domingo, junho 24, 2007

Presunçoso preguiçoso

Eu às vezes penso que quanto mais obras se conhece
Mais se chega à sensação de que tudo já foi feito
Às vezes desmentida por um criativo que esquece
De se amarrar por aquilo que já se transformou em êxito

Todos os destaques da área que apetece
Lançam sobre quem cria dois distintos efeitos
Vontade de se firmar ao lado do tal mestre
Ou desânimo de ver fora do alcance tal respeito

Por mais que um atleta se esforce
O ouro exige mais que dedicação
Muitos darão o melhor de si e não conseguirão

Por isso o presunçoso preguiçoso nem se move
"Para quê batalhar por uma inatingível posição?"
E deixa de saber onde o levaria a vocação.

sábado, junho 23, 2007

3 sons chapantes

Tem uma música do Black Alien que vem fazendo minha cabeça inúmeras vezes nos últimos dias. Chama-se “From Hell do Céu”. Ouça e repare na riqueza das rimas do cara, que já fisga a atenção nos primeiros versos: “Me parece agora que eles perderam o controle/Nessa corrida de ratos sei muito bem quem tá na pole/Se agride ou agrada/O seu lugar no gride de largada, não muda nada...”.

Do rap ao samba, do Rio à Bahia, outro som tem batido recordes de execução nos meus auto-falantes. “Oxossi”, de Roque Ferreira, me chapa não pela letra, cheia de referências ao candomblé que desconheço, mas pelo ritmo, pela reverência do cara ao cantar, como se comandasse um ritual religioso – acho que, na verdade, é isso que ele está fazendo mesmo. Catarse garantida.

Por último, uma música de Paulinho da Viola, gravada por Marisa Monte: “Para ver as meninas”. Uma amiga defende que Marisa Monte é irritante, por deixar as músicas todas perfeitinhas. Bom, nessa música a excelência técnica dela, junto à singeleza da letra, passam um feeling assombroso.

domingo, junho 17, 2007

Espinha Ereta

Nada como uma boa postura. “É tudo uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”, diz o samba “Coração Tranqüilo”, do compositor Walter Franco. Ele está certíssimo. Uma coluna saudável responde mais pela felicidade do que qualquer bem de consumo ou estado alterado de consciência. Pergunte a quem sofre de dor nas costas.

Quando pequeno, minha mãe sempre alertava: “Bernardo, olha a postura!”. Ela sabia do que estava falando. Descuidou da coluna ao longo da vida, e hoje sofre as dolorosas conseqüências. Eu, que sempre tive um “Do Contra” abobalhado dentro de mim, não dava bola e continuava envergado. E hoje, aos 22, já sofro um pouco pelo hábito nocivo.

Boa postura devia ser ensinada nas escolas. Passamos boa parte do tempo sentados vendo aulas, e uma coluna ereta exige atenção e disciplina, porque a tendência é deixar a gravidade agir e os ombros caírem, plantando a semente do sofrimento futuro. Não adianta só estimular os esportes, se boa parte do tempo será gasto sentado, diante do caderno ou da mesa de trabalho.

Todos os lugares em que as pessoas passam muito tempo sentadas deveriam ter uma faixa com a letra de “Coração Tranqüilo” escrita em letras garrafais, com “espinha ereta” em negrito. E todos os pais deveriam alertar seus filhos feito minha mãe, cabendo aos rebentos não serem trouxas como eu e seguirem o conselho.

segunda-feira, junho 11, 2007

Orgasmos Intelectuais

Venho observando que as artes não têm mexido muito comigo ultimamente. Artes visuais nunca me despertaram grandes coisas. Mas a música e a literatura, que já me provocaram aquelas viagens em que você sente o seu mundo interno se expandindo e transbordando de uma espécie de êxtase, bem definido por um antigo professor como "orgasmo intelectual", mesmo elas não têm me trazido sensações incomuns. Me pergunto se houve queda na qualidade das obras que aprecio, e vejo que, na verdade, é minha sensibilidade perdendo seu poder de encantamento.

Não sei explicar. Talvez uma defesa contra fortes sentimentos negativos tenha prejudicado a percepção dos positivos. Afinal, o canal é o mesmo: se há uma barragem para conter as águas sujas, vai bloquear as águas limpas que também passam por ali.

Sei que a atual falta de encantamento gera uma nostalgia que já está ultrapassando os limites do tolerável. O retrovisor dourado, que deixa o atual percurso sem graça. Ou a não-graça do percurso que me faz dourar o retrovisor. De todo modo, é preciso diminuir o peso das memórias. Senão fica difícil alcançar os orgasmos intelectuais.

sexta-feira, junho 01, 2007

Dentro da Bolha

A gente vai vivendo dentro da bolha, e quando se dá conta, já deixou de percebê-la... Fazendo os mesmos trajetos, porque a violência não recomenda certos caminhos, a violência é parceira da bolha, elas dividem os lucros no fim do mês. E esse mundo, vasto mundo, vai se tornando pequeno, como aquelas paredes dos desenhos animados, que vão diminuindo o espaço até que o herói escape por uma passagem secreta, evitando por segundos o esmagamento.

A bolha, o mundo pequeno... Neste momento, 22h46min, eu gostaria de caminhar pelas proximidades da minha casa, prestando atenção nos caminhos, em busca da passagem secreta. Mas em qualquer esquina pode haver uma armadilha mortal, ou pelo menos essa é a idéia corrente, e o medo, principal componente da bolha, me leva a não conferir o risco.

Falando assim, pareço um pirralho de condomínio rico, desconhecedor do mundo fora das cercas eletrificadas. Nada, eu já fui maloqueiro, andava pelas madrugadas de ônibus, e nem faz tanto tempo assim. A violência aumentou um bocado de lá pra cá, eu mudei de bairro, a bolha cresceu, ou melhor, a bolha diminuiu o meu mundo.

Tem hora que dá uma vontade danada de dizer: “que nada! Dane-se a violência, aqui quem comanda é a gente!”, como na época em que eu andava pelas madrugadas de ônibus, protegido pela inocência de me achar maloqueiro, ou pela violência ainda não tão grande. Era uma proteção bem melhor que a da bolha.

O que se pode fazer para sair da bolha? Correr risco ao andar pelas madrugadas de um bairro violento da capital mais violenta do Brasil? Só se for de carro, que meu escudo-de-inocência-maloqueira já se quebrou. Fazer trabalho social nas comunidades próximas à minha casa, ganhando o respeito da bandidagem e passe-livre pelas redondezas, além de contribuir um pouquinho para minimizar a violência? É uma boa opção, embora o tal respeito possa não passar de viagem minha. Mas a bolha, além de reduzir o mundo, e talvez exatamente por isso, também deixa apático. Descontente com a situação, mas sem energia para combatê-la. Até porque meus atos quase nada mudariam, e a estória de fazer a minha parte, embora bonita, é insuficiente para me tirar da inércia.

“Então morra na bolha, preguiçoso maldito!” – é o que escuto, de longe, do jovem inconformado que ainda não teve seu idealismo destroçado pelo mundo. Não faz tanto tempo que sua voz era próxima, quase saindo da minha própria boca, quando andava de ônibus pelas madrugadas da cidade. Pena que foi ficando distante, não por coincidência, à medida que fui me deixando aprisionar pela parceira da violência, com quem divide os lucros no fim do mês.

quarta-feira, maio 23, 2007

Idéias Próprias

Lembro-me de uma versão para videogame do desenho Beavis and Butthead. Quando você ficava muito tempo sem movimentar o personagem, surgia um balão de pensamentos, daqueles de histórias em quadrinhos, completamente vazio. Uma imagem perfeita para “não ter nada na cabeça”. A principal maneira de evitar esse vazio mental, todos nós sabemos, é através de boas leituras.

Mas não é bem assim. De acordo com o professor Rubem Alves, na sua coluna na Folha de São Paulo, o excesso de leitura pode fazer com que a pessoa deixe de pensar por si própria. Ele conta o caso de quando selecionava candidatos a doutorado, e teve a idéia de fazer uma única pergunta a todos eles: “Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar”. Os candidatos entraram em pânico, não sabiam o que responder. Uma mulher chegou a citar várias partes de um livro da bibliografia obrigatória, achando que a pergunta era uma brincadeira.

A idéia é que, ao ler, estamos acompanhando o pensamento de outros. Se passamos a maior parte do tempo lendo, a menor parte do nosso tempo é dedicada a nossos próprios pensamentos. A conseqüência é que nossa mente fica habituada a papaguear pensamentos alheios, enquanto nossas idéias próprias são pouco produzidas, tendendo a desaparecer.

Uma questão interessante é: até onde nossas idéias são de fato “nossas”? Mesmo aquelas a que chegamos não por leituras, mas pelos “próprios méritos”. Existe o provérbio que afirma: “Do nada, nada sai”. Se tivéssemos acesso ao processo mental que levou àquela idéia original, veríamos que ela caiu do céu como um raio de inspiração, ou que foi fruto do trabalho mental, que lida com elementos preexistentes, saberes anteriormente adquiridos de algum modo, seja leitura, experiência, filmes, discos, conversas...? Ou será que ela irrompe desse subterrâneo a que não temos acesso direto, que é o nosso inconsciente?

Sobre a questão da originalidade, vale a pena conferir a tira do Arnaldo Branco.

sexta-feira, maio 04, 2007

Escrevendo o trivial

A preguiça já foi elogiada, agora bateu o cansaço de não fazer nada. Somado ao longo tempo desse blog cultivando teias de aranha. Já tem alguns dias que eu digo pra mim mesmo que preciso escrever algo. Mas sempre esbarro no “o quê?”, e rendo-me à frustração do bloqueio criativo.

É aquela velha lei do menor esforço, que limita minhas ações àquilo que penso fazer bem e com pouco trabalho, ou melhor, sem grandes obstáculos no caminho. Escrever apenas quando surge alguma fagulha de inspiração, falar somente quando tem algo de interessante para dizer. E os momentos pedindo qualquer texto, não importa se desinteressante, irrelevante, lugar-comum ou repetição. Tem horas que qualquer coisa é melhor que coisa alguma.

Quando se quer ser brilhante o tempo todo, são grandes as chances de se tornar um tolo. Eu tenho o hábito de tentar prever o resultado de tudo que faço, mania adquirida pelo gosto por xadrez e Sherlock Holmes. Só que ações criativas são imprevisíveis, ou melhor, tentar calculá-las é uma boa maneira de estragá-las, já que nelas a intuição é bem mais importante que o cálculo, e um processo anula o outro.

Um conselho a todos que só falam quando lhe ocorrem grandes sacadas: falem merda, daquelas bem idiotas, que lhe renderiam um babau na quinta série. Livre-se da obrigação de ser “cabeça”. É um fardo que não vale a pena carregar: você se diverte menos, acaba se levando muito a sério, torna-se uma pessoa pesada, e isso não o torna mais inteligente.

O mesmo vale pra quem escreve, principalmente quando a criatividade está bloqueada por pretensões cabeçudas. Permita-se escrever algo trivial. É melhor do que ficar sem escrever, esperando por inspirações incertas.

terça-feira, abril 17, 2007

A graça do The Playboys

O show do The Playboys, na última noite do 15º Abril pro Rock, foi o destaque negativo das bandas pernambucanas no festival. Essa é a opinião do jornalista Renato L, impressa na contracapa do Viver, caderno cultural do Diário de Pernambuco. “A banda precisa tornar corrosivo seu humor “colegial”, quase inofensivo, para não passar outros 10 anos longe do Abril”, afirmou o parceiro de Chico Science e Fred 04 na elaboração do manifesto “Caranguejo com Cérebro”, marco inicial do movimento Manguebeat.

A versão musical do manifesto é a faixa “Monólogo ao Pé do Ouvido”, que abre o primeiro disco de Chico Science e Nação Zumbi, Da Lama ao Caos. O The Playboys fez uma paródia curiosa dessa música, ironizando as imitações do mangueboy que tomaram conta da cena pernambucana, após a morte dele. É difícil encontrar humor mais corrosivo. Infelizmente, no show do Abril, essa letra foi mudada, perdendo um bocado de sua acidez. Em vez de desacatar alguns mangues, especificamente, tiraram onda com os indies, genericamente.

O humor “colegial” da banda fez rir a maior parte da platéia. As letras debochadas, com os personagens típicos da cena local, são o ponto forte das estrelas do movimento do “alto dos apartamentos de Boa Viagem”, como costumavam anunciar nos shows da época em que Devotos e o Alto José do Pinho eram destaque.

Eu achei estranho a banda ser criticada justamente naquilo que tem de melhor: o humor. Na cobertura do festival feita pelo Recife Rock, a avaliação do show é oposta a de Renato L. Talvez isso se explique porque os responsáveis pelo site são mais jovens que o jornalista do Diário, riem com mais facilidade das brincadeiras de adolescência. Ou talvez Renato L não ache graça numa banda fazendo piada de algo que ele ajudou a formar. Considerando que Roger, que também é um jovem de outrora, assistiu ao show soltando várias risadas, tendo a acreditar na segunda opção.

sábado, abril 14, 2007

Futebol no Abril pro Rock

Abril pro Rock de 2007, 15ª edição. A Nação Zumbi estava no meio de seu compacto show de abertura para os Mutantes. De repente, Lúcio Maia tira da sua guitarra o hino do Santa Cruz, time que caiu para a série B ano passado, fez um péssimo campeonato pernambucano, mas conseguiu a proeza de acabar com a invencibilidade do Sport no último jogo, ou, como preferem os mais diretos, tirou o cabaço do leão.

A maior parte da platéia levantou a mão numa dedada, em resposta ao hino da cobrinha. O Sport tem a maior torcida do estado, e os rubro-negros, embora bicampeões pernambucanos, ainda estavam sentindo o veneno da cobra tricolor, espalhado nas provocações das torcidas rivais.

Lúcio Maia não se intimidou e tocou o hino novamente, afirmando que "torcedor bom é aquele que torce quando o time tá perdendo". Frase bonita, mas que ficou com cara de média para os desgostosos da platéia, pois é difícil imaginar o hino sendo tocado se o Santa tivesse perdido o último jogo.

O show continuou, os dedos baixaram, e eu achei o incidente divertidíssimo. Mas houve quem tivesse a noite estragada pela gréia musical. Sérgio Bernardo, estudante de jornalismo de credibilidade inquestionável, me contou de um cara ao seu lado que ficou transtornado com as notas da dança da cobrinha. "Eu paguei, po! Não tinha que ouvir isso, fuleiragem da porra!", gritava o rubro-negro emputecido, que minutos antes estava cantando feliz as músicas da banda.

Rivalidade no futebol é um lance muito curioso. Para mim, que sou indiferente à questão, é difícil entender como o desempenho de seu time, ou as provocações adversárias, podem causar terremotos tão fortes no humor das pessoas. Ao mesmo tempo, acho arretadas as gréias esportivas, as provocações bem humoradas, e os entusiasmos de torcedor. Próxima semana devo ir a um estádio, lugar onde nem lembro quando entrei pela última vez. Quero ver se sinto a energia que faz tanta gente vibrar, torcendo para que não seja preciso deixar de curtir um belo show por conta disso.

quarta-feira, março 28, 2007

Medo do Futuro

É duro reconhecer a mediocridade
Formando-se na preguiça do teu gênio
Que evita o esforço na atividade
Adiando-o até o último momento

É duro ver cair a confiança
Numa mente, outrora vigorosa,
Hoje, como ex-atleta que descansa
Afundado na poltrona prazerosa

É duro perceber-se tão contente
Com os pífios resultados do versejo
Quando basta ler alguns mais competentes
Para ver que não há motivos pra festejo

É duro procurar na poesia
preencher a lacuna do labor
Tentar compensar com fantasias
O mal que a moleza lhe deixou

É duro discernir o que é preciso
Para livrar-me da própria corrente
Que me prende a caminhos antigos
E amarra o que viria pela frente.

sábado, março 24, 2007

Clara Nunes, a maior cantora do Brasil


Do Contra é um dos personagens mais divertidos de Maurício de Souza. Tem muita graça em querer ser sempre diferente. É comum ser do contra na adolescência, antes de amadurecer e perder a graça. Mas alguns seguem cultivando esse prazer infantil, fazendo objeções pelo prazer de ver as pessoas lidando com elas.

Uma unanimidade inteligente é que Elis Regina é a maior cantora do Brasil. Afinação, interpretação, feeling e técnica olímpicos, qualidade do repertório, são muitas as razões do consenso.

Eu discordo. Não da qualidade de Elis, mas dela sozinha no topo. Tem uma mineira chamada Clara Nunes, que não perde um centímetro para a divindade gaúcha nos critérios acima citados, com a vantagem decisiva de que seu timbre e seu repertório soam melhor aos ouvidos deste que vos escreve.

Para os que desconhecem a maior cantora do Brasil, seguem algumas preciosidades selecionadas por mim, na convicção de que algumas discordâncias não têm preço.

Preciosidades Selecionadas

quinta-feira, março 15, 2007

Tempo e cigarros

Astolfo e Olarico caminhavam sem destino. Era um bom programa de fim de tarde; bairro tranquilo, poucos carros, alguma brisa. Astolfo parara de fumar há alguns meses; Olarico continuava sem perder a oportunidade de soltar fumaça com gracinhas.

- Desde que tu parou de fumar que tás assim, nessa apatia de anta paralítica.

- Claro, lascar meu organismo pra nada me dava uma energia indescritível.

Olarico tragou forte, e fez aquela cara de sabedor dos grandes segredos, que todo fumante faz:

- Essa é a questão, você não tava nem aí se dentinho ia amarelar, ou se pulmão ia ficar pretinho, nem pensava no câncer ou no efisema. Você era um fumante despreocupado e divertido, agora é um ex-fumante preocupado e apático. Que progresso, heim?

Era por coisas como essa que Astolfo tinha grande consideração por Olarico, o rei dos contrapontos divertidos.

- Minha apatia não tem nada a ver com cigarro, meu caro. Tem a ver com onde estou, e onde deveria estar, e não saber onde quero estar.

Olarico deu outra profunda tragada, prenúncio de outra "grande verdade", mas calou-se. No fundo se sentia como o amigo, embora não curtisse muito conversar sobre isso. Preferia pensar a respeito sozinho, com tragadas profundas, mas sem grandes verdades.

Astolfo continuou: - Sabe quando você olha para quem você era há oito anos, e sente vontade de voltar a ser aquele cara? Isso é normal acontecer - quando se tem cinquenta, pensando nos vinte e poucos.

- Eu diria que há oito anos você não tava nem aí se era normal ou não. Aliás, a maior parte das pessoas diria que não.

- É, eu sei, mas não é esse o ponto. O lance é o entusiasmo, a paixão pela vida, que era imensa há oito anos, e hoje mal levanta uma caneta. Não deveria ser assim. Era para eu estar no auge agora, nos meus vinte e poucos.

- Talvez você tenha vivido seus vinte e poucos há oito anos, e agora se encontre em plena crise da meia idade.

- E o que me aguarda depois disso?

Olarico acendeu outro cigarro: - Sei lá. A cova?

- Pra essa você vai na frente, com sua chaminé.

- É melhor queimar do que apagar aos poucos.

- Última frase do bilhete suicida de Kurt Cobain.

Olarico deu outra tragada forte: - É, mas a frase é de uma música de Neil Young, que continua vivo e cantante.

- Eu sei disso... Há oito anos que eu sei disso.

- E há oito anos que eu peguei seu Nevermind emprestado, sem sua permissão, e nunca devolvi.

- Disso eu não sabia.

- Pois é. Tem coisas que é melhor não saber.

domingo, março 04, 2007

Sem tomar Aspirina

Conforta imaginar um si mesmo aperfeiçoado, calejado dos erros cometidos, acostumado com dificuldades já experimentadas. Conforta imaginar um know-how crescente, uma experiência acumulada que não só melhora suas ações, como também protege do sofrimento gerado pelo si mesmo. Conforta viver sob as leis da evolução, tornando-se uma criatura mais apta a sobreviver, com a passagem do tempo.

O que desconforta é saber que o carro do aprimoramento não anda em linha reta rumo ao topo. Saber que às vezes ele desce a estrada, em vez de subir. Saber que noutras, simplesmente enguiça, o tempo indo e o carro ficando. Mecânicos são chamados, empurrões tentam, mas o carro não dá partida, definindo um período do qual a lembrança é uma única paisagem congelada.

Lembranças que ajudam o carro a retomar o movimento. Lembranças que fazem com que seja gasto mais tempo com o retrovisor do que com a estrada à frente. Lembranças que gostaríamos de perder, ou de jogar para o futuro. Lembranças freio-de-mão, lembranças quinta marcha.

Após umas cervejas, quase no fim da tarde, contemplando o mar, me invadiu uma plenitude, como se toda a trajetória, com suas subidas, descidas e paradas, fizesse algum sentido. Poucas horas depois, em plena dor de cabeça, a conclusão que eu chegava é que não fazia sentido algum. Meio sentido, resolvi escrever esse texto. E então a dor de cabeça passou.

domingo, fevereiro 25, 2007

Elogio da Preguiça

Para quê preencher a folha em branco
Se há tanto canto para ouvir?
Para quê forçar a busca de palavras
Se não há uma meta certa a atingir?

Não há caos para organizar
Recalques para extravasar
Castelos para se demolir

Tudo ordem, tudo em paz
Ilusão breve que satisfaz
Quem não gosta de se iludir?

Quando deito na minha rede
Nenhuma fome, nenhuma sede
Um sorriso... o paraíso é aqui

Deixo a mente passear
Vários fatos contemplar
Nada que me abale em si

Essa vida proibida
Que o sustento inviabiliza
Se tu não é o Dorival Caymmi

Traz um bem estar danado
Leva aos noventa em bom estado
Talvez cem se resistir

Se o planeta está morrendo
Quem só dorme o polui bem menos
Deveria ser pago pra dormir

O trabalho é inimigo da natureza
Disso o índio já tinha certeza
Não é sábio quem divergir

Pelo seu bem e bem do mundo
Faça um avanço profundo
Deixe a preguiça lhe invadir!

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Sidney Miller

Seu nome é Sidney Miller. Segundo a Wikipédia, madrinha de preguiçosos em geral, o compositor estreante na década de 60 era comparado com um tal de Chico Buarque, também estreante, pela timidez e pelo cuidado na construção das letras. A primeira música que ouvi dele foi “A Estrada e o Violeiro” (Ouça), que é arrepiante de tão linda, dueto do cara com Nara Leão. Depois de meu pai elogiar entusiasmado, resolvi ir atrás de mais coisas dele. Aí a internet, grande mãe dos curiosos, infinito baú de tesouros esquecidos, me trouxe diversas músicas do rapaz, que não teve tempo de atingir o status de seu companheiro de timidez: morreu aos 35 anos.

Seguem mais duas músicas do gênio: “Pois é, Pra que” (Ouça) e “Nós os Foliões”, (Ouça) essa com um trechinho em fita cantado pelo próprio, depois com o timbre pacificador de Paulinho da Viola. Ouçam, e me agradeçam depois.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Carnaval fora de órbita

A pancadaria na orla de Boa Viagem, no show de Ivete Sangalo, teve divulgação nacional. Após 3 anos sem trio elétrico na praia mais famosa de Recife, o tumulto deu fortes razões para as prévias carnavalescas continuarem longe do mar preferido dos tubarões. O saldo foi de 150 ocorrências policiais na delegacia de Boa Viagem (o triplo do normal), um homem baleado e cerca de 20 feridos, além da depredação de bancos e banheiros públicos.

Tão ferida quanto os 20 ficou a imagem de Recife – a barbárie de Boa Viagem alertando sobre o que pode acontecer no carnaval da cidade. A prefeitura deve estar se lamentando por não ter deslocado mais policiais para cobrir o evento, de modo a evitar o filme queimado que pode afastar turistas.

Tanto os organizadores do bloco Balança Rolha, responsável pela vinda de Ivete, quanto a Secretaria de Defesa Social admitiram que subestimaram o público da festa – eram esperadas 200.000 pessoas, apareceram cerca de 500.000. Realmente, era difícil prever que uma artista obscura como Ivete Sangalo iria atrair tanta gente. Mas o organizador do bloco, o deputado André Campos, disse que mesmo que o público fosse metade do esperado, ainda assim o policiamento seria insuficiente.

A violência em Recife chegou a um ponto em que qualquer multidão desperta receios. Há quem responsabilize a ausência/ineficiência da polícia como a grande culpada. A impunidade para os criminosos faz com que o cidadão comum veja os direitos humanos com ironia – o criminoso desrespeita os direitos humanos e é protegido por eles. A impunidade joga álcool na fogueira da vingança, alimentando o discurso de que “bandido bom é bandido morto”.

Não é preciso muito esforço para ver a importância que a (falta de) educação tem nesse quadro. E essa lacuna é observada mesmo entre os que freqüentaram os melhores colégios, as melhores universidades. As pessoas estão cada vez mais míopes para as necessidades do outro – normas básicas de convivência deixaram de ser praticadas. E não há indício de melhoria geral, não enquanto vigorar o “consiga o que queres a qualquer preço, passando por cima de quem estiver no caminho”. Não enquanto a Ética continuar sendo um conjunto de princípios bonitos que não se aplicam à realidade.

Enquanto isso, brinquemos o carnaval – torcendo para que não chovam garrafas.

terça-feira, janeiro 30, 2007

"Morte do Pai"

Diante do Pai, somos todos meninos
Ansiosos em mostrar o quanto somos bons.
Mas nossos melhores momentos são longe de sua presença
Da paralisia da expectativa, suposta ou real
Que negamos para poder andar, mesmo em círculos, mesmo a lugar algum
Que seguimos para nos ajustar, o trilho existe antes de nós
Que encaramos quando fortes o suficiente
para a psicológica “Morte do Pai”.

domingo, janeiro 07, 2007

Juízos Musicais

Todo mundo conhece Radiohead. Bem, pelo menos todo mundo interessante. Eita, lá vou eu denovo fazer juízos de valor das pessoas a partir de seus gostos musicais. Bobagem minha, claro. Nada impede as pessoas de gosto musical medíocre de não fazer jus às suas preferências. "Diga-me o que ouves e eu direi o que és" é tolice de quem superestima o papel da música na vida das pessoas. Besteira de pessoas cujas identidades as músicas ajudaram/ajudam a construir. Muitas pessoas tem muito mais o que fazer do que ouvir música, usando-a apenas para fins recreativos, e isso não as diminui em nada, a não ser para os bobalhões que acham a música o caminho para Iluminação, a verdade das criancinhas, o encontro com o self submerso no inconsciente.

Mas eu falava do Radiohead. Eu nunca gostei do Kid A, o sucessor do OK Computer. Ouvi pela primeira vez procurando por guitarras, e a ausência delas me frustrou a ponto de não querer ouvir denovo. Passei a meter o pau no disco sempre que tinha oportunidade, chamava-o de remédio contra insônia, e por aí vai. Mas ouvia muita gente com gosto musical interessante falar bem do disco. Resolvi ouvi-lo denovo. e descobri uma música que é o caminho para iluminação, a verdade das criancinhas, o encontro com o self submerso no inconsciente. É a faixa 4: How to Disappear Completely.

Como bem observou Doutor Domingos, a letra é bem budista, mas naquele clima de angústia radioheadiano. É uma tristeza que vai tão fundo que torna a música mortalmente perigosa para quem pensa em suicídio. Ao mesmo tempo, a letra conforta, com bons motivos para não puxar o gatilho. Quando a descobri, achei que teria que engolir tudo que falei do Kid A, mas Doutor Domingos me informou que ela é "a menos Kid A do disco", informação que foi recebida com especial alegria por alguém que adora música e odeia dar o braço a torcer.

ps: Não consegui uplodear a música, pra deixar o link pra vcs. O que uso tem limite de 10mb para upload, a música tem 10.3 mb, infelizmente.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Poesia tem que ser escrita à mão

Teclados são para redações
Prosas onde as palavras jorram
Exigindo correções
Poesia tem que ser escrita à mão.

O deslizar da caneta sobre a folha
Desenha a imagem poética na mente
Teclando você deleta essa escolha
Sua tela interna esvazia a cada enter

Não estou certo se termina diferente
Já que sinapses podem terminar
Antes da mão começar a se mover

Talvez dê no mesmo lugar
Mas à mão é pela beira-mar
E à tecla é por lugar de se esconder.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Paixão pela Vida

Em alguns, a paixão pela vida
É forte e desinibida
Desfile ciente do brilho.

Noutros, frágil como o barro
Modelado por desalegrias
Vagar em passo tímido.

A vida entre os extremos varia
Provando que a identidade
É uma constante mutação.

Mas a mudança é necessidade
Igual ao caleidoscópio que gira
Repetindo o mesmo padrão.