O show do The Playboys, na última noite do 15º Abril pro Rock, foi o destaque negativo das bandas pernambucanas no festival. Essa é a opinião do jornalista Renato L, impressa na contracapa do Viver, caderno cultural do Diário de Pernambuco. “A banda precisa tornar corrosivo seu humor “colegial”, quase inofensivo, para não passar outros 10 anos longe do Abril”, afirmou o parceiro de Chico Science e Fred 04 na elaboração do manifesto “Caranguejo com Cérebro”, marco inicial do movimento Manguebeat.
terça-feira, abril 17, 2007
A graça do The Playboys
sábado, abril 14, 2007
Futebol no Abril pro Rock
A maior parte da platéia levantou a mão numa dedada, em resposta ao hino da cobrinha. O Sport tem a maior torcida do estado, e os rubro-negros, embora bicampeões pernambucanos, ainda estavam sentindo o veneno da cobra tricolor, espalhado nas provocações das torcidas rivais.
Lúcio Maia não se intimidou e tocou o hino novamente, afirmando que "torcedor bom é aquele que torce quando o time tá perdendo". Frase bonita, mas que ficou com cara de média para os desgostosos da platéia, pois é difícil imaginar o hino sendo tocado se o Santa tivesse perdido o último jogo.
O show continuou, os dedos baixaram, e eu achei o incidente divertidíssimo. Mas houve quem tivesse a noite estragada pela gréia musical. Sérgio Bernardo, estudante de jornalismo de credibilidade inquestionável, me contou de um cara ao seu lado que ficou transtornado com as notas da dança da cobrinha. "Eu paguei, po! Não tinha que ouvir isso, fuleiragem da porra!", gritava o rubro-negro emputecido, que minutos antes estava cantando feliz as músicas da banda.
Rivalidade no futebol é um lance muito curioso. Para mim, que sou indiferente à questão, é difícil entender como o desempenho de seu time, ou as provocações adversárias, podem causar terremotos tão fortes no humor das pessoas. Ao mesmo tempo, acho arretadas as gréias esportivas, as provocações bem humoradas, e os entusiasmos de torcedor. Próxima semana devo ir a um estádio, lugar onde nem lembro quando entrei pela última vez. Quero ver se sinto a energia que faz tanta gente vibrar, torcendo para que não seja preciso deixar de curtir um belo show por conta disso.
quarta-feira, março 28, 2007
Medo do Futuro
Formando-se na preguiça do teu gênio
Que evita o esforço na atividade
Adiando-o até o último momento
É duro ver cair a confiança
Numa mente, outrora vigorosa,
Hoje, como ex-atleta que descansa
Afundado na poltrona prazerosa
É duro perceber-se tão contente
Com os pífios resultados do versejo
Quando basta ler alguns mais competentes
Para ver que não há motivos pra festejo
É duro procurar na poesia
preencher a lacuna do labor
Tentar compensar com fantasias
O mal que a moleza lhe deixou
É duro discernir o que é preciso
Para livrar-me da própria corrente
Que me prende a caminhos antigos
E amarra o que viria pela frente.
sábado, março 24, 2007
Clara Nunes, a maior cantora do Brasil
Do Contra é um dos personagens mais divertidos de Maurício de Souza. Tem muita graça em querer ser sempre diferente. É comum ser do contra na adolescência, antes de amadurecer e perder a graça. Mas alguns seguem cultivando esse prazer infantil, fazendo objeções pelo prazer de ver as pessoas lidando com elas.
Uma unanimidade inteligente é que Elis Regina é a maior cantora do Brasil. Afinação, interpretação, feeling e técnica olímpicos, qualidade do repertório, são muitas as razões do consenso.
Eu discordo. Não da qualidade de Elis, mas dela sozinha no topo. Tem uma mineira chamada Clara Nunes, que não perde um centímetro para a divindade gaúcha nos critérios acima citados, com a vantagem decisiva de que seu timbre e seu repertório soam melhor aos ouvidos deste que vos escreve.
Para os que desconhecem a maior cantora do Brasil, seguem algumas preciosidades selecionadas por mim, na convicção de que algumas discordâncias não têm preço.
Preciosidades Selecionadas
quinta-feira, março 15, 2007
Tempo e cigarros
- Desde que tu parou de fumar que tás assim, nessa apatia de anta paralítica.
- Claro, lascar meu organismo pra nada me dava uma energia indescritível.
Olarico tragou forte, e fez aquela cara de sabedor dos grandes segredos, que todo fumante faz:
- Essa é a questão, você não tava nem aí se dentinho ia amarelar, ou se pulmão ia ficar pretinho, nem pensava no câncer ou no efisema. Você era um fumante despreocupado e divertido, agora é um ex-fumante preocupado e apático. Que progresso, heim?
Era por coisas como essa que Astolfo tinha grande consideração por Olarico, o rei dos contrapontos divertidos.
- Minha apatia não tem nada a ver com cigarro, meu caro. Tem a ver com onde estou, e onde deveria estar, e não saber onde quero estar.
Olarico deu outra profunda tragada, prenúncio de outra "grande verdade", mas calou-se. No fundo se sentia como o amigo, embora não curtisse muito conversar sobre isso. Preferia pensar a respeito sozinho, com tragadas profundas, mas sem grandes verdades.
Astolfo continuou: - Sabe quando você olha para quem você era há oito anos, e sente vontade de voltar a ser aquele cara? Isso é normal acontecer - quando se tem cinquenta, pensando nos vinte e poucos.
- Eu diria que há oito anos você não tava nem aí se era normal ou não. Aliás, a maior parte das pessoas diria que não.
- É, eu sei, mas não é esse o ponto. O lance é o entusiasmo, a paixão pela vida, que era imensa há oito anos, e hoje mal levanta uma caneta. Não deveria ser assim. Era para eu estar no auge agora, nos meus vinte e poucos.
- Talvez você tenha vivido seus vinte e poucos há oito anos, e agora se encontre em plena crise da meia idade.
- E o que me aguarda depois disso?
Olarico acendeu outro cigarro: - Sei lá. A cova?
- Pra essa você vai na frente, com sua chaminé.
- É melhor queimar do que apagar aos poucos.
- Última frase do bilhete suicida de Kurt Cobain.
Olarico deu outra tragada forte: - É, mas a frase é de uma música de Neil Young, que continua vivo e cantante.
- Eu sei disso... Há oito anos que eu sei disso.
- E há oito anos que eu peguei seu Nevermind emprestado, sem sua permissão, e nunca devolvi.
- Disso eu não sabia.
- Pois é. Tem coisas que é melhor não saber.
domingo, março 04, 2007
Sem tomar Aspirina
Lembranças que ajudam o carro a retomar o movimento. Lembranças que fazem com que seja gasto mais tempo com o retrovisor do que com a estrada à frente. Lembranças que gostaríamos de perder, ou de jogar para o futuro. Lembranças freio-de-mão, lembranças quinta marcha.
Após umas cervejas, quase no fim da tarde, contemplando o mar, me invadiu uma plenitude, como se toda a trajetória, com suas subidas, descidas e paradas, fizesse algum sentido. Poucas horas depois, em plena dor de cabeça, a conclusão que eu chegava é que não fazia sentido algum. Meio sentido, resolvi escrever esse texto. E então a dor de cabeça passou.
domingo, fevereiro 25, 2007
Elogio da Preguiça
Se há tanto canto para ouvir?
Para quê forçar a busca de palavras
Se não há uma meta certa a atingir?
Não há caos para organizar
Recalques para extravasar
Castelos para se demolir
Tudo ordem, tudo em paz
Ilusão breve que satisfaz
Quem não gosta de se iludir?
Quando deito na minha rede
Nenhuma fome, nenhuma sede
Um sorriso... o paraíso é aqui
Deixo a mente passear
Vários fatos contemplar
Nada que me abale em si
Essa vida proibida
Que o sustento inviabiliza
Se tu não é o Dorival Caymmi
Traz um bem estar danado
Leva aos noventa em bom estado
Talvez cem se resistir
Se o planeta está morrendo
Quem só dorme o polui bem menos
Deveria ser pago pra dormir
O trabalho é inimigo da natureza
Disso o índio já tinha certeza
Não é sábio quem divergir
Pelo seu bem e bem do mundo
Faça um avanço profundo
Deixe a preguiça lhe invadir!
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
Sidney Miller
Seu nome é Sidney Miller. Segundo a Wikipédia, madrinha de preguiçosos em geral, o compositor estreante na década de 60 era comparado com um tal de Chico Buarque, também estreante, pela timidez e pelo cuidado na construção das letras. A primeira música que ouvi dele foi “A Estrada e o Violeiro” (Ouça), que é arrepiante de tão linda, dueto do cara com Nara Leão. Depois de meu pai elogiar entusiasmado, resolvi ir atrás de mais coisas dele. Aí a internet, grande mãe dos curiosos, infinito baú de tesouros esquecidos, me trouxe diversas músicas do rapaz, que não teve tempo de atingir o status de seu companheiro de timidez: morreu aos 35 anos.
Seguem mais duas músicas do gênio: “Pois é, Pra que” (Ouça) e “Nós os Foliões”, (Ouça) essa com um trechinho em fita cantado pelo próprio, depois com o timbre pacificador de Paulinho da Viola. Ouçam, e me agradeçam depois.
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Carnaval fora de órbita
A pancadaria na orla de Boa Viagem, no show de Ivete Sangalo, teve divulgação nacional. Após 3 anos sem trio elétrico na praia mais famosa de Recife, o tumulto deu fortes razões para as prévias carnavalescas continuarem longe do mar preferido dos tubarões. O saldo foi de 150 ocorrências policiais na delegacia de Boa Viagem (o triplo do normal), um homem baleado e cerca de 20 feridos, além da depredação de bancos e banheiros públicos.
Tanto os organizadores do bloco Balança Rolha, responsável pela vinda de Ivete, quanto a Secretaria de Defesa Social admitiram que subestimaram o público da festa – eram esperadas 200.000 pessoas, apareceram cerca de 500.000. Realmente, era difícil prever que uma artista obscura como Ivete Sangalo iria atrair tanta gente. Mas o organizador do bloco, o deputado André Campos, disse que mesmo que o público fosse metade do esperado, ainda assim o policiamento seria insuficiente.
Não é preciso muito esforço para ver a importância que a (falta de) educação tem nesse quadro. E essa lacuna é observada mesmo entre os que freqüentaram os melhores colégios, as melhores universidades. As pessoas estão cada vez mais míopes para as necessidades do outro – normas básicas de convivência deixaram de ser praticadas. E não há indício de melhoria geral, não enquanto vigorar o “consiga o que queres a qualquer preço, passando por cima de quem estiver no caminho”. Não enquanto a Ética continuar sendo um conjunto de princípios bonitos que não se aplicam à realidade.
Enquanto isso, brinquemos o carnaval – torcendo para que não chovam garrafas.
terça-feira, janeiro 30, 2007
"Morte do Pai"
Ansiosos em mostrar o quanto somos bons.
Mas nossos melhores momentos são longe de sua presença
Da paralisia da expectativa, suposta ou real
Que negamos para poder andar, mesmo em círculos, mesmo a lugar algum
Que seguimos para nos ajustar, o trilho existe antes de nós
Que encaramos quando fortes o suficiente
para a psicológica “Morte do Pai”.
domingo, janeiro 07, 2007
Juízos Musicais
Mas eu falava do Radiohead. Eu nunca gostei do Kid A, o sucessor do OK Computer. Ouvi pela primeira vez procurando por guitarras, e a ausência delas me frustrou a ponto de não querer ouvir denovo. Passei a meter o pau no disco sempre que tinha oportunidade, chamava-o de remédio contra insônia, e por aí vai. Mas ouvia muita gente com gosto musical interessante falar bem do disco. Resolvi ouvi-lo denovo. e descobri uma música que é o caminho para iluminação, a verdade das criancinhas, o encontro com o self submerso no inconsciente. É a faixa 4: How to Disappear Completely.
Como bem observou Doutor Domingos, a letra é bem budista, mas naquele clima de angústia radioheadiano. É uma tristeza que vai tão fundo que torna a música mortalmente perigosa para quem pensa em suicídio. Ao mesmo tempo, a letra conforta, com bons motivos para não puxar o gatilho. Quando a descobri, achei que teria que engolir tudo que falei do Kid A, mas Doutor Domingos me informou que ela é "a menos Kid A do disco", informação que foi recebida com especial alegria por alguém que adora música e odeia dar o braço a torcer.
ps: Não consegui uplodear a música, pra deixar o link pra vcs. O que uso tem limite de 10mb para upload, a música tem 10.3 mb, infelizmente.
quarta-feira, janeiro 03, 2007
Poesia tem que ser escrita à mão
Prosas onde as palavras jorram
Exigindo correções
Poesia tem que ser escrita à mão.
O deslizar da caneta sobre a folha
Desenha a imagem poética na mente
Teclando você deleta essa escolha
Sua tela interna esvazia a cada enter
Não estou certo se termina diferente
Já que sinapses podem terminar
Antes da mão começar a se mover
Talvez dê no mesmo lugar
Mas à mão é pela beira-mar
E à tecla é por lugar de se esconder.
segunda-feira, janeiro 01, 2007
Paixão pela Vida
É forte e desinibida
Desfile ciente do brilho.
Noutros, frágil como o barro
Modelado por desalegrias
Vagar em passo tímido.
A vida entre os extremos varia
Provando que a identidade
É uma constante mutação.
Mas a mudança é necessidade
Igual ao caleidoscópio que gira
Repetindo o mesmo padrão.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Gentileza não é Frescura
Diversos homens se sentem desconfortáveis com a gentileza, receosos de que ela lhes comprometa a masculinidade. Talvez por isso os gays sejam tão populares com as mulheres, não esquecendo, é claro, que a ausência de risco predatório eleva bastante o grau de intimidade e cumplicidade. Essa grosseria masculina prejudica as conversas, visto que é a gentileza que deita o prego, embora alguns só o façam quando vão à cama ou a nocaute, o que os torna desmerecedores de boas conversas. Quando dois deles se encontram, não há conversa e sim dois monólogos, um tentando superar o outro na milenar arte da preguice.
Claro que a grosseria tem seu lugar nas boas conversas, principalmente como recurso humorístico. Tirar onda com o próximo também é ótimo, desde que a gréia vise o sorriso de todos, e não apenas a cara amarrada do greiado, cabendo a ele recusar o papel de estilão. Mas não falo da grosseria engraçada, e sim da praticada por receio de implicações baitolísticas. Acabemos com essa bobagem de uma vez por todas: gentileza não é frescura.
quarta-feira, dezembro 27, 2006
Contagem Regressiva
Para realidade se tornar?
Horas e meninas levadas eu vejo
No devaneio em cuja tela
Não me canso de pintar
Anos podem passar carentes do fato
O quadro pendurado na parede do inviável
A espera nunca é vista com agrado
Contagem regressiva cujo fim é variável
Tentando adivinhar, em más horas emudeço
Fico cego para a via em que devo caminhar
Uma bola de querer esperando o arremesso
Eis que uma música qualquer me lança contra a parede
Onde o quadro pendurado está cansado de aguardar...
... e a parede cede ao fato do consumado desejo.
quarta-feira, dezembro 13, 2006
Racionalização
A notícia não poderia ser mais noticiável: “Garota reage e mata estuprador” (Capa do Diário de Pernambuco, de 12/12/06). Sexo, sangue e singularidade, os três esses do sucesso, também do Six Six Six, the number of the beast, pra adequar a viagem aos meus leitores metaleiros. Confesso que fiquei com uma simpatia enorme pela menina. Que coragem! Em casos de estupro, eu concordo com o filósofo Jeremias, (http://www.youtube.com/watch?v=87xcp4FeQSI) quando declara que “quem é safado tem que morrer”, e quando a execução é feita em legítima defesa pela vítima.
Não fiz nenhuma pesquisa de campo para comprovar minha teoria. Mas, no Acaiaca, onde volta e meia o galego que vende cd pirata coloca Racionais pra tocar, noto que os “elementos suspeitos” cantam com especial prazer o refrão “hoje eu sou ladrão/pratico 157/as cachorra me ama/os playboy se derrete”. (http://www.box.net/public/9lad39fuez) O protagonista da letra morre no final, e Brown recomenda estudo e distância do crime à molecada da favela, mas ainda não vi ninguém nem cantar, quanto mais se empolgar com essa parte. Isso me fez repensar minha teoria.
Ouvir Racionais, por um lado, dá uma certa “credibilidade das ruas” ao ouvinte burguês, ou pelo menos é isso que ele acha: imagina o bandido vindo assaltar o “burguês-mala” e ele tentando se defender com um “pera ae mano, eu ouço Racionais!”. Provavelmente ouviria um “Ah é? Então canta Capítulo 4 Versículo 3 (http://www.box.net/public/i7sska1pau) enquanto eu te deixo de cueca!” (alguém aí lembrou do grande Boça, de Hermes e Renato? :D). Certo, esse parágrafo não tem nada a ver com a teoria, mas é que eu achei a piada boa e não encontrei lugar melhor pra ela. A coisa volta a ficar séria no próximo.
O problema é que o lado construtivo das letras dos Racionais, e aqui eu faço uma extensão a todo hip-hop que retrata a bandidagem, pode se diluir na exaltação da vida do crime. As letras em primeira pessoa encarnam criminosos, eles acabam se estrepando no fim, muitas vezes arrependidos. Mas o cara que ta pensando em ser bandido vai escutar bem alto a saga criminosa e bem baixo a lição final, de acordo com minha insuficiente amostragem do Acaiaca.
Claro que, dentre as variáveis que levam ao crime, a (distorcida) recepção das mensagens dos Racionais não deve ter grande peso. Pobreza, apelos do consumo e ostentação são os lutadores de sumô, no caso. Mas não dá pra deixar de notar que os crimes vêm ficando mais violentos. Hoje mesmo aconteceu outro assalto com ferido, na Av. Boa Viagem. Isso sem falar na cachoeira de sangue que despenca nas periferias e não ganha da mídia a mesma cobertura dos “sangue-azul”. E não dá pra deixar de notar que Racionais e outros hip-hops violentos têm se tornado cada vez mais populares. Alguma conexão entre os fatos? Só uma boa pesquisa de campo pode responder. Fica como promessa para quando a preguiça me abandonar.
sexta-feira, dezembro 08, 2006
Falta Poesia em Minha Vida
Aquele clarão da cortina que levanta
com algo explodindo dentro, me fazendo rir.
Isso não acontece há algum tempo.
Talvez um precoce desencanto com o mundo
tenha retirado da minha pupila a capacidade de filtrar a luz.
Ou talvez meu ego tenha me deixado cego.
Parece que só consigo falar dele.
Falta poesia em minha vida.
Os livros permanecem não lidos.
O trago não traz encantamento.
Os caminhos me levam sempre ao mesmo ponto.
Caminho em círculos, sem prestar atenção.
Me visto de blasé, mesmo sem gostar da roupa.
Procuro água numa fonte que já secou.
Escondo as mágoas em lugares que tento esquecer...
Mas não esqueço, não expresso, não resolvo
Permaneço imanifesto, fingindo não dar valor
Ator despreparado que não sai do mesmo papél
Dirigido pelo tolo que meu ego se tornou...
...por deixar a poesia faltar em minha vida.
sexta-feira, dezembro 01, 2006
Astronautas
"Vencer na vida" é a medida pela qual as pessoas normalmente avaliam umas às outras. Significa um bom emprego, que viabilize seu sustento e garanta o acesso a supérfluos que já se tornaram essenciais. Significa ter alguém para amar, mesmo que esse "alguém" se alterne em vários ao longo do tempo. Significa ser visto com respeito e simpatia pelos outros, cabendo aí alguma inveja da sua posição. Significa ter superado os vários obstáculos que separam a maioria das pessoas desse objetivo (algumas pessoas já nascem com a "vida vencida", mas elas são estatisticamente desprezíveis). Aos 40 anos, espera-se que você tenha "chegado lá", ou pelo menos subido uns bons degraus na escada. Essa é a visão dominante.
Há quem discorde. Existem os que querem nada mais que "uma casa no campo, onde possam plantar seus amigos, discos e livros" (http://www.box.net/public/7v6r0kfiui). Ou os que sabem "o quanto é difícil encontrar, de 10 homens ricos, apenas 1 com uma mente satisfeita" (http://www.box.net/public/q56e34l8hy). Ou ainda os que dizem "que não é preciso achar solução para vida, ela não é uma equação, não tem de ser resolvida" (http://www.box.net/public/rtmt8kjtfj). Estas idéias alimentam os que não querem medir a si e aos outros pelo critério "vencer na vida". Não querem fazer parte desse sistema, e são vistos como astronautas pelos adeptos dele. "Se antene, se ligue, caia fora". E então chegamos à questão das drogas.
A realidade nos afeta a partir do modo pelo qual a percebemos. Se alteramos essa percepção, a sensação é a de alterar a realidade, embora isso não aconteça de fato. A realidade permanece a mesma, embora ofereça incontáveis maneiras de ser percebida. Podemos ir embora para Pasárgada no fim do dia, para aliviar as pressões do cotidiano, ou simplesmente porque lá é melhor que aqui. No entanto, a passagem de ida para Pasárgada, oferecida pelas drogas, não custa o mesmo que a passagem de volta, se você resolveu morar de vez na cidade. Para ir, basta algum dinheiro. Para voltar, é preciso uma tremenda força de vontade, que a própria estadia em Pasárgada já fez questão de enfraquecer.
"O refúgio em Pasárgada é um consolo para os fracassados que não conseguiram vencer na vida", diriam os poderosos, do alto da escada. "Prefiro viver em Pasárgada do que fazer parte da podridão que alimenta esse sistema", diria um hóspede de longa data da cidade. "Eu prefiro um galope soberano à loucura do mundo me entregar" (http://www.box.net/public/cpf9nukyuv), já disse Zé Ramalho, que volta e meia vai para Pasárgada, mas sempre volta a esse "mundo louco", para contar o que viu por lá. Ele prova que astronautas podem viver bem na terra. É só não se perder no espaço.
domingo, novembro 26, 2006
Espertos e Otários
"Rir das ironias com que a vida nos confronta". Clichezão de auto-ajuda, sem dúvida. Mas eu sempre me perguntei: por que esses livros vendem tanto? Depois de ler alguns, descobri que eles fazem você se sentir bem. Todo mundo deseja progressos para si. Tornar-se uma pessoa melhor. Mas esta é uma idéia muito abstrata. O que esses livros fazem é indicar ações concretas que levam à idéia abstrata. Como as religiões. Só que não procuram convencer por meio de uma fé que pouco explicam. Não, eles são cheios de explicações, algumas convincentes, outras nem tanto, mas que, das duas, uma: ou te fazem se sentir bem ou te fazem pensar que o autor acha que você é um otário. O engraçado é que o otário se sente bem com a leitura, enquanto o cético se irrita. E, se o lema é "sinta-se bem o quanto puder", o otário é o esperto e o cético é o otário.
Eu gostei dessa idéia, achei esperta. Queria ter pensado nela naquela noite, acho que impressionaria as paulistas, e quem sabe elas não decidiriam desembarcar em Recife, inclusive porque o tempo lá estaria melhor, segundo a previsão, ou melhor, segundo meu relato da previsão. Mas não, não pensei nisso na hora, não impressionei as meninas, e a improvável flechada do desembarque não teve a menor chance de atingir o alvo, porque nem chegou a sair do arco. Diga aí, se eu tivesse conseguido mudar o destino das paulistas. Iria me achar a "lâmpida" de Adoniran. (http://www.box.net/public/2n9kssk4zd) Meu ego iria na altura do de Justin Timberlake ("Faço o 'Sexy' voltar/esses putos vêem como ataco/se a mina é sua, melhor se cuidar/porque ela me quer e isso é fato").
Vendo por esse lado, que bom que não tive a idéia na hora, ela poderia comprometer meus projetos de humildade e desenvolvimento espiritual. Até parece... até parece que sou otário.
sábado, novembro 25, 2006
A Verdade sobre a Babilônia
O contexto real da palavra, no entanto, não é esse. Pensei em fazer um texto pra jogar luz no assunto, mas já há um texto que fala tudo o que é necessário saber sobre a questão. E, de quebra, o texto vem inserido num dub de primeira. Trata-se de “Muita falta de anti-profissionalismo dub”, faixa do disco Piratão, do Quinto Andar, cantada por Bnegão. Ouçam, e descubram a verdade sobre a Babilônia.
http://www.box.net/public/q39g5bdjnh (para os não muito habituados à tecnologia, é só clicar no link e clicar em "play" :P)