.

PS: Mineiro, mexa o seu traseiro gordo!!!

sábado, janeiro 21, 2006

A soma dos amores que não tive

A soma dos amores que não tive
Quadros pendurados na parede da memória
Clipes editados contando uma outra estória...
Fantasias do desejo que não posso impedir que se fabrique

As paixões da infância, tão despidas de malícia
As paixões da adolescência, tanta coisa não vivida
Seguem comigo adulto, num constante devaneio
Ladrão daqueles instantes em que o sono ainda não veio

Cada rosto num slide de apresentação do Powerpoint
Com legendas de diálogos jamais pronunciados antes
A imaginação preenche o que a realidade deixou em branco
Uma espécie de compensação para minimizar o desencanto

Essa soma, que subtrai meu bem-estar
Adiciona uma esperança numa paixão ainda por chegar
Que transforme os tais quadros em meros rabiscos engraçados...
Sem importância diante do que por tanto tempo foi aguardado

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Partida para continuar

Uma loucura foi contida, convertida em mediocridade
Chateada, ela se foi com o entusiasmo
É bastante procurada pelas saídas da sobriedade
Mas só se encontram paliativos pro marasmo

A vontade enfraqueceu para ajudar a sanidade
Melancolia temperada com sarcasmo
Paranóias controladas, mas persiste uma saudade
De atos mais alegres e ousados

Inevitável imaginar como seria
se tivesse escolhido outro caminho
Lamentável desperdício de energia

A duração do desalento não tardaria
Caso aceitasse as cartas jogadas pelo destino
E parasse de remoer os descartes que hoje não faria

quinta-feira, dezembro 29, 2005

21 anos

21 anos... Esta idade em que o adolecente é subitamente jogado na fase adulta. Já com uma certa distância da eterna brincadeira da infância e bem próximo da doce irresponsabilidade da adolescência. Estou romantizando, reconheço. Recordando com mais cuidado, vejo que a infância e a adolescência tiveram sua cota de angustia, preocupações, frustrações. Acho que o passado, à medida em que fica mais distante, tende a ser enxergado com lentes cor-de-rosa. Os bons momentos parecem irrepetíveis, e os maus momentos bobagens que na epoca não éramos capazes de ver como tais. "Ah, que saudade de quando era menino! Eu era feliz e não sabia"
Ao atingir a idade-embratel, o descaso com o futuro precisa ser trocado pelo compromisso com o amanhã. Claro que esta mudança não se dá automaticamente. Chegar aos 21 não é garantia de preparação para as exigências que se anunciam. E quando o jovem se dá conta de que a partir de agora terá de batalhar pela independência financeira, dá uma saudade danada da época em que a maior preocupação era a prova de química.
Se existisse uma medida para pressão psicólogica, talvez nos surpreendêssemos ao ver que a pressão sentida pelo adulto para arranjar trabalho e pagar suas despesas é a mesma sentida por um garoto de 10 anos ao fazer a prova de sua pior matéria. Esta nos parece bobagem apenas porque já foi superada, e aquela nos amedronta porque não se pode superar um desafio que ainda não veio. Tensão, superação, descontração, nova tensão. A vida segue o ritmo, cabe a nós dançar de acordo.

terça-feira, dezembro 13, 2005

Medo do ridículo

Não digo o que sinto, e sofro com isso
Maltratado pelo "que poderia ter sido e não foi"
Um momento pedindo uma ação que não aconteceu
A cena tatuada na mente
convidando o arrependimento para morar por algum tempo
A energia acumulada, contida e transformada em frustração
As oportunidades desperdiçadas deixam saudades de aventura
Caso retornem, será que as aproveito ?
É preciso perder o medo de parecer bobo
e desfrutar da liberdade que aos bobos se oferece

quinta-feira, novembro 17, 2005

A luz que se perdeu

Queria conseguir desvendar
o mistério de minha mente.
Alguma ferramenta para revelar
as sinapses que não chegam à consciência
mas modelam inúmeros vasos
que despejam devaneios confusos
imagens de um passado recente;
de desejos que não chegaram ao ato
de resgates de um passado acabado
dispersando a atenção do presente.
Uma inquietação que não se torna aparente
e talvez por isso seja tão difícil eliminar.
O afundar dentro de si mesmo
pouco enxergando nas águas turvas
guiando-se por sinais ilusórios
perdendo-se no jogo de espelhos.
Falta vontade, habilidade ou sabedoria
para reencontrar a luz que se perdeu ?