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segunda-feira, julho 21, 2008

Filmes sem orçamento

Deitado na rede, Thiago vê a fumaça do incenso subir lentamente, diminuindo o ritmo de seus pensamentos. Por vários dias uma inquietação vem crescendo em sua mente, ocupando um espaço maior do que ele gostaria que ocupasse. Praticante involuntário de longos devaneios, Thiago observa os filmes que irrompem na sua tela psíquica, trazendo cores e sabores variados... Há um certo amargor de desejo não satisfeito, que o jovem trata de minimizar editando versões alternativas dos acontecimentos reais. Na trilha sonora, Cartola sussurra: “acontece que meu coração ficou frio...”, mas as imagens mostram que o do rapaz está muito mais próximo do Equador do que dos Polos. Só segue em silêncio porque as oportunidades perdidas deixaram a sensação de que, agora, qualquer barulho é inútil.

A inquietação tem cabelos longos, olhos brilhantes, e nome musical. Thiago está apaixonado, como ela sugeriu ao vê-lo perdido em seus pensamentos, e a ele faltara, mais uma vez, a ousadia para confirmar, confessar de uma vez o que vinha tentando dizer com tímidas massagens e carinhos na nuca, os quais ela ora recebia, ora repelia, como um sinal verde que amarela quando se menos espera... Nos clipes em exibição no seu cinema interno, há o excesso de romance que tanto atrapalha... Imagens que, de tão doces, impediam uma ação mais incisiva, uma finalização, como bem nomeou um colega. Thiago esquecia que ela também é feita de carne, uma carne que dilata a pupila da macharada por onde passa, e que ele não tem a menor idéia de quando poderá tocar novamente.

A menina partiu para ver outras paisagens, como naquela música do Caetano gravada pela Calcanhoto. Há muito mundo no mundo para uma pessoa passar a vida no mesmo canto. Aqui a vida dela era composta de cenas que se repetiam sem movimentar a trama para frente. Lá não se sabe o que a aguarda, e não se pode competir como um universo inteiro de novas possibilidades. Os filmes de Thiago também mostram várias possibilidades, mas há, agora, uma grande distância separando-as da realidade. Às vezes ele suspeita que teme concretizar suas fantasias por achar que o espaço do real é insuficiente para elas... Em seu cinema, por outro lado, os filmes não têm limites de orçamento.

Ele não sabe por quanto tempo os filmes ficarão em cartaz. O incenso converteu-se em cinzas, mas seu perfume continua sugerindo enredos, improváveis e deliciosos... Com as pálpebras já pesadas pelo prolongamento das sessões, Thiago prepara-se para deixar Morfeu assumir a direção dos devaneios. Pouco antes das luzes se apagarem, o jovem escuta o que precisa ouvir para uma noite de sono tranqüilo.


***

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quarta-feira, abril 30, 2008

As Reticências de Renato

Já tinha um tempo que Renato vinha tentando escrever textos afirmativos, daqueles preto-no-branco, sem espaço para vaguezas. O problema é que vaguezas eram só o que ele tinha. Isso já ficava claro pelos cumprimentos no trabalho:

-Bom dia, doutor Renato!
-Bom dia...

Aos 40 e tantos, os colegas de Renato eram todos afirmações exclamativas: salários altos, carros do ano, parceiras gostosas. Renato também ganhava bem, mas não trocava de carro há mais de 5 anos, para irritação de sua filha adolescente:

-Me deixa um quarteirão antes, que eu não vou chegar no bar nessa banheira velha.
-Tudo bem...

A vida de Renato seguia a cartilha com primor: um bom emprego, uma esposa carinhosa, uma filha estudiosa e chateosa como a idade manda. Mas nosso doutor, por mais que tentasse, não conseguia escrever um texto afirmativo, não conseguia se afirmar diante da vida. Sobravam reticências onde faltavam conclusões:

-Querida, o leite está frio...
-Amor, eu sei que você consegue! Repita comigo: O leite está frio!
-Eu acabei de dizer, ele tá frio...
-Não! Pare com essas malditas reticências! Diga que a porcaria do leite está frio! F-R-I-O! Se aprume, ômi!
-Perdi a vontade de beber leite... - disse nosso doutor, se voltando para seu texto incompleto.

Ele estava intrigado com a própria incapacidade conclusiva. Tentou escrever frases curtas soltas, só pelo ponto final: "The book is on the table" - e quando ele colocava o ponto final, a mão tremia rapidamente e lá estavam os dois infames pontinhos ao lado. "Eu não consigo..." - e nem ao escrever a constatação de um fato conseguia evitar as malditas reticências.

Desanimado, Renato foi pensar na vida caminhando pelo bairro. Talvez fosse uma questão de dar ordens. Ordens exigem uma exclamação, no mínimo um ponto final. Mas o doutor era um cara politizado, avesso à exploração do homem pelo homem. Quem ele iria comandar? Sua esposa não se sujeitaria, sua filha muito menos. Foi aí que Renato teve um lampejo exclamativo:

-Mas é claro, um cachorro!

Dirigiu-se empolgado ao centro de adoção de cães. Logo ao entrar teve o olhar fisgado por um cãozinho que não parava de andar em círculos, numa eterna caça ao próprio rabo. Indicou-o ao vendedor, que ordenou:

-Quieto, cãozinho! - o vendedor abrira a gaiola com a coleira na mão, mas o cãozinho não parava de andar em círculos. O vendedor gritou duas, três vezes, mas o pequinês nem mudava a marcha. Renato ficou impaciente:

- Vamos lá, meu chapinha... - no terceiro instante de pausa representado pelo último pontinho, o cãozinho parou. Parou e ficou olhando para Renato, com a língua de fora, abanando o rabo, satisfeito. O doutor pegou a coleira do vendedor, o pequinês saiu da gaiola na direção de seu novo dono.

Chegando em casa com seu novo amigo, Renato correu para o seu texto. Constatou que continuava incapaz de evitar as reticências. Mas entendeu que elas podiam fazer com que sua estória parasse de andar em círculos, como fizeram com seu cãozinho, a quem resolveu chamar de Reti...

domingo, setembro 16, 2007

Brincadeira e personagem

O controle da respiracao. Quando crianca, ele gostava de brincar com as diversas maneiras do ar entrar pelos pulmoes. Tudo comecou com as aulas de natacao, e as competicoes para ver quem passava mais tempo debaixo d'agua. Era otimo se desconectar do mundo por alguns instantes, flutuando na agua e nos pensamentos que comecavam lentos e iam acelerando, a medida que o tempo sugava o oxigenio dos pulmoes. A calmaria despejada pela urgencia de ar, contagens ate 10 em menos de dois segundos, diversas vezes, ate os musculos respiratorios comecarem suas contracoes involuntarias, uma vez, duas vezes, tres vezes, e o corpo nao podia esperar mais um milesimo de segundo sequer para ser invadido pelo ar. E que ar! Nao ha inspiracao mais prazerosa do que aquela que espera o quanto pode para acontecer. Sentir o pulmao dilatando, como um saco plastico soprado com forca, e por alguns instantes nao ha mundo, nao ha mente, nao ha nada alem de ar penetrando pulmoes, produzindo um orgasmo respiratorio.

Na adolescencia, ele passou a brincar com os estados de espirito. Se podia controlar os pensamentos que por sua vez davam origem aos sentimentos, era possivel escolher o que sentir, ele lera num livro de auto-ajuda, e aquilo fez um sentido enorme. Comecou a brincar com a construcao da identidade, escolhendo caractersiticas que gostaria de incorporar atraves das escolhas do pensar/sentir, como se fosse um personagem de RPG. E durante algum tempo, ele era exatamente quem queria ser, e um monte de gente queria ser como ele, era o que ouvia de vez em quando, e aquilo trazia uma vaidade enorme. Se sempre se sentira diferente da maioria, a diferenca agora parecia ser superioridade, sentimento bem diferente do que experimentava ao ser escolhido por ultimo para os times da Educacao Fisica, poucos anos antes, mas que pareciam bem distantes dessa epoca dourada. Agora a sociabilidade e o intelecto funcionavam tao bem que a inaptidao nos esportes nao incomodava mais. Quando questionado se jogava bola, respondia que isso e coisa para atleta. "E voce e o que?" "Sou boemio!", afirmava risonho, fazendo os outros rirem junto com ele.

A vaidade trouxe outro tipo de brincadeira: provocar reacoes nas pessoas. Quando percebeu que conseguia ganhar a maior parte das discussoes, mesmo estando errado, ficou viciado no brinquedo. Logo descobriu que, as vezes, argumentos nao sao a melhor forma de levar os outros a agir ou sentir o esperado. Passou a brincar com a linguagem corporal, aprendendo o quanto um sorriso, um tom de voz, um toque ou um olhar podem produzir efeitos inalcancaveis pelo verbo.

Chegou um momento em que a brincadeira ficou seria. Parte do processo era antecipar as reacoes das pessoas, ler o que estava sendo comunicado nao-verbalmente. Um dia essa etapa passou a ter muito mais a ver com a imaginacao dele do que com a realidade, fenomeno tambem conhecido como paranoia. Comecava a desconstrucao do personagem, a identidade desejada dando lugar a uma nova pessoa, algumas caracteristicas desaparecendo, outras retornando. Era um processo do qual nao tinha controle, com o qual nao podia brincar, e que levou um longo tempo para se habituar com seus efeitos.

Hoje, ele sente saudades do seu personagem, e de vez em quando tenta reaver algumas de suas qualidades, quase sempre sem muito sucesso. Mas vive bem melhor agora, moderando a vaidade e as brincadeiras. Identidade, afinal, e muito mais descoberta do que construcao. E personagens funcionam melhor na ficcao.

quinta-feira, março 15, 2007

Tempo e cigarros

Astolfo e Olarico caminhavam sem destino. Era um bom programa de fim de tarde; bairro tranquilo, poucos carros, alguma brisa. Astolfo parara de fumar há alguns meses; Olarico continuava sem perder a oportunidade de soltar fumaça com gracinhas.

- Desde que tu parou de fumar que tás assim, nessa apatia de anta paralítica.

- Claro, lascar meu organismo pra nada me dava uma energia indescritível.

Olarico tragou forte, e fez aquela cara de sabedor dos grandes segredos, que todo fumante faz:

- Essa é a questão, você não tava nem aí se dentinho ia amarelar, ou se pulmão ia ficar pretinho, nem pensava no câncer ou no efisema. Você era um fumante despreocupado e divertido, agora é um ex-fumante preocupado e apático. Que progresso, heim?

Era por coisas como essa que Astolfo tinha grande consideração por Olarico, o rei dos contrapontos divertidos.

- Minha apatia não tem nada a ver com cigarro, meu caro. Tem a ver com onde estou, e onde deveria estar, e não saber onde quero estar.

Olarico deu outra profunda tragada, prenúncio de outra "grande verdade", mas calou-se. No fundo se sentia como o amigo, embora não curtisse muito conversar sobre isso. Preferia pensar a respeito sozinho, com tragadas profundas, mas sem grandes verdades.

Astolfo continuou: - Sabe quando você olha para quem você era há oito anos, e sente vontade de voltar a ser aquele cara? Isso é normal acontecer - quando se tem cinquenta, pensando nos vinte e poucos.

- Eu diria que há oito anos você não tava nem aí se era normal ou não. Aliás, a maior parte das pessoas diria que não.

- É, eu sei, mas não é esse o ponto. O lance é o entusiasmo, a paixão pela vida, que era imensa há oito anos, e hoje mal levanta uma caneta. Não deveria ser assim. Era para eu estar no auge agora, nos meus vinte e poucos.

- Talvez você tenha vivido seus vinte e poucos há oito anos, e agora se encontre em plena crise da meia idade.

- E o que me aguarda depois disso?

Olarico acendeu outro cigarro: - Sei lá. A cova?

- Pra essa você vai na frente, com sua chaminé.

- É melhor queimar do que apagar aos poucos.

- Última frase do bilhete suicida de Kurt Cobain.

Olarico deu outra tragada forte: - É, mas a frase é de uma música de Neil Young, que continua vivo e cantante.

- Eu sei disso... Há oito anos que eu sei disso.

- E há oito anos que eu peguei seu Nevermind emprestado, sem sua permissão, e nunca devolvi.

- Disso eu não sabia.

- Pois é. Tem coisas que é melhor não saber.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Janelas Fechadas

-Cara, você precisa parar com isso.

Arthur gostava de dar conselhos. E desgostava de ver Tiago assim, como quem nada quer, desagradando com seu silêncio. Tiago tinha a mania de fechar as janelas, apagar as luzes e passar longos momentos no escuro.

-Isso o quê? - Tiago pergunta, ainda de janelas fechadas.

-Essa sua mania de se enterrar em seus devaneios e ficar cego e surdo para o mundo.

-Ah, é verdade... eu devia parar com isso. - responde Tiago, abrindo as janelas à contragosto.

-Você já parou pra pensar na quantidade de coisas que você perde com isso? Você sabe que o seu silêncio ajudou um bocado as meninas a irem embora mais cedo, né ?

-Por que, você acha impossível elas terem de estudar pra prova de amanhã ?

-Prova de amanhã, Tiago?! A sugestão de que nós quatro fôssemos dar uma volta na praia, você nem ouviu, né ?

-Volta na praia ? Acho que não...

-Quem sugeriu foi aquela menina, que passou os últimos 40 minutos na sua frente, esperando alguma atitude sua. Você ignorar a sugestão era o que faltava para ela lembrar de repente dessa prova e ir embora com a amiga.

-Ah, bem que eu tava achando estranho essa sua repentina preocupação comigo... você só tá aborrecido porque o que esperava não aconteceu.

-E você, aonde espera chegar desse jeito ? Vai deixar o tempo passar na janela, desperdiçar as oportunidades que a vida te oferece, pra ficar sonhando acordado, calado, isolado ? Se ao menos você compartilhasse seus sonhos...

Tiago não respondeu. Sabia que Arthur tinha razão. Ele próprio já pensara bastante no assunto, nos romances que deixou de ter... aquela menina mexia com ele, e ele a deixou ir embora... como tantas vezes já fizera. Compartilhar sonhos... será que ela gostaria de ouvir ?

-"Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém..." - Arthur cantava, na intenção de provocar o amigo. Mas Tiago já fechara as janelas novamente, apesar e por causa do verso. Ele já saíra de dentro de si, e foi tanta felicidade... que logo logo desmoronou. Um pássaro que cai no melhor do seu primeiro vôo, e passa a se defender do voar. Voa baixinho, quase pulos mais demorados, e morre de saudade de quando voou de verdade.

-Deu 27 reais, Tiago. Tu tem trocado ?

Teria trocado... algumas cervejas e boa conversa por um pouco de alívio para solidão.