segunda-feira, outubro 09, 2006

O Opositor

Carrego comigo um desconhecido.
Ou melhor, um conhecido de quem sei pouco.
Ele gosta de sombras, eu prefiro não jogar luz.

Algumas vezes ele me diz o que fazer
Noutras, ele mesmo faz no meu lugar
Ele é metade o que desejo ser... metade o que tenho medo de me tornar.

É difícil encará-lo de frente
compreender suas razões
e poder agir em desacordo.

Quando o olho, ele se aproxima do meu olhar...
chega tão perto que deixo de vê-lo.
E o que nos separa desaparece.

Sei mais sobre ele do que penso;
pensar sobre ele que é difícil.
Louvado saber que não vem do pensar.

Sabendo-me fraco diante dele
busco outra maneira de me livrar
do seu peso a me afastar das metas.

domingo, setembro 24, 2006

Desorientação Universitária

Uma reportagem de Abril da Carta Capital mostra que alunos da Unicamp, saídos de escolas públicas, tiveram rendimento melhor que seus colegas saídos de escolas particulares. É bem curioso: no vestibular, em apenas 5 dos cursos os alunos de escola pública conseguiram maior pontuação, em média, que os de escolas particulares. Uma vez na universidade, terminado o primeiro semestre, os de escola pública já tinham rendimento médio maior que os demais em 29 cursos.

"Pouca grana, muita gana", é o acertado título da reportagem. De onde vem essa gana, e por que ela é escassa entre os mais favorecidos ? Para alguns, a universidade é o pedaço de madeira com o qual vão construir um barco capaz de lhes tirar do córrego das privações e levá-los ao mar da prosperidade, através do rio da ascensão social. Outros, já nascidos no mar, empurram o pedaço de madeira com a barriga, ou o usam para surfar as divertidas ondas que o mar oferece.

Inúmeras vezes, nas universidades, tenho a sensação de estar perdendo tempo. A aula vazia, a presença necessária, o aprendizado inexistente. É difícil dizer até onde é incompetência do professor ou desinteresse do aluno, um alimenta o outro. Imagino um desses bons alunos de escola pública, no meu lugar, como agiria. Provavelmente não teria deixado de entregar o resumo da última quinta-feira. Talvez, no lugar do tédio, sentisse aquela curiosidade instigante, a tal fome de saber; não é necessário nenhum professor brilhante para acender essa chama nele - e ela resiste à mediocridade docente. Admiro esse meu colega, queria ser como ele. Por enquanto, sou mais um dos que não sabem o que fazer com o pedaço de madeira, e que desaprenderam a manter a chama acesa em algum momento do ensino médio.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Cenosidade

Recife ferve, e o vapor é um barato. O povo das artes agita, instiga e promove a tão falada cena da cidade. Na música, em especial, a euforia é grande. E tem razão de ser, já que várias bandas estão dando certo, no melhor sentido da expressão. A cena acena, sorridente, para quem quiser ver, e com internet é possível ser vista pelo mundo. E quem faz a cena são os cenosos.

O rótulo vem com uma pitadinha de fel para o reino da alegria. Quem usa o termo não faz parte da cena, e a frustração disso é que criou o rótulo, diriam os cenosos, com boas chances de acertar. Dá pra entender: a vida cenosa é deslumbrante, ao menos para quem está de fora. Do lado dos cenosos, a chinfra também não é pouca: é difícil ver um deles apagado, brilham o tempo todo, encantam lindas mulheres... a cenosidade é charme forte.

Claro que isso é prato cheio para os invejosos de plantão criticarem os cenosos sob os mais variados pretextos. A cena ganha sua anti-cena, que tenta disfarçar pela crítica a vontade de ser cena também. Do outro lado, há os defensores da cena, que buscam fazer parte dela através de elogios também carentes de critério. O diálogo entre os dois lados é divertidíssimo. Os interessados podem colher na comunidade do Orkut "Eu odeio Mombojó" (http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1193883) uma ótima amostra dessa dialética da cenosidade.

Contra ou a favor, a cena se fortalece com os que se importam com ela. E o fortalecimento da cena é do interesse não só dos cenosos ou aspirantes, mas de todos que apreciam o agito por ela promovido. Com ou sem chinfra, é ótimo poder ouvir as pedras do samba, acompanhadas pelas lindezas dançantes. Mesmo que, no final, elas só queiram dançar com eles (cenosos) e dizer que é sem compromisso... vida de cenoso é boa demais!

segunda-feira, setembro 04, 2006

Janelas Fechadas

-Cara, você precisa parar com isso.

Arthur gostava de dar conselhos. E desgostava de ver Tiago assim, como quem nada quer, desagradando com seu silêncio. Tiago tinha a mania de fechar as janelas, apagar as luzes e passar longos momentos no escuro.

-Isso o quê? - Tiago pergunta, ainda de janelas fechadas.

-Essa sua mania de se enterrar em seus devaneios e ficar cego e surdo para o mundo.

-Ah, é verdade... eu devia parar com isso. - responde Tiago, abrindo as janelas à contragosto.

-Você já parou pra pensar na quantidade de coisas que você perde com isso? Você sabe que o seu silêncio ajudou um bocado as meninas a irem embora mais cedo, né ?

-Por que, você acha impossível elas terem de estudar pra prova de amanhã ?

-Prova de amanhã, Tiago?! A sugestão de que nós quatro fôssemos dar uma volta na praia, você nem ouviu, né ?

-Volta na praia ? Acho que não...

-Quem sugeriu foi aquela menina, que passou os últimos 40 minutos na sua frente, esperando alguma atitude sua. Você ignorar a sugestão era o que faltava para ela lembrar de repente dessa prova e ir embora com a amiga.

-Ah, bem que eu tava achando estranho essa sua repentina preocupação comigo... você só tá aborrecido porque o que esperava não aconteceu.

-E você, aonde espera chegar desse jeito ? Vai deixar o tempo passar na janela, desperdiçar as oportunidades que a vida te oferece, pra ficar sonhando acordado, calado, isolado ? Se ao menos você compartilhasse seus sonhos...

Tiago não respondeu. Sabia que Arthur tinha razão. Ele próprio já pensara bastante no assunto, nos romances que deixou de ter... aquela menina mexia com ele, e ele a deixou ir embora... como tantas vezes já fizera. Compartilhar sonhos... será que ela gostaria de ouvir ?

-"Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém..." - Arthur cantava, na intenção de provocar o amigo. Mas Tiago já fechara as janelas novamente, apesar e por causa do verso. Ele já saíra de dentro de si, e foi tanta felicidade... que logo logo desmoronou. Um pássaro que cai no melhor do seu primeiro vôo, e passa a se defender do voar. Voa baixinho, quase pulos mais demorados, e morre de saudade de quando voou de verdade.

-Deu 27 reais, Tiago. Tu tem trocado ?

Teria trocado... algumas cervejas e boa conversa por um pouco de alívio para solidão.

terça-feira, agosto 22, 2006

Liberdade

"A liberdade é algo tão importante que deve ser racionada". A frase de Lênin aponta para o autoritarismo. Seus extremos, na forma de ditaduras truculentas, tiveram como resposta a luta pela liberdade. Tempos românticos, artistas agigantavam-se para lutar contra o monstro da opressão. Foi grande a festa, até Deus veio olhar "a evolução da liberdade até o dia clarear", quando a ditadura caiu. A liberdade, agora, era um direito inegociável, lutar por ela tornou-se desnecessário. O combate já terminara, com resultado desejado.

O que não se desejava eram os efeitos colaterais da ausência de lutas pela liberdade. Se não se batalha para conquistar, a conquista não tem valor. Muitos dos nascidos após a queda do monstro foram criados com muita liberdade e pouca racionalização. Não fazer isso era afinar-se com o autoritarismo que tanto se quis derrubar.

Em nome da liberdade, a permissividade tomou conta. A geração que já nasceu com seu monstro derrubado carrega um vazio, e tenta preenchê-lo "erguendo estranhas catedrais". Não reconhecem batalhas além das do prazer imediato; as outras são fardos a serem suportados, se muito.

É preciso meditar sobre a frase de Lênin. Talvez ela não aponte apenas para o autoritarismo extremo que desejamos manter no passado. Talvez ela aponte para uma disciplina interna, onde o indivíduo reconhece seus monstros e assume a luta contra eles. Porque a vida sem batalha se transforma em espaços de tédio que os pincéis do entretenimento tentam preencher, mas não conseguem.

domingo, agosto 13, 2006

Dança Furtiva

O que não foi dito.
Imaginado, ponderado ficou
na suspensão das hipóteses, e seus prováveis efeitos...
tão bons de se imaginar, o ego a inflar sem motivos reais...
derrapando nos sinais, a indicar o que não admitirias.

Nem eu admito, tão estranho que seria
o que imagino com ardor de desejo reprimido.
desprezando admissões, nossos olhos se provocam
dizem claro o que a boca insiste em disfarçar
e me levam a preparar frases belas que não direi.

Nada dito no sentido que importa
importância que é melhor fingir não haver
para além do fingimento, o sentido dança furtivo
imaginando o prazer de ser descoberto
e constatando que descoberto não pode ser.

terça-feira, agosto 08, 2006

Ansiedade de Desempenho

Algumas pessoas não se sentem bem se não estiverem no controle. Outras precisam brilhar todo tempo. “Holofotes, por favor, não me deixem ficar triste”. Existem os que desabam se não fazem tudo da melhor maneira possível. E há os que não se importam se algo não está da melhor maneira, mas se condenam com torturas paralisantes se algo está abaixo do regular.

A preocupação com o desempenho tanto pode melhorá-lo quanto piorá-lo. Cada atividade exige determinado equilíbrio entre estresse e relaxamento, para correr bem.
Terminado o ato, com resultado abaixo do esperado, começa a projeção do que estava errado, para uma melhora futura. Processo saudável, evolutivo, mas angustiante para aquelas pessoas que sofrem com a ansiedade de desempenho. Cada erro é uma culpa, um espaço onde se falhou ao ocupar. Cada culpa se dilata durante a projeção, com a cena do que deveria ter sido feito. “Isso é uma bobagem, o que passou, passou; deve-se deixar ir embora”, nos recomenda o bom-senso. Mas a mente de muitos parece programada para não atender às recomendações.

Pessoas com ansiedade de desempenho são receosas em sair de seu território habitual. Novidade e erro costumam andar juntos. Por isso preferem se dedicar a poucas atividades, as que já dominam. E sofrem com a vontade de fazer o que não sabem, reprimida pelo medo da frustração decorrente do desempenho ruim.

Lembro que, quando criança, sempre ficava de fora quando a turma jogava futebol. Lembro que a coordenadora da escola, observando meu isolamento, me incentivou a participar: “Depois, quando a gente cresce, quer voltar a esses momentos de criança. Se prive não...”. Dos momentos que não me privei, muitos nem lembro mais, e os que lembro me confortam com a sensação de algo preenchido. Já o desconforto do vazio dos momentos em que me privei, esse não me deixa esquecer. Daí a necessidade de se marcar o futebol com meus amigos perna-de-pau. Porque minha ansiedade de desempenho não me deixa jogar com quem manda bem, e por querer tentar, simbolicamente, preencher a lacuna do passado no presente. Preferencialmente, marcando o gol da vitória que vai impressionar a menina bonita a olhar a partida.

segunda-feira, julho 31, 2006

O poço encantado

Tão poético era quando mais moço
aquele rapaz de rosto sombrio
andava como se encontrado o poço
encantado desejo da palavra sutil

Tão bela a menina do primeiro verso
que o ego transbordava feito navio
quando se rompe a proteção do imerso
e o mar invade tudo que era vazio

Tão rápido a poesia se transformou
o mar virou sertão que preferiu
o cinismo ao amor que não vingou
amar sempre foi um ato imbecil

Tão demorada a ferida sarou
sertão irrigado por estreito rio
estreita também a poesia ficou
o poço encantado na areia sumiu.

quinta-feira, julho 27, 2006

A soberba humildade

Soberba, um dos sete pecados capitais. Segundo São Tomás de Aquino, o mais problemático, pois impede que se reconheça todos os outros. O elemento que “se acha” muito se empenha pouco em melhorar. Afinal, não há muito o que melhorar, ele já é “O” cara...

Alguns consideram a humildade incompatível com uma auto-estima elevada. Se sua vida vai bem nas diversas áreas que lhe importam, não lhe faltam motivos para mandar a humildade para bem longe, certo ? A soberba é divertida, e a humildade é apenas o refúgio daqueles que não são tão bons quanto você.

Quando nos consideramos de fato bons em algo, a soberba nos tira para dançar, assim como nas vitórias importantes. Poucos recusam o convite. Recusar por quê, se a dança é instigante, embriaga o ego, faz sentir-se importante? Podemos até aparentar modéstia, porque uma arrogância descarada atrai antipatia, enquanto dizemos para nós mesmos como somos os tais.

Há, porém, uma razão soberba para manter a soberba afastada: ela atrai infortúnio. A vida logo procura ensinar aos arrogantes que salto alto não é bom para trilhar seus caminhos. Quantas trajetórias promissoras não foram desperdiçadas pelo deslumbramento? Isso fica evidente em competições. Já observei que o momento em que relaxo por achar que a partida está ganha muitas vezes é seguido de uma virada inesperada. Lidar com derrotas, então, é um problema para os “assoberbados”. Eles procuram, com ansiedade e frustração, uma razão para o seu desempenho pior, porque não aceitam que o desempenho adversário tenha sido melhor por méritos do oponente. Afinal, o oponente não pode ter mais méritos do que eles próprios.

“O sábio abandona a obra assim que ela se termina”. Desapego do resultado. Manter a serenidade quando algo dá muito errado já não é fácil, mas o mais complicado é manter a serenidade quando algo dá muito certo. E é nessa serenidade perdida que floresce o infortúnio, adubado pela arrogância que descuida do que trouxe o bom resultado. A menina está rindo, gostando do papo. No momento em que você “se acha” por isso, o papo começa a declinar, o foco não mais está onde deveria.

Este texto, por exemplo, teria ficado muito melhor se eu não tivesse “me achado” pelo jogo de palavras do título.

quinta-feira, julho 20, 2006

A voz de dentro

A voz de dentro não fala muito alto;
não é aquela que toca na sua mente
o trecho das canções preferidas
ou as conversas de fim de tarde.
A voz de dentro não gosta de chamar atenção.
fala pra quem escuta, sem repetir ou aumentar o tom
o oposto daquela voz que toca na sua mente.
Sempre gritando, clamando por atenção... e consegue
que a voz de dentro se cale, por falta de atenção
ou a falta de atenção nos impede de ouvir o seu falar ?

Quando conseguimos escutar a voz de dentro
convém prestar atenção;
pela raridade do momento
pela tranquilidade da sensação.
Não há tédio quando se a escuta;
tédio é coisa daquela voz
que faz tudo que pode na luta
para afastar o silêncio de nós
porque a ausência de som a apavora.
Mas é só nele que se encontra o remédio
oferecido por aquela senhora
que não fala muito alto, não gosta de chamar atenção.

sexta-feira, julho 14, 2006

Brainstorm

Consciência, cara ? Consciência é uma loucura. Neste momento escrevo sem o crivo da censura, o que vem à mente direto para o papel, o chamado Brainstorm. O desafio é não parar o deslizar da caneta sobre o papel. O sentido é prejudicado, mas o tédio é afastado e eu me satisfaço. Já li não lembro onde que Brainstorm é bom para organizar e liberar o fluxo de idéias. Me ocorre que o funcionamento da mente não é lógico, ou melhor, não se reduz ao lógico. Talvez um grande fator de insatisfação mental seja o esforço de reduzir a mente ao lógico. Nossa irracionalidade se revolta com isso, e puxa os cordões de nossos instintos, fazendo-nos pular de um lado pro outro, como marionetes-baratas-tontas. Será ? Eu acho que sim. Agora por exemplo, que finalizei essa idéia, não me vem a mente um tópico relacionado, como seria de se esperar se a mente fosse só lógica. O que me vem a mente é um verso do GOG, que me arrepia: "Moleque um momento, ainda há tempo se conserta/Moleque, um momento, fique atento ouça o alerta/As notícias da favela não são nada animadoras/Há guerra todo, mais cruel devastadora". E na sequência, a mente informa que tal verso foi para driblar a ausência de pensamento do momento. E que tal ausência vem da vontade de se pensar algo interessante, inteligente, LÓGICO. Então voltamos à idéia anterior. Talvez a mente funcione em círculos, ou em pentágonos, hexágonos. Hexa ? Vexame, decepção, cabeçada de Zidane no italiano mamão. Mamão uma ova, o cara foi que garantiu o tetra. Feio que doeu, como costuma ser o futebol da Itália, mas o tetra de 94 também não foi belo. Talvez seja destino, o tetra de todos ser medíocre. Mas a comemoração independe da beleza do futebol. A aula está acabando, boa hora pra finalizar o brainstorm. Na próxima vou cronometrar os minutos, e vender a idéia como solução milagrosa para estudantes tediosos. Vou ficar rico.

segunda-feira, junho 19, 2006

Espantando o Tédio

Escrever para espantar o tédio. Escrever para atingir um estado alterado de consciência. Diferente daqueles que se alcança por atalhos. Trata-se de uma atividade que envolve esforço, e, portanto, benefícios mais duradouros. Uma maneira sadia de dialogar consigo mesmo, trazendo para superfície conteúdos imersos no inconsciente.

Deixar a linguagem em forma melhora a qualidade do pensamento. Seria razão suficiente para dedicar algum tempo à leitura e à escrita, se não houvessem milhares de distrações, hipnotizantes e estéreis. Tornamo-nos reféns de nossas maneiras de fugir do tédio. E a maioria delas não nos acrescenta nada.

A loucura do mundo X o desenvolvimento espiritual. Para um monge tibetano, que nada faz além de meditar, a iluminação é meta árdua e incerta. Para nós, do caos urbano, iluminação só se for a dos postes. Queria ver o Dalai Lama cultivando a serenidade e o amor ao próximo com 15 carros buzinando no seus tímpanos e um possível assaltante se aproximando suspeitamente no sinal fechado. Tudo bem que existe uma consciência que media a resposta ao estímulo. Mas tem estímulo que chega pra consciência e diz: "Ó, tu fica aí, quietinha, sem encher o saco da resposta, que vai sair do jeito que EU quero". Se assim não fosse, não haveria condicionamento.

Lembrei do verso de Drummond: "Escrever, verbo que atrapalha a conjugação de tantos outros verbos". Será que eu me tornarei um ser humano melhor quando terminar esse texto ? E os pratos que não lavei, o assunto que não estudei, a corrida que não dei e o amor que não declarei ? Ora, que preocupação ridícula. Ninguém age para se tornar um ser humano melhor. Ou melhor, ninguém pode medir o impacto do que deixou de fazer na melhoria do seu ser. A velha questão: até onde é possível modificar, pela vontade, o próprio ser ? Responder, muitos já o fizeram, de Platão ao Dalai Lama, passando por Freud e pelo slogan da Nike. Difícil é demonstrar a possibilidade. Eu, que nem respondo nem demonstro, e na falta de final melhor para esse texto, desejo a todos um ótimo jogo do Brasil, com 3 gols de El Gordito, para tostar a língua de seus detratores. Maneira garantida de espantar o tédio.

terça-feira, maio 30, 2006

Considerações sem Foco

Paixões deformam
são lentes amadas, odiadas
a editar o mundo.

Ausência de paixões
pode, um dia, vir a ser o Nirvana
quase sempre é só vazio.

Ego = sofrimento
não conseguimos viver sem egos
o mundo entraria em colapso.

Ditadura do prazer
instantes de satisfação
por períodos de inquietude.

Considerações sem foco
exercício estéril
fortalece o ego

que já inflou, já explodiu e torna a inflar
que a sabedoria manda esvaziar
e a vaidade não mede esforços em recompor.

sábado, maio 27, 2006

Manutenção

A conquista é estimulante. Qualquer conquista. Emprego, afeto, status, mercado, poder. Há um objetivo em mente, estratégias para alcançá-lo. Enfim, chega-se aonde quer. E agora? Agora entra em cena a tal da Manutenção, sempre a exigir uma contribuição, tal qual um fiscal da Receita Federal. Bastam algumas faltas com ela para todas as conquistas irem por água abaixo. Ela não tem muita paciência para caloteiros.

Os motivos do calote não importam muito, porque dona Manutenção parte da idéia que sempre há algo que você pode fazer para pagar o imposto que ela cobra. Se não o fez, é porque não era importante o suficiente. Se não é importante o suficiente, não há motivos para manter.
Não dá pra tirar a razão dela. Em última análise, é isso mesmo. Alguns percebem isso logo, e agem de acordo com as regras da Dona. Há, porém, os que têm maior obediência a uma outra senhora, chamada Liberdade. Tão permissiva quanto Manutenção é intransigente, ela está sempre a indicar caminhos diferentes, que muitas vezes passam longe dos pedágios de Manutenção. As pessoas com preferência por Dona Liberdade acabam castigadas por Dona Manutenção, com a perda de suas conquistas.

É uma maneira mais excitante de se viver, diriam alguns. O movimento de perda e recuperação das conquistas parece bem mais aventureiro do que a segurança da conquista que persiste no tempo, protegida por Manutenção. Mais excitante e mais doloroso, por ter que enfrentar a dor da perda das conquistas diversas vezes.

Pesquisas apontam que muito de nossa personalidade depende mais dos genes do que das experiências. Deve haver um cromossomo responsável pela preferência entre Manutenção e Liberdade. É a desculpa perfeita para quem não quer mudar.

Para os que querem mudar, o carimbo genético tem quer se desconsiderado. Afinal, a imagem que fazemos de algo tem muito mais efeito sobre nós do que o algo em si. Se acho Genética uma bobagem, não tenho porque acreditar na tirania de um cromossomo. Se não acredito, não existe para mim. Logo, a mudança é possível.

Da possibilidade à concretização, vai um longo caminho. A ser preenchido com estratégias, para alcançar o objetivo em mente. Chegando aonde se quer, impossível não perguntar: e agora ? Talvez seja o caso de relembrar os caminhos percorridos, e honestamente agradecer a oportunidade da viagem.

segunda-feira, maio 22, 2006

Seminário de Rádio e Tv

Os ataques do PCC em São Paulo mostram o que séculos de injustiças sociais podem produzir. Revelam a fragilidade do estado, incapaz de lidar com terrorismo bem articulado. Confirmam o poder desse estado paralelo, que dita as leis dos presídios e favelas do Brasil.
Aconteceu em São Paulo, mas poderia ter ocorrido em várias capitais. Talvez ocorra muito em breve. E o mais assustador é saber que a situação só tende a piorar. Achar que mais policiais e penitenciárias resolverão o problema é como achar que o combate aos sintomas pode curar a doença. Essa hemorragia não pode ser estancada por PMs, Civis, Federais ou Militares. A ferida é bem mais grave, e só pode ser curada com a melhoria das condições sociais.
Não existe cura a curto prazo para tal doença. E são poucos os sinais de avanço para a cura a longo prazo. Talvez seja preciso uma guerra civil, com milhares de mortos por todo o país. Mas é melhor acreditar que eventos como o de São Paulo ajudem a sociedade a acordar. E começar a tratar a doença de fato. A sociedade brasileira precisa de um tratamento de choque. Bom seria se documentários como Meninos do Tráfico chocassem o suficiente para levar à ação. Infelizmente, só olharemos para o monstro que criamos quando ele ameaçar nos engolir.

segunda-feira, maio 01, 2006

Sentidos

Desejo:
Uma tensão que pede relaxamento.
Em alguns, exige;
Noutros, ordena.

Alma:
Um pedido de renúncia ao desejo.
Sacarifício sem tortura;
Cultivo do desapego.

Mundo:
Um lugar onde alma não importa.
Sonhos de consumo;
Indústrias de sentido.

Sentido:
Bússola de qualquer um.
Um enorme ponteiro material,
Um minúsculo ponteiro espiritual:

rachaduras de angustia constante;
ilusões de satisfação.

quinta-feira, abril 20, 2006

Falcão: meninos do tráfico

Um desenho traçado com canetas roubadas
por um menino nascido no berço da miséria
onde as trajetórias já estão tragicamente traçadas
e as alternativas são desprezadas, ingênuas idéias

O menino pintara um homem em combustão
castigado por transgredir a lei do silêncio
os dentes ainda moles rangeram ante o suplício
o fogo levava embora o seu irmão

A crueldade das imagens parece ficção
Realidade inverossímil para quem dela não faz parte
Ao choque da sociedade deveria suceder o debate
que conjugasse ações e soluções para a questão

Mas um monstro alimentado por décadas
não se mata em um único dia
por mais certeiras que sejam as setas

Enquanto isso, mais canetas serão roubadas
mais vidas serão desperdiçadas
na tragédia em que todo dia um novo ator estréia.

terça-feira, abril 04, 2006

Brincadeira Boa

O que resta dizer ?
O que já foi dito, de forma diferente ?
Um ajuste no passado, para enganar no presente ?
Quantos não disseram antes, e melhor ?
Questões que separam a mão da caneta.

Qual a razão desse uso do tempo ?
Vaidade, elogios dispersos ?
Talvez ser lembrado por meia dúzia de intelectos ?
Desenvolvimento pessoal, estruturar idéias
talvez já escritas em outra língua, outro país, outra época ?

A consciência precisa brincar
Escrever é brincadeira boa
E isso basta.

domingo, março 19, 2006

Malandragem e Responsabilidade

"Se eu precisar algum dia, de ir pro batente, não sei o que será... pois vivo na malandragem, e vida melhor, não há!" Este sambinha me vem à mente nos momentos que reservo para ficar à toa, na sinuca ou no dominó, acompanhado de uma loira gelada e dos colegas de ócio relaxante. "Estes momentos são essenciais para a manutenção do equilíbrio psicológico do cidadão", já cansei de dizer isso, para os outros e para minha consciência, quando há tantas tarefas por fazer e estou altamente atarefado fazendo nada. Nada de responsáel, melhor dizendo, chamar de "nada" algo a que dedico tanto tempo prazeroso seria uma injustiça. Durante muito tempo, busquei o ponto de equilíbrio entre a malandragem e a responsabilidade. Os mais chatos diriam que se trata de equilibrar água com fogo, ou, pra citar outro sambinha, que "o sol não pode viver perto da lua". Mas o que é a vida, além de um equilíbrio entre forças antagônicas ? Equilíbrio idealmente falando, porque o que mais ocorre é um dilema, seguido de exageros para um lado ou outro. E, de fato, se você quiser ser excepcional em algo, terá que optar por ele em detrimento do seu oposto.

Para quem tem ambições mais modestas, a combinação entre os opostos torna-se mais viável. Ainda difícil, porém, já que é bem fácil perder o referencial de equilíbrio, e escorregar além da conta para um dos lados. O conhecimento popular afirma que "tem hora pra tudo", basta saber administrar o tempo adequadamente. Será ? Mesmo as pessoas bastante organizadas, que encontram tempo para muitas atividades diferentes, provavelmente sentem falta da imprevisibilidade da desorganização, das agradáveis surpresas de caminhar ao sabor do vento, algo que uma agenda rígida demais não pode proporcionar.

Talvez o calor da malandragem transforme a água da responsabilidade em vapor. Talvez o vapor só vire chuva quando a vida assim exige, naqueles momentos em que paramos para repensar o caminho que está sendo trilhado. Ou talvez tenhamos um São Pedro dentro de nós, capaz de combinar o calor e a chuva com sabedoria. Talvez ele esteja dormindo, e não acorde com nosso chamado de leitura de manuais de fórmulas de como agir. Talvez não haja fórmula para acordá-lo, e cada um tenha de resolver sozinho esta equação do 7° grau, chegando a diversas soluções. E talvez a solução seja a permanente revisão da equação, aprimorando-a para os vários momentos da vida.

domingo, março 05, 2006

Quinta-feira pós carnaval, aula de literatura portuguesa. A professora tinha pedido para procurar cantigas de amor, de escárnio, de amigo, de mal-dizer... estamos estudando o Trovadorismo. Eu, como bom folião, logicamente nem toquei em livros durante o carnaval. Eis que ela começa a chamar um por um, perguntando sobre a pesquisa:
- E você, Bernardo, o que procurou ?
- Bem professora, devo reconhecer que não procurei nada, porque priorizei o carnaval em detrimento dos compromissos acadêmicos.
(risadas abafadas se espalham pela sala)
- Ah é, né ? Pois então você vai fazer uma cantiga de amor, tendo como tema o carnaval, para próxima aula.
Que maravilha! Fazer a cantiga nem foi problema, a bronca foi ir pra ufpe num sábado, pra ter aula das 7 às 13h, já derrubado pela virose pós carnaval. Mas consegui, heroicamente, honrar meu compromisso.
Eis a cantiga:

Nada além de um devaneio

Tantas ladeiras para fugires do meu olhar
agitado como um frevo, a te buscar na multidão
O calor não incomoda quando noto a tua mão
empunhando o estandarte do bloco que está a tocar
"Você diz que ela é bela, ela é bela sim senhor..."
Tão bela que não faz idéia de como é grande o meu amor
E continua, majestosa, com seus divinos passos a me maltratar

Deus, como queria, a ti na dança me igualar
Fazer o povo parar para acompanhar nosso gingado
Faria tudo para me livrar destas pernas de desengonçado
E contigo arrancar aplausos e assobios da multidão a gritar
Talvez assim olharias pra mim com algum desejo...
E quem sabe, algum dos passos terminaria num beijo
E Olinda ficaria pequena, para tanta alegria abrigar

Sei, no entanto, que isso nunca passará de um devaneio
Me contento em te admirar com o fascínio que teus encantos exigem
Trato a ferida em meu peito com algumas bebidas que dão vertigem
Espero você terminar, e à casa retornar em seu tranquilo passeio
Também eu retorno ao lar, cambaleando pelo álcool e pelo vazio
que tua ausência me traz à alma, soprando-lhe um vento cortante e frio
que suportarei até minha morte, ou até tua morte, o que vier primeiro
Mas disso, ó minha amada, jamais saberás; não te trarei nenhum receio