sexta-feira, dezembro 30, 2011

A “deusa” razão, as rotas do barco e o rodízio entre capitães

A razão duvida de tudo, mas tem uma fé cega em si própria. Tudo aquilo que está fora de seu campo de observação, tudo que não pode ser percebido nem mensurado pelos cinco sentidos ou pela tecnologia que os amplia, a razão não reconhece que existe. Todas as tradições e sistemas que lidam com tais elementos são desprezados pela razão. Ela se comporta como um adolescente deslumbrado com as façanhas que se descobre capaz de realizar, sem uma percepção clara de seus limites, nem do dano ou bem que tais proezas trazem para o seu utilizador, o homem.

A razão se crê onipotente na medida em que considera impossível tudo o que contraria suas leis. A razão se acha onisciente na medida em que nega a existência do que não pode ser explicado pelos seus princípios. Ela procura substituir Deus (empregue o nome que quiser), buscou libertar o homem das prisões religiosas que passaram a dominar as ligações com o divino, e ao negar a existência de tudo que está fora de sua de sua compreensão, condena o homem a novas prisões. Talvez com a maturidade a razão venha a entender muitas das coisas que por enquanto ignora, dissolvendo suas próprias prisões e reaproximando o homem do divino.

O mundo é o barco pelo qual o homem navega em si mesmo. Ter apenas a razão ao leme significa fazer sempre as mesmas rotas, visitando sempre as mesmas ilhas, ignorando continentes inteiros. Através da razão o homem neutralizou as ameaças da natureza à existência dele, ao menos enquanto catástrofes naturais não acontecem para relembrá-lo da diferença de poderes. Mas as proezas equivocadas da razão trazem novas ameaças à sobrevivência de seu utilizador.

A razão não é a única disponível para conduzir o barco. Ela é a mais eficaz para fins de sobrevivência, que mudam de acordo com a época: um dia significaram saber caçar e plantar, hoje significam saber ganhar dinheiro. Mas sobreviver é diferente de existir em toda sua plenitude. As proezas acertadas da razão movimentam o barco nessa direção, mas elas não podem navegar nos mares que a razão ignora, por onde os caminhos rumo a uma existência plena continuam, sem talvez jamais serem completados, mas cada centímetro de avanço valendo muito a pena: significam se aproximar do divino.

Tais avanços exigem outros comandantes para o barco, outras formas de usar a mente, como o sonho, o delírio, o transe provocado pela meditação, rezas, jejuns, dança, música ou seja qual for a forma de arte, que pode ao mesmo tempo se valer da razão e escapar das suas leis e prisões, fenômeno normalmente mais intenso nos criadores/praticantes das artes, exigindo grande concentração de seus espectadores/consumidores para alcançar um efeito semelhante. Os estados alterados de consciência provocados por algumas drogas podem ser bastante proveitosos nesse sentido, embora (talvez justamente por isso), seu abuso possa limitar perigosamente os poderes da razão.

Essas rotas de aproximação do divino permanecem essencialmente as mesmas em todas as épocas. Elas são freqüentemente inúteis para fins de sobrevivência: nesse campo, a razão e suas proezas acertadas permanecem imbatíveis. Por isso não vale a pena tentar ter apenas um comandante no barco o tempo todo. Melhor tentar refinar o rodízio entre capitães, fazendo a embarcação navegar pelos diversos mares, ilhas e continentes, tarefa para uma vida inteira, talvez mais. Missão impossível se acreditamos na onipotência e na onisciência da razão, ou se esquecemos de zelar pelo seu bom funcionamento.

segunda-feira, maio 23, 2011

Além mar

Não sei dizer por quanto tempo
não buscarei outros amores.
Por te guardar no pensamento
como um avaro a seus valores.

Flashbacks de cada momento
trazem à boca os teus sabores.
Teu riso sempre tão intenso
não sai dos amplificadores.

Das pontes entre nossas mentes
saltamos em águas ardentes
nadamos até onde se pôde.

Puxados por outras correntes
seguimos rotas diferentes
que hão de se encontrar de novo.

domingo, abril 03, 2011

Do amor à caça, da caça ao amor

Uma idéia masculina muito comum no Brasil é a pressão para caçar mulheres ao sair à noite. Para muitos, voltar para casa sem ao menos uma troca de saliva significa um fracasso, um indicativo de ineficiência como macho pegador. A expressão “ficar no 0x0” já sugere a monotonia de uma partida sem gols, e todos nós passamos por uma fase onde queremos ser grandes artilheiros, admirados e invejados por nossos semelhantes pernas-de-pau.

O carnaval é o estádio perfeito para grandes goleadas, com sua grande concentração de belotas sobrando na área, muitas vezes já quicando meio em zigue-zague por conta do álcool, bastando um toquinho para abrir o placar. Não há espaço para muita conversa, em geral os grandes artilheiros se valem da tática Neandertal: uma marretada (cantada direta e rápida) na cabeça da presa, se sorrir é gol.

Eu nunca tive vocação para artilheiro, pelo contrário, minha tendência sempre foi tentar armar uma jogada bem trabalhada através de palavras para fazer um gol cinematográfico, candidato a um dos mais bonitos de todos os tempos. Ficar no 0x0 era o resultado concreto dessa minha estratégia na maior parte das vezes, acabava desarmado por excesso de firula. A caça, como o futebol, precisa de objetividade.

Mas a verdade é que caçar é bom demais, mesmo quando não conseguimos abater a presa. Não a caça Neandertal, que só tem graça se a bola entra, e olhe lá. Falo da caça sem pressa, com tempo para conversar e saber mais um do outro, fazendo a menina rir e diminuindo gradualmente as distâncias em direção ao gol.

Em conversas com meu pai, um solteirão convicto, ele falava da dificuldade em vestir a camisa-de-força do casamento, em fechar as portas para a caça, para inúmeras possíveis experiências amorosas em prol do pacto de fidelidade com o conjugue. Eu senti isso na pele no meu último namoro. Ao mesmo tempo em que amava minha ex-namorada o suficiente para querer ter filhos e construir uma vida ao lado dela, sentia falta da caça, de poder paquerar as beldades que encontrava pelo caminho.

Os ultra-românticos podem argumentar que eu não amava forte o suficiente, que quando amamos de verdade não queremos ninguém além da pessoa amada. Mas eu tenho a impressão que esse sentimento não dura para sempre. De acordo com Frédéric Beigbeder (um autor francês que curti bastante), ele dura três anos. E é difícil precisar o quanto há de amor e o quanto há de conveniência/obediência às convenções sociais em casais que estão juntos há muito tempo.

Mas agora que estou solteiro e livre para todas as bolas na área que o destino me reserva, sinto falta daquele carinho especial de quem te conhece bem e gosta de você por isso. É a eterna insatisfação do ser humano fazendo o mundo girar e as relações se complicarem. Aquele dengo garantido, a perspectiva de construir uma vida a dois, compartilhando vários momentos especiais que só podem ser vividos por um casal, tendo um no outro o melhor antídoto para a solidão, além das práticas esportivas com mais intimidade e freqüência... Tem coisas que só uma boa relação estável faz por você.

segunda-feira, março 08, 2010

Prisões ambulantes

De casa para o trabalho, do trabalho para a faculdade, da faculdade para a casa, passando sempre pelas mesmas ruas... A rotina traça nossos caminhos como se não existissem outros para chegar aos mesmos lugares. Normalmente nos sentimos pressionados a fazer os trajetos mais rápidos, aqueles que já conhecemos. E assim semanas, meses, anos se passam na repetição das mesmas rotas, numa espécie de prisão ambulante.

A pressa da lógica do “tempo é dinheiro” traça previamente nossos caminhos. A rotina exige que estejamos em determinadas horas em determinados lugares, todos os dias. Nossos deslocamentos precisam durar x minutos, para que não nos atrasemos. E a maneira mais fácil de fazer isso é continuar a repetir as rotas e os horários. A gente deixa de fazer o percurso, o percurso é feito pelo nosso piloto automático.

A violência se soma ao nosso medo do desconhecido para reforçar as grades da prisão ambulante. As ruas que não conhecemos podem ser perigosas, o perigo pode estar em qualquer lugar, melhor continuarmos nos caminhos de sempre. E assim, a rotina caminha em direção à claustrofobia, transformando o mundo em um corredor estreito e longo, pelo qual sempre caminhamos.

Por isso a conversa com o artista Julio Callado me acendeu tantas luzes. Callado viajou do Rio ao Recife de ônibus, parando em cidades pouco turísticas sem nenhum roteiro prévio, buscando uma trajetória à deriva, oposta a nossa experiência rotineira de estar sempre querendo chegar a algum lugar. O registro em vídeo da sua experiência está exposto na Galeria Massangana, da Fundaj Casa Forte.

Nas cidades pelo caminho, seus próprios habitantes diziam que não havia nada para ver lá. Mas Callado acredita que é possível viajar no próprio bairro, até mesmo na própria casa. Basta se libertar dos códigos que normalmente amortecem os sentidos dos caminhos, como a pressa, a segurança, as rotas pré-definidas.

Eu fiquei com uma vontade danada de fazer isso no meu bairro, que tem fama de perigoso. Sair da rotina é arriscado, mas se deixar aprisionar por ela envolve um risco ainda maior.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Um sopro.

Um poema se desenha com leveza
cada traço flutuando na incerteza
de caber na moldura que o abriga.

Com palavras escondidas na cabeça
a caneta corre em busca de clareza
e precisa cuidar bem do que ilumina.

Muita luz só pode afugentar a presa
muita força pode ser bem mais fraqueza
ao soprar as bolhas que farão a rima.

terça-feira, novembro 10, 2009

Manifesto Slow-Talking

Conversando com amigos numa festa, quis anunciar minha saída do ambiente e minha defesa da suspensão da outra atividade em curso. Não lembro exatamente qual caminho minhas palavras percorreram para chegar aonde queria. Sei que foi longo o suficiente para que uma amiga exclamasse:

- Bernardo, sintetiza! Tudo isso pra dizer, ‘galera, encharquei’?

Ensaiei uma defesa, mas fui interrompido pelos apoios ao prosseguimento da outra atividade. A idéia ficou acesa na mente, mas sem poder vir ao mundo até agora, que decidi eleger este blog como maternidade. Ciente dos possíveis danos da cesárea ao que vem à luz, busco um parto normal, em sintonia com o que direi a seguir.

Os manuais da escrita pregam que um bom texto deve ser sintético, conciso, conseguir dizer o que se quer com o mínimo possível de palavras. Temos aí o princípio da edição de “cortar a gordura do texto” para aumentar seu impacto, como o fotógrafo que seleciona as 10 melhores fotos das 100 que tirou, evitando a diluição da qualidade do seu trabalho.

Um valor muito presente no nosso tempo, relacionado a essa objetividade da escrita, é a noção de que o melhor caminho entre dois pontos é sempre o mais rápido/curto. Se você pode ir de Recife a Porto de Galinhas em 1h por um caminho, porque diabos o faria em 2h por um caminho mais longo? Isso implicaria em mais gasto de dinheiro e tempo, dois eixos centrais de nossas vidas que muitas vezes se confundem, e sobre os quais tendemos a estruturar todos os outros aspectos.

Essa lógica se reflete mesmo em conversas entre amigos. As pessoas querem que quem fala vá direto ao ponto, como querem rápidos os deslocamentos, preparação de comidas, aprendizados, frutas maduras... Enfim, que todas as distâncias entre o desejar e sua realização sejam percorridas o mais rápido possível. Esperar virou um tormento.

Mas ninguém espera que o sexo ou a cerveja com os amigos dure o menor tempo possível.
Queremos que o que nos causa prazer demore, e todo o resto seja rápido. A questão é que essa ansiedade por rapidez faz com que muitas coisas que poderiam causar prazer não o façam. A viagem para Porto de Galinhas pode ser muito mais prazerosa pelo caminho mais longo. E uma conversa agradável pode ser composta de palavras percorrendo variados caminhos, sem pressa alguma de chegar direto ao ponto. A obrigação da velocidade restringe muito as possibilidades de prazer.

Minha mãe, por exemplo, é quase como a internet quando conta uma história: lá pela terceira frase abre um link para uma nova janela, onde detalha um bocado um aspecto da narrativa que a gente não sabe bem qual relação tem com o todo, inclusive porque o final ainda está a várias frases e alguns links de distância. Isso gera impaciência nos reféns da objetividade, dentre os quais eu muitas vezes me incluo. Quando, porém, eu relaxo e tento acompanhar seu hipertexto, sem pressa, deixando que ele se apresente naturalmente, nascendo de parto normal, muitas vezes me divirto com os caminhos que ele percorre, imprevisíveis e não-lineares como um bom improviso musical, como a vida.

Por tudo isso eu proponho, em sintonia com o movimento Slow-Food, o Slow-Talking: por conversas sem cesárea, porque devagar faz bem e é mais gostoso.

quarta-feira, maio 27, 2009

Divisas para quem precisa

O jovem rapper dispara sua arte. As legendas tentam dar conta das velozes rimas em turco, há uma clara sensação de perda de conteúdo para o espectador. Mas o que causa impacto não precisa de tradução: a cadência e o peso da levada do rapaz, com suas marteladas verbais precisas e vigorosas, sugerem a quantidade de energia investida no ato de cantar aquele rap, que termina com o suor escorrendo pelo pescoço do artista, e uma descarga de adrenalina percorrendo o corpo de quem presenciou o ato, mesmo distante no espaço e no tempo, através da mágica do cinema.

Atravessando a Ponte – O Som de Istambul, é um filme repleto de momentos musicais marcantes. Dirigido por Fatih Akin, um alemão de ascendência turca, o filme mostra o músico alemão Alexander Hacke em busca das diversas sonoridades produzidas na capital da Turquia. Desde as mais tradicionais, mais próximas do que tendemos a classificar como “música árabe”, até gêneros que nos soam mais familiares, como o rock, o rap e a música eletrônica. E, sobretudo, o filme mostra o diálogo entre esses dois pólos, e que novas formas de expressão surgem a partir daí.

Istambul, a antiga Constantinopla dos livros de História, é uma cidade dividida entre Europa e Ásia pelo estreito de Bósforo, divisa geográfica entre os dois continentes. Na abertura do filme, a banda local de rock psicodélico Baba Zula toca numa embarcação a navegar pelo Bósforo. Hacke participa do ato, cujo som incorpora temas turcos às bases de rock. É uma cena síntese da idéia que permeia todo o filme: o encontro do ocidente com o oriente a mostrar que essa linha divisória pode ser mais tênue do que imaginamos.

O filme mostra, através da música, como a linha-divisa-ocidente-oriente ganha ou perde força, nos dois lados: há as bandas de rock que fazem um som muito próximo do americano, há a cantora duma espécie de “fado turco” que se preocupa com a pureza do seu ritmo, que já foi perseguido por razões políticas. E há diversos artistas fazendo um som que bebe nas duas fontes, como o grupo de música eletrônica com flautas ciganas, ou o rapper cujo ritmo é totalmente diferente daquele com o qual estamos acostumados. Fica claro o quanto expressões culturais podem ser remodeladas, a partir da incorporação de novas referências, gerando obras diferenciadas de suas formas originais. Impossível não lembrar de Recife, onde ocorreu, com o Manguebit, um fenômeno parecido.

Atravessando a Ponte mostra que tanto o lado de lá quanto o de cá possuem muitas características em comum. Passado e presente, oriente e ocidente, o filme mostra como a cultura se nutre desses eixos, seja para reforçar suas divisas, seja para enfraquece-las. E, mais importante que essas linhas divisórias, é o talento, a qualidade da expressão. E isso, como o filme deixa claro, não conhece fronteiras.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Civilidade alemã x amistosidade brasileira

Ao ser "presenteado" com a tradicional descortesia brasileira no trânsito, fiquei pensando na aparente contradição: no Brasil, as pessoas se relacionam de maneira muito mais amistosa do que nós países nórdicos, onde a frieza predomina. No entanto, nesses países há um respeito pelos direitos do próximo, que vai do dar passagem no trânsito às filas para entrar no ônibus, enquanto no Brasil prevalece a lei do cão: cada um por si, todos contra todos, e que vença o mais esperto.

Patrick, um português que morou no Brasil quando criancinha e reside há muito tempo na Alemanha, falou que a combinação de frieza e civilidade, característica dos países nórdicos onde tudo funciona, são consequências da mesma causa: racionalidade em excesso. Na Alemanha, as pessoas dão passagem no trânsito não porque são boazinhas ou porque se preocupam com os demais: o fazem por obediência às regras que asseguram que os direitos de um não incomodem o outro.

De acordo com Patrick, essa obediência às regras, que faz com que tudo seja como deve ser, nos mínimos detalhes, faz da Alemanha um país de excelência tecnológica e científica, onde o trabalho é eficiente e rende frutos, os serviços funcionam com extrema pontualidade, e as pessoas respeitam os direitos dos outros.

Porém, essa obediência às regras é tão inflexível que o meu amigo já presenciou um alemão esperar o sinal abrir para atravessar a rua, debaixo de uma chuva torrencial, às quatro da manhã, sem o menor sinal de carro nas imediações e nenhuma criança por perto para ser deseducada com o mau exemplo. Das várias vezes que o Patrick atravessou a rua em situação semelhante, teve que lidar com o patrulhamento civil dos outros alemães: "não está vendo que o sinal está vermelho?!". Em outra situação, Patrick estava tirando um som com amigos num parque grande o suficiente para que os vizinhos não fossem incomodados, mas às 10h da noite estava a polícia a acabar com a festa, porque é probido qualquer barulho a partir daquele horário.

O portuga-alemão acredita que cada um deveria poder fazer o que quiser, desde que não cause mal a ninguém. Atravessar a rua nas situações descritas não prejudica pessoa alguma. No entanto, os alemães se incomodam com qualquer desvio das regras de conduta, por menor que seja, por mais inofensivo que seja. Falta-lhes flexibilidade para reconhecer que, em determinadas situações, a obediência cega às regras simplesmente não faz sentido.

Por outro lado, permitir a desobediência às regras em casos justificáveis pode abrir margem para a desobediência em casos injustificáveis, como acontece no Brasil. "O bom-senso deveria guiar isso", afirmou minha namorada, mas essa é uma qualidade que nem todos compartilham, e que dá espaço para uma certa margem de variação. Afinal de contas, se todos tivessem bom-senso, e se esta qualidade fosse exatamente a mesma em todos, não haveria necessidade de lei alguma.

Mas o que mais incomoda o portuga-alemão é a inamistosidade germânica. Ele cansou de cumprimentar as pessoas no trabalho e ser ignorado. A frieza e a racionalidade são tão intensas que Patrick tem a sensação de viver numa sociedade de robôs. Há pouco espaço para o calor humano, o humor é seco, sem ironias, sem jogos de palavras, com as pessoas dizendo sempre exatamente o que elas querem dizer, utilizando a função referencial da linguagem o tempo todo.

Patrick afirma que há dois tipos de brasileiros (e latinos em geral, que compartilham um lado emotivo mais forte) na Alemanha: os que adoram o fato de que tudo funciona com perfeição, se adaptando bem, e os que não conseguem lidar com a ausência de calor humano, e ou vão embora ou permanecem infelizes. Segundo ele, há estudos indicando que o nível de felicidade do povo alemão é dos mais baixos do mundo (vou cobrar dele os links).

A grande questão é se é possível uma sociedade unir o melhor dos dois mundos: a disciplina, eficiência, organização e civilidade alemãs com a amistosidade, flexibilidade, improviso e calor humano brasileiros. Será que um alto desempenho numa dessas áreas implica num baixo desempenho na outra? Seria interessante se a sociedade brasileira atingisse os mesmos níveis de desenvolvimento cívico, econômico e social da sociedade alemã, para observar se esse progresso seria acompanhado da substituição das características do povo brasileiro pelas do povo alemão.

***
Links dos estudos sobre os níveis de felicidade nos diversos países:
http://www.le.ac.uk/users/aw57/world/sample.html
http://www.happyplanetindex.org/map.htm
http://www.technovelgy.com/ct/Science-Fiction-News.asp?NewsNum=893
http://www.worldvaluessurvey.org/

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Espalhando a discórdia

Tim Maia, passada a sua fase Racional, renegou a obra-prima que tinha feito, num processo semelhante ao de Baden Powell, que renegou os seus afrosambas depois que se tornou evangélico. Eu defendia a tese de que é uma bobagem renegar obras-primas que você compôs, só porque seu atual sistema de crenças entra em choque aquele em vigor no momento da criação. Lili, minha namorada, defendia a tese de que é um direito deles renegar o que quiserem, e que bobagem é eu perder tempo julgando essas escolhas alheias.

A discussão se estendeu até a chegada da minha cunhada, que achou que nós estívessemos brigando, devido ao excesso de entusiasmo na defesa de nossas posições (e de uma certa dificuldade em assimilar a posição do outro, já que elas entravam em choque). Acabamos suspendendo a discussão, em prol da paz, do amor, e da harmonia familiar e conjugal, muito embora Lili insistisse em levar a discussão até o fim.

A situação tirou minha mente do mérito das obras renegadas, e a trouxe para o desprazer em discutir, um padrão muito comum, que eu tenho dificuldades em aceitar. Eu adoro discutir, acho uma excelente maneira de desenvolver as idéias, a capacidade argumentativa, de obter vários perspectivas sobre determinado assunto. Mas a maior parte das pessoas não gosta de discutir. Melhor dizendo: a maior parte das pessoas não gosta de discordar, como se o ato implicasse em ofensa, em chateação, ou mesmo mágoa.

Creio que isso ocorre por que tendemos a desenvolver um apego muito forte a nossas crenças e opiniões. Quando elas são atacadas, sentimos como se o ataque fosse dirigido a nós mesmos. É uma ameaça ao ego, que está sempre buscando por confirmações dele próprio, como conversar com pessoas de visão semelhante a nossa. O problema é que nossas crenças e opiniões, assim como nosso ego, precisam ser colocadas em xeque para se desenvoler.

Um argumento comum para evitar uma discussão é que ela não vai levar a lugar nenhum. Ora, o mero ato de expressar as idéias de forma persuasiva já leva a ativação de sinapses no cérebro, melhorando nossa cognição. E mesmo que permaneçamos com a mesma posição que tínhamos antes da discussão, há uma grande diferença entre a opinião que sobrevive aos questionamentos e a opinião que sobrevive por falta de questionamentos.

Muitas vezes o "vencedor" de uma discussão não é o que tem a posição mais coerente, mas aquele que melhor sabe defender sua posição, o que tem melhor capacidade argumentativa. É desagradável quando sabemos que estamos certos, mas não conseguimos traduzir essa certeza em argumentos fortes o suficientes para rebater os do "adversário". E quanto mais evitamos discutir, mais isso ocorre, por pura falta de treino.

Esse treino não deveria colocar em xeque nossas relações e vínculos emocionais. Lembro sempre das inúmeras discussões que tive com o ilustre Ferroso, discussões que muitas vezes se acaloravam muito além da conta, com os presentes achando que estávamos na iminência de sair no tapa. E nunca deixamos de ser grandes amigos por conta disso.

Ia fechar o texto com algo sobre um modelo de discussão cooperativo, em vez de competitivo. Soa muito mais proveitoso e convidativo. Ao mesmo tempo, o modelo competitivo está em todo lugar, e tenho minhas dúvidas em relação a validade de evitá-lo, ou a possibilidade de transformá-lo em cooperação. Sendo assim, prefiro reafirmar a bobice de Tim Maia e Powell em renegar suas obras-primas. Quem quiser que discorde.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Os tons da capa da velha da capa preta

No caminho para o trabalho, eu e minha mãe ouvimos a rádio CBN. Salvo quando as notícias são chatas, ou uma entrevista é monótona, casos em que recorremos à rádio Universitária. Ontem, pouco depois da mudança de estação, estávamos ouvindo a música do pai herói, do Fábio Júnior. Ficamos em silêncio, prestando atenção... Eu me dividia entre a bregosidade da melodia, do tom, e alguns trechos interessantes da letra. Segundos após o termino da música, recebo pelo celular a notícia de que meu avô, pai da minha mãe, falecera. Poucas vezes tive uma sensação tão forte de sincronicidade, as coincidências significativas de que falava Jung, e pude ver que isso foi bem mais intenso na minha mãe.

Eu e meu avô materno nos víamos muito pouco, separados por desencontros familiares. Há cerca de um ano se deu a partida de meu avô paterno, a quem eu também via muito pouco, afastado pela distância geográfica. Com ambos senti falta de uma despedida, de uma boa lembrança recente. Por outro lado, nossa pouca interação permitiu que eu encarasse a perda de ambos com mais serenidade, com menos do sofrimento que resulta do maior apego, geralmente proporcional à presença das pessoas que partiram em nossas vidas, ou à intensidade dos momentos compartilhados com elas.

Ao perceber que não sofria tanto com as perdas, senti uma culpa nos momentos iniciais: existe um valor em nossa cultura que relaciona o quanto sofremos com o quanto amamos a pessoa que partiu. Era como se eu não amasse meus avôs tanto quanto deveria, como se fosse um neto ingrato por não sofrer tanto com a partida de ambos.

Ao contar que, apesar de gostar muito dela, não derramou uma lágrima com a partida de sua bisavó, minha namorada me ajudou a perceber que não havia razões para culpa. O sofrimento com a partida se relaciona a outros fatores além do apego (cabe aqui mencionar o conceito de amor desapegado, presente na filosofia budista), como a naturalidade da circunstância da morte, e a naturalidade com que se encara a morte em si.

O poetinha Vinícius dizia que a vida é uma só, que ninguém o convenceria que há mais de uma sem mostrar-lhe um documento assinado por Deus, com firma reconhecida. Cada vez mais eu acredito que há algo de nós que transcende a matéria e retorna a esse plano inúmeras vezes. Fico com BNegão: “na real, a gente é como o sol... não nasce nem morre, só sai do campo de visão normal”. Não dá pra saber qual dos dois está correto, e se essa correção é uma questão de fé ou (des)conhecimento. Mas dá pra afirmar, sem a menor sombra de dúvida, que a abordagem do filósofo do rap ajuda a encarar as chegadas da velha da capa preta com muito mais serenidade.

domingo, dezembro 21, 2008

Praias, ilhas e travessias

Fiquei empolgado quando soube do encontro dos meus antigos colegas da 8ª série. Algumas figuras eu não via desde aquela época, dez anos atrás. Fazendo um retrospecto da minha vida escolar, vejo que com nenhuma outra sala eu tive uma identificação tão forte: foram 8 anos estudando juntos, num colégio de turmas pequenas, onde todo mundo tinha um grau mínimo de proximidade. Olhando daqui do presente para aqueles momentos do passado, eu tinha a sensação de ter fortes vínculos com todos os elementos daquela sala, mesmo aqueles que, na época, não faziam parte do meu círculo de relações.

Ao chegar no bar, a mesa já estava cheia. Foi ótimo rever figuras tão distantes no tempo. Mas, passado o momento "como tu tás? tás fazendo o quê da vida?", me veio a sensação de que já não havia mais nada a dizer, para a grande maioria dos presentes. Os grupos de maior afinidade da época relembravam estórias divertidas, casos curiosos... eu não me sentia parte de nada daquilo. Percebi que, quanto maior a distância no tempo, mais rosadas ficam as lentes com que eu tendo a enxergar o objeto: eu sentia uma forte conexão com o povo daquela sala de tantos anos, suficiente para ficar bem entusiasmado com as possíveis reuniões da galera, que nunca aconteciam.

Quando enfim aconteceu, o encontro trouxe um certo desapontamento. Parecido com o voltar, vários anos depois, ao ponto do qual vi meu pai saltando para o mar. Na época, a altura me parecia equivalente ao sétimo andar de um prédio. Anos depois, constatei que a altura do inesquecível salto não era maior do que aquelas casas de brinquedo para crianças, com balanços e escorregador. O que parecia épico, mágico, se revelou corriqueiro; tanto o salto quanto a sala brilhavam muito mais nas memórias nutridas pelo tempo do que na realidade oferecida pelo presente.

A correnteza do tempo parece levar a praias desencantadas, deixando para trás, distantes, as ilhas do sonho onde o fluxo ainda está começando, devagar, tão devagar que nem nos damos conta. Ao mesmo tempo, a correnteza parece dar mais carga nos trabalhos de edição das memórias da ilha. Quando olhamos, das praias, para as ilhas, tendemos a enxergá-las através dos binóculos da nostalgia, que deixa de lado as áreas escuras para enquadrar apenas as áreas iluminadas. Ao trazer um objeto da ilha para a praia e contemplá-lo sem a ajuda do binóculo, percebemos que tanto as luzes quanto as sombras ficaram, na sua maior parte, pela travessia.

Continuarei indo a todos os encontros. Mas sem confundir praias, ilhas, e travessias.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Para Lili.

Aquela festa prometia. A idéia de fazer dela um encontro do Couchsurfing possibilitava a presença de várias gatinhas, locais ou internacionais. E eu vinha numa boa fase, algumas paquerinhas promissoras para desenvolver minhas habilidades pegadoras, com alguns progressos aqui e ali, embora persistisse a dificuldade na hora do bote, na hora da finalização, quando a dita cuja já deu sinais suficientes que está afim, e o momento pede uma prática de língua não-verbal. Eu sempre ficava pensando em milhares de sub-etapas para completar essa tarefa do modo mais envolvente possível, e o resultado final normalmente acabava sendo o total fracasso da operação.

A festa começa, e a promessa não foi à toa. Bendito Couchsurfing! Era simplesmente a festa mais cheia de gatinhas da história daquele apartamento - do outro também, mas esse detalhe a gente omite. A verdade é que nas minhas festas sempre havia um predomínio da macharada - as poucas meninas que apareciam eram amigas de longa data, sem a menor chance de interação libidinosa. Mas naquela festa, quantas possibilidades! E mesmo que nada rolasse em direção às travessuras e gostosuras, a mera presença de gatinhas já muda o ambiente, já muda o papo, deixa tudo mais agradável de participar.

Alguém bota um Gonzagão, e o rala-bucho toma conta do salão, ou melhor, da salinha. Eis que uma das lindezas me chama pra dançar. Ah, se ela soubesse o quanto sou frustrado pela minha inoperância na área... Eu aceito, mas apesar da boa vontade dela, a dança não dura muito, pela minha total falta de jeito. Foi suficiente, porém, para focar o zoom do scanner naqueles olhinhos que brilhavam tanto, naquele sorriso de satisfeita consigo mesma, numa composição ao mesmo tempo meiga e peralta, que me deixou cheio de idéias interessantes.

Alguns tragos depois, a lindeza escaneada anuncia sua partida da festa, devido a forte sonolência provocada por certos temperos. Como assim?! No auge da festa? Protesto como os índios que tiveram sua terra invadida por uma empresa de celulose. Deu certo, ela decide ficar, mas precisa de um lugar pra descansar um pouco. Como bom anfitrião, a conduzo para um local onde ela pode cochilar sem perturbações, que por uma incrível coincidência vem a ser o meu quarto. Eu juro que, ao fazer a proposta, não estava pensando nas possibilidades que daí surgiam, minha intenção era mantê-la na festa. Mas o inconsciente tem razões que o consciente desconhece. Ao vê-la deitada, toda linda e sonolenta, sem mais ninguém no quarto, fui acometido por uma irresistível vontade de ouvir CDs que nunca achava, por mais que procurasse. Entrei várias vezes no quarto para completar essa missão, e ficava admirando-a com os outros 99% da atenção que sobravam da energia gasta com a procura das músicas perfeitas.

-Tás fazendo o quê? - Ela pergunta, despertando do seu soninho majestoso...
-Procurando uns CDs... odeio quando arrumam meu quarto, não consigo achar mais nada... tá tudo bem contigo?
-Ta tudo ótimo! - E eu tive a intuição de que as coisas podiam ficar ainda melhores. Sentei ao lado dela oferecendo um cafuné para ajudá-la na transição para o mundo dos despertos, e ficamos conversando sobre sabe Deus o quê, pois nesse momento minha mente trabalhava febrilmente nas milhares de sub-etapas... não lembro em qual delas eu estava quando ela me puxou pelo braço e a gente se beijou. Lembro que aquele beijo valia um milhão de sub-etapas se necessário fosse, e agradeci aos céus por ela ser muito mais competente na hora do bote do que eu.

De lá pra cá, os beijos se multiplicaram ao longo de quatro meses, compondo uma relação como eu nunca tive antes. Cada verso novo que eu ia lendo dela ia aumentando minha vontade de compor grandes obras em parceria. Ela é minha menina, eu sou o menino dela, e nossa sintonia é tão boa que eu me sinto como se esse entusiasmo de começo de namoro pudesse resistir ao tempo, a distâncias, ou qualquer outra dificuldade colocada por deuses brincalhões, a jogar xadrez com nossos destinos.

Hoje ela faz 27 anos, idade de morte de vários ídolos do rock, e data de meu nascimento. E é exatamente assim como eu me sinto em relação a nós dois: como se uma parte de mim, sempre de janelas fechadas, estivesse morrendo, para o nascimento de uma outra parte, que se nutre do sol que ela irradia. E o bem que isso tem me feito vai além de qualquer prosa, embora eu tente, bobo que sou, colocar esses mistérios em palavras, como um garoto tentando colocar oceanos em copos d'água. Feliz aniversário, Lili! ;)

terça-feira, novembro 04, 2008

Assombrações

Portanto, com a mesma certeza pela qual a pedra cai para a terra, o lobo faminto enterra suas presas na carne de sua vítima, alheio ao fato de que ele próprio é tanto o destruidor como o destruído." (Schopenhauer)

Aquele que luta com monstros deve acautelar-se, para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você." (Friedrich Wilhelm Nietzsche, "Além do Bem e do Mal.")


Certas frases causam arrepios à primeira leitura. Tinha por volta de 10 anos quando as li pela primeira vez, num livro de RPG chamado Vampiro: A Máscara, e são arrepios como esses que me fazem defender o jogo dos que tendem a reduzi-lo a vertentes mais mongolóides da nerdice. Fanáticos há em todo lugar, e não é difícil entender o fenômeno quando se entra em contato com a condensação de psicologia, mitologia e interpretação que o jogo proporciona, permeado de pérolas como as acima por todo o livro.

Jung (cujo nome li pela primeira vez adivinha onde?) defendia a idéia de que todos temos conosco uma sombra, que seria a parte de nós que nos causa desconforto. Ela é composta por conteúdos inconscientes, que nos levam a agir de modo diverso do que nosso ego entende como sendo razoável.

Em casos extremos, a sombra pode desencadear comportamentos violentos, contra pessoas queridas, por razões tolas. Daí a ênfase no pensamento de Jung em construir vias de acesso ao inconsciente, através de interpetações de sonhos ou outras formas de inferência, já que as gavetas que guardam taís conteúdos estão fora do alcance do nosso eu consciente.

Tais processos não eliminam a sombra. Mas compreendê-la, tornando-se ciente da suas causas e da dimensão dos estragos que pode causar, ajudar a lidar com ela de maneira mais saúdável. Ajudar a não sacrificar valores, sentimentos e relações por não conseguir resistir ao impulso da sombra de jogar tudo para o alto por um momento de ódio.

terça-feira, outubro 21, 2008

Belicosidade

Não acordei bem na última quarta-feira. Não sei se fui vítima de alguma trapaça onírica cujo registro me foi roubado ao acordar. O fato é que saí da cama com sede de destruição. Claro que minha cidadania e minha compreensão das leis do karma me impedem de causar danos realmente sérios aos que me circundam. Sacio minha “sede de sangue” deixando que minha chatice, arduamente mantida sob controle em dias normais, se eleve a níveis insuportáveis. Força desproporcional em discussões vãs, coitada da minha mãe, na carona pro trabalho. Passando a vista no jornal antes de sair de casa, me deparo com a notícia da morte do menino de 16 anos do Ibura que, segundo testemunhas locais, foi obrigado a beber loló por policiais militares. Era o que eu precisava, um alvo justo para canalizar a minha ira. Qualquer agressividade é justificável quando se combate por uma causa nobre, já diria nosso Dalai-lâmico George Bush.

Chegando ao trabalho, sou escalado para cobrir o seminário Constituição Cidadã e o Estado Transgressor, cujo mote é os 20 anos de Constituição Federal e o foco são as falhas do Estado em garantir os Direitos fundamentais previstos em lei. Cada semana tem como tema um Direito diferente, e adivinha qual era o daquela quarta-feira? Direito à Segurança Pública. A platéia recheada de policiais militares ia aumentando meu desejo de, na hora das perguntas, citar o caso do jornal e perguntar sobre medidas cabíveis para coibir esse tipo de prática por parte dos fardados. Não há nada melhor para a vaidade do que combater por uma causa nobre, que o digam meus colegas universitários engajados em certos movimentos sociais, cujo resultado concreto é muito menos uma melhora das injustiças combatidas do que um aumento no ibope com as coleguinhas.

Durante o seminário, meu dilema ia se avolumando: saciar minha sede de sangue implicaria em me expor a uma classe cuja provável indisposição eu não tenho o menor interesse em despertar. Ao mesmo tempo, a escrotidão do caso, as leituras recentes sobre os deveres do jornalista de não se calar diante das injustiças, iam agitando o Caco Barcellos dentro de mim.

Eis que, no auge de toda essa tensão, sou socorrido por uma cavalaria, que atende pelo nome de Juíz Laete Jatobá. Indiferente aos meus receios, protegido pelo seu cargo, o Juíz não deixou pedra sobre pedra ao falar das injustiças da própria Constituição, que privilegia o patrimônio privado em detrimento do público, e das distorções do Código Penal Militar, resíduo dos tempos de ditadura, que faz com que apenas 0,97% dos casos de denúncia contra policiais resultem em algum tipo de punição. Era o juiz falando, os policiais se coçando, e eu quase gozando, vendo minha “sede de sangue” ser satisfeita, com muito mais propriedade, com muito mais impacto, e sem nenhum possível efeito colateral contra mim. Ás vezes, não há nada melhor do que gozar com o pau alheio, que o digam os fanáticos por futebol ao verem seu time jogando uma partida impecável.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Chamada a cobrar

Não ouça o que ele diz.
Dez minutos são suficientes para te convencer
da verdade das loucuras dele.
Cada ilusão sustentada por um encadeamento lógico de evidências e conclusões.
Sua paranóia é contagiante, de tão verossímil.
É por isso que ele hoje vive num sanatório
e você não deveria atender essa ligação.

terça-feira, setembro 23, 2008

Haikais

Haikais são esses poeminhas de 3 versos, que eu nunca tinha me aventurado a fazer até ser inspirado por alguns presentes na revista Ragu. Por favor não culpem a revista por quaisquer deméritos dessa minha aventurança - assumo total responsabilidade por qualquer naufrágio.

Meditação Transcendental
Após quebrar a cuca com o porvir
descobriu o próximo passo
uma rede para dormir

A dura aula de Educação Física
A bola rola até os pés da criança
enquanto sua mente se embola
com as palavras que não alcança

Presente de grego
Entregou o presente com cuidado
não sabia que se tratava
de um peido engarrafado

sábado, setembro 13, 2008

Pedidos e defesas

Pedir dinheiro é uma prática com a qual eu tenho uma certa intimidade. No começo da adolescência, costumava ir aos sinais, alegando assalto e ausência de meios para voltar para casa, ou falta de recursos para realizar trabalhos de Feira de Conhecimentos, para converter a generosidade dos motoristas em subsídios para nossas farras etílicas. Eu não me orgulho, hoje, da falta de ética de então, embora a lembrança do fato me traga um sorriso nos lábios. Alguns tipos de diversão envolvem uma certa dose de sacanagem.

Agora, a situação se inverteu. Todos os dias meus trocados são suplicados pelos que carecem do que precisam, seja um prato de comida ou um copo de cachaça. Isso ocorre com tanta frequência que eu reajo como um robô, com uma resposta automática: tô sem moeda. É impossível atender a todos, e eu já aprendi a lidar com a culpa de não estar fazendo nada para ajudar a melhorar esse triste quadro.

Semana passada, no entanto, um pedido atravessou minhas defesas. Perguntando na banca de revistas qual a parada de tal ônibus, sou abordado por um cara de olhar angustiado:
-Parceiro, com licença, será que você não tem...
-Tô sem moeda - respondi, cortando o cara com meu automatismo.
-Né moeda não parceiro, é fome! Eu tô com fome, meu véio... acho que você não sabe o que é isso não, né?
Fiquei sem reação por alguns instantes, mas meu automatismo prevaleceu, ali na hora. Insisti na ausência de moedas, o cara me lançou um último olhar de frustração intensa, virou as costas e foi embora.

Caminhei atordoado para a parada de ônibus, e logo a confusão deu lugar ao arrependimento, de ter deixado minha couraça robótica tomar conta daquela situação. Chequei a carteira e vi que de fato só tinha umas poucas moedas, que mal dariam para uma pipoca, mas havia um banco perto, e eu tive vontade de correr atrás do cara para pagar-lhe um prato feito, conversar sobre as dificuldades dele, colaborar de alguma forma para ajudar um dos inúmeros personagens do triste quadro, um personagem cujos olhares e fala conseguiram furar o escudo resultante de anos de exposição diária à miséria alheia.

Mas eu demorei demais para transformar minha vontade em ação, o cara já deveria estar longe, e eu já estava em cima da hora para um compromisso... em pouco tempo meu ônibus chegou, e eu percebi que esse furo nas minhas defesas renderia apenas um texto, uma outra forma de defesa, que suaviza minha angústia, mas não a do cara que a gerou.

terça-feira, agosto 19, 2008

(Des)informação

Comentando no blog do meu chapa Pelé Costa, percebi que tava praticamente escrevendo um post. Considerando que esse humilde espaço já carece de um post há alguns dias, coloco aqui o link do espaço do chegado, onde você pode ler o texto que gerou esse comentário que posto aqui:

Hoje em dia, com a overdose de informações dos diversos meios, fica complicado achar as que produzam a "aprendizagem significativa". Ou melhor, considerando que qualquer informação tem esse potencial, nossa sensibilidade é embotada pelo excesso, gerando aquele incômodo "é tudo em vão", que você experimentou.

Um trecho de Sherlock Holmes me marcou ainda pirralho: diante do espanto do Dr Watson por ele, Holmes, não saber nada sobre o sistema solar, o detetive afirma que a mente é como um sótão: o insensato a acumula de informações desordenadamente, e quando vai procurar o que precisa, ou leva muito tempo ou não acha. Já o metódico a organiza com cuidado, só colocando dentro dela o que é importante para sua existência, sua função. "Você diz que giramos em torno do sol. Se girássemos em torno da lua, não faria a menor diferença pro meu trabalho".

Hoje a neurociência diz que a mente é elástica, quanto mais imput, mais coisa cabe. Mas permanece comigo o sentimento sherlockiano, que a maior parte do que carregamos é um peso desnecessário.

terça-feira, agosto 05, 2008

O Inferno dos Outros

Voltando do trabalho com o bom humor de quem está a poucos minutos de um delicioso almoço, vejo um cãozinho hesitante no meio da rua, na frente do carro à minha esquerda, que parou para evitar o "laticínio". O bicho ameaça entrar na minha faixa, paro o carro também, assim como o carro à minha direita. O cãozinho então desaparece da minha vista, e após alguns instantes eu e o da direita damos partida, no que ouvimos os ganidos de dor do bichinho atingido. Não sei qual de nós o acertou, nem se ele sobreviveu. Sei que o desespero do animal, correndo em círculos e gemendo alto, ficou impresso em minha mente, destruindo o bem-estar que me acompanhava na ocasião.

Viajando com um amigo, a conversa desagua no caso do primo dele, que anda deslumbrado com drogas e bandidos, matando os pais de desgosto com a impenetrável questão: onde erramos? O primo teve acesso ao melhor que a classe média pode oferecer. Na ânsia por respostas, especula-se sobre a revolta dele ao se descobrir adotado, sobre o excesso de liberdade concedido pelos pais, sobre a falta de uma atitude mais enérgica para recolocá-lo nos trilhos quando começou a descarrilhar... É imposssível medir o peso de cada fator no descaminho do primo, e "o que aconteceria se..." é uma pergunta tão inevitável quanto inútil.

Ao falar sobre o sofrimento do tio, que deixa ele próprio penalizado, meu amigo apontou que o primo não está nem aí para isso. E aqui chegamos ao que me parece o X da questão: a capacidade de se sensibilizar com a dor alheia. A imagem do cachorrinho, que tanto me abalou, provavelmente seria recebida com indiferença pelo primo.

Pesquisas recentes indicam que essa capacidade é determinada geneticamente: ao examinar o cérebro de vários psicopatas, os cientistas notaram um traço em comum: a ausência de uma substância necessária para o bom funcionamento da área cerebral responsável pela sensibilidade ao sofrimento dos outros.

É impossível medir separadamente o peso da genética e do ambiente na construção da personalidade. Nos sentimos melhor acreditando na predominância do meio, pela possibilidade de mudanças, melhoras... É doloroso aceitar que nosso precioso livre-arbítrio, ou as escolhas dos nossos pais, respondem muito menos pelo que somos do que nossos cromossomos. Principalmente quando é nosso filho quem ignora nossos ganidos e nossas corridas em círculos para tentar ajudá-lo.

terça-feira, julho 29, 2008

O Surgimento de uma Lenda

É uma linha tênue a que separa a tragédia da comédia. A notícia do último sábado tinha toda a cara de fatalidade comovente: um bebê de 9 meses é atacado por uma cobra coral, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Acontece que o nosso pequeno notável destruiu a tal linha a dentadas, literalmente: após ser picado, o cidadãozinho reagiu e matou a cobra com mordidas na cabeça! A mãe entra no quarto e se depara com o suja-fraldas rindo, com a cobra enrolada no braço. Ele teve uma intoxicação, mas foi levado ao hospital e já passa bem.

É o tipo da história que, se fosse ficção, deixaria o autor em maus lençóis, de tão inverossímel. Será o engatinhante uma reencarnação de Hércules, o semi-deus grego que também se livrou de uma cobra ainda bebê? Que outras façanhas o destino reserva para o nosso herói? Esse pirraia tem que ser acompanhado, ou melhor, ele devia ser treinado por Pai Mei, de Kill Bill, para proteger o mundo da opressão dos opressores. Se ainda existissem oráculos, saberíamos que somos testemunhas do surgimento de uma lenda. Já dá pra ver o danadinho sendo disputado à bala pelos melhores exércitos, sem permanecer fiel a nenhum, como um Aquiles do Século XXI...

O que não pode é desperdiçar esse potencial imenso numa sala de aula... nosso guerreiro diminuto tem que ser mandado o quanto antes para a Amazônia, onde seu talento será de grande serventia para os habitantes da região... com 4 anos, ele já estaria apto a ajudar o Governo no combate aos desmatadores... aos 6 já poderia libertar os reféns das Farcs... Com um treinamento adequado, dá até pra acreditar no Brasil resistindo a uma invasão dos EUA, o Capetinha valendo por exércitos, como um Rambo Tupiniquim...

Avante, Capetinha! A força já está com você! Que os Deuses guiem seu caminho, e não deixem o inimigo te comprar!