"Se eu precisar algum dia, de ir pro batente, não sei o que será... pois vivo na malandragem, e vida melhor, não há!" Este sambinha me vem à mente nos momentos que reservo para ficar à toa, na sinuca ou no dominó, acompanhado de uma loira gelada e dos colegas de ócio relaxante. "Estes momentos são essenciais para a manutenção do equilíbrio psicológico do cidadão", já cansei de dizer isso, para os outros e para minha consciência, quando há tantas tarefas por fazer e estou altamente atarefado fazendo nada. Nada de responsáel, melhor dizendo, chamar de "nada" algo a que dedico tanto tempo prazeroso seria uma injustiça. Durante muito tempo, busquei o ponto de equilíbrio entre a malandragem e a responsabilidade. Os mais chatos diriam que se trata de equilibrar água com fogo, ou, pra citar outro sambinha, que "o sol não pode viver perto da lua". Mas o que é a vida, além de um equilíbrio entre forças antagônicas ? Equilíbrio idealmente falando, porque o que mais ocorre é um dilema, seguido de exageros para um lado ou outro. E, de fato, se você quiser ser excepcional em algo, terá que optar por ele em detrimento do seu oposto.
Para quem tem ambições mais modestas, a combinação entre os opostos torna-se mais viável. Ainda difícil, porém, já que é bem fácil perder o referencial de equilíbrio, e escorregar além da conta para um dos lados. O conhecimento popular afirma que "tem hora pra tudo", basta saber administrar o tempo adequadamente. Será ? Mesmo as pessoas bastante organizadas, que encontram tempo para muitas atividades diferentes, provavelmente sentem falta da imprevisibilidade da desorganização, das agradáveis surpresas de caminhar ao sabor do vento, algo que uma agenda rígida demais não pode proporcionar.
Talvez o calor da malandragem transforme a água da responsabilidade em vapor. Talvez o vapor só vire chuva quando a vida assim exige, naqueles momentos em que paramos para repensar o caminho que está sendo trilhado. Ou talvez tenhamos um São Pedro dentro de nós, capaz de combinar o calor e a chuva com sabedoria. Talvez ele esteja dormindo, e não acorde com nosso chamado de leitura de manuais de fórmulas de como agir. Talvez não haja fórmula para acordá-lo, e cada um tenha de resolver sozinho esta equação do 7° grau, chegando a diversas soluções. E talvez a solução seja a permanente revisão da equação, aprimorando-a para os vários momentos da vida.
domingo, março 19, 2006
domingo, março 05, 2006
Quinta-feira pós carnaval, aula de literatura portuguesa. A professora tinha pedido para procurar cantigas de amor, de escárnio, de amigo, de mal-dizer... estamos estudando o Trovadorismo. Eu, como bom folião, logicamente nem toquei em livros durante o carnaval. Eis que ela começa a chamar um por um, perguntando sobre a pesquisa:
- E você, Bernardo, o que procurou ?
- Bem professora, devo reconhecer que não procurei nada, porque priorizei o carnaval em detrimento dos compromissos acadêmicos.
(risadas abafadas se espalham pela sala)
- Ah é, né ? Pois então você vai fazer uma cantiga de amor, tendo como tema o carnaval, para próxima aula.
Que maravilha! Fazer a cantiga nem foi problema, a bronca foi ir pra ufpe num sábado, pra ter aula das 7 às 13h, já derrubado pela virose pós carnaval. Mas consegui, heroicamente, honrar meu compromisso.
Eis a cantiga:
Nada além de um devaneio
Tantas ladeiras para fugires do meu olhar
agitado como um frevo, a te buscar na multidão
O calor não incomoda quando noto a tua mão
empunhando o estandarte do bloco que está a tocar
"Você diz que ela é bela, ela é bela sim senhor..."
Tão bela que não faz idéia de como é grande o meu amor
E continua, majestosa, com seus divinos passos a me maltratar
Deus, como queria, a ti na dança me igualar
Fazer o povo parar para acompanhar nosso gingado
Faria tudo para me livrar destas pernas de desengonçado
E contigo arrancar aplausos e assobios da multidão a gritar
Talvez assim olharias pra mim com algum desejo...
E quem sabe, algum dos passos terminaria num beijo
E Olinda ficaria pequena, para tanta alegria abrigar
Sei, no entanto, que isso nunca passará de um devaneio
Me contento em te admirar com o fascínio que teus encantos exigem
Trato a ferida em meu peito com algumas bebidas que dão vertigem
Espero você terminar, e à casa retornar em seu tranquilo passeio
Também eu retorno ao lar, cambaleando pelo álcool e pelo vazio
que tua ausência me traz à alma, soprando-lhe um vento cortante e frio
que suportarei até minha morte, ou até tua morte, o que vier primeiro
Mas disso, ó minha amada, jamais saberás; não te trarei nenhum receio
- E você, Bernardo, o que procurou ?
- Bem professora, devo reconhecer que não procurei nada, porque priorizei o carnaval em detrimento dos compromissos acadêmicos.
(risadas abafadas se espalham pela sala)
- Ah é, né ? Pois então você vai fazer uma cantiga de amor, tendo como tema o carnaval, para próxima aula.
Que maravilha! Fazer a cantiga nem foi problema, a bronca foi ir pra ufpe num sábado, pra ter aula das 7 às 13h, já derrubado pela virose pós carnaval. Mas consegui, heroicamente, honrar meu compromisso.
Eis a cantiga:
Nada além de um devaneio
Tantas ladeiras para fugires do meu olhar
agitado como um frevo, a te buscar na multidão
O calor não incomoda quando noto a tua mão
empunhando o estandarte do bloco que está a tocar
"Você diz que ela é bela, ela é bela sim senhor..."
Tão bela que não faz idéia de como é grande o meu amor
E continua, majestosa, com seus divinos passos a me maltratar
Deus, como queria, a ti na dança me igualar
Fazer o povo parar para acompanhar nosso gingado
Faria tudo para me livrar destas pernas de desengonçado
E contigo arrancar aplausos e assobios da multidão a gritar
Talvez assim olharias pra mim com algum desejo...
E quem sabe, algum dos passos terminaria num beijo
E Olinda ficaria pequena, para tanta alegria abrigar
Sei, no entanto, que isso nunca passará de um devaneio
Me contento em te admirar com o fascínio que teus encantos exigem
Trato a ferida em meu peito com algumas bebidas que dão vertigem
Espero você terminar, e à casa retornar em seu tranquilo passeio
Também eu retorno ao lar, cambaleando pelo álcool e pelo vazio
que tua ausência me traz à alma, soprando-lhe um vento cortante e frio
que suportarei até minha morte, ou até tua morte, o que vier primeiro
Mas disso, ó minha amada, jamais saberás; não te trarei nenhum receio
quarta-feira, março 01, 2006
Laboratório
Se não conseguimos expressar uma idéia com palavras, será que tal idéia de fato existe dentro de nós ? Às vezes ocorre a sensação de que compreendemos algo, mas na hora de transformar este algo em palavras, não conseguimos. Há quem afirme que palavras são a expressão do pensamento; se uma idéia não pode ser comunicada (transformada em palavras), é porque ela não está completa, madura ou clara o suficiente; ainda não existe como deveria.
O que é um sentimento ? Uma variação biológica que produz sensações ? Será que idéias e sentimentos não passam de partículas microscópicas atuando no cérebro, gerando este ou aquele efeito ? Ou existe o tal mundo das idéias, a alma, e as variações biológicas não passam de indícios do que acontece neste mundo inacessível aos sentidos ? Existindo um, ou outro, ou os dois sendo a mesma coisa, que regras regem este laboratório de idéias e sentimentos ? Quantas vezes uma idéia ou sentimento aparece de repente, do nada, como uma paisagem revelada pelo desaparecimento súbito da cortina que a escondia ? E até onde somos capazes de mexer nessas cortinas ?
"A luz negra de um destino cruel / Ilumina o teatro sem cor / onde estou desempenhando o papel / de palhaço do amor". O que foi preciso para que este verso magistral aparecesse na mente de Nelson Cavaquinho ? Um destino generoso, que jogou a cortina longe com um vendaval de inspiração ? Ou será que a cortina foi aberta pouco a pouco, à custa de muitas cervejas e guardanapos de bar ? É um mistério, ninguém sabe onde termina a inspiração e começa a transpiração. Quando desvendarem os mistérios do tal laboratório, se é que um dia o farão, a humanidade ganhará muito em conforto e bem-estar. E perderá a mesma coisa em fascínio e aventura. Haja tecnologia para driblar tanto tédio.
O que é um sentimento ? Uma variação biológica que produz sensações ? Será que idéias e sentimentos não passam de partículas microscópicas atuando no cérebro, gerando este ou aquele efeito ? Ou existe o tal mundo das idéias, a alma, e as variações biológicas não passam de indícios do que acontece neste mundo inacessível aos sentidos ? Existindo um, ou outro, ou os dois sendo a mesma coisa, que regras regem este laboratório de idéias e sentimentos ? Quantas vezes uma idéia ou sentimento aparece de repente, do nada, como uma paisagem revelada pelo desaparecimento súbito da cortina que a escondia ? E até onde somos capazes de mexer nessas cortinas ?
"A luz negra de um destino cruel / Ilumina o teatro sem cor / onde estou desempenhando o papel / de palhaço do amor". O que foi preciso para que este verso magistral aparecesse na mente de Nelson Cavaquinho ? Um destino generoso, que jogou a cortina longe com um vendaval de inspiração ? Ou será que a cortina foi aberta pouco a pouco, à custa de muitas cervejas e guardanapos de bar ? É um mistério, ninguém sabe onde termina a inspiração e começa a transpiração. Quando desvendarem os mistérios do tal laboratório, se é que um dia o farão, a humanidade ganhará muito em conforto e bem-estar. E perderá a mesma coisa em fascínio e aventura. Haja tecnologia para driblar tanto tédio.
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
Apreço pelo silêncio
A maioria das pessoas não lida bem com o silêncio. É comum, durante conversas, exigirem da pessoa calada: "fala alguma coisa!" ou "fulano fala tanto que meu ouvido dói". Quando o calado se encontra em silêncio por timidez, isso provoca sorrisos de desconforto, seguidos de uma ou outra frase breve. Às vezes o silêncio é medo de demonstrar ignorância; neste caso, são comuns os "ahams", e os acenos de cabeça indicando concordância. Afinal, um tolo calado oculta mais facilmente sua tolice do que um tolo falante. Como se vê, o silêncio é frequentemente associado à idéias negativas: timidez, tédio, ignorancia, falta de assunto.
O valor de um vaso, copo, ou garrafa está justamente nos seus espaços vazios, que dão utilidade a tais objetos. Na música os silêncios são tão importantes quanto as notas; eles são modeladores decisivos da sonoridade. É o uso dos silêncios que vai diferenciar duas frases musicais com as mesmas notas; desrespeitá-los destrói a beleza de uma melodia.
Atualmente os estímulos são tão variados e tão atraentes que as pessoas não conseguem passar vinte minutos paradas, em silêncio, na companhia da própria mente. Esta vai perdendo sua capacidade de gerar significados e com eles preencher os vazios, devido ao bombardeio de estímulos de significação descartável. As pessoas procuram estar o tempo todo ocupadas, distraídas com o que quer que seja, porque ficar a sós com a própria mente é inquietante, entediante, angustiante.
Osho dizia que a mente é como nuvens, sempre a turvar nossa visão, impedindo-nos de perceber as coisas claramente. A iluminação seria o desenvolvimento da "não-mente", o emergir de uma consciência livre das ilusões que a mente não cansa de fabricar. E o caminho para isso seria a meditação.
Esta iluminação parece algo inatingível para a maioria das pessoas. Talvez de fato seja um privilégio para poucos. Mas parece possível observar a mente, seus medos e desejos, o angustiante vazio que ela se esforça para preencher. E, em vez de tratá-los com paliativos, aprender a conviver com eles. Desenvolver o apreço pelo silêncio, em vez de passar a vida fugindo dele, em vão.
O valor de um vaso, copo, ou garrafa está justamente nos seus espaços vazios, que dão utilidade a tais objetos. Na música os silêncios são tão importantes quanto as notas; eles são modeladores decisivos da sonoridade. É o uso dos silêncios que vai diferenciar duas frases musicais com as mesmas notas; desrespeitá-los destrói a beleza de uma melodia.
Atualmente os estímulos são tão variados e tão atraentes que as pessoas não conseguem passar vinte minutos paradas, em silêncio, na companhia da própria mente. Esta vai perdendo sua capacidade de gerar significados e com eles preencher os vazios, devido ao bombardeio de estímulos de significação descartável. As pessoas procuram estar o tempo todo ocupadas, distraídas com o que quer que seja, porque ficar a sós com a própria mente é inquietante, entediante, angustiante.
Osho dizia que a mente é como nuvens, sempre a turvar nossa visão, impedindo-nos de perceber as coisas claramente. A iluminação seria o desenvolvimento da "não-mente", o emergir de uma consciência livre das ilusões que a mente não cansa de fabricar. E o caminho para isso seria a meditação.
Esta iluminação parece algo inatingível para a maioria das pessoas. Talvez de fato seja um privilégio para poucos. Mas parece possível observar a mente, seus medos e desejos, o angustiante vazio que ela se esforça para preencher. E, em vez de tratá-los com paliativos, aprender a conviver com eles. Desenvolver o apreço pelo silêncio, em vez de passar a vida fugindo dele, em vão.
domingo, janeiro 29, 2006
Talento e Disciplina
Ontem, na casa de Tina, Manuel deu uma divertida bronca em Paulo Mineiro. Manuel está conseguindo ganhar grana através da arte. E indigna-se com Mineiro, que é "artista duas ou três vezes na sua frente" (palavras do próprio Manuel), e está parado, sem grana e sem agir para ter uma produção rentável. "Com o talento que você tem, tá vacilando", foi o veredicto de Manuel. E todos que conhecem Mineiro e sua arte estão de acordo.
No documentário "Vinícius", Toquinho relata um encontro do poetinha com João Cabral de Melo Neto. Este o aconselhava a trabalhar com mais seriedade e disciplina na poesia, afirmando que se existisse um poeta com o talento de Vinícius e a disciplina de João Cabral, o Brasil teria um poeta insuperável.
Talento e disciplina muitas vezes não caminham juntos. E a falta de disciplina pode levar o talento à estagnação. Medíocres esforçados normalmente vão mais longe que talentosos preguiçosos, a não ser quando se trata dum Romário da vida, cujo talento não há indisciplina que ofusque. Não ofusca, mas nega oportunidades, por causa dela o baixinho ficou fora da Copa de 2002. Já o disciplinado Belletti, mesmo sem um décimo do futebol de Romário, teve a alegria de ser pentacampeão.
Talento, costuma-se dizer, a gente já nasce com ele. Tudo bem que o ser humano tem uma incrível capacidade para aprender e desenvolver novas habilidades. Mas os talentosos aprendem muito mais rápido e com menos esforço do que os sem talento. Só que essa facilidade traz consigo a armadilha do acomodamento: como o talentoso, com menos empenho, consegue os mesmos resultados da maioria, pode atrofiar o tendão do esforço, que é o principal componente do músculo da disciplina.
Os que driblam a armadilha, estes vão longe. Mas a maioria cai no alçapão, e vai parar na masmorra dos "que poderiam ter sido e não foram". Para sair de lá, só com uma rotina intensiva de exercícios para desatrofiar aquele tendão, pois o músculo precisa estar vigoroso para conseguir derrubar a porta.
Pena que na masmorra encontra-se Dona Preguiça, insinuando-se na cama, com seu mais alto poder de sedução. Difícil levantar para se exercitar, com uma companhia tão paralisante. Como a ocasião pede o clichê, "ninguém disse que seria fácil". Mas disciplina é algo que se pode conquistar. Ao contrário de talento.
PS: Mineiro, mexa o seu traseiro gordo!!!
No documentário "Vinícius", Toquinho relata um encontro do poetinha com João Cabral de Melo Neto. Este o aconselhava a trabalhar com mais seriedade e disciplina na poesia, afirmando que se existisse um poeta com o talento de Vinícius e a disciplina de João Cabral, o Brasil teria um poeta insuperável.
Talento e disciplina muitas vezes não caminham juntos. E a falta de disciplina pode levar o talento à estagnação. Medíocres esforçados normalmente vão mais longe que talentosos preguiçosos, a não ser quando se trata dum Romário da vida, cujo talento não há indisciplina que ofusque. Não ofusca, mas nega oportunidades, por causa dela o baixinho ficou fora da Copa de 2002. Já o disciplinado Belletti, mesmo sem um décimo do futebol de Romário, teve a alegria de ser pentacampeão.
Talento, costuma-se dizer, a gente já nasce com ele. Tudo bem que o ser humano tem uma incrível capacidade para aprender e desenvolver novas habilidades. Mas os talentosos aprendem muito mais rápido e com menos esforço do que os sem talento. Só que essa facilidade traz consigo a armadilha do acomodamento: como o talentoso, com menos empenho, consegue os mesmos resultados da maioria, pode atrofiar o tendão do esforço, que é o principal componente do músculo da disciplina.
Os que driblam a armadilha, estes vão longe. Mas a maioria cai no alçapão, e vai parar na masmorra dos "que poderiam ter sido e não foram". Para sair de lá, só com uma rotina intensiva de exercícios para desatrofiar aquele tendão, pois o músculo precisa estar vigoroso para conseguir derrubar a porta.
Pena que na masmorra encontra-se Dona Preguiça, insinuando-se na cama, com seu mais alto poder de sedução. Difícil levantar para se exercitar, com uma companhia tão paralisante. Como a ocasião pede o clichê, "ninguém disse que seria fácil". Mas disciplina é algo que se pode conquistar. Ao contrário de talento.
PS: Mineiro, mexa o seu traseiro gordo!!!
sábado, janeiro 21, 2006
A soma dos amores que não tive
A soma dos amores que não tive
Quadros pendurados na parede da memória
Clipes editados contando uma outra estória...
Fantasias do desejo que não posso impedir que se fabrique
As paixões da infância, tão despidas de malícia
As paixões da adolescência, tanta coisa não vivida
Seguem comigo adulto, num constante devaneio
Ladrão daqueles instantes em que o sono ainda não veio
Cada rosto num slide de apresentação do Powerpoint
Com legendas de diálogos jamais pronunciados antes
A imaginação preenche o que a realidade deixou em branco
Uma espécie de compensação para minimizar o desencanto
Essa soma, que subtrai meu bem-estar
Adiciona uma esperança numa paixão ainda por chegar
Que transforme os tais quadros em meros rabiscos engraçados...
Sem importância diante do que por tanto tempo foi aguardado
Quadros pendurados na parede da memória
Clipes editados contando uma outra estória...
Fantasias do desejo que não posso impedir que se fabrique
As paixões da infância, tão despidas de malícia
As paixões da adolescência, tanta coisa não vivida
Seguem comigo adulto, num constante devaneio
Ladrão daqueles instantes em que o sono ainda não veio
Cada rosto num slide de apresentação do Powerpoint
Com legendas de diálogos jamais pronunciados antes
A imaginação preenche o que a realidade deixou em branco
Uma espécie de compensação para minimizar o desencanto
Essa soma, que subtrai meu bem-estar
Adiciona uma esperança numa paixão ainda por chegar
Que transforme os tais quadros em meros rabiscos engraçados...
Sem importância diante do que por tanto tempo foi aguardado
segunda-feira, janeiro 09, 2006
Partida para continuar
Uma loucura foi contida, convertida em mediocridade
Chateada, ela se foi com o entusiasmo
É bastante procurada pelas saídas da sobriedade
Mas só se encontram paliativos pro marasmo
A vontade enfraqueceu para ajudar a sanidade
Melancolia temperada com sarcasmo
Paranóias controladas, mas persiste uma saudade
De atos mais alegres e ousados
Inevitável imaginar como seria
se tivesse escolhido outro caminho
Lamentável desperdício de energia
A duração do desalento não tardaria
Caso aceitasse as cartas jogadas pelo destino
E parasse de remoer os descartes que hoje não faria
Chateada, ela se foi com o entusiasmo
É bastante procurada pelas saídas da sobriedade
Mas só se encontram paliativos pro marasmo
A vontade enfraqueceu para ajudar a sanidade
Melancolia temperada com sarcasmo
Paranóias controladas, mas persiste uma saudade
De atos mais alegres e ousados
Inevitável imaginar como seria
se tivesse escolhido outro caminho
Lamentável desperdício de energia
A duração do desalento não tardaria
Caso aceitasse as cartas jogadas pelo destino
E parasse de remoer os descartes que hoje não faria
quinta-feira, dezembro 29, 2005
21 anos
21 anos... Esta idade em que o adolecente é subitamente jogado na fase adulta. Já com uma certa distância da eterna brincadeira da infância e bem próximo da doce irresponsabilidade da adolescência. Estou romantizando, reconheço. Recordando com mais cuidado, vejo que a infância e a adolescência tiveram sua cota de angustia, preocupações, frustrações. Acho que o passado, à medida em que fica mais distante, tende a ser enxergado com lentes cor-de-rosa. Os bons momentos parecem irrepetíveis, e os maus momentos bobagens que na epoca não éramos capazes de ver como tais. "Ah, que saudade de quando era menino! Eu era feliz e não sabia"
Ao atingir a idade-embratel, o descaso com o futuro precisa ser trocado pelo compromisso com o amanhã. Claro que esta mudança não se dá automaticamente. Chegar aos 21 não é garantia de preparação para as exigências que se anunciam. E quando o jovem se dá conta de que a partir de agora terá de batalhar pela independência financeira, dá uma saudade danada da época em que a maior preocupação era a prova de química.
Se existisse uma medida para pressão psicólogica, talvez nos surpreendêssemos ao ver que a pressão sentida pelo adulto para arranjar trabalho e pagar suas despesas é a mesma sentida por um garoto de 10 anos ao fazer a prova de sua pior matéria. Esta nos parece bobagem apenas porque já foi superada, e aquela nos amedronta porque não se pode superar um desafio que ainda não veio. Tensão, superação, descontração, nova tensão. A vida segue o ritmo, cabe a nós dançar de acordo.
Ao atingir a idade-embratel, o descaso com o futuro precisa ser trocado pelo compromisso com o amanhã. Claro que esta mudança não se dá automaticamente. Chegar aos 21 não é garantia de preparação para as exigências que se anunciam. E quando o jovem se dá conta de que a partir de agora terá de batalhar pela independência financeira, dá uma saudade danada da época em que a maior preocupação era a prova de química.
Se existisse uma medida para pressão psicólogica, talvez nos surpreendêssemos ao ver que a pressão sentida pelo adulto para arranjar trabalho e pagar suas despesas é a mesma sentida por um garoto de 10 anos ao fazer a prova de sua pior matéria. Esta nos parece bobagem apenas porque já foi superada, e aquela nos amedronta porque não se pode superar um desafio que ainda não veio. Tensão, superação, descontração, nova tensão. A vida segue o ritmo, cabe a nós dançar de acordo.
terça-feira, dezembro 13, 2005
Medo do ridículo
Não digo o que sinto, e sofro com isso
Maltratado pelo "que poderia ter sido e não foi"
Um momento pedindo uma ação que não aconteceu
A cena tatuada na mente
convidando o arrependimento para morar por algum tempo
A energia acumulada, contida e transformada em frustração
As oportunidades desperdiçadas deixam saudades de aventura
Caso retornem, será que as aproveito ?
É preciso perder o medo de parecer bobo
e desfrutar da liberdade que aos bobos se oferece
Maltratado pelo "que poderia ter sido e não foi"
Um momento pedindo uma ação que não aconteceu
A cena tatuada na mente
convidando o arrependimento para morar por algum tempo
A energia acumulada, contida e transformada em frustração
As oportunidades desperdiçadas deixam saudades de aventura
Caso retornem, será que as aproveito ?
É preciso perder o medo de parecer bobo
e desfrutar da liberdade que aos bobos se oferece
quinta-feira, novembro 17, 2005
A luz que se perdeu
Queria conseguir desvendar
o mistério de minha mente.
Alguma ferramenta para revelar
as sinapses que não chegam à consciência
mas modelam inúmeros vasos
que despejam devaneios confusos
imagens de um passado recente;
de desejos que não chegaram ao ato
de resgates de um passado acabado
dispersando a atenção do presente.
Uma inquietação que não se torna aparente
e talvez por isso seja tão difícil eliminar.
O afundar dentro de si mesmo
pouco enxergando nas águas turvas
guiando-se por sinais ilusórios
perdendo-se no jogo de espelhos.
Falta vontade, habilidade ou sabedoria
para reencontrar a luz que se perdeu ?
o mistério de minha mente.
Alguma ferramenta para revelar
as sinapses que não chegam à consciência
mas modelam inúmeros vasos
que despejam devaneios confusos
imagens de um passado recente;
de desejos que não chegaram ao ato
de resgates de um passado acabado
dispersando a atenção do presente.
Uma inquietação que não se torna aparente
e talvez por isso seja tão difícil eliminar.
O afundar dentro de si mesmo
pouco enxergando nas águas turvas
guiando-se por sinais ilusórios
perdendo-se no jogo de espelhos.
Falta vontade, habilidade ou sabedoria
para reencontrar a luz que se perdeu ?
domingo, setembro 11, 2005
Crise de Identidade
O que sou, o que fui, o que serei...
lembranças entristecem comprovando que não evoluí.
O que antes alegrava hoje não passa de um ato mecânico
O brilho do passado lança sombras no presente
Insisto em tentar nadar em águas que a correnteza já levou
O que seria agora se tivesse agido diferente
O futuro cobrará as experiências que evitei.
O longo tempo dedicado a expandir os limites da mente
deixou o que, além de lembranças prazerosas
e ferrugem no raciocínio ?
A eloquência de que sinto falta terá sido mera interpretação ?
Ilusão de adolescente que acreditava poder ser o que quisesse ?
De uns anos para cá muita coisa ficou pelo caminho;
um pedaço de personalidade aqui, outro ali...
Deixando o eu fragmentado, em busca de integração
Crise de identidade, outra vez ? Tô ficando velho pra isso.
lembranças entristecem comprovando que não evoluí.
O que antes alegrava hoje não passa de um ato mecânico
O brilho do passado lança sombras no presente
Insisto em tentar nadar em águas que a correnteza já levou
O que seria agora se tivesse agido diferente
O futuro cobrará as experiências que evitei.
O longo tempo dedicado a expandir os limites da mente
deixou o que, além de lembranças prazerosas
e ferrugem no raciocínio ?
A eloquência de que sinto falta terá sido mera interpretação ?
Ilusão de adolescente que acreditava poder ser o que quisesse ?
De uns anos para cá muita coisa ficou pelo caminho;
um pedaço de personalidade aqui, outro ali...
Deixando o eu fragmentado, em busca de integração
Crise de identidade, outra vez ? Tô ficando velho pra isso.
domingo, junho 12, 2005
Falta de Inspiração
Ah, a falta de inspiração
Sugando as cores dos dias e o brilho de sua passagem
Alargando vazios onde nada floresce e os minutos aceleram
Períodos de que se lembra pouco
Saudades do entusiasmo, recordações antigas
Coloridas pela imprecisão da memória
Enfraquecida por prazeres fugazes
Que não mais entusiasmam
Sentado na poltrona da sala de jantar
Com o tempo sendo gasto pela variedade de canais
Permaneço em torpor
Esperando algo que só acontecerá por minha ação
Trasnpiração necessária para resgatar a inspiração
Que devolverá aos dias o brilho e a cor.
Sugando as cores dos dias e o brilho de sua passagem
Alargando vazios onde nada floresce e os minutos aceleram
Períodos de que se lembra pouco
Saudades do entusiasmo, recordações antigas
Coloridas pela imprecisão da memória
Enfraquecida por prazeres fugazes
Que não mais entusiasmam
Sentado na poltrona da sala de jantar
Com o tempo sendo gasto pela variedade de canais
Permaneço em torpor
Esperando algo que só acontecerá por minha ação
Trasnpiração necessária para resgatar a inspiração
Que devolverá aos dias o brilho e a cor.
quarta-feira, março 30, 2005
Obrigado, Dona Chuva
A chuva cai. Não veio "como gotas em silêncio, tão furioso...". Não. Veio trazendo o gostoso som da Natureza, envolvendo os ruídos da cidade, que mesmo ao dormir (são 4:27), "barulha" alto. Veio num tom baixo, que foi aumentando sem pressa, sem necessidade de afirmação. Talvez tenha atingido seu auge neste exato momento, já que não ouço mais o barulho dos ar-condicionados que minha janela aberta facilita a entrada. Sim, está mais forte agora, dominou completamente os ruídos da cidade. Um trovão se faz ouvir.
Ouvir a chuva, não lembro de ter parado pra fazer isso. Agradável surpresa, a chuva me trouxe Tranquilidade. Talvez por suprimir os ruídos da cidade, por me permitir passar alguns ótimos minutos em silêncio, ouvindo-a. Por baixar o volume dos meus pensamentos. Por me fazer sentir o gosto, mesmo que por breves instantes, de uma serenidade plena, de uma mente vazia. Marteladas do desejo dissipadas.
Obrigado, Dona Chuva. Volte quando puder, de preferência quando eu estiver abrigado.
Ouvir a chuva, não lembro de ter parado pra fazer isso. Agradável surpresa, a chuva me trouxe Tranquilidade. Talvez por suprimir os ruídos da cidade, por me permitir passar alguns ótimos minutos em silêncio, ouvindo-a. Por baixar o volume dos meus pensamentos. Por me fazer sentir o gosto, mesmo que por breves instantes, de uma serenidade plena, de uma mente vazia. Marteladas do desejo dissipadas.
Obrigado, Dona Chuva. Volte quando puder, de preferência quando eu estiver abrigado.
domingo, março 06, 2005
Cultivo do Desapego
Não faz sentido baforar culpa se não parei de fumar
Não faz sentido erguer muros em torno da casa que habitarei por pouco tempo
E tudo é pouco tempo, se a vida é pouco tempo
O risco do assalto não tem o direito de impedir a liberdade, apesar de o fazer
O conforto da segurança pode resultar numa vida amarga
Com os sonhos trancados num cofre o qual se evita passar perto
No máximo projetados no cinema do devaneio
Preocupações com o futuro são necessárias, mas vão muito além do necessário
Tirando a cor do presente que a vida nos oferece
Se eu morrer amanhã não estarei pertinho do céu
Pois o peso do cofre selado continuará me prendendo ao chão
Idealismo ingênuo talvez... talvez a astúcia esteja agora
na fila dos aposentados, lamentando, além da pouca renda,
A perda das chaves do cofre, esquecidas pela sua esperteza
Não faz sentido erguer muros em torno da casa que habitarei por pouco tempo
E tudo é pouco tempo, se a vida é pouco tempo
O risco do assalto não tem o direito de impedir a liberdade, apesar de o fazer
O conforto da segurança pode resultar numa vida amarga
Com os sonhos trancados num cofre o qual se evita passar perto
No máximo projetados no cinema do devaneio
Preocupações com o futuro são necessárias, mas vão muito além do necessário
Tirando a cor do presente que a vida nos oferece
Se eu morrer amanhã não estarei pertinho do céu
Pois o peso do cofre selado continuará me prendendo ao chão
Idealismo ingênuo talvez... talvez a astúcia esteja agora
na fila dos aposentados, lamentando, além da pouca renda,
A perda das chaves do cofre, esquecidas pela sua esperteza
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
Desarmonia com o Tempo
As horas passadas dando a sensação de inutilidade
Os períodos em branco, quando a vida parece se sufocar
Esperar par agir, agir para esperar... tão simples e tão difícil
Quando o que se deve, o que se deseja e o que se pode fazer
Desfilam na mente, dificultando a escolha
Porque escolher implica em excluir, e não sou bom com exclusões
As excluidas no desfile volta e meia me importunam...
As ouço, consolo, prometo atendê-las logo...
Deixando a escolhida enciumada por só estar presente em corpo
Quando inventarem disciplina pra vender, vou gastar a grana que tiver
Como as chances são remotas, resta o esforço do hábito que demora
a dar resultado. E resultados que demoram não estimulam o meu esforço
Talvez eu devesse cultivar bonsais como hobby
Os períodos em branco, quando a vida parece se sufocar
Esperar par agir, agir para esperar... tão simples e tão difícil
Quando o que se deve, o que se deseja e o que se pode fazer
Desfilam na mente, dificultando a escolha
Porque escolher implica em excluir, e não sou bom com exclusões
As excluidas no desfile volta e meia me importunam...
As ouço, consolo, prometo atendê-las logo...
Deixando a escolhida enciumada por só estar presente em corpo
Quando inventarem disciplina pra vender, vou gastar a grana que tiver
Como as chances são remotas, resta o esforço do hábito que demora
a dar resultado. E resultados que demoram não estimulam o meu esforço
Talvez eu devesse cultivar bonsais como hobby
quarta-feira, fevereiro 09, 2005
Devagar na Ponte
O ar entra, com alguma dificuldade
Longe da altitude, mas no alto do cansaço de fim de noite
Aprecio o clarear na ponte. Já faz tempo...
A visão me manda para o passado por instantes
Onde os perigos eram fascinantes, os riscos desafiantes...
Ao andar pela mesma ponte, já de volta ao presente
A rota mais segura me parece a mais atraente
O tempo necessário para as coisas por fazer
Exige disciplina, foco, sobriedade
Não da mais para vagar sem rumo pela cidade
Apreciando tudo aquilo que através de planos não se pode ver
Distraido com tudo isso, quase sou atropelado
Por alguém que não tem tempo para andar mais lentamente
Pressa que cada vez mais me leva para o seguro lado
Deixando a criança em mim frustrada, lembrando a sensação ainda recente
Por isso prossigo devagar na ponte
Criança quer ver sol perto de rio... o mesmo de anos atrás
E criança esperta com raiva é o perigo
Longe da altitude, mas no alto do cansaço de fim de noite
Aprecio o clarear na ponte. Já faz tempo...
A visão me manda para o passado por instantes
Onde os perigos eram fascinantes, os riscos desafiantes...
Ao andar pela mesma ponte, já de volta ao presente
A rota mais segura me parece a mais atraente
O tempo necessário para as coisas por fazer
Exige disciplina, foco, sobriedade
Não da mais para vagar sem rumo pela cidade
Apreciando tudo aquilo que através de planos não se pode ver
Distraido com tudo isso, quase sou atropelado
Por alguém que não tem tempo para andar mais lentamente
Pressa que cada vez mais me leva para o seguro lado
Deixando a criança em mim frustrada, lembrando a sensação ainda recente
Por isso prossigo devagar na ponte
Criança quer ver sol perto de rio... o mesmo de anos atrás
E criança esperta com raiva é o perigo
quarta-feira, dezembro 29, 2004
Tsunamis, Profecias, Acaso e Morte
Ondas de 10 metros arrastando o que estava no caminho. 24 mil mortos, número que deve aumentar. Doenças como a malária estão previstas para as áreas afetadas. Turistas em desespero tentam voltar para casa. Os países que não foram atingidos preocupam-se com a possibilidade.
Este início de século foi marcado por tragédias, mas a natureza ainda não tinha se revoltado com tamanha magnitude. Sinal do apocalipse próximo ? É o que profecias indicam. Paralelos às previsões fatalistas, estão o choro do garotinho cujos pais não se sabe se sobreviveram, a rede de esgotos destruida que testará os sobreviventes com doenças, a mobilização de organizações internacionais para conter as desgraças e reconstruir o que a fúria da água tocou.
A tragédia natural se junta às variadas tragédias provocadas pelo homem para compor um quadro assustador. Será que valerá a pena, para a minha geração, ter filhos ? Colocar uma vida num mundo onde se morre sem culpa, sem velhice, sem motivo ? Talvez isso sempre tenha ocorrido, de diferentes formas, ao longo da História: Fogueira da Inquisição, espada de mercenário, dentes de feras selvagens. Talvez o que assuste é perceber o quanto é frágil a segurança proporcionada pelo progresso da civilização. O quanto o acaso é responsável por nossas vidas e mortes.
Para mal ou bem, o acaso é uma manifestação daquilo que está além de nós, que muitos chamam de Deus. Não compreendemos de que maneira ele atua, que padrões segue, se é que segue algum padrão. Ficamos chocados com suas fatalidades porque todo o nosso esforço por segurança é inútil diante dele. Ninguém previu as Tsunamis, não foi possível. Será possível algum dia ? Talvez algum profeta saiba responder.
Este início de século foi marcado por tragédias, mas a natureza ainda não tinha se revoltado com tamanha magnitude. Sinal do apocalipse próximo ? É o que profecias indicam. Paralelos às previsões fatalistas, estão o choro do garotinho cujos pais não se sabe se sobreviveram, a rede de esgotos destruida que testará os sobreviventes com doenças, a mobilização de organizações internacionais para conter as desgraças e reconstruir o que a fúria da água tocou.
A tragédia natural se junta às variadas tragédias provocadas pelo homem para compor um quadro assustador. Será que valerá a pena, para a minha geração, ter filhos ? Colocar uma vida num mundo onde se morre sem culpa, sem velhice, sem motivo ? Talvez isso sempre tenha ocorrido, de diferentes formas, ao longo da História: Fogueira da Inquisição, espada de mercenário, dentes de feras selvagens. Talvez o que assuste é perceber o quanto é frágil a segurança proporcionada pelo progresso da civilização. O quanto o acaso é responsável por nossas vidas e mortes.
Para mal ou bem, o acaso é uma manifestação daquilo que está além de nós, que muitos chamam de Deus. Não compreendemos de que maneira ele atua, que padrões segue, se é que segue algum padrão. Ficamos chocados com suas fatalidades porque todo o nosso esforço por segurança é inútil diante dele. Ninguém previu as Tsunamis, não foi possível. Será possível algum dia ? Talvez algum profeta saiba responder.
domingo, dezembro 05, 2004
Diversão
Domingão, me recuperando da farra dos dias anteriores, fui ao shopping recife com Paulo Mineirinho. Já virou hábito. Pelo menos uma vez por semana vou ao shopping com ele, fora as vezes que vou sozinho, ou com o pessoal do cursinho. Boa parte dos meus amigos fala: "pô, Bernardo, shopping é um saco..." Será ?
O que eu faço no shopping pode ser resumido em três itens: Tomar café de graça na sodiler, ler um pouco dos livros, olhar as mulheres. A companhia de Paulo é especialmente boa para este último, pois exercitamos a cretinagem criativa tecendo comentários sobre os monumentos ambulantes. Não vou entrar em detalhes em respeito à discrição do elemento mineiro. Posso dizer que é sempre divertido... e gratuito.
Atualmente existem muitas opções de diversão, várias tecnologias sendo desenvolvidas com este objetivo. No entanto, estes atalhos para a diversão muitas vezes não levam à ela. Quando levam não satisfazem, induzem a várias repetições da "atividade divertida"... até o ponto em que se enjoa dela. Então surge uma nova "atividade divertida" mais sofisticada... e o ciclo se repete.
O resultado é que somos cada vez mais exigentes com a diversão. Ficar conversando bobagens com um amigo num local agradável não é divertido, não quando se pode ir pro barzinho da moda, mandar torpedos pras gatinhas com o celular recém lançado. Será que a gurizada ainda joga pião, bolinha de gude, esconde-esconde, polícia e ladrão... ou será que pra eles toda a diversão se resume ao Playstation 2 e seus milhares de jogos ?
Quem não me conhece pode achar que sou um senhor ranzinza, com saudades da infância nos anos 50. Não, eu tenho apenas 20 anos. Não tenho aversão às novas tecnologias, eu as uso bastante. O problema é limitar-se à elas na busca por diversão. Porque será difícil não cair no comprar-usar-enjoar-comprar o novo. Elas são feitas pra isso. Quando demoram a enjoar, são lançadas novas versões, melhoradas, para que o ciclo continue. E a diversão gerada por este ciclo não satisfaz. Se o fizesse, o próprio ciclo morreria.
É bom lembrar que a melhor amiga da diversão é a imaginação. É ela que faz com que a criança pobre passe horas se divertindo com seu carrinho de madeira sem desejar outra coisa, pelo menos até os apelos do consumo a atingirem. É ela que faz com que uma ida ao shopping seja tão divertida, mesmo sem estar com um real no bolso.
O que eu faço no shopping pode ser resumido em três itens: Tomar café de graça na sodiler, ler um pouco dos livros, olhar as mulheres. A companhia de Paulo é especialmente boa para este último, pois exercitamos a cretinagem criativa tecendo comentários sobre os monumentos ambulantes. Não vou entrar em detalhes em respeito à discrição do elemento mineiro. Posso dizer que é sempre divertido... e gratuito.
Atualmente existem muitas opções de diversão, várias tecnologias sendo desenvolvidas com este objetivo. No entanto, estes atalhos para a diversão muitas vezes não levam à ela. Quando levam não satisfazem, induzem a várias repetições da "atividade divertida"... até o ponto em que se enjoa dela. Então surge uma nova "atividade divertida" mais sofisticada... e o ciclo se repete.
O resultado é que somos cada vez mais exigentes com a diversão. Ficar conversando bobagens com um amigo num local agradável não é divertido, não quando se pode ir pro barzinho da moda, mandar torpedos pras gatinhas com o celular recém lançado. Será que a gurizada ainda joga pião, bolinha de gude, esconde-esconde, polícia e ladrão... ou será que pra eles toda a diversão se resume ao Playstation 2 e seus milhares de jogos ?
Quem não me conhece pode achar que sou um senhor ranzinza, com saudades da infância nos anos 50. Não, eu tenho apenas 20 anos. Não tenho aversão às novas tecnologias, eu as uso bastante. O problema é limitar-se à elas na busca por diversão. Porque será difícil não cair no comprar-usar-enjoar-comprar o novo. Elas são feitas pra isso. Quando demoram a enjoar, são lançadas novas versões, melhoradas, para que o ciclo continue. E a diversão gerada por este ciclo não satisfaz. Se o fizesse, o próprio ciclo morreria.
É bom lembrar que a melhor amiga da diversão é a imaginação. É ela que faz com que a criança pobre passe horas se divertindo com seu carrinho de madeira sem desejar outra coisa, pelo menos até os apelos do consumo a atingirem. É ela que faz com que uma ida ao shopping seja tão divertida, mesmo sem estar com um real no bolso.
terça-feira, novembro 30, 2004
Nadando
Há um certo prazer em não revelar o meu interior
Trancando dentro de mim minha suposta sabedoria
E esse deleite se espalha e se edifica em bases líquidas
Já que a própria sensação é fluídica
E flui com intensidade, sem ser compartilhada
Raramente a represa se abre
Já que a água, ao sair, muitas vezes volta suja
Mas será que já não estava impura quando contida ?
Maculada pela vaidade que tento não revelar ?
Seja como for, já me afoguei nesse mar
E suas cores caleidoscópicas anularam o meu fazer
Governado pela apatia, tive que fazer o caminho inverso
Tingindo tudo de preto e branco, para voltar a funcionar
Mas as cores me chamam, seduzindo-me quando tento evitar
E talvez agora eu possa mergulhar sem estilhaçar minha objetividade
Coisas que antes desprezava vêm a tona para me integrar
Seja com o mundo, seja comigo mesmo
Trancando dentro de mim minha suposta sabedoria
E esse deleite se espalha e se edifica em bases líquidas
Já que a própria sensação é fluídica
E flui com intensidade, sem ser compartilhada
Raramente a represa se abre
Já que a água, ao sair, muitas vezes volta suja
Mas será que já não estava impura quando contida ?
Maculada pela vaidade que tento não revelar ?
Seja como for, já me afoguei nesse mar
E suas cores caleidoscópicas anularam o meu fazer
Governado pela apatia, tive que fazer o caminho inverso
Tingindo tudo de preto e branco, para voltar a funcionar
Mas as cores me chamam, seduzindo-me quando tento evitar
E talvez agora eu possa mergulhar sem estilhaçar minha objetividade
Coisas que antes desprezava vêm a tona para me integrar
Seja com o mundo, seja comigo mesmo
segunda-feira, novembro 29, 2004
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