quarta-feira, novembro 28, 2007

Visualizando as andancas


Relogio Astronomico, na antiga Prefeitura de Praga.


Jesus na ponte Charles, tambem em Praga.


O capeta na cerveja Belga, em Budapeste. Reparem na pose intelectual do Tinhoso, a mao no queixo, o ar de planejamentos maquiavelicos...



Veneza, a Recife Italiana. Meus conterraneos que me desculpem, amo minha cidade, mas a rival comedora de pizza e bem mais bonita...


Segurando a Torre de Pisa, gracas a vitamina de banana. Creditos a Pedro Cuomo, que tirou a foto mais elogiada da minha camera.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Plantas de plastico

Melancolia e quase um pecado nos dias atuais. Se voce passar dois minutos em silencio, sao grandes as chances de ouvir "o que ha de errado com voce?". Principalmente se voce for jovem, porque se espera do jovem uma atitude Wild On perante a vida - ha melancolia o bastante esperando por ele na velhice.

Alegria e a melhor coisa que existe, cantava Vinicius, com toda razao. Mas a obrigacao de estar alegre o tempo todo e bem triste, e dessa tristeza nao sai samba, so a impressao de que alegrias fabricadas em serie sao como plantas de plastico: pode ate ser bonito, dar ibope, mas nao ha vida de verdade, so uma imitacao.

A felicidade precisa de vento soprando, tambem cantou o Poetinha. E natural buscar os pontos mais ventilados no nosso caminho, mas a "alegria" de que falo aqui e como um ventilador conectado a uma esteira com uma pessoa em cima suando horrores para produzir o vento - sem sair do canto.

A lei do contraste faz a melancolia necessaria para melhor apreciar a alegria, mas nao se trata de buscar uma ou outra - se trata de se livrar do esforco em parecer feliz ou triste. Afinal, nao faz sentido aguar plantas de plastico.


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domingo, novembro 18, 2007

Sem palavras


Budapeste, vista do alto da montanha do castelo. As construcoes da cidade sao de uma opulencia impressionante, e ao mesmo tempo varios carros bem fubecas trafegam pelas ruas, contraste do Imperio Austro-Hungaro x Periodo pos-guerra/comunismo.



Um museu no "Quarteirao dos Herois", a parte de Budapeste que mais gostei.



Parlamento em Viena, uma das cidades mais chinfrosas, em termos da magnitude das construcoes. Aqui ja nao se ve tantos carros fubecas...


Na Noruega vi neve, mas acho que ainda nao tinha enfrentado temperaturas abaixo de zero. Sente o drama e o trabalho que e sair de carro no Inverno, limpar toda a neve em cima e embaixo do veiculo, alem das ruas derrapantes... Pra que, se o transporte publico te leva para todo lugar, com seguranca?


Os Austriacos sabem o quanto a musica classica pode ser inspiradora. Por isso montaram um banheiro onde voce pode fazer sua arte ouvindo o melhor das sinfonias Europeias.

sábado, novembro 10, 2007

Primeira a esquerda depois do desencanto

Estive no Museu do Comunismo, em Praga. Bem facil de achar, ao lado de uma McDonalds e um cassino. Esperava encontrar uma visao proxima de "uma ideia nobre que nao funcionou economicamente". Longe disso. Marx e descrito como um romantico boemio de fantasias apocalipticas e teorias obsoletas, Lenin como um revolucionario cuja unica motivacao era vingar o assassinato do irmao por homens do Czar, e o Comunismo como um periodo nefasto da historia Tcheca que, gracas a Deus (ou a God), acabou. Igualdade social, saude, educacao, emprego e alimento para todos, os pontos positivos do Comunismo sao retratados como resultado da maquina de propaganda do Estado Sovietico, tambem ocupada em esconder a truculencia repressora do regime e endemonizar os Estados Unidos.

Muita gente se incomoda com o fato de existir tanta gente tentando sobreviver em condicoes sub-humanas. Essas pessoas tendem a ter simpatia pela Esquerda. A ideia de Esquerda = combate as injusticas sociais e Direita = manutencao dos privilegios esta introjetada na cabeca de muitos. E um enorme desprazer, portanto, quando se descobre que a Esquerda, no poder, nao age de acordo com os nobres ideais que a identificam. A desilusao pode ser tao grande a ponto de causar uma inversao nas conviccoes politicas, ou ate mesmo uma desistencia em tentar entender e se posicionar no jogo sujo.

Hoje em dia, Esquerda e Direita sao termos que nao dizem muito - A Direita tem discurso social, a Esquerda tem compromisso com os bancos. O Liberalismo e visto como "o jeito certo" de gerir a economia e o Comunismo virou historia - um tanto sombria para os que o viveram de fato, um tanto dourada para os que o imaginam como uma alternativa de mundo melhor, mais justo. Sonhos dourados, realidade sombria, o grande erro do Comunismo foi nao ter investido pesado na industria cultural.

quarta-feira, outubro 31, 2007

Eu sou o verdadeiro Sub-Zero brasileiro!

Dando sequencia a minha inatividade textual, aproveito o aparecimento de provas incontestaveis para fazer uma importante reivindicacao: eu sou o verdadeiro Sub-Zero brasileiro! Esquecam Lindomar e sua voadora fajuta, que todo mundo que ja jogou Mortal Kombat sabe que nao e exclusividade do Sub-Zero, ja que o Scorpion tambem faz igual, e que qualquer faixa amarela de Tae-Kwen-Do pode fazer parecido. Nao, meus caros, o que torna Sub-Zero unico na historia da carnificinia eletronica e que ele e capaz de congelar seus oponentes com seu sopro. E eu tambem sou capaz de fazer o mesmo! Apos um exaustivo treinamento nas geleiras norueguesas, eu pude aprender a milenar tecnica do sopro congelante, atraves dos ensinamentos de um sabio senhor cuja identidade secreta eu revelarei. Sem mais delongas, apresento as provas inquestionaveis do fato:


Bernardo, o Sub-Zero brasileiro, dispara seu sopro congelante...


...E vejam so o que acontece com o pobre carro. FATALITY!


Este e o sabio senhor que me ensinou a tecnica. Obrigado, Mestre!

quinta-feira, outubro 25, 2007

Estoria de Pescador

Quando imaginava uma pescaria, tedio era a primeira coisa que me vinha a cabeca. Qual a graca de segurar uma linha por horas, esperando o vacilo do peixe? Por conta disso, fui pescar pela primeira vez duas semanas atras, para confirmar o equivoco de minhas ideias sobre coisas que nunca fiz.

Esperar pela fisgada e legal porque ela pode acontecer a qualquer momento, o que te leva a ficar sempre alerta. Qualquer mudanca no peso da linha eu ja pensava em peixe, mas era so uma posicao diferente da linha no mar. Quando o anzol e mordido nao ha duvidas, embora o peixe, se nao estiver bem fisgado, possa escapar enquanto se puxa o carretel. Mas e claro que isso nao acontece com inciantes esforcados como eu. Na primeira fisgada, pesquei 5 coldfishes, garantindo o jantar do dia, porque a experiencia so se completa quando se come o que se pesca. Valeu a pena sentir os dedos do pe tao congelados a ponto de achar que iam quebrar feito vidro se eu pisasse com forca. Minha querida Noruega, e a mim que teu mar se entrega!


Vamos la, peixinho, colabora...


Bingo! Meu forte e a pesca, e eu so vim saber agora!

sexta-feira, outubro 19, 2007

Silencio e desacordo

Uma voz que se cala de repente
O silencio ocupando o lugar da cancao
Como um vulcao em extincao
lutando para expelir a lava quente
vendo o gelo inverter a direcao

Os pocos escondidos pela mente
As quedas onde nao se atinge o chao
Sonhos de longa duracao
Escadas construidas lentamente
Acordos entre o louco e o sao

Quando a musica tira o laco do presente
Perguntando se ainda se sabe como sao
os mergulhos na cratera incandescente
E preciso ter cuidado para nao
despencar no desacordo novamente.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Subestimando a capacidade alheia

Escrever partindo da premissa de que o seu leitor e uma anta pode ser muito frustrante ambas as partes, mas e o que acontece em diversos meios de comunicacao.
O Blog O Leitor, esse idiota oferece a visao de um jornalista cuja experiencia indica que a idiotice pressuposta e muito maior do que a real. Vale a pena dar uma olhada, especialmente em dois textos: E por que nao instigar?, onde ele trata dos motivos da classificacao e dos beneficios em abandona-la, e Quem e O Leitor, de que tantos colegas falam, um perfil dessa criatura a quem boa parte da imprensa se dirige.

sábado, outubro 13, 2007

Essa coluna vai mudar sua vida

Traducao de uma coluna da revista Weekend do jornal The Guardian, escrita por Oliver Bukeman, em 29/09/07.

Outro dia, me deparei com uma pesquisa assustadora, capaz de parar o coracao, e desde entao, como o velho marinheiro, venho me sentindo forcado a sair por ai contando para os outros, como se isso de alguma maneira aliviasse a dor. Agora e sua vez de ouvir. Todos nos sabemos, e claro, que o tempo parece acelerar quando envelhecemos, mas de acordo com estudos da Universidade de Cincinnati nos anos 70, esse efeito e tao intenso que, se voce hoje tem 20 anos, voce ja esta na metade da sua vida, em termos da sua experiencia subjetiva de como o tempo passa, mesmo que voce viva 80 anos. E se voce tem 40 anos, novamente assumindo que vai viver ate 80, 71% de sua vida ja se foi. Basicamente, se voce tem mais de 30, ja esta com um pe na cova. Tenha um otimo fim de semana!

Envelhecer nao e o unico fator que modifica nossa percepcao do tempo. Uma semana de ferias em um pais estranho parece, em retrospcto, ter durado muito mais do que uma semana comum de trabalho, que passa num piscar de olhos. Por outro lado, um dia desespedoramente chato parece alongar infinitamente. "Ponha sua mao numa panela quente por um minuto, e isso parece uma hora", disse Einstein. "Sente com uma garota bonita por uma hora, e isso parece um minuto. Isso e relatividade."

Entao podemos nos, trintoes-geriatricos, e outros, encontrar uma maneira de desacelerar o tempo, alongar nossas horas mais prazerosas, sem - como Dumbar em "Catch 22", desesperado para prolongar a propria vida - tentar nos manter entediados de proposito? Steve Taylor, que escreve sobre psicologia, oferece alguma ajuga em seu livro: Criando tempo: Porque o tempo parece passar em diferentes velocidades e como controlar isso. Ele aceita, parcialmente, que o tempo parece acelerar simplesmente porque cada novo ano de nossas vidas e uma fracao menor do total: se voce tem 10 anos, cada ano anterior foi 10% de sua vida inteira; se voce tem 70, cada ano foi apenas 1,4%. Mas uma ideia mais interessante, proposta primeiro pelo "vovo da psicologia" Willian James, e comprovada por experimentos, e que o tempo passa mais devagar quando temos que absorver mais informacao. Isso explica porque a ida a um lugar novo parece demorar mais do que a volta, e porque a semana de ferias parece mais longa do que a de trabalho. Uma solucao obvia, entao, e buscar novidades, e quebrar a rotina. Pessoas que viajam em aventura, escreve Taylor, reportam passeios que parecem mais longos do que as ferias daqueles que escolhem a regularidade e inatividade de uma semana na praia.

Espere um pouco: o tempo nao parece voar quando voce esta desfrutando os momentos? Sim, mas ha uma confusao aqui, entre a percepcao do tempo na nossa memoria e o momento em si. Na verdade, nao queremos sentir as horas passando devagar: o nome disso e tedio. Nos queremos olhar para tras, para o ano passado, digamos, e sentir que ele nao passou rapido demais. Nossos momentos mais felizes sao aqueles em que paramos de pensar na passagem do tempo completamente, mas depois lembramos deles com tendo durado um tempo deliciosamente longo. Esportes radicais, meditacao, qualquer atividade de alta concentracao vai produzir esse efeito. Mas sentar numa sala escura, remoendo as implicacoes da pesquisa de Cincinnati, nao vai, portando vou tentar parar com isso.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Bomba Balanca Confianca

Um dos pontos altos dessa minha semana em Londres era a visita a sede da BBC, local onde Juliana Rondom trabalha na recepcao, para desgosto de algumas celebridades britanicas que nao sao reconhecidas pela gringa brasileira. Na minha viagem de Brighton a Londres, descobri que o peso da minha bagagem estava intransportavel. Precisava me livrar de algumas das minhas tralhas, e Juliana me salvou de pagar uma fortuna para enviar os itens para o Brasil, se oferecendo para levar o excesso a patria amada no fim do ano. Combinamos que eu levasse as sacolas cheias de revistas, livros e roupas para a emissora inglesa, para encacapar, numa so tacada, as visitas e as quinquilharias.

Chegando la, despejei a carga num cantinho ao lado da recepcao, com a garantia de Juliana que meus pertences estavam seguros naquele local. O que eu nao podia imaginar e que o local estaria em risco por conta dos meus pertences. Ao sair da recepcao para o intervalo do almoco, Juliana esqueceu de informar ao seu colega sobre sobre a natureza inofensiva da minha bagagem. Quando o cara viu aquele monte de sacolas sem dono, o botao vermelho da paranoia-seguranca comecou a piscar enquanto a sirene de "Kill Bill" zunia na cabeca do cidadao, que chamou a seguranca do predio para lidar com o possivel desastre. Os homens vieram com detectores anti-bomba que seriam ativados caso houvesse um barbeador eletrico no meio da bagunca, e ai eles teriam que evacuar o predio por conta da iminente explosao. Programas seriam cancelados com enorme prejuizo para e emissora, talvez o emprego de Juliana tambem explodiria pelo custoso alarme falso. Tudo isso aconteceu enquanto eu e e ela caminhavamos tranquilamente pelos estudios da BBC.

Felizmente Juliana so teve que ouvir um sermao do senhor da seguranca sobre a possibilidade do panico geral, e eu pude reaver minhas sacolas sem maiores problemas. Passado o susto, assisti num dos estudios um programa chamado Golden Ball. E um jogo com premio em dinheiro, onde os participantes recebem bolas douradas com diferentes valores, e precisam descobrir quem esta mentindo para seguir em diante. A cada rodada eles votam em um jogador para abandonar a brincadeira, ate que so restem dois dos quatro no final, quando ocorre uma etapa curiosa: os finalistas tem que escolher entre "roubar" ou "dividir" sem revelar a escolha para o outro. Se os dois escolhem "dividir", cada um recebe metade da grana acumulada. Se um escolhe "dividir" e o outro "roubar", o que roubou leva toda a grana, um verdadeiro incentivo a desonestidade. E se os dois escolhem "roubar", ninguem recebe um centavo. Os finalistas eram uma mulher e um cara, e a lady tinha passado o jogo todo dizendo que queria encontrar alguem confiavel para dividir a grana, que ela so queria ir pra casa com algum dinheiro... E o cara concordando, que pra ele tava tranquilo dividir a grana tambem. No ultimo momento, a malandrona escolheu "roubar" e levou toda a bufunfa, o cara acreditou, como todo mundo na plateia, que os dois iam dividir o dim-dim. A cara de odio e decepcao do cara quando isso aconteceu deu pena, uma senhora do meu lado disse que teria batido na madame fuleiragem, que levou pra casa 18.000 libras. "Minha honra permanece intacta", disse o cara, tentando se consolar pelo bolso que permanecia vazio. Que joguinho pilantroso!

sexta-feira, setembro 28, 2007

Mais fotos

Uma das vantagens das fotos e que elas me permitem atualizar o blog sem precisar de muito esforco criativo. To nos meus ultimos dias em Brighton, e nao me parece o momento adequado para dedicar tempo a escrita. Em breve, os textos retornam ao seu lugar.


Duas atracoes turisticas de Brighton: A igreja de Saint Peter e os onibus de dois andares. De vez em quando vejo uns adolescentes nos ultimos bancos do segundo andar, gritando, ouvindo hip-hop e batendo na janela, e me pergunto se os vejo da mesma forma que eu era visto quando perturbava o sossego nos transportes coletivos alguns anos atras.


Uma outra foto do Royal Pavillion, porque a ultima nao deu uma ideia exata da majestosa magnitude da construcao.


Orla de Brighton, com onibus de passeio e uma construcao no mar cujo nome me escapa.
E um passaro no centro, como tinha prometido na foto de algumas semanas atras.


Do lado esquerdo, quatro espanholas; do lado direito, uma austriaca. No meio delas, um brasileiro se perguntando sobre a melhor maneira de admnistrar essa dificilima situacao.

domingo, setembro 16, 2007

Brincadeira e personagem

O controle da respiracao. Quando crianca, ele gostava de brincar com as diversas maneiras do ar entrar pelos pulmoes. Tudo comecou com as aulas de natacao, e as competicoes para ver quem passava mais tempo debaixo d'agua. Era otimo se desconectar do mundo por alguns instantes, flutuando na agua e nos pensamentos que comecavam lentos e iam acelerando, a medida que o tempo sugava o oxigenio dos pulmoes. A calmaria despejada pela urgencia de ar, contagens ate 10 em menos de dois segundos, diversas vezes, ate os musculos respiratorios comecarem suas contracoes involuntarias, uma vez, duas vezes, tres vezes, e o corpo nao podia esperar mais um milesimo de segundo sequer para ser invadido pelo ar. E que ar! Nao ha inspiracao mais prazerosa do que aquela que espera o quanto pode para acontecer. Sentir o pulmao dilatando, como um saco plastico soprado com forca, e por alguns instantes nao ha mundo, nao ha mente, nao ha nada alem de ar penetrando pulmoes, produzindo um orgasmo respiratorio.

Na adolescencia, ele passou a brincar com os estados de espirito. Se podia controlar os pensamentos que por sua vez davam origem aos sentimentos, era possivel escolher o que sentir, ele lera num livro de auto-ajuda, e aquilo fez um sentido enorme. Comecou a brincar com a construcao da identidade, escolhendo caractersiticas que gostaria de incorporar atraves das escolhas do pensar/sentir, como se fosse um personagem de RPG. E durante algum tempo, ele era exatamente quem queria ser, e um monte de gente queria ser como ele, era o que ouvia de vez em quando, e aquilo trazia uma vaidade enorme. Se sempre se sentira diferente da maioria, a diferenca agora parecia ser superioridade, sentimento bem diferente do que experimentava ao ser escolhido por ultimo para os times da Educacao Fisica, poucos anos antes, mas que pareciam bem distantes dessa epoca dourada. Agora a sociabilidade e o intelecto funcionavam tao bem que a inaptidao nos esportes nao incomodava mais. Quando questionado se jogava bola, respondia que isso e coisa para atleta. "E voce e o que?" "Sou boemio!", afirmava risonho, fazendo os outros rirem junto com ele.

A vaidade trouxe outro tipo de brincadeira: provocar reacoes nas pessoas. Quando percebeu que conseguia ganhar a maior parte das discussoes, mesmo estando errado, ficou viciado no brinquedo. Logo descobriu que, as vezes, argumentos nao sao a melhor forma de levar os outros a agir ou sentir o esperado. Passou a brincar com a linguagem corporal, aprendendo o quanto um sorriso, um tom de voz, um toque ou um olhar podem produzir efeitos inalcancaveis pelo verbo.

Chegou um momento em que a brincadeira ficou seria. Parte do processo era antecipar as reacoes das pessoas, ler o que estava sendo comunicado nao-verbalmente. Um dia essa etapa passou a ter muito mais a ver com a imaginacao dele do que com a realidade, fenomeno tambem conhecido como paranoia. Comecava a desconstrucao do personagem, a identidade desejada dando lugar a uma nova pessoa, algumas caracteristicas desaparecendo, outras retornando. Era um processo do qual nao tinha controle, com o qual nao podia brincar, e que levou um longo tempo para se habituar com seus efeitos.

Hoje, ele sente saudades do seu personagem, e de vez em quando tenta reaver algumas de suas qualidades, quase sempre sem muito sucesso. Mas vive bem melhor agora, moderando a vaidade e as brincadeiras. Identidade, afinal, e muito mais descoberta do que construcao. E personagens funcionam melhor na ficcao.

sábado, setembro 15, 2007

Mais massagens visuais


Orla de Brighton vista do Pier. Um otimo lugar para contemplar as belezas naturais e ambulantes da cidade.


Continuando a serie "construcoes chinfrosas", eis o Royal Pavillion, um dos pontos turisticos da cidade.


Quatro das "Seven Sisters", colinas na beira do mar, famosas por atrairem pessoas testando sua capacidade de voo pulando do alto em direcao ao desconhecido. Um lugar bonito para abandonar o mundo.


Palacio de Buckingham, lar da Familia Real. Bonito jardim, mas as orquideas Turca e Alema estao ofuscando a flora britanica...


Aniversario da princesa gaucha (um doce para quem advinhar quem e). Um espanhol em meio a brasileirada (outro doce pra quem adivinhar qual deles, nao tao obvio, mas com 50% de chances de acerto, desde que voce saiba quem sou eu).

sexta-feira, setembro 07, 2007

Jesus me persegue

1998, carnaval em Itapuama, litoral de Pernambuco. Estavamos na beira da praia, ouvindo a gandaia das ondas no mar, quando um jovem se aproxima para nos entregar um panfleto evangelico. "Muito obrigado, eu sou satanista", declinei, no intuito de tornar a tarde mais divertida fazendo o crente espumar de raiva. Para minha surpresa, ele calmamente retrucou: "E mesmo? E o que voce acha que Sata tem para lhe oferecer?" Dai seguiu uma conversa amigavel, sobre os pros e contras do Senhor e do Tinhoso. Simpatizamos com o crente gente boa, e resolvemos aceitar o convite para dar uma olhada no culto a noite, na falta de algo melhor para fazer. O pastor era dos mais fanaticos, daqueles que bate recordes nos decibeis e na saliva emitida ao pronunciar o santo nome: "Jesus! Alguem aqui deseja entregar seu coracao a Jesus?" Levantei o braco, mas uma vez a procura de diversao. O pastor me chamou para junto dele, para comocao das senhoras da primeira fila, contentes de ver um rapaz tao moco trilhando o caminho da salvacao. Repeti a oracao junto com o pastor, intercalada com tragos de cigarro, fazendo um esforco sobre-humano para nao rir, enquanto via meus amigos gargalhando no fundo da tenda. Desde esse dia, meu coracao esta seguro nas maos do divino portador.

2007, fim do verao em Brighton, litoral da Inglaterra. Novamente ouvindo o barulho bravio das ondas que batem na beira do mar, fui abordado por membros do exercito de Jesus. Eu ja tinha lido o jornal deles, onde havia uma comparacao entre ficar bebado ou chapado, e "receber o Espirito Santo", com enorme vantagem para o ultimo. Disse a eles que achei essa abordagem inteligente, por aproximar duas coisas que, na cabeca de muitos, sao separadas por um abismo de distancia: Religiao e diversao. Passados alguns minutos de papo, eles perguntam:
"Voce gostaria que nos rezassemos para voce?"
"Eu vou receber o Espirito Santo?", perguntei, sorrindo ceticamente
"Talvez. Nao podemos garantir o que vai acontecer, mas certamente te fara bem".
Nao tendo nada a perder, e curioso ante a possibilidade da embriaguez divina, aceitei. Um deles colocou a mao na minha cabeca, outro pos a mao em meu peito, e comecaram a rezar, em ingles e em outra lingua estranha que eu supus ser Latim. Terminada a reza, eles perguntam:
"Como voce se sente?"
"Muito bem, mas eu estava me sentindo bem antes da reza, entao nao estou bem certo sobre os efeitos dela..."
Eles riram e continuaram a conversar, e eu percebi que tava querendo rir a toa, nao sei se pela reza ou por esse texto, que comecava a se desenhar na minha cabeca.

sábado, setembro 01, 2007

Imagem nao e nada, mas mata a sede dos olhos

Seguem mais algumas fotos das minhas andancas pela Inglaterra. Legal estar descobrindo o prazer de fotografar, com tanta beleza em foco, podendo errar a vontade (benditas cameras digitais!), e sem medo de ser roubado.


Um castelo que a gente visitou no caminho para Liverpool. Eu achei enorme, mas uma brasileira mais rodada afirmou ja ter visto maiores e melhores. Fiquei imaginando o abismo entre as classes na idade media, quanto um aristocrata do castelo se sentia superior a gente comum?



Ja em Liverpool, a cidade dos Beatles. Esse e o club onde eles tocaram trocentas vezes antes de dominarem o mundo. Queen, The Who, Rolling Stones, Oasis, todos os gigantes passaram por aqui.


A reca da escola, num churrasco na mesma. A mulherada da esquerda e brasileira, as jovenzinhas do centro sao espanholas, e tem turco, brasileiros, espanhol e austriaco comprometendo a beleza da fotografia.


Essa e uma das inumeras faculdades de Oxford, existentes desde o seculo 13. Que chinfra, heim? Quase da para sentir no ar os seculos dedicados a transmissao de conhecimento.


Da tradicao para a modernidade, um grafite no centro de Brighton. Se isso nao e arte, o termo precisa de uma nova definicao.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Leis que pegam

Nao se pode mais fumar nos bares britanicos. Desde o dia primeiro de Julho que a fumaca esta proibida em ambientes fechados e publicos. Alguns bares tem uma area externa que permite a compulsiva combinacao alcool/nicotina. Mas na maioria o fumante tem que sair do recinto para dar suas tragadas, e nao pode faze-lo portando sua birita.

Todos os fumantes com quem conversei acham a lei absurda, ridicula, "onde ja se viu, beber sem poder fumar?". Mas a indignacao nao leva a transgressao: eles reclamam, mas cumprem a norma direitinho. Nao sei qual e a punicao para quem infringir a norma, mas sei que ninguem acendendo um cigarro dentro do bar ficara impune.

Lembro de uma estoria contada pelo meu pai, da epoca que tentaram proibir o cigarro nos bares e restaurantes de Sao Paulo. Papai acendeu o cigarro na area proibida, para indignacao do alemao que estava ao seu lado, ciente da norma que tinha acabado de entrar em vigor. "Mas e lei!", vociferava o alemao, enquanto papai tentava explicar que, no Brasil, tem lei que "pega" e tem lei que "nao pega", algo incompreensivel para a disciplinada mente oriunda do velho continente. O fato e que a lei nao pegou, os fumantes se divertiam enquanto soltavam a fumaca na cara da proibicao.

Na europa as leis funcionam porque o povo e disciplinado. Ou sera que o povo e disciplinado porque as leis funcionam? Me parece uma questao como a do ovo ou a galinha, o que veio primeiro?

Em tese e otimo viver num lugar onde as leis sao cumpridas, mas a obedienca cega as normas as vezes carece de bom senso. Uma nova medida internacional de seguranca proibe o embarque com liquidos acima de 100 ml, entao eu quase perdi minha solucao de lente de contato, e sorte minha que estava de oculos, nao poderia tirar a lente para dormir durante o voo de 8 horas durante a noite. Na cabeca deles eu posso ser um terrorista com material para fabricar uma bomba caseira.

Paranoia, eu digo, e eles respondem que paranoias como essa poderiam ter evitado a tragedia do 11 de Setembro. Entre evitar o desconforto de poucos e garantir a seguranca de muitos, as leis devem zelar pela segunda opcao, e se isso permite distorcoes, o mesmo acontece com as reivindicacoes do bom senso. A disciplina faz pelo coletivo o que o "jeitinho" faz pelo indivudual, e o coletivo deve vir em primeiro lugar, voce nao acha?

terça-feira, agosto 21, 2007

Potenciais Incertos

Uma pergunta que volta e meia me perturba: estou fazendo o meu melhor? Quando nao atingimos o resultado esperado, conforta pensar que teriamos conseguido caso tivessemos nos esforcado mais. Agrada mais ao ego ter um grande talento latente do que uma mediocridade plenamente desenvolvida. Sou capaz, so nao me esforco o suficiente. Ou nao me esforco o suficiente por medo de me descobrir incapaz?

Nao sabemos ate onde podemos chegar atraves do esforco porque nao sabemos o quanto podemos nos esforcar. Nada e tao bom que nao possa melhorar, nao ha uma linha de chegada para a distancia a percorrer, a nao ser o que acreditamos ser bom o bastante. E para diferenciar uma satisfacao merecida de uma acomodacao preguicosa e preciso ter uma ideia clara do que esta dentro e fora do nosso alcance.

O filme "Em busca da felicidade", com Will Smith, ilustra bem o ponto. Narra a transformacao de um vendedor fracassado em um bem sucedido executivo. Passa a ideia de que tudo e possivel, se voce da duro o suficiente. Para "chegar la", o cara mal dorme, nao tem um minuto de lazer, e come todas as refeicoes lendo o livro da empresa. Um esforco altamente irrealista, embora eu acredite que existam pessoas assim, o filme e baseado numa estoria real.

Ha quem diga que o quanto podemos nos esforcar e uma caracteristica geneticamente pre-determinada, o que pode ser tanto a gloria quanto o desespero dos que acreditam nao estar suando o suficiente. E a vaidade pode criar tanto a vontade quanto o medo de descobrir o quao melhor voce pode se tornar. Mas o pior de nao tentar nao e nao chegar la, e ter que conviver com as angustiantes duvidas do "e se?". Afinal, nada pior do que o ouro, prestes a ser alcancado, ser negado por que alem do arco iris nao se ousou.


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quinta-feira, agosto 16, 2007

Fotolog parte 2

Atendendo a pedidos, a fase fotolog segue firme e forte. Afinal de contas, palavras nao conseguem traduzir um tanto do que quero compartilhar com voces. Se as coisas seguirem nesse rumo, podem aguardar um post em miguxes num futuro proximo.


Essa e a placa que informa em quanto tempo os onibus vao chegar. Nao e fantastico?


Eis aqui a bela orla de Brighton. Descendo a rampa voce encontra varios bares e boates, ligeiramente mais sofisticados que os quiosques e barracas de Boa Viagem. Mas caldinho que e bom, eles nao tem! :D



No fundo o pier de Brithon, um dos pontos turisticos da cidade, onde ha bares, fliperamas e montanhas russas. O passaro devia ter ficado exatamente no centro, vou me esforcar mais da proxima vez.



Num pub perto do mar, com a espanholada toda. Tem gente demais para identificar todo mundo, o que e uma otima desculpa para meu esquecimento de alguns nomes. Mas posso identificar a cerveja na mesa, se nao me falha a memoria, era uma Stella Artois. Ou era uma Carlings? Agora nao estou 100% certo...

sábado, agosto 11, 2007

Doses abatidas

O que se pode fazer com duas doses de tristeza?
Mistura-las com cerveja afogando as magoas com os amigos?
Impossivel no momento. Outra ideia para a batida?
Filtra-las com lembrancas muito menos abatidas?
Com musicas propicias para conversa introspectiva?
Parece bom, considerando a falta de opcoes,
lembrando o quanto ja preparei drinks semelhantes,
sabendo que a bebida desaparece no outro dia...
Afinal, sao so duas doses.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Fotologueando

Durante todo esse tempo eu resisti a tentacao de fotologuear meu blog, afastando com isso as visitas de pessoas que nao se sentem atraidas por quilos de textos sem imagens. Bem, chegou a hora de ceder, lembrando a definicao de "abstemio" de Ambrose Bierce: Uma pessoa fraca que cai na tentacao de negar a si propria um prazer. Seguem algumas fotos das minhas andancas aqui em Brighton.




Da esquerda para direita: Lidia, espanhola; Alex, espanhol; Johana, Romena mas vivendo na Espanha; Maria Rose, Espanhola; Eu, Brasileiro; Rossi, Espanhol. Uma otima tarde na praia, excluindo o fato do povo falar em espanhol muito rapido, me impedindo de entender as conversas boa parte do tempo.



No Babylon Lounge, boate a beira mar: Eu, Maria Rose, Alex, Gemma (espanhola tb), Lidia e Rossi. Ah, essa noite podia ter terminado diferente... :P