sexta-feira, agosto 24, 2007

Leis que pegam

Nao se pode mais fumar nos bares britanicos. Desde o dia primeiro de Julho que a fumaca esta proibida em ambientes fechados e publicos. Alguns bares tem uma area externa que permite a compulsiva combinacao alcool/nicotina. Mas na maioria o fumante tem que sair do recinto para dar suas tragadas, e nao pode faze-lo portando sua birita.

Todos os fumantes com quem conversei acham a lei absurda, ridicula, "onde ja se viu, beber sem poder fumar?". Mas a indignacao nao leva a transgressao: eles reclamam, mas cumprem a norma direitinho. Nao sei qual e a punicao para quem infringir a norma, mas sei que ninguem acendendo um cigarro dentro do bar ficara impune.

Lembro de uma estoria contada pelo meu pai, da epoca que tentaram proibir o cigarro nos bares e restaurantes de Sao Paulo. Papai acendeu o cigarro na area proibida, para indignacao do alemao que estava ao seu lado, ciente da norma que tinha acabado de entrar em vigor. "Mas e lei!", vociferava o alemao, enquanto papai tentava explicar que, no Brasil, tem lei que "pega" e tem lei que "nao pega", algo incompreensivel para a disciplinada mente oriunda do velho continente. O fato e que a lei nao pegou, os fumantes se divertiam enquanto soltavam a fumaca na cara da proibicao.

Na europa as leis funcionam porque o povo e disciplinado. Ou sera que o povo e disciplinado porque as leis funcionam? Me parece uma questao como a do ovo ou a galinha, o que veio primeiro?

Em tese e otimo viver num lugar onde as leis sao cumpridas, mas a obedienca cega as normas as vezes carece de bom senso. Uma nova medida internacional de seguranca proibe o embarque com liquidos acima de 100 ml, entao eu quase perdi minha solucao de lente de contato, e sorte minha que estava de oculos, nao poderia tirar a lente para dormir durante o voo de 8 horas durante a noite. Na cabeca deles eu posso ser um terrorista com material para fabricar uma bomba caseira.

Paranoia, eu digo, e eles respondem que paranoias como essa poderiam ter evitado a tragedia do 11 de Setembro. Entre evitar o desconforto de poucos e garantir a seguranca de muitos, as leis devem zelar pela segunda opcao, e se isso permite distorcoes, o mesmo acontece com as reivindicacoes do bom senso. A disciplina faz pelo coletivo o que o "jeitinho" faz pelo indivudual, e o coletivo deve vir em primeiro lugar, voce nao acha?

terça-feira, agosto 21, 2007

Potenciais Incertos

Uma pergunta que volta e meia me perturba: estou fazendo o meu melhor? Quando nao atingimos o resultado esperado, conforta pensar que teriamos conseguido caso tivessemos nos esforcado mais. Agrada mais ao ego ter um grande talento latente do que uma mediocridade plenamente desenvolvida. Sou capaz, so nao me esforco o suficiente. Ou nao me esforco o suficiente por medo de me descobrir incapaz?

Nao sabemos ate onde podemos chegar atraves do esforco porque nao sabemos o quanto podemos nos esforcar. Nada e tao bom que nao possa melhorar, nao ha uma linha de chegada para a distancia a percorrer, a nao ser o que acreditamos ser bom o bastante. E para diferenciar uma satisfacao merecida de uma acomodacao preguicosa e preciso ter uma ideia clara do que esta dentro e fora do nosso alcance.

O filme "Em busca da felicidade", com Will Smith, ilustra bem o ponto. Narra a transformacao de um vendedor fracassado em um bem sucedido executivo. Passa a ideia de que tudo e possivel, se voce da duro o suficiente. Para "chegar la", o cara mal dorme, nao tem um minuto de lazer, e come todas as refeicoes lendo o livro da empresa. Um esforco altamente irrealista, embora eu acredite que existam pessoas assim, o filme e baseado numa estoria real.

Ha quem diga que o quanto podemos nos esforcar e uma caracteristica geneticamente pre-determinada, o que pode ser tanto a gloria quanto o desespero dos que acreditam nao estar suando o suficiente. E a vaidade pode criar tanto a vontade quanto o medo de descobrir o quao melhor voce pode se tornar. Mas o pior de nao tentar nao e nao chegar la, e ter que conviver com as angustiantes duvidas do "e se?". Afinal, nada pior do que o ouro, prestes a ser alcancado, ser negado por que alem do arco iris nao se ousou.


Posts Relacionados: Malandragem e Responsabilidade - Talento e Disciplina

quinta-feira, agosto 16, 2007

Fotolog parte 2

Atendendo a pedidos, a fase fotolog segue firme e forte. Afinal de contas, palavras nao conseguem traduzir um tanto do que quero compartilhar com voces. Se as coisas seguirem nesse rumo, podem aguardar um post em miguxes num futuro proximo.


Essa e a placa que informa em quanto tempo os onibus vao chegar. Nao e fantastico?


Eis aqui a bela orla de Brighton. Descendo a rampa voce encontra varios bares e boates, ligeiramente mais sofisticados que os quiosques e barracas de Boa Viagem. Mas caldinho que e bom, eles nao tem! :D



No fundo o pier de Brithon, um dos pontos turisticos da cidade, onde ha bares, fliperamas e montanhas russas. O passaro devia ter ficado exatamente no centro, vou me esforcar mais da proxima vez.



Num pub perto do mar, com a espanholada toda. Tem gente demais para identificar todo mundo, o que e uma otima desculpa para meu esquecimento de alguns nomes. Mas posso identificar a cerveja na mesa, se nao me falha a memoria, era uma Stella Artois. Ou era uma Carlings? Agora nao estou 100% certo...

sábado, agosto 11, 2007

Doses abatidas

O que se pode fazer com duas doses de tristeza?
Mistura-las com cerveja afogando as magoas com os amigos?
Impossivel no momento. Outra ideia para a batida?
Filtra-las com lembrancas muito menos abatidas?
Com musicas propicias para conversa introspectiva?
Parece bom, considerando a falta de opcoes,
lembrando o quanto ja preparei drinks semelhantes,
sabendo que a bebida desaparece no outro dia...
Afinal, sao so duas doses.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Fotologueando

Durante todo esse tempo eu resisti a tentacao de fotologuear meu blog, afastando com isso as visitas de pessoas que nao se sentem atraidas por quilos de textos sem imagens. Bem, chegou a hora de ceder, lembrando a definicao de "abstemio" de Ambrose Bierce: Uma pessoa fraca que cai na tentacao de negar a si propria um prazer. Seguem algumas fotos das minhas andancas aqui em Brighton.




Da esquerda para direita: Lidia, espanhola; Alex, espanhol; Johana, Romena mas vivendo na Espanha; Maria Rose, Espanhola; Eu, Brasileiro; Rossi, Espanhol. Uma otima tarde na praia, excluindo o fato do povo falar em espanhol muito rapido, me impedindo de entender as conversas boa parte do tempo.



No Babylon Lounge, boate a beira mar: Eu, Maria Rose, Alex, Gemma (espanhola tb), Lidia e Rossi. Ah, essa noite podia ter terminado diferente... :P

terça-feira, julho 31, 2007

Curiosidades britanicas

O transito na Inglaterra parece ter sido criado para aumentar as chances de atropelamento de estrangeiros. Aqui os carros "sobem" pelo lado esquerdo e "descem" pelo lado direito. Nao foram poucas as vezes que vi incautos atravessarem a rua olhando para o lado errado, apenas para ouvir a buzina irritada do carro vindo no no sentido contrario. Ah, e aquela estoria de "colocou o pe na rua os carros param" e lenda, pelo menos aqui em Brighton: serve apenas para disparar as buzinas irritadas.

Mas o transito silencioso e verdade mesmo: os britanicos, ao contrario dos brasileiros, sao pouco propensos a praticar percussao nas buzinas de seus carros. Elas servem apenas para previnir acidentes com pedestres incautos ou motoristas barbeiros. O contagio percussivo dos engarrafamentos brasileiros inexiste por aqui, os ingleses esperam a fila andar em silencio.

Um outro detalhe que me impressionou e que quase todas as paradas de onibus tem uma placa eletronica informando em quanto tempo cada onibus vai chegar. Nada de esperar por seculos e comecar a se perguntar se todos os onibus da linha quebraram: aqui eles chegam rapido e te dizem em quantos minutos. Algumas vezes a placa erra, mas na maior parte das vezes ela acerta, o que ja e espantoso o bastante.

Eu sempre ouvi dizer que os britanicos sao um povo muito pragmatico. Um excelente exemplo disso sao os banheiros dos bares e boates: neles ha uma maquininha onde se compram camisinhas, viagras e remedios para ressaca e dor de cabeca. Voce coloca as moedinhas e garante a seguranca das suas colocacoes libidinosas. Faz muito sentido, afinal as chances de encontrar coleguinhas para brincar sao muito maiores nos bares e boates do que nas farmacias. Espertinhos, esses ingleses.

terça-feira, julho 17, 2007

Celulares perdidos

Durante os preparativos para a viagem, resolvi nao ouvir o conselho do meu pai sobre comprar um despertador. Para que, se meu celular cumpre essa funcao? Embora ele nao funcione como um telefone por aqui, ainda assim e util como despertador, calculadora, agenda, minigame... Comprar um despertador e nao levar o celular simplesmente nao fazia sentido.

O que eu nao podia imaginar e que o meu celular e muito velho para a avancada tecnologia britanica. Fui em duas lojas, e eles disseram que eu nao encontraria baterias para ele, "because it's too old". Eu me senti o dono de um artefato pre-historico. Devido ao alto indice de roubo de celulares em Recife, eu fazia questao de ter o modelo mais barato, e tapava os ouvidos para o canto da sereia dos equipamentos mais modernos.

Como eu queria o celular essencialmente para funcionar como despertador, resolvi recusar a oferta de um modernoso por 30 libras, para comprar um modesto despertador de 3 libras. Antes da compra, no onibus voltando para casa, embaixo dos jornais jogados no banco, eis que encontro um celular perdido que, se nao era a ultima novidade no mercado, certamente era bem mais avancado que o meu.

Passeando com os botoes pela tela colorida, eu assistia o anjinho e o diabinho discutindo sobre o que fazer com o achado. Nao havia ninguem perto, nada que me impedisse de colocar o celular no bolso. Mas nao o fiz, o anjinho ganhou a briga logo no comeco, e eu nao sei explicar direito o porque. Pensei no dono feliz ao recuperar sua perda, senti que minha consciencia pesaria caso ficasse com o equipamento. Alem disso, eu tinha a certeza que ao entregar o celular para o motorista, eles dariam um jeito de entrega-lo ao dono. Nao sei se agiria da mesma forma caso estivesse no Brasil. Sei que boa parte dos meus amigos devem achar que fui otario, que deveria ter ficado com o eletronico. Essa e a opiniao do meu brother britanico. E voce, o que acha?

sábado, julho 14, 2007

Spray contra timidez

Cientistas inventaram um spray para combater a timidez. Ele imita um hormonio do bem estar (Oxytocin, em ingles) que dewixa as pessoas calmas. O hormonio e produzido naturalmente quando estamos apaixonados, a versao sintetica foi desenvolvida apos quase 10 anos de pesquisa na Universidade de Zurique. O invento foi testado em 70 pessoas. Elas deixaram de se sentir ansiosas e tiveram grande melhora no desempenho em dificeis situacoes sociais. O produto sera testado em escalas maiores, e se confirmado seu funcionamento, podera estar a venda nos proximos cinco anos.

Ou seja, em nao muito tempo, na hora de falar com aquela pessoa, algumas borrifadas no nariz vao eliminar o nervosismo que retira da boca as frases certeiras. Falar em publico deixara de ser um drama. Os bloqueios da timidez serao removidos pelo avanco da ciencia.

Suponhamos que o produto cumpra o que promete com perfeicao, sem nenhum efeito colateral. Um aumento na autoconfiana acessivel a qualquer hora. Frio na barriga? Spray na venta! Me vem logo na cabeca os versos de Raul Seixas: "E onde e que esta a vida? Onde esta a experiencia? Ja te entregam tudo pronto, sempre em nome da ciencia, sempre em troca da vivencia..."

Claro que o invento sera maravilhoso para os que sofrem de fobia social cronica, que ja tentaram e nao conseguiram superar suas limtacoes atraves do proprio esforco. Mas uma infinidade de gente vai deixar de tentar se superar, porque a superacao vira em spray. Pessoas que poderiam aprender a lidar e se livrar dos seus bloqueios, e ter com isso uma experiencia formidavel. Mas quem liga para experiencias? O que interessa sao resultados, embora o que torne a vida fantastica nao seja seu resultado (a morte), mas os caminhos que percorremos... Avancos como esse spray percorrem boa parte do caminho por nos.

terça-feira, julho 10, 2007

O cara chamado O Rafa

O cara se foi. Rafael Virgínio Torres, mais conhecido como O Rafa, morreu nas vésperas da minha viagem à Inglaterra e do seu aniversário de 25 anos. Foi o segundo amigo muito próximo que desencarnou prematuramente. O primeiro, Felipe Braga, sofria de leucemia e sua saída deste mundo era anunciada pelo próprio, que tinha plena consciência disso. O Rafa também tinha uma doença rara. Mas ninguém imaginava que ela pudesse tirar sua vida tão cedo, o ataque cardíaco fulminante pegou todo mundo de surpresa.

Durante minha festa de despedida, ele sentiu dores e achou que era gastrite. Não era, era o coração mandando o alerta, e esse conhecimento tardio traz uma dor extra para os que estavam presentes, que poderiam tê-lo levado para o hospital a tempo se soubessem, e para os que saberiam o que fazer caso estivessem presentes, mas só tomaram conhecimento do caso quando o tempo dele já havia se esgotado.

Lembro-me do início do meu tempo compartilhado com ele, quando eu era um nerd iniciante querendo saber mais sobre RPG, e ele um nerd mais experiente na arte de viver aventuras em mundos imaginários. Ambos passamos pela libertação da nerdice atraves do rock e seu tão conhecido pacote. O Rafa já desenvolvia seu enorme talento musical em bandas folclóricas, como Trissomia e El Matador. Era o cara que ia para rodas de choro com a camisa do Ramones (na verdade, ele usava essa camisa para quase tudo que fazia). Até hoje sei tocar um trecho de Jacob do Bandolim que ele me ensinou, entre cigarros e pedestres da Av. Inácio Monteiro.

Com a Mombojó, O Rafa ficou famoso. Eu o chamava de cenoso, e morria de inveja do sucesso que ele fazia com as gatinhas culturais do Burburinho/Capitão Lima. Ele dizia que eu era uma promessa da cenosidade, e deveria voltar aos holofotes. Eu já não o via com tanta frequência, o tempo do cara estava tomado pelos seus diversos trabalhos musicais. Há tempos vinha tentando marcar uma sinuca com ele. Poderíamos ter jogado na minha despedida, mas não jogamos, acabou não acontecendo.

O que ainda aconteceria na vida do cara é uma enorme interrogação, que traz consigo um doloroso vazio. Mas a grandeza da interrogação é por conta da exclamação, muito maior, que foi sua vida, tocada com a sensibilidade de seu ouvido absoluto. O choro aqui foi grande, mas lá onde ele está, ao lado daqueles bambas todos, a melodia deve estar emocionando até o tempo que o levou.

domingo, junho 24, 2007

Presunçoso preguiçoso

Eu às vezes penso que quanto mais obras se conhece
Mais se chega à sensação de que tudo já foi feito
Às vezes desmentida por um criativo que esquece
De se amarrar por aquilo que já se transformou em êxito

Todos os destaques da área que apetece
Lançam sobre quem cria dois distintos efeitos
Vontade de se firmar ao lado do tal mestre
Ou desânimo de ver fora do alcance tal respeito

Por mais que um atleta se esforce
O ouro exige mais que dedicação
Muitos darão o melhor de si e não conseguirão

Por isso o presunçoso preguiçoso nem se move
"Para quê batalhar por uma inatingível posição?"
E deixa de saber onde o levaria a vocação.

sábado, junho 23, 2007

3 sons chapantes

Tem uma música do Black Alien que vem fazendo minha cabeça inúmeras vezes nos últimos dias. Chama-se “From Hell do Céu”. Ouça e repare na riqueza das rimas do cara, que já fisga a atenção nos primeiros versos: “Me parece agora que eles perderam o controle/Nessa corrida de ratos sei muito bem quem tá na pole/Se agride ou agrada/O seu lugar no gride de largada, não muda nada...”.

Do rap ao samba, do Rio à Bahia, outro som tem batido recordes de execução nos meus auto-falantes. “Oxossi”, de Roque Ferreira, me chapa não pela letra, cheia de referências ao candomblé que desconheço, mas pelo ritmo, pela reverência do cara ao cantar, como se comandasse um ritual religioso – acho que, na verdade, é isso que ele está fazendo mesmo. Catarse garantida.

Por último, uma música de Paulinho da Viola, gravada por Marisa Monte: “Para ver as meninas”. Uma amiga defende que Marisa Monte é irritante, por deixar as músicas todas perfeitinhas. Bom, nessa música a excelência técnica dela, junto à singeleza da letra, passam um feeling assombroso.

domingo, junho 17, 2007

Espinha Ereta

Nada como uma boa postura. “É tudo uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”, diz o samba “Coração Tranqüilo”, do compositor Walter Franco. Ele está certíssimo. Uma coluna saudável responde mais pela felicidade do que qualquer bem de consumo ou estado alterado de consciência. Pergunte a quem sofre de dor nas costas.

Quando pequeno, minha mãe sempre alertava: “Bernardo, olha a postura!”. Ela sabia do que estava falando. Descuidou da coluna ao longo da vida, e hoje sofre as dolorosas conseqüências. Eu, que sempre tive um “Do Contra” abobalhado dentro de mim, não dava bola e continuava envergado. E hoje, aos 22, já sofro um pouco pelo hábito nocivo.

Boa postura devia ser ensinada nas escolas. Passamos boa parte do tempo sentados vendo aulas, e uma coluna ereta exige atenção e disciplina, porque a tendência é deixar a gravidade agir e os ombros caírem, plantando a semente do sofrimento futuro. Não adianta só estimular os esportes, se boa parte do tempo será gasto sentado, diante do caderno ou da mesa de trabalho.

Todos os lugares em que as pessoas passam muito tempo sentadas deveriam ter uma faixa com a letra de “Coração Tranqüilo” escrita em letras garrafais, com “espinha ereta” em negrito. E todos os pais deveriam alertar seus filhos feito minha mãe, cabendo aos rebentos não serem trouxas como eu e seguirem o conselho.

segunda-feira, junho 11, 2007

Orgasmos Intelectuais

Venho observando que as artes não têm mexido muito comigo ultimamente. Artes visuais nunca me despertaram grandes coisas. Mas a música e a literatura, que já me provocaram aquelas viagens em que você sente o seu mundo interno se expandindo e transbordando de uma espécie de êxtase, bem definido por um antigo professor como "orgasmo intelectual", mesmo elas não têm me trazido sensações incomuns. Me pergunto se houve queda na qualidade das obras que aprecio, e vejo que, na verdade, é minha sensibilidade perdendo seu poder de encantamento.

Não sei explicar. Talvez uma defesa contra fortes sentimentos negativos tenha prejudicado a percepção dos positivos. Afinal, o canal é o mesmo: se há uma barragem para conter as águas sujas, vai bloquear as águas limpas que também passam por ali.

Sei que a atual falta de encantamento gera uma nostalgia que já está ultrapassando os limites do tolerável. O retrovisor dourado, que deixa o atual percurso sem graça. Ou a não-graça do percurso que me faz dourar o retrovisor. De todo modo, é preciso diminuir o peso das memórias. Senão fica difícil alcançar os orgasmos intelectuais.

sexta-feira, junho 01, 2007

Dentro da Bolha

A gente vai vivendo dentro da bolha, e quando se dá conta, já deixou de percebê-la... Fazendo os mesmos trajetos, porque a violência não recomenda certos caminhos, a violência é parceira da bolha, elas dividem os lucros no fim do mês. E esse mundo, vasto mundo, vai se tornando pequeno, como aquelas paredes dos desenhos animados, que vão diminuindo o espaço até que o herói escape por uma passagem secreta, evitando por segundos o esmagamento.

A bolha, o mundo pequeno... Neste momento, 22h46min, eu gostaria de caminhar pelas proximidades da minha casa, prestando atenção nos caminhos, em busca da passagem secreta. Mas em qualquer esquina pode haver uma armadilha mortal, ou pelo menos essa é a idéia corrente, e o medo, principal componente da bolha, me leva a não conferir o risco.

Falando assim, pareço um pirralho de condomínio rico, desconhecedor do mundo fora das cercas eletrificadas. Nada, eu já fui maloqueiro, andava pelas madrugadas de ônibus, e nem faz tanto tempo assim. A violência aumentou um bocado de lá pra cá, eu mudei de bairro, a bolha cresceu, ou melhor, a bolha diminuiu o meu mundo.

Tem hora que dá uma vontade danada de dizer: “que nada! Dane-se a violência, aqui quem comanda é a gente!”, como na época em que eu andava pelas madrugadas de ônibus, protegido pela inocência de me achar maloqueiro, ou pela violência ainda não tão grande. Era uma proteção bem melhor que a da bolha.

O que se pode fazer para sair da bolha? Correr risco ao andar pelas madrugadas de um bairro violento da capital mais violenta do Brasil? Só se for de carro, que meu escudo-de-inocência-maloqueira já se quebrou. Fazer trabalho social nas comunidades próximas à minha casa, ganhando o respeito da bandidagem e passe-livre pelas redondezas, além de contribuir um pouquinho para minimizar a violência? É uma boa opção, embora o tal respeito possa não passar de viagem minha. Mas a bolha, além de reduzir o mundo, e talvez exatamente por isso, também deixa apático. Descontente com a situação, mas sem energia para combatê-la. Até porque meus atos quase nada mudariam, e a estória de fazer a minha parte, embora bonita, é insuficiente para me tirar da inércia.

“Então morra na bolha, preguiçoso maldito!” – é o que escuto, de longe, do jovem inconformado que ainda não teve seu idealismo destroçado pelo mundo. Não faz tanto tempo que sua voz era próxima, quase saindo da minha própria boca, quando andava de ônibus pelas madrugadas da cidade. Pena que foi ficando distante, não por coincidência, à medida que fui me deixando aprisionar pela parceira da violência, com quem divide os lucros no fim do mês.

quarta-feira, maio 23, 2007

Idéias Próprias

Lembro-me de uma versão para videogame do desenho Beavis and Butthead. Quando você ficava muito tempo sem movimentar o personagem, surgia um balão de pensamentos, daqueles de histórias em quadrinhos, completamente vazio. Uma imagem perfeita para “não ter nada na cabeça”. A principal maneira de evitar esse vazio mental, todos nós sabemos, é através de boas leituras.

Mas não é bem assim. De acordo com o professor Rubem Alves, na sua coluna na Folha de São Paulo, o excesso de leitura pode fazer com que a pessoa deixe de pensar por si própria. Ele conta o caso de quando selecionava candidatos a doutorado, e teve a idéia de fazer uma única pergunta a todos eles: “Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar”. Os candidatos entraram em pânico, não sabiam o que responder. Uma mulher chegou a citar várias partes de um livro da bibliografia obrigatória, achando que a pergunta era uma brincadeira.

A idéia é que, ao ler, estamos acompanhando o pensamento de outros. Se passamos a maior parte do tempo lendo, a menor parte do nosso tempo é dedicada a nossos próprios pensamentos. A conseqüência é que nossa mente fica habituada a papaguear pensamentos alheios, enquanto nossas idéias próprias são pouco produzidas, tendendo a desaparecer.

Uma questão interessante é: até onde nossas idéias são de fato “nossas”? Mesmo aquelas a que chegamos não por leituras, mas pelos “próprios méritos”. Existe o provérbio que afirma: “Do nada, nada sai”. Se tivéssemos acesso ao processo mental que levou àquela idéia original, veríamos que ela caiu do céu como um raio de inspiração, ou que foi fruto do trabalho mental, que lida com elementos preexistentes, saberes anteriormente adquiridos de algum modo, seja leitura, experiência, filmes, discos, conversas...? Ou será que ela irrompe desse subterrâneo a que não temos acesso direto, que é o nosso inconsciente?

Sobre a questão da originalidade, vale a pena conferir a tira do Arnaldo Branco.

sexta-feira, maio 04, 2007

Escrevendo o trivial

A preguiça já foi elogiada, agora bateu o cansaço de não fazer nada. Somado ao longo tempo desse blog cultivando teias de aranha. Já tem alguns dias que eu digo pra mim mesmo que preciso escrever algo. Mas sempre esbarro no “o quê?”, e rendo-me à frustração do bloqueio criativo.

É aquela velha lei do menor esforço, que limita minhas ações àquilo que penso fazer bem e com pouco trabalho, ou melhor, sem grandes obstáculos no caminho. Escrever apenas quando surge alguma fagulha de inspiração, falar somente quando tem algo de interessante para dizer. E os momentos pedindo qualquer texto, não importa se desinteressante, irrelevante, lugar-comum ou repetição. Tem horas que qualquer coisa é melhor que coisa alguma.

Quando se quer ser brilhante o tempo todo, são grandes as chances de se tornar um tolo. Eu tenho o hábito de tentar prever o resultado de tudo que faço, mania adquirida pelo gosto por xadrez e Sherlock Holmes. Só que ações criativas são imprevisíveis, ou melhor, tentar calculá-las é uma boa maneira de estragá-las, já que nelas a intuição é bem mais importante que o cálculo, e um processo anula o outro.

Um conselho a todos que só falam quando lhe ocorrem grandes sacadas: falem merda, daquelas bem idiotas, que lhe renderiam um babau na quinta série. Livre-se da obrigação de ser “cabeça”. É um fardo que não vale a pena carregar: você se diverte menos, acaba se levando muito a sério, torna-se uma pessoa pesada, e isso não o torna mais inteligente.

O mesmo vale pra quem escreve, principalmente quando a criatividade está bloqueada por pretensões cabeçudas. Permita-se escrever algo trivial. É melhor do que ficar sem escrever, esperando por inspirações incertas.

terça-feira, abril 17, 2007

A graça do The Playboys

O show do The Playboys, na última noite do 15º Abril pro Rock, foi o destaque negativo das bandas pernambucanas no festival. Essa é a opinião do jornalista Renato L, impressa na contracapa do Viver, caderno cultural do Diário de Pernambuco. “A banda precisa tornar corrosivo seu humor “colegial”, quase inofensivo, para não passar outros 10 anos longe do Abril”, afirmou o parceiro de Chico Science e Fred 04 na elaboração do manifesto “Caranguejo com Cérebro”, marco inicial do movimento Manguebeat.

A versão musical do manifesto é a faixa “Monólogo ao Pé do Ouvido”, que abre o primeiro disco de Chico Science e Nação Zumbi, Da Lama ao Caos. O The Playboys fez uma paródia curiosa dessa música, ironizando as imitações do mangueboy que tomaram conta da cena pernambucana, após a morte dele. É difícil encontrar humor mais corrosivo. Infelizmente, no show do Abril, essa letra foi mudada, perdendo um bocado de sua acidez. Em vez de desacatar alguns mangues, especificamente, tiraram onda com os indies, genericamente.

O humor “colegial” da banda fez rir a maior parte da platéia. As letras debochadas, com os personagens típicos da cena local, são o ponto forte das estrelas do movimento do “alto dos apartamentos de Boa Viagem”, como costumavam anunciar nos shows da época em que Devotos e o Alto José do Pinho eram destaque.

Eu achei estranho a banda ser criticada justamente naquilo que tem de melhor: o humor. Na cobertura do festival feita pelo Recife Rock, a avaliação do show é oposta a de Renato L. Talvez isso se explique porque os responsáveis pelo site são mais jovens que o jornalista do Diário, riem com mais facilidade das brincadeiras de adolescência. Ou talvez Renato L não ache graça numa banda fazendo piada de algo que ele ajudou a formar. Considerando que Roger, que também é um jovem de outrora, assistiu ao show soltando várias risadas, tendo a acreditar na segunda opção.

sábado, abril 14, 2007

Futebol no Abril pro Rock

Abril pro Rock de 2007, 15ª edição. A Nação Zumbi estava no meio de seu compacto show de abertura para os Mutantes. De repente, Lúcio Maia tira da sua guitarra o hino do Santa Cruz, time que caiu para a série B ano passado, fez um péssimo campeonato pernambucano, mas conseguiu a proeza de acabar com a invencibilidade do Sport no último jogo, ou, como preferem os mais diretos, tirou o cabaço do leão.

A maior parte da platéia levantou a mão numa dedada, em resposta ao hino da cobrinha. O Sport tem a maior torcida do estado, e os rubro-negros, embora bicampeões pernambucanos, ainda estavam sentindo o veneno da cobra tricolor, espalhado nas provocações das torcidas rivais.

Lúcio Maia não se intimidou e tocou o hino novamente, afirmando que "torcedor bom é aquele que torce quando o time tá perdendo". Frase bonita, mas que ficou com cara de média para os desgostosos da platéia, pois é difícil imaginar o hino sendo tocado se o Santa tivesse perdido o último jogo.

O show continuou, os dedos baixaram, e eu achei o incidente divertidíssimo. Mas houve quem tivesse a noite estragada pela gréia musical. Sérgio Bernardo, estudante de jornalismo de credibilidade inquestionável, me contou de um cara ao seu lado que ficou transtornado com as notas da dança da cobrinha. "Eu paguei, po! Não tinha que ouvir isso, fuleiragem da porra!", gritava o rubro-negro emputecido, que minutos antes estava cantando feliz as músicas da banda.

Rivalidade no futebol é um lance muito curioso. Para mim, que sou indiferente à questão, é difícil entender como o desempenho de seu time, ou as provocações adversárias, podem causar terremotos tão fortes no humor das pessoas. Ao mesmo tempo, acho arretadas as gréias esportivas, as provocações bem humoradas, e os entusiasmos de torcedor. Próxima semana devo ir a um estádio, lugar onde nem lembro quando entrei pela última vez. Quero ver se sinto a energia que faz tanta gente vibrar, torcendo para que não seja preciso deixar de curtir um belo show por conta disso.

quarta-feira, março 28, 2007

Medo do Futuro

É duro reconhecer a mediocridade
Formando-se na preguiça do teu gênio
Que evita o esforço na atividade
Adiando-o até o último momento

É duro ver cair a confiança
Numa mente, outrora vigorosa,
Hoje, como ex-atleta que descansa
Afundado na poltrona prazerosa

É duro perceber-se tão contente
Com os pífios resultados do versejo
Quando basta ler alguns mais competentes
Para ver que não há motivos pra festejo

É duro procurar na poesia
preencher a lacuna do labor
Tentar compensar com fantasias
O mal que a moleza lhe deixou

É duro discernir o que é preciso
Para livrar-me da própria corrente
Que me prende a caminhos antigos
E amarra o que viria pela frente.

sábado, março 24, 2007

Clara Nunes, a maior cantora do Brasil


Do Contra é um dos personagens mais divertidos de Maurício de Souza. Tem muita graça em querer ser sempre diferente. É comum ser do contra na adolescência, antes de amadurecer e perder a graça. Mas alguns seguem cultivando esse prazer infantil, fazendo objeções pelo prazer de ver as pessoas lidando com elas.

Uma unanimidade inteligente é que Elis Regina é a maior cantora do Brasil. Afinação, interpretação, feeling e técnica olímpicos, qualidade do repertório, são muitas as razões do consenso.

Eu discordo. Não da qualidade de Elis, mas dela sozinha no topo. Tem uma mineira chamada Clara Nunes, que não perde um centímetro para a divindade gaúcha nos critérios acima citados, com a vantagem decisiva de que seu timbre e seu repertório soam melhor aos ouvidos deste que vos escreve.

Para os que desconhecem a maior cantora do Brasil, seguem algumas preciosidades selecionadas por mim, na convicção de que algumas discordâncias não têm preço.

Preciosidades Selecionadas