Ontem, na casa de Tina, Manuel deu uma divertida bronca em Paulo Mineiro. Manuel está conseguindo ganhar grana através da arte. E indigna-se com Mineiro, que é "artista duas ou três vezes na sua frente" (palavras do próprio Manuel), e está parado, sem grana e sem agir para ter uma produção rentável. "Com o talento que você tem, tá vacilando", foi o veredicto de Manuel. E todos que conhecem Mineiro e sua arte estão de acordo.
No documentário "Vinícius", Toquinho relata um encontro do poetinha com João Cabral de Melo Neto. Este o aconselhava a trabalhar com mais seriedade e disciplina na poesia, afirmando que se existisse um poeta com o talento de Vinícius e a disciplina de João Cabral, o Brasil teria um poeta insuperável.
Talento e disciplina muitas vezes não caminham juntos. E a falta de disciplina pode levar o talento à estagnação. Medíocres esforçados normalmente vão mais longe que talentosos preguiçosos, a não ser quando se trata dum Romário da vida, cujo talento não há indisciplina que ofusque. Não ofusca, mas nega oportunidades, por causa dela o baixinho ficou fora da Copa de 2002. Já o disciplinado Belletti, mesmo sem um décimo do futebol de Romário, teve a alegria de ser pentacampeão.
Talento, costuma-se dizer, a gente já nasce com ele. Tudo bem que o ser humano tem uma incrível capacidade para aprender e desenvolver novas habilidades. Mas os talentosos aprendem muito mais rápido e com menos esforço do que os sem talento. Só que essa facilidade traz consigo a armadilha do acomodamento: como o talentoso, com menos empenho, consegue os mesmos resultados da maioria, pode atrofiar o tendão do esforço, que é o principal componente do músculo da disciplina.
Os que driblam a armadilha, estes vão longe. Mas a maioria cai no alçapão, e vai parar na masmorra dos "que poderiam ter sido e não foram". Para sair de lá, só com uma rotina intensiva de exercícios para desatrofiar aquele tendão, pois o músculo precisa estar vigoroso para conseguir derrubar a porta.
Pena que na masmorra encontra-se Dona Preguiça, insinuando-se na cama, com seu mais alto poder de sedução. Difícil levantar para se exercitar, com uma companhia tão paralisante. Como a ocasião pede o clichê, "ninguém disse que seria fácil". Mas disciplina é algo que se pode conquistar. Ao contrário de talento.
PS: Mineiro, mexa o seu traseiro gordo!!!
domingo, janeiro 29, 2006
sábado, janeiro 21, 2006
A soma dos amores que não tive
A soma dos amores que não tive
Quadros pendurados na parede da memória
Clipes editados contando uma outra estória...
Fantasias do desejo que não posso impedir que se fabrique
As paixões da infância, tão despidas de malícia
As paixões da adolescência, tanta coisa não vivida
Seguem comigo adulto, num constante devaneio
Ladrão daqueles instantes em que o sono ainda não veio
Cada rosto num slide de apresentação do Powerpoint
Com legendas de diálogos jamais pronunciados antes
A imaginação preenche o que a realidade deixou em branco
Uma espécie de compensação para minimizar o desencanto
Essa soma, que subtrai meu bem-estar
Adiciona uma esperança numa paixão ainda por chegar
Que transforme os tais quadros em meros rabiscos engraçados...
Sem importância diante do que por tanto tempo foi aguardado
Quadros pendurados na parede da memória
Clipes editados contando uma outra estória...
Fantasias do desejo que não posso impedir que se fabrique
As paixões da infância, tão despidas de malícia
As paixões da adolescência, tanta coisa não vivida
Seguem comigo adulto, num constante devaneio
Ladrão daqueles instantes em que o sono ainda não veio
Cada rosto num slide de apresentação do Powerpoint
Com legendas de diálogos jamais pronunciados antes
A imaginação preenche o que a realidade deixou em branco
Uma espécie de compensação para minimizar o desencanto
Essa soma, que subtrai meu bem-estar
Adiciona uma esperança numa paixão ainda por chegar
Que transforme os tais quadros em meros rabiscos engraçados...
Sem importância diante do que por tanto tempo foi aguardado
segunda-feira, janeiro 09, 2006
Partida para continuar
Uma loucura foi contida, convertida em mediocridade
Chateada, ela se foi com o entusiasmo
É bastante procurada pelas saídas da sobriedade
Mas só se encontram paliativos pro marasmo
A vontade enfraqueceu para ajudar a sanidade
Melancolia temperada com sarcasmo
Paranóias controladas, mas persiste uma saudade
De atos mais alegres e ousados
Inevitável imaginar como seria
se tivesse escolhido outro caminho
Lamentável desperdício de energia
A duração do desalento não tardaria
Caso aceitasse as cartas jogadas pelo destino
E parasse de remoer os descartes que hoje não faria
Chateada, ela se foi com o entusiasmo
É bastante procurada pelas saídas da sobriedade
Mas só se encontram paliativos pro marasmo
A vontade enfraqueceu para ajudar a sanidade
Melancolia temperada com sarcasmo
Paranóias controladas, mas persiste uma saudade
De atos mais alegres e ousados
Inevitável imaginar como seria
se tivesse escolhido outro caminho
Lamentável desperdício de energia
A duração do desalento não tardaria
Caso aceitasse as cartas jogadas pelo destino
E parasse de remoer os descartes que hoje não faria
quinta-feira, dezembro 29, 2005
21 anos
21 anos... Esta idade em que o adolecente é subitamente jogado na fase adulta. Já com uma certa distância da eterna brincadeira da infância e bem próximo da doce irresponsabilidade da adolescência. Estou romantizando, reconheço. Recordando com mais cuidado, vejo que a infância e a adolescência tiveram sua cota de angustia, preocupações, frustrações. Acho que o passado, à medida em que fica mais distante, tende a ser enxergado com lentes cor-de-rosa. Os bons momentos parecem irrepetíveis, e os maus momentos bobagens que na epoca não éramos capazes de ver como tais. "Ah, que saudade de quando era menino! Eu era feliz e não sabia"
Ao atingir a idade-embratel, o descaso com o futuro precisa ser trocado pelo compromisso com o amanhã. Claro que esta mudança não se dá automaticamente. Chegar aos 21 não é garantia de preparação para as exigências que se anunciam. E quando o jovem se dá conta de que a partir de agora terá de batalhar pela independência financeira, dá uma saudade danada da época em que a maior preocupação era a prova de química.
Se existisse uma medida para pressão psicólogica, talvez nos surpreendêssemos ao ver que a pressão sentida pelo adulto para arranjar trabalho e pagar suas despesas é a mesma sentida por um garoto de 10 anos ao fazer a prova de sua pior matéria. Esta nos parece bobagem apenas porque já foi superada, e aquela nos amedronta porque não se pode superar um desafio que ainda não veio. Tensão, superação, descontração, nova tensão. A vida segue o ritmo, cabe a nós dançar de acordo.
Ao atingir a idade-embratel, o descaso com o futuro precisa ser trocado pelo compromisso com o amanhã. Claro que esta mudança não se dá automaticamente. Chegar aos 21 não é garantia de preparação para as exigências que se anunciam. E quando o jovem se dá conta de que a partir de agora terá de batalhar pela independência financeira, dá uma saudade danada da época em que a maior preocupação era a prova de química.
Se existisse uma medida para pressão psicólogica, talvez nos surpreendêssemos ao ver que a pressão sentida pelo adulto para arranjar trabalho e pagar suas despesas é a mesma sentida por um garoto de 10 anos ao fazer a prova de sua pior matéria. Esta nos parece bobagem apenas porque já foi superada, e aquela nos amedronta porque não se pode superar um desafio que ainda não veio. Tensão, superação, descontração, nova tensão. A vida segue o ritmo, cabe a nós dançar de acordo.
terça-feira, dezembro 13, 2005
Medo do ridículo
Não digo o que sinto, e sofro com isso
Maltratado pelo "que poderia ter sido e não foi"
Um momento pedindo uma ação que não aconteceu
A cena tatuada na mente
convidando o arrependimento para morar por algum tempo
A energia acumulada, contida e transformada em frustração
As oportunidades desperdiçadas deixam saudades de aventura
Caso retornem, será que as aproveito ?
É preciso perder o medo de parecer bobo
e desfrutar da liberdade que aos bobos se oferece
Maltratado pelo "que poderia ter sido e não foi"
Um momento pedindo uma ação que não aconteceu
A cena tatuada na mente
convidando o arrependimento para morar por algum tempo
A energia acumulada, contida e transformada em frustração
As oportunidades desperdiçadas deixam saudades de aventura
Caso retornem, será que as aproveito ?
É preciso perder o medo de parecer bobo
e desfrutar da liberdade que aos bobos se oferece
quinta-feira, novembro 17, 2005
A luz que se perdeu
Queria conseguir desvendar
o mistério de minha mente.
Alguma ferramenta para revelar
as sinapses que não chegam à consciência
mas modelam inúmeros vasos
que despejam devaneios confusos
imagens de um passado recente;
de desejos que não chegaram ao ato
de resgates de um passado acabado
dispersando a atenção do presente.
Uma inquietação que não se torna aparente
e talvez por isso seja tão difícil eliminar.
O afundar dentro de si mesmo
pouco enxergando nas águas turvas
guiando-se por sinais ilusórios
perdendo-se no jogo de espelhos.
Falta vontade, habilidade ou sabedoria
para reencontrar a luz que se perdeu ?
o mistério de minha mente.
Alguma ferramenta para revelar
as sinapses que não chegam à consciência
mas modelam inúmeros vasos
que despejam devaneios confusos
imagens de um passado recente;
de desejos que não chegaram ao ato
de resgates de um passado acabado
dispersando a atenção do presente.
Uma inquietação que não se torna aparente
e talvez por isso seja tão difícil eliminar.
O afundar dentro de si mesmo
pouco enxergando nas águas turvas
guiando-se por sinais ilusórios
perdendo-se no jogo de espelhos.
Falta vontade, habilidade ou sabedoria
para reencontrar a luz que se perdeu ?
domingo, setembro 11, 2005
Crise de Identidade
O que sou, o que fui, o que serei...
lembranças entristecem comprovando que não evoluí.
O que antes alegrava hoje não passa de um ato mecânico
O brilho do passado lança sombras no presente
Insisto em tentar nadar em águas que a correnteza já levou
O que seria agora se tivesse agido diferente
O futuro cobrará as experiências que evitei.
O longo tempo dedicado a expandir os limites da mente
deixou o que, além de lembranças prazerosas
e ferrugem no raciocínio ?
A eloquência de que sinto falta terá sido mera interpretação ?
Ilusão de adolescente que acreditava poder ser o que quisesse ?
De uns anos para cá muita coisa ficou pelo caminho;
um pedaço de personalidade aqui, outro ali...
Deixando o eu fragmentado, em busca de integração
Crise de identidade, outra vez ? Tô ficando velho pra isso.
lembranças entristecem comprovando que não evoluí.
O que antes alegrava hoje não passa de um ato mecânico
O brilho do passado lança sombras no presente
Insisto em tentar nadar em águas que a correnteza já levou
O que seria agora se tivesse agido diferente
O futuro cobrará as experiências que evitei.
O longo tempo dedicado a expandir os limites da mente
deixou o que, além de lembranças prazerosas
e ferrugem no raciocínio ?
A eloquência de que sinto falta terá sido mera interpretação ?
Ilusão de adolescente que acreditava poder ser o que quisesse ?
De uns anos para cá muita coisa ficou pelo caminho;
um pedaço de personalidade aqui, outro ali...
Deixando o eu fragmentado, em busca de integração
Crise de identidade, outra vez ? Tô ficando velho pra isso.
domingo, junho 12, 2005
Falta de Inspiração
Ah, a falta de inspiração
Sugando as cores dos dias e o brilho de sua passagem
Alargando vazios onde nada floresce e os minutos aceleram
Períodos de que se lembra pouco
Saudades do entusiasmo, recordações antigas
Coloridas pela imprecisão da memória
Enfraquecida por prazeres fugazes
Que não mais entusiasmam
Sentado na poltrona da sala de jantar
Com o tempo sendo gasto pela variedade de canais
Permaneço em torpor
Esperando algo que só acontecerá por minha ação
Trasnpiração necessária para resgatar a inspiração
Que devolverá aos dias o brilho e a cor.
Sugando as cores dos dias e o brilho de sua passagem
Alargando vazios onde nada floresce e os minutos aceleram
Períodos de que se lembra pouco
Saudades do entusiasmo, recordações antigas
Coloridas pela imprecisão da memória
Enfraquecida por prazeres fugazes
Que não mais entusiasmam
Sentado na poltrona da sala de jantar
Com o tempo sendo gasto pela variedade de canais
Permaneço em torpor
Esperando algo que só acontecerá por minha ação
Trasnpiração necessária para resgatar a inspiração
Que devolverá aos dias o brilho e a cor.
quarta-feira, março 30, 2005
Obrigado, Dona Chuva
A chuva cai. Não veio "como gotas em silêncio, tão furioso...". Não. Veio trazendo o gostoso som da Natureza, envolvendo os ruídos da cidade, que mesmo ao dormir (são 4:27), "barulha" alto. Veio num tom baixo, que foi aumentando sem pressa, sem necessidade de afirmação. Talvez tenha atingido seu auge neste exato momento, já que não ouço mais o barulho dos ar-condicionados que minha janela aberta facilita a entrada. Sim, está mais forte agora, dominou completamente os ruídos da cidade. Um trovão se faz ouvir.
Ouvir a chuva, não lembro de ter parado pra fazer isso. Agradável surpresa, a chuva me trouxe Tranquilidade. Talvez por suprimir os ruídos da cidade, por me permitir passar alguns ótimos minutos em silêncio, ouvindo-a. Por baixar o volume dos meus pensamentos. Por me fazer sentir o gosto, mesmo que por breves instantes, de uma serenidade plena, de uma mente vazia. Marteladas do desejo dissipadas.
Obrigado, Dona Chuva. Volte quando puder, de preferência quando eu estiver abrigado.
Ouvir a chuva, não lembro de ter parado pra fazer isso. Agradável surpresa, a chuva me trouxe Tranquilidade. Talvez por suprimir os ruídos da cidade, por me permitir passar alguns ótimos minutos em silêncio, ouvindo-a. Por baixar o volume dos meus pensamentos. Por me fazer sentir o gosto, mesmo que por breves instantes, de uma serenidade plena, de uma mente vazia. Marteladas do desejo dissipadas.
Obrigado, Dona Chuva. Volte quando puder, de preferência quando eu estiver abrigado.
domingo, março 06, 2005
Cultivo do Desapego
Não faz sentido baforar culpa se não parei de fumar
Não faz sentido erguer muros em torno da casa que habitarei por pouco tempo
E tudo é pouco tempo, se a vida é pouco tempo
O risco do assalto não tem o direito de impedir a liberdade, apesar de o fazer
O conforto da segurança pode resultar numa vida amarga
Com os sonhos trancados num cofre o qual se evita passar perto
No máximo projetados no cinema do devaneio
Preocupações com o futuro são necessárias, mas vão muito além do necessário
Tirando a cor do presente que a vida nos oferece
Se eu morrer amanhã não estarei pertinho do céu
Pois o peso do cofre selado continuará me prendendo ao chão
Idealismo ingênuo talvez... talvez a astúcia esteja agora
na fila dos aposentados, lamentando, além da pouca renda,
A perda das chaves do cofre, esquecidas pela sua esperteza
Não faz sentido erguer muros em torno da casa que habitarei por pouco tempo
E tudo é pouco tempo, se a vida é pouco tempo
O risco do assalto não tem o direito de impedir a liberdade, apesar de o fazer
O conforto da segurança pode resultar numa vida amarga
Com os sonhos trancados num cofre o qual se evita passar perto
No máximo projetados no cinema do devaneio
Preocupações com o futuro são necessárias, mas vão muito além do necessário
Tirando a cor do presente que a vida nos oferece
Se eu morrer amanhã não estarei pertinho do céu
Pois o peso do cofre selado continuará me prendendo ao chão
Idealismo ingênuo talvez... talvez a astúcia esteja agora
na fila dos aposentados, lamentando, além da pouca renda,
A perda das chaves do cofre, esquecidas pela sua esperteza
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
Desarmonia com o Tempo
As horas passadas dando a sensação de inutilidade
Os períodos em branco, quando a vida parece se sufocar
Esperar par agir, agir para esperar... tão simples e tão difícil
Quando o que se deve, o que se deseja e o que se pode fazer
Desfilam na mente, dificultando a escolha
Porque escolher implica em excluir, e não sou bom com exclusões
As excluidas no desfile volta e meia me importunam...
As ouço, consolo, prometo atendê-las logo...
Deixando a escolhida enciumada por só estar presente em corpo
Quando inventarem disciplina pra vender, vou gastar a grana que tiver
Como as chances são remotas, resta o esforço do hábito que demora
a dar resultado. E resultados que demoram não estimulam o meu esforço
Talvez eu devesse cultivar bonsais como hobby
Os períodos em branco, quando a vida parece se sufocar
Esperar par agir, agir para esperar... tão simples e tão difícil
Quando o que se deve, o que se deseja e o que se pode fazer
Desfilam na mente, dificultando a escolha
Porque escolher implica em excluir, e não sou bom com exclusões
As excluidas no desfile volta e meia me importunam...
As ouço, consolo, prometo atendê-las logo...
Deixando a escolhida enciumada por só estar presente em corpo
Quando inventarem disciplina pra vender, vou gastar a grana que tiver
Como as chances são remotas, resta o esforço do hábito que demora
a dar resultado. E resultados que demoram não estimulam o meu esforço
Talvez eu devesse cultivar bonsais como hobby
quarta-feira, fevereiro 09, 2005
Devagar na Ponte
O ar entra, com alguma dificuldade
Longe da altitude, mas no alto do cansaço de fim de noite
Aprecio o clarear na ponte. Já faz tempo...
A visão me manda para o passado por instantes
Onde os perigos eram fascinantes, os riscos desafiantes...
Ao andar pela mesma ponte, já de volta ao presente
A rota mais segura me parece a mais atraente
O tempo necessário para as coisas por fazer
Exige disciplina, foco, sobriedade
Não da mais para vagar sem rumo pela cidade
Apreciando tudo aquilo que através de planos não se pode ver
Distraido com tudo isso, quase sou atropelado
Por alguém que não tem tempo para andar mais lentamente
Pressa que cada vez mais me leva para o seguro lado
Deixando a criança em mim frustrada, lembrando a sensação ainda recente
Por isso prossigo devagar na ponte
Criança quer ver sol perto de rio... o mesmo de anos atrás
E criança esperta com raiva é o perigo
Longe da altitude, mas no alto do cansaço de fim de noite
Aprecio o clarear na ponte. Já faz tempo...
A visão me manda para o passado por instantes
Onde os perigos eram fascinantes, os riscos desafiantes...
Ao andar pela mesma ponte, já de volta ao presente
A rota mais segura me parece a mais atraente
O tempo necessário para as coisas por fazer
Exige disciplina, foco, sobriedade
Não da mais para vagar sem rumo pela cidade
Apreciando tudo aquilo que através de planos não se pode ver
Distraido com tudo isso, quase sou atropelado
Por alguém que não tem tempo para andar mais lentamente
Pressa que cada vez mais me leva para o seguro lado
Deixando a criança em mim frustrada, lembrando a sensação ainda recente
Por isso prossigo devagar na ponte
Criança quer ver sol perto de rio... o mesmo de anos atrás
E criança esperta com raiva é o perigo
quarta-feira, dezembro 29, 2004
Tsunamis, Profecias, Acaso e Morte
Ondas de 10 metros arrastando o que estava no caminho. 24 mil mortos, número que deve aumentar. Doenças como a malária estão previstas para as áreas afetadas. Turistas em desespero tentam voltar para casa. Os países que não foram atingidos preocupam-se com a possibilidade.
Este início de século foi marcado por tragédias, mas a natureza ainda não tinha se revoltado com tamanha magnitude. Sinal do apocalipse próximo ? É o que profecias indicam. Paralelos às previsões fatalistas, estão o choro do garotinho cujos pais não se sabe se sobreviveram, a rede de esgotos destruida que testará os sobreviventes com doenças, a mobilização de organizações internacionais para conter as desgraças e reconstruir o que a fúria da água tocou.
A tragédia natural se junta às variadas tragédias provocadas pelo homem para compor um quadro assustador. Será que valerá a pena, para a minha geração, ter filhos ? Colocar uma vida num mundo onde se morre sem culpa, sem velhice, sem motivo ? Talvez isso sempre tenha ocorrido, de diferentes formas, ao longo da História: Fogueira da Inquisição, espada de mercenário, dentes de feras selvagens. Talvez o que assuste é perceber o quanto é frágil a segurança proporcionada pelo progresso da civilização. O quanto o acaso é responsável por nossas vidas e mortes.
Para mal ou bem, o acaso é uma manifestação daquilo que está além de nós, que muitos chamam de Deus. Não compreendemos de que maneira ele atua, que padrões segue, se é que segue algum padrão. Ficamos chocados com suas fatalidades porque todo o nosso esforço por segurança é inútil diante dele. Ninguém previu as Tsunamis, não foi possível. Será possível algum dia ? Talvez algum profeta saiba responder.
Este início de século foi marcado por tragédias, mas a natureza ainda não tinha se revoltado com tamanha magnitude. Sinal do apocalipse próximo ? É o que profecias indicam. Paralelos às previsões fatalistas, estão o choro do garotinho cujos pais não se sabe se sobreviveram, a rede de esgotos destruida que testará os sobreviventes com doenças, a mobilização de organizações internacionais para conter as desgraças e reconstruir o que a fúria da água tocou.
A tragédia natural se junta às variadas tragédias provocadas pelo homem para compor um quadro assustador. Será que valerá a pena, para a minha geração, ter filhos ? Colocar uma vida num mundo onde se morre sem culpa, sem velhice, sem motivo ? Talvez isso sempre tenha ocorrido, de diferentes formas, ao longo da História: Fogueira da Inquisição, espada de mercenário, dentes de feras selvagens. Talvez o que assuste é perceber o quanto é frágil a segurança proporcionada pelo progresso da civilização. O quanto o acaso é responsável por nossas vidas e mortes.
Para mal ou bem, o acaso é uma manifestação daquilo que está além de nós, que muitos chamam de Deus. Não compreendemos de que maneira ele atua, que padrões segue, se é que segue algum padrão. Ficamos chocados com suas fatalidades porque todo o nosso esforço por segurança é inútil diante dele. Ninguém previu as Tsunamis, não foi possível. Será possível algum dia ? Talvez algum profeta saiba responder.
domingo, dezembro 05, 2004
Diversão
Domingão, me recuperando da farra dos dias anteriores, fui ao shopping recife com Paulo Mineirinho. Já virou hábito. Pelo menos uma vez por semana vou ao shopping com ele, fora as vezes que vou sozinho, ou com o pessoal do cursinho. Boa parte dos meus amigos fala: "pô, Bernardo, shopping é um saco..." Será ?
O que eu faço no shopping pode ser resumido em três itens: Tomar café de graça na sodiler, ler um pouco dos livros, olhar as mulheres. A companhia de Paulo é especialmente boa para este último, pois exercitamos a cretinagem criativa tecendo comentários sobre os monumentos ambulantes. Não vou entrar em detalhes em respeito à discrição do elemento mineiro. Posso dizer que é sempre divertido... e gratuito.
Atualmente existem muitas opções de diversão, várias tecnologias sendo desenvolvidas com este objetivo. No entanto, estes atalhos para a diversão muitas vezes não levam à ela. Quando levam não satisfazem, induzem a várias repetições da "atividade divertida"... até o ponto em que se enjoa dela. Então surge uma nova "atividade divertida" mais sofisticada... e o ciclo se repete.
O resultado é que somos cada vez mais exigentes com a diversão. Ficar conversando bobagens com um amigo num local agradável não é divertido, não quando se pode ir pro barzinho da moda, mandar torpedos pras gatinhas com o celular recém lançado. Será que a gurizada ainda joga pião, bolinha de gude, esconde-esconde, polícia e ladrão... ou será que pra eles toda a diversão se resume ao Playstation 2 e seus milhares de jogos ?
Quem não me conhece pode achar que sou um senhor ranzinza, com saudades da infância nos anos 50. Não, eu tenho apenas 20 anos. Não tenho aversão às novas tecnologias, eu as uso bastante. O problema é limitar-se à elas na busca por diversão. Porque será difícil não cair no comprar-usar-enjoar-comprar o novo. Elas são feitas pra isso. Quando demoram a enjoar, são lançadas novas versões, melhoradas, para que o ciclo continue. E a diversão gerada por este ciclo não satisfaz. Se o fizesse, o próprio ciclo morreria.
É bom lembrar que a melhor amiga da diversão é a imaginação. É ela que faz com que a criança pobre passe horas se divertindo com seu carrinho de madeira sem desejar outra coisa, pelo menos até os apelos do consumo a atingirem. É ela que faz com que uma ida ao shopping seja tão divertida, mesmo sem estar com um real no bolso.
O que eu faço no shopping pode ser resumido em três itens: Tomar café de graça na sodiler, ler um pouco dos livros, olhar as mulheres. A companhia de Paulo é especialmente boa para este último, pois exercitamos a cretinagem criativa tecendo comentários sobre os monumentos ambulantes. Não vou entrar em detalhes em respeito à discrição do elemento mineiro. Posso dizer que é sempre divertido... e gratuito.
Atualmente existem muitas opções de diversão, várias tecnologias sendo desenvolvidas com este objetivo. No entanto, estes atalhos para a diversão muitas vezes não levam à ela. Quando levam não satisfazem, induzem a várias repetições da "atividade divertida"... até o ponto em que se enjoa dela. Então surge uma nova "atividade divertida" mais sofisticada... e o ciclo se repete.
O resultado é que somos cada vez mais exigentes com a diversão. Ficar conversando bobagens com um amigo num local agradável não é divertido, não quando se pode ir pro barzinho da moda, mandar torpedos pras gatinhas com o celular recém lançado. Será que a gurizada ainda joga pião, bolinha de gude, esconde-esconde, polícia e ladrão... ou será que pra eles toda a diversão se resume ao Playstation 2 e seus milhares de jogos ?
Quem não me conhece pode achar que sou um senhor ranzinza, com saudades da infância nos anos 50. Não, eu tenho apenas 20 anos. Não tenho aversão às novas tecnologias, eu as uso bastante. O problema é limitar-se à elas na busca por diversão. Porque será difícil não cair no comprar-usar-enjoar-comprar o novo. Elas são feitas pra isso. Quando demoram a enjoar, são lançadas novas versões, melhoradas, para que o ciclo continue. E a diversão gerada por este ciclo não satisfaz. Se o fizesse, o próprio ciclo morreria.
É bom lembrar que a melhor amiga da diversão é a imaginação. É ela que faz com que a criança pobre passe horas se divertindo com seu carrinho de madeira sem desejar outra coisa, pelo menos até os apelos do consumo a atingirem. É ela que faz com que uma ida ao shopping seja tão divertida, mesmo sem estar com um real no bolso.
terça-feira, novembro 30, 2004
Nadando
Há um certo prazer em não revelar o meu interior
Trancando dentro de mim minha suposta sabedoria
E esse deleite se espalha e se edifica em bases líquidas
Já que a própria sensação é fluídica
E flui com intensidade, sem ser compartilhada
Raramente a represa se abre
Já que a água, ao sair, muitas vezes volta suja
Mas será que já não estava impura quando contida ?
Maculada pela vaidade que tento não revelar ?
Seja como for, já me afoguei nesse mar
E suas cores caleidoscópicas anularam o meu fazer
Governado pela apatia, tive que fazer o caminho inverso
Tingindo tudo de preto e branco, para voltar a funcionar
Mas as cores me chamam, seduzindo-me quando tento evitar
E talvez agora eu possa mergulhar sem estilhaçar minha objetividade
Coisas que antes desprezava vêm a tona para me integrar
Seja com o mundo, seja comigo mesmo
Trancando dentro de mim minha suposta sabedoria
E esse deleite se espalha e se edifica em bases líquidas
Já que a própria sensação é fluídica
E flui com intensidade, sem ser compartilhada
Raramente a represa se abre
Já que a água, ao sair, muitas vezes volta suja
Mas será que já não estava impura quando contida ?
Maculada pela vaidade que tento não revelar ?
Seja como for, já me afoguei nesse mar
E suas cores caleidoscópicas anularam o meu fazer
Governado pela apatia, tive que fazer o caminho inverso
Tingindo tudo de preto e branco, para voltar a funcionar
Mas as cores me chamam, seduzindo-me quando tento evitar
E talvez agora eu possa mergulhar sem estilhaçar minha objetividade
Coisas que antes desprezava vêm a tona para me integrar
Seja com o mundo, seja comigo mesmo
segunda-feira, novembro 29, 2004
quarta-feira, novembro 24, 2004
O guia espiritual Raul Seixas
Ouvi Raul pela primeira vez muito novo, por volta dos 9 anos. Meu pai me chamou pra ouvir "Al Capone", no seu apartamento em São Paulo. De volta a Recife, o marido da minha prima me deu uma fita cassete de Raul. Decorei as músicas rapidinho, e como vivia a canta-las, minha madrinha me deu o "Raul Seixas: Uma antologia". Todas as letras, além do resumo da vida e um bocado de luz sobre as várias faces do baiano. Foi meu livro de cabeceira por um tempo.
Costumo dizer que uma das minhas grandes frustrações é saber que nunca irei a um show de Raul. Pagaria caro para vê-lo, mesmo que completamente embriagado, errando todas as letras. E eu não sou o único. Raul continua importante, seja para os que o viram no auge, seja para os que nem eram nascidos quando ele morreu. Uma das razões disso é sua "Metamorfose Ambulante". Tem Raul para românticos, realistas, místicos, rebeldes... Para quem só quer ouvir humor inteligente numa letra fácil ou para quem passa horas descobrindo diversas significações em suas letras.
É, Raul faz pensar. Talvez essa seja a principal razão de sua magia resistir ao tempo. Não é tanto a identificação ou a concordância com as letras, como ocorre com Legião Urbana e Los Hermanos. É o refletir sobre o que ele diz, interpretando da tua maneira, buscando a tua verdade. E Raul sabia como poucos vestir idéias com roupas diferentes. Uma mensagem anarquista numa música infantil exibida na Globo, uma música sobre Deus (ou melhor, Krishna) que muitos pensam ser sobre amor...
"Não sou cantor nem compositor, uso a música para dizer o que penso". Segundo Sylvio Passos e Toninho Buda, autores do livro que citei, a verdadeira vocação de Raul era ser escritor. Pois eu acho que a grande vocação de Raul era ser guia espiritual. Pode parecer estranho falar isso de alguém que morreu prematuramente devido ao abuso de álcool. Mas eu encontrei e encontro não apenas conforto, mas Luz e Caminhos na obra de Raul. "Tente Outra Vez" e "Planos de Papel" me ajudaram muito mais do que análises e livros de auto-ajuda. Por isso eu digo que sua vocação não foi frustrada. Pelo menos não pra mim.
Costumo dizer que uma das minhas grandes frustrações é saber que nunca irei a um show de Raul. Pagaria caro para vê-lo, mesmo que completamente embriagado, errando todas as letras. E eu não sou o único. Raul continua importante, seja para os que o viram no auge, seja para os que nem eram nascidos quando ele morreu. Uma das razões disso é sua "Metamorfose Ambulante". Tem Raul para românticos, realistas, místicos, rebeldes... Para quem só quer ouvir humor inteligente numa letra fácil ou para quem passa horas descobrindo diversas significações em suas letras.
É, Raul faz pensar. Talvez essa seja a principal razão de sua magia resistir ao tempo. Não é tanto a identificação ou a concordância com as letras, como ocorre com Legião Urbana e Los Hermanos. É o refletir sobre o que ele diz, interpretando da tua maneira, buscando a tua verdade. E Raul sabia como poucos vestir idéias com roupas diferentes. Uma mensagem anarquista numa música infantil exibida na Globo, uma música sobre Deus (ou melhor, Krishna) que muitos pensam ser sobre amor...
"Não sou cantor nem compositor, uso a música para dizer o que penso". Segundo Sylvio Passos e Toninho Buda, autores do livro que citei, a verdadeira vocação de Raul era ser escritor. Pois eu acho que a grande vocação de Raul era ser guia espiritual. Pode parecer estranho falar isso de alguém que morreu prematuramente devido ao abuso de álcool. Mas eu encontrei e encontro não apenas conforto, mas Luz e Caminhos na obra de Raul. "Tente Outra Vez" e "Planos de Papel" me ajudaram muito mais do que análises e livros de auto-ajuda. Por isso eu digo que sua vocação não foi frustrada. Pelo menos não pra mim.
segunda-feira, novembro 15, 2004
Planta rara
Na estrada, cabelo ao vento, pedindo carona
Trazendo aos mais velhos lembranças de um tempo de sonhos
Na bolsa alguns motivos para gastar dinheiro com suborno
Que a ajudam a percorrer grandes distâncias, mesmo parada
Também carrega uma barraca para duas pessoas
Prefere acampar na praia, mas sempre viaja pro interior
Seus olhos claros combinam com a roupa que combina com a paisagem
Deixando os homens loucos para combinar algo com ela
Ciente do seu encanto, não se deixa envaidecer
E sua amistosa simplicidade a deixa ainda mais irresistível
No violão toca suas músicas preferidas
E mesmo as mulheres que a invejam adoram ouvi-la cantar
Mesmo conseguindo o que deseja facilmente
Pois ao seu canto de Ossanha nem Vinícius resistiria
Ela permanece loucamente sóbria, não desejando além da conta
Continua na sua busca, que não entende, mas sente
Adubando a vida de todos que encontra no seu caminho
Ela é planta rara, das que o sol tem especial carinho ao iluminar
Atualmente está contente por ter recuperado a liberdade
Perdida por um descuido, ao gastar a grana que precisaria para subornar
Trazendo aos mais velhos lembranças de um tempo de sonhos
Na bolsa alguns motivos para gastar dinheiro com suborno
Que a ajudam a percorrer grandes distâncias, mesmo parada
Também carrega uma barraca para duas pessoas
Prefere acampar na praia, mas sempre viaja pro interior
Seus olhos claros combinam com a roupa que combina com a paisagem
Deixando os homens loucos para combinar algo com ela
Ciente do seu encanto, não se deixa envaidecer
E sua amistosa simplicidade a deixa ainda mais irresistível
No violão toca suas músicas preferidas
E mesmo as mulheres que a invejam adoram ouvi-la cantar
Mesmo conseguindo o que deseja facilmente
Pois ao seu canto de Ossanha nem Vinícius resistiria
Ela permanece loucamente sóbria, não desejando além da conta
Continua na sua busca, que não entende, mas sente
Adubando a vida de todos que encontra no seu caminho
Ela é planta rara, das que o sol tem especial carinho ao iluminar
Atualmente está contente por ter recuperado a liberdade
Perdida por um descuido, ao gastar a grana que precisaria para subornar
quarta-feira, novembro 10, 2004
Arco-íris da solidão
É laranja e não ofusca
É azul e não fascina
É verde e não enaltece
É cinza e não deprime
É vermelho e não agita
É branco e não acalma
É amarelo e não anima
É marrom e não sustenta
Mas é negro e draga tudo
Reinando no arco-íris da solidão.
É azul e não fascina
É verde e não enaltece
É cinza e não deprime
É vermelho e não agita
É branco e não acalma
É amarelo e não anima
É marrom e não sustenta
Mas é negro e draga tudo
Reinando no arco-íris da solidão.
segunda-feira, novembro 08, 2004
Incensos, modas e o que realmente importa
Numa conversa no aniversário de Camila e Tina, o Rafa falou do salto qualitativo que os Los Hermanos deram do primeiro pro segundo disco, de como o terceiro também é lindo... Eu concordei na hora, penso a mesma coisa. Pablo, do alto de sua vasta cultura musical, falou que os barbudos ainda não o convenceram, que a estética e os temas abordados nas letras não o agradam... Iniciou-se uma pequena discussão que foi encerrada na resposta exaladora de sarcasmo de Karla ao meu inocente argumento, que os Los Hermanos fazem muito bem o que se propoem a fazer. "O É o Tcham também", retrucou a jovenzinha.
Jogando xadrez aprendi a reconhecer a derrota, e a não prosseguir com o jogo por puro orgulho de não desistir. Voltei-me para a cerveja, e antigas reflexões sobre moda e bandas incensadas vieram a tona. Lembrei-me de Paulo Moita, em 99, falando que hoje em dia os burguesinhos gostam de Nirvana e Planet Hemp, que ele gostava nas antigas e agora não ouvia mais.
É um fenômeno curioso, presente em qualquer estilo. Um artista, de repente, estoura. Sua música toca a exaustão nas rádios, seu clipe vai para o disk MTV. Muita gente passa a consumir o trabalho da nova celebridade. A imprensa especializada se derrama em elogios. Os antigos fãs do cara se gabam de já o conhecerem há anos, quando ele não era ninguém.
Já o povo mais ligado em música, que já passou incontáveis horas ouvindo grandes artistas e já viu esse fenômeno se repetir várias vezes, costuma reagir de forma inversa. Falam que o que está fazendo sucesso é um lixo, que o êxito se deve ao bom marketing que fizeram pra ele, e se o cara for antigo, que ele era bom nos anos 70. Ocorre também de fãs o renegarem porque ele estourou. "O cara se vendeu", dizem.
Boa parte da população é feliz seguindo modas. São rotulados de alienados, sem personalidade, por aqueles que não seguem. O curioso é que muitas vezes os que não seguem modas são influenciados por elas na mesma proporção, ao enfiarem na cabeça que o que está na moda é ruim, antes mesmo de parar pra escutar a obra. Quando o fazem procuram defeitos para justificar a opinião pré-concebida.
Nesse jogo, a obra se perde. Os que gostam o fazem muito mais pela influência da moda, e o mesmo ocorre com os que não gostam. Com o julgamento turvado por essa elegante senhora, fica difícil entrar na viagem do artista. Que no fim das contas, é o que realmente importa. A elegante senhora, aparentemente imortal, já tem poder demais. Acho que não devemos dar a ela ainda mais, seja aceitando de bom grado a moeda que ela nos joga, seja recusando "inteligentemente". Basta olhar a moeda com clareza, e decidir se ela merece ou não entrar para sua coleção.
Jogando xadrez aprendi a reconhecer a derrota, e a não prosseguir com o jogo por puro orgulho de não desistir. Voltei-me para a cerveja, e antigas reflexões sobre moda e bandas incensadas vieram a tona. Lembrei-me de Paulo Moita, em 99, falando que hoje em dia os burguesinhos gostam de Nirvana e Planet Hemp, que ele gostava nas antigas e agora não ouvia mais.
É um fenômeno curioso, presente em qualquer estilo. Um artista, de repente, estoura. Sua música toca a exaustão nas rádios, seu clipe vai para o disk MTV. Muita gente passa a consumir o trabalho da nova celebridade. A imprensa especializada se derrama em elogios. Os antigos fãs do cara se gabam de já o conhecerem há anos, quando ele não era ninguém.
Já o povo mais ligado em música, que já passou incontáveis horas ouvindo grandes artistas e já viu esse fenômeno se repetir várias vezes, costuma reagir de forma inversa. Falam que o que está fazendo sucesso é um lixo, que o êxito se deve ao bom marketing que fizeram pra ele, e se o cara for antigo, que ele era bom nos anos 70. Ocorre também de fãs o renegarem porque ele estourou. "O cara se vendeu", dizem.
Boa parte da população é feliz seguindo modas. São rotulados de alienados, sem personalidade, por aqueles que não seguem. O curioso é que muitas vezes os que não seguem modas são influenciados por elas na mesma proporção, ao enfiarem na cabeça que o que está na moda é ruim, antes mesmo de parar pra escutar a obra. Quando o fazem procuram defeitos para justificar a opinião pré-concebida.
Nesse jogo, a obra se perde. Os que gostam o fazem muito mais pela influência da moda, e o mesmo ocorre com os que não gostam. Com o julgamento turvado por essa elegante senhora, fica difícil entrar na viagem do artista. Que no fim das contas, é o que realmente importa. A elegante senhora, aparentemente imortal, já tem poder demais. Acho que não devemos dar a ela ainda mais, seja aceitando de bom grado a moeda que ela nos joga, seja recusando "inteligentemente". Basta olhar a moeda com clareza, e decidir se ela merece ou não entrar para sua coleção.
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