sábado, fevereiro 09, 2008

Rota Imprevisível

Ela não sabe, e não serei eu quem dirá
Dançamos no mesmo espaço, ela lá, eu cá
cada um com seu outro par.

Não se deve mostrar cartas antes do fim da aposta
É melhor deixar no ar algumas questões sem resposta
Um dia elas emergem na costa.

Por enquanto elas navegam no oceano do inexprimível
Em busca da correnteza que as leve ao lago do audível
Uma rota de duração imprevisível.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Paródias da vida.

Seres competitivos como eu têm dificuldades em assimilar uma derrota. Minha expressão pode estar tranqüila como a de um monge budista, mas é pura fachada. Por dentro eu estou repassando raivosamente as falhas, e seus respectivos acertos perdidos, que ficarão congelados na minha mente por um período diretamente proporcional à minha sede de vitória. E se eu estou jogando, é pra ganhar, embora a gana varie de acordo com diversos fatores, como escrotice do adversário, pessoas para impressionar na platéia, ou derrotas acumuladas anteriormente. Eu só não jogo para ganhar quando sou ruim na disputa em questão. Afinal, é sempre bom conjugar expectativas com realidade.

Esse apego pela vitória me leva a só entrar em disputas onde tenho chances razoáveis. Maus perdedores não experimentam muito, preferem ficar em terreno conhecido, onde sabem para onde vai. E cada vez que eu deixo de tentar algo novo para não exibir a minha inabilidade, uma parte de mim fica com raiva. Há um pequeno aventureiro dentro de todos nós, mesmo que só ande com três seguranças num carro blindado por ruas vigiadas por câmeras. Esse pixote a quem nego o novo vai buscar sua satisfação por outras vias tortas, como um fã de jiló obrigado a comer aspargo. Corre pros velhos jogos, esses companheiros de amargor, com seus golpes de sorte e habilidade a parodiar certos aspectos da vida. Às vezes uma paródia da vida é tudo que precisamos.

terça-feira, janeiro 22, 2008

A sabedoria da inércia introspectiva

Não saber aonde ir
Com que linhas traçar o caminho
Sem destino.
Porque metas são como estrelas-do-mar:
cada pedaço cortado gera uma nova
E a mente é viciada no jogo:
"O que fazer agora?"
Muitas relizações para um ego "satisfeito"...
Um corpo bem alimentado...
Confortos assegurados...
A certeza de uma vida bem vivida
na hora da morte.
Quando nos esforçamos para lembrar os momentos plenos
E esquecemos de como são poucos em relação ao todo
Por tudo isso, em alguns momentos,
reservo-me o direito de sair do jogo.
Elucidando a viciada pela ausência de sua dose
E tentando ir para de onde nada se sabe.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

A busca por credibilidade

Paulo Coelho e um pessimo escritor, de acordo com muitas pessoas que jamais leram um livro dele. Nao gostar de Paulo Coelho e exibir senso critico apurado, e se colocar fora da ingenua massa consumidora de livros de auto-ajuda e discos do Jorge Vercilo. Pouco importa se o objeto do desgosto nao foi sequer tocado. Exibicoes nao precisam ser verdadeiras.

Nossas preferencias dizem muito sobre quem somos, ou queremos ser. E ninguem quer ser ingenuo - os fas declarados de Paulo Coelho ou ignoram ou nao se importam com o baixo valor literario atribuido ao antigo parceiro de Raul Seixas. Nao se preocupam em fazer parte da "elite intelectual", ou talvez se sintam parte justamente por ler o bruxo.

Avaliar arte com propriedade e uma tarefa para poucos - um grupo bem menor do que os que desgostam de Paulo Coelho. Claro que nao e preciso saber avaliar com propriedade para desgostar de uma obra. O problema e que muitos desgostam de Paulo Coelho para demonstrar que sabem diferenciar literatura boa da ruim, embora nao sejam capazes de explicar a distincao. Demonstracoes tambem nao precisam ser verdadeiras.

Quando adolescente, nao admitia que gostava de Oasis porque isso diminuiria minha credibilidade entre meus amigos grunge-metaleiros. Hoje ja nao me importo em dizer que sou fa. Paulo Coelho? Li apenas um livro, Veronika Decide Morrer, na mesma epoca em que ocultava meu apreco pelos irmaos Gallagher. Gostei muito. Mas nunca li mais nada dele, talvez por medo de gostar e ter que lidar com o desmonoramento da minha credibilidade intelectual. Em alguns aspectos, ainda tenho 14 anos.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Reticencias da retina

10 dias sem postar e o blog vai acumulando as teias de aranha que fazem o numero de visitas despencar... Isso nao e bom, afinal eu quero ve-lo crescendo firme, forte e sadio... Nao e facil conciliar demandas turisticas e etilicas com atualizacoes frequentes, mas...


Fontana de Trevi, em Roma. Sou mais a antiga fonte da Praca do Derby!


Coliseu, tambem em Roma, local do teatro e dos Ultimate Fightings da antiguidade.


Alhambra, em Granada, um palacio construido pelos arabes no tempo em que ocuparam a Espanha, bem diferente dos outros palacios e castelos europeus.


Jardim na Alhambra, em Granada.


Esse tomou uma manguaca tao grande que ta vomitando ate hoje...

sábado, dezembro 15, 2007

Versos Sobrios

Quanto alcool na procura pela musa!
Quanta gente descontente se nao usa
aditivos para a mente colorir.
Preto e branco e a vida desses tantos
So melhora na hora de se divertir

Quem cria desconfia que o talento
se solta com a escolta dum veneno
e gera obra onde sobra a tal magia;
Ruim e quando o encanto so se da
aos que vagam com a mesma bengala do artista

sábado, dezembro 08, 2007

Os problemas da tranquilidade

Nao gosto de fazer as coisas com pressa. Nao vejo o sentido em elevar os niveis de estresse e nervosismo para terminar as tarefas uns poucos minutos antes. Alguns chamam isso de lerdeza. Eu chamo de tranquilidade, e tenho ao meu lado autoridades do calibre de Dorival Caymmi e Dalai Lama confirmando a sabedoria da minha atitude.

Pois bem, o que se faz num domingo de sol quando se esta ao lado do Vaticano? Ver o discurso do Papa, e claro. Chego na praca redonda, vejo aquela multidao e ouco aquela voz profunda, de todas as direcoes. Mas cade o diabo do Papa? Olho em todas as direcoes, mas nao encontro nem sinal da autoridade eclesiastica. Bom, daqui a pouco eu acho, o Papa vai surgir na minha frente como uma revelacao espiritual. Ouco o seu Bento agradecer aos falantes de lingua espanhola, portuguesa, as caravanas deliram, parece um show pop, mas sem a histeria das tietes.Finalmente eu noto que o povo no centro da praca esta olhando em uma direcao que nao e a do telao, onde aparecia as legendas do discurso. Vou ao centro, olho na mesma direcao do olhar do povo, e ei-lo! O Papa em toda a sua magnitude, percebida como um binoculo ao contrario, devido a grande distancia entre a praca e a janela papal. Sem problema, com a ajuda do zoom da camera, vou tirar a primeira foto de celebridade da minha viagem.

Foi ai que descobri porque os Paparazzi nao sao pessoas tranquilas, o mesmo valendo para fotografos jornalisticos. Saquei a camera, e nesse exato instante o papa encerrou o discurso! Enquanto eu tirava a camera da capa alguem retirava o tapete catolico da janela, de modo que quando tirei a foto, nao havia nenhum sinal da presenca do Papa, e ele estava ali 30 segundos antes.

Publico a foto sabendo que pessoas religiosas enxergam alem da capacidade do olho. Tente voltar a foto 30 segundos com o controle remoto espiritual, e voce tera uma nitida imagem do Papa, como eu tive. Acredite em mim, eu tenho credito na praca.


Bem-aventurados sao aqueles cuja fe nao depende dos olhos.

domingo, dezembro 02, 2007

A cegueira da visao

Artes visuais nao me dizem muita coisa. Pinturas, esculturas, arquitetura, tudo isso nao me fascina. Em museus, sao raras as vezes em que nao tenho que driblar o tedio. Ouvir e ler as explicacoes sobre os quadros me estimulam mais do que olha-los.

Tenho visto muito quadros e esculturas famosas nessa viagem. Minha reacao padrao a maior parte e um "que bonito!" desempolgado. Fico imaginando como Paulo Mineiro - que tem apetite para artes visuais equivalente ao meu para artes escritas e sonoras - reagiria. Provavelmente derreteria em extase contemplativo.

Sei que posso, investindo algum tempo e energia, me divertir mais com meus olhos miopes. Apreciar arte e um prazer que pode ser cultivado, como tomar vinho. Mas existem dezenas de prazeres que podem ser cultivados. Porque deveria eu escolher esses dois? Nunca fiz questao de fazer parte do sofisticado grupo de apreciadores de artes e vinho - razao que leva a maior parte dos que nao tem gosto natural pela coisa a fazer o esforco de plantar a semente em solo inospito.

No momento venho fazendo o esforco porque estou tendo a oportunidade de ver todas essas maravilhas in loco - seria um crime nao conhece-las, e quase uma obrigacao de turista. E tudo muito bonito. Mas as estorias do Neil Gaiman me divertem bem mais do que os quadros do Da Vinci.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Visualizando as andancas


Relogio Astronomico, na antiga Prefeitura de Praga.


Jesus na ponte Charles, tambem em Praga.


O capeta na cerveja Belga, em Budapeste. Reparem na pose intelectual do Tinhoso, a mao no queixo, o ar de planejamentos maquiavelicos...



Veneza, a Recife Italiana. Meus conterraneos que me desculpem, amo minha cidade, mas a rival comedora de pizza e bem mais bonita...


Segurando a Torre de Pisa, gracas a vitamina de banana. Creditos a Pedro Cuomo, que tirou a foto mais elogiada da minha camera.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Plantas de plastico

Melancolia e quase um pecado nos dias atuais. Se voce passar dois minutos em silencio, sao grandes as chances de ouvir "o que ha de errado com voce?". Principalmente se voce for jovem, porque se espera do jovem uma atitude Wild On perante a vida - ha melancolia o bastante esperando por ele na velhice.

Alegria e a melhor coisa que existe, cantava Vinicius, com toda razao. Mas a obrigacao de estar alegre o tempo todo e bem triste, e dessa tristeza nao sai samba, so a impressao de que alegrias fabricadas em serie sao como plantas de plastico: pode ate ser bonito, dar ibope, mas nao ha vida de verdade, so uma imitacao.

A felicidade precisa de vento soprando, tambem cantou o Poetinha. E natural buscar os pontos mais ventilados no nosso caminho, mas a "alegria" de que falo aqui e como um ventilador conectado a uma esteira com uma pessoa em cima suando horrores para produzir o vento - sem sair do canto.

A lei do contraste faz a melancolia necessaria para melhor apreciar a alegria, mas nao se trata de buscar uma ou outra - se trata de se livrar do esforco em parecer feliz ou triste. Afinal, nao faz sentido aguar plantas de plastico.


Posts Relacionados:
Apreco pelo Silencio

domingo, novembro 18, 2007

Sem palavras


Budapeste, vista do alto da montanha do castelo. As construcoes da cidade sao de uma opulencia impressionante, e ao mesmo tempo varios carros bem fubecas trafegam pelas ruas, contraste do Imperio Austro-Hungaro x Periodo pos-guerra/comunismo.



Um museu no "Quarteirao dos Herois", a parte de Budapeste que mais gostei.



Parlamento em Viena, uma das cidades mais chinfrosas, em termos da magnitude das construcoes. Aqui ja nao se ve tantos carros fubecas...


Na Noruega vi neve, mas acho que ainda nao tinha enfrentado temperaturas abaixo de zero. Sente o drama e o trabalho que e sair de carro no Inverno, limpar toda a neve em cima e embaixo do veiculo, alem das ruas derrapantes... Pra que, se o transporte publico te leva para todo lugar, com seguranca?


Os Austriacos sabem o quanto a musica classica pode ser inspiradora. Por isso montaram um banheiro onde voce pode fazer sua arte ouvindo o melhor das sinfonias Europeias.

sábado, novembro 10, 2007

Primeira a esquerda depois do desencanto

Estive no Museu do Comunismo, em Praga. Bem facil de achar, ao lado de uma McDonalds e um cassino. Esperava encontrar uma visao proxima de "uma ideia nobre que nao funcionou economicamente". Longe disso. Marx e descrito como um romantico boemio de fantasias apocalipticas e teorias obsoletas, Lenin como um revolucionario cuja unica motivacao era vingar o assassinato do irmao por homens do Czar, e o Comunismo como um periodo nefasto da historia Tcheca que, gracas a Deus (ou a God), acabou. Igualdade social, saude, educacao, emprego e alimento para todos, os pontos positivos do Comunismo sao retratados como resultado da maquina de propaganda do Estado Sovietico, tambem ocupada em esconder a truculencia repressora do regime e endemonizar os Estados Unidos.

Muita gente se incomoda com o fato de existir tanta gente tentando sobreviver em condicoes sub-humanas. Essas pessoas tendem a ter simpatia pela Esquerda. A ideia de Esquerda = combate as injusticas sociais e Direita = manutencao dos privilegios esta introjetada na cabeca de muitos. E um enorme desprazer, portanto, quando se descobre que a Esquerda, no poder, nao age de acordo com os nobres ideais que a identificam. A desilusao pode ser tao grande a ponto de causar uma inversao nas conviccoes politicas, ou ate mesmo uma desistencia em tentar entender e se posicionar no jogo sujo.

Hoje em dia, Esquerda e Direita sao termos que nao dizem muito - A Direita tem discurso social, a Esquerda tem compromisso com os bancos. O Liberalismo e visto como "o jeito certo" de gerir a economia e o Comunismo virou historia - um tanto sombria para os que o viveram de fato, um tanto dourada para os que o imaginam como uma alternativa de mundo melhor, mais justo. Sonhos dourados, realidade sombria, o grande erro do Comunismo foi nao ter investido pesado na industria cultural.

quarta-feira, outubro 31, 2007

Eu sou o verdadeiro Sub-Zero brasileiro!

Dando sequencia a minha inatividade textual, aproveito o aparecimento de provas incontestaveis para fazer uma importante reivindicacao: eu sou o verdadeiro Sub-Zero brasileiro! Esquecam Lindomar e sua voadora fajuta, que todo mundo que ja jogou Mortal Kombat sabe que nao e exclusividade do Sub-Zero, ja que o Scorpion tambem faz igual, e que qualquer faixa amarela de Tae-Kwen-Do pode fazer parecido. Nao, meus caros, o que torna Sub-Zero unico na historia da carnificinia eletronica e que ele e capaz de congelar seus oponentes com seu sopro. E eu tambem sou capaz de fazer o mesmo! Apos um exaustivo treinamento nas geleiras norueguesas, eu pude aprender a milenar tecnica do sopro congelante, atraves dos ensinamentos de um sabio senhor cuja identidade secreta eu revelarei. Sem mais delongas, apresento as provas inquestionaveis do fato:


Bernardo, o Sub-Zero brasileiro, dispara seu sopro congelante...


...E vejam so o que acontece com o pobre carro. FATALITY!


Este e o sabio senhor que me ensinou a tecnica. Obrigado, Mestre!

quinta-feira, outubro 25, 2007

Estoria de Pescador

Quando imaginava uma pescaria, tedio era a primeira coisa que me vinha a cabeca. Qual a graca de segurar uma linha por horas, esperando o vacilo do peixe? Por conta disso, fui pescar pela primeira vez duas semanas atras, para confirmar o equivoco de minhas ideias sobre coisas que nunca fiz.

Esperar pela fisgada e legal porque ela pode acontecer a qualquer momento, o que te leva a ficar sempre alerta. Qualquer mudanca no peso da linha eu ja pensava em peixe, mas era so uma posicao diferente da linha no mar. Quando o anzol e mordido nao ha duvidas, embora o peixe, se nao estiver bem fisgado, possa escapar enquanto se puxa o carretel. Mas e claro que isso nao acontece com inciantes esforcados como eu. Na primeira fisgada, pesquei 5 coldfishes, garantindo o jantar do dia, porque a experiencia so se completa quando se come o que se pesca. Valeu a pena sentir os dedos do pe tao congelados a ponto de achar que iam quebrar feito vidro se eu pisasse com forca. Minha querida Noruega, e a mim que teu mar se entrega!


Vamos la, peixinho, colabora...


Bingo! Meu forte e a pesca, e eu so vim saber agora!

sexta-feira, outubro 19, 2007

Silencio e desacordo

Uma voz que se cala de repente
O silencio ocupando o lugar da cancao
Como um vulcao em extincao
lutando para expelir a lava quente
vendo o gelo inverter a direcao

Os pocos escondidos pela mente
As quedas onde nao se atinge o chao
Sonhos de longa duracao
Escadas construidas lentamente
Acordos entre o louco e o sao

Quando a musica tira o laco do presente
Perguntando se ainda se sabe como sao
os mergulhos na cratera incandescente
E preciso ter cuidado para nao
despencar no desacordo novamente.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Subestimando a capacidade alheia

Escrever partindo da premissa de que o seu leitor e uma anta pode ser muito frustrante ambas as partes, mas e o que acontece em diversos meios de comunicacao.
O Blog O Leitor, esse idiota oferece a visao de um jornalista cuja experiencia indica que a idiotice pressuposta e muito maior do que a real. Vale a pena dar uma olhada, especialmente em dois textos: E por que nao instigar?, onde ele trata dos motivos da classificacao e dos beneficios em abandona-la, e Quem e O Leitor, de que tantos colegas falam, um perfil dessa criatura a quem boa parte da imprensa se dirige.

sábado, outubro 13, 2007

Essa coluna vai mudar sua vida

Traducao de uma coluna da revista Weekend do jornal The Guardian, escrita por Oliver Bukeman, em 29/09/07.

Outro dia, me deparei com uma pesquisa assustadora, capaz de parar o coracao, e desde entao, como o velho marinheiro, venho me sentindo forcado a sair por ai contando para os outros, como se isso de alguma maneira aliviasse a dor. Agora e sua vez de ouvir. Todos nos sabemos, e claro, que o tempo parece acelerar quando envelhecemos, mas de acordo com estudos da Universidade de Cincinnati nos anos 70, esse efeito e tao intenso que, se voce hoje tem 20 anos, voce ja esta na metade da sua vida, em termos da sua experiencia subjetiva de como o tempo passa, mesmo que voce viva 80 anos. E se voce tem 40 anos, novamente assumindo que vai viver ate 80, 71% de sua vida ja se foi. Basicamente, se voce tem mais de 30, ja esta com um pe na cova. Tenha um otimo fim de semana!

Envelhecer nao e o unico fator que modifica nossa percepcao do tempo. Uma semana de ferias em um pais estranho parece, em retrospcto, ter durado muito mais do que uma semana comum de trabalho, que passa num piscar de olhos. Por outro lado, um dia desespedoramente chato parece alongar infinitamente. "Ponha sua mao numa panela quente por um minuto, e isso parece uma hora", disse Einstein. "Sente com uma garota bonita por uma hora, e isso parece um minuto. Isso e relatividade."

Entao podemos nos, trintoes-geriatricos, e outros, encontrar uma maneira de desacelerar o tempo, alongar nossas horas mais prazerosas, sem - como Dumbar em "Catch 22", desesperado para prolongar a propria vida - tentar nos manter entediados de proposito? Steve Taylor, que escreve sobre psicologia, oferece alguma ajuga em seu livro: Criando tempo: Porque o tempo parece passar em diferentes velocidades e como controlar isso. Ele aceita, parcialmente, que o tempo parece acelerar simplesmente porque cada novo ano de nossas vidas e uma fracao menor do total: se voce tem 10 anos, cada ano anterior foi 10% de sua vida inteira; se voce tem 70, cada ano foi apenas 1,4%. Mas uma ideia mais interessante, proposta primeiro pelo "vovo da psicologia" Willian James, e comprovada por experimentos, e que o tempo passa mais devagar quando temos que absorver mais informacao. Isso explica porque a ida a um lugar novo parece demorar mais do que a volta, e porque a semana de ferias parece mais longa do que a de trabalho. Uma solucao obvia, entao, e buscar novidades, e quebrar a rotina. Pessoas que viajam em aventura, escreve Taylor, reportam passeios que parecem mais longos do que as ferias daqueles que escolhem a regularidade e inatividade de uma semana na praia.

Espere um pouco: o tempo nao parece voar quando voce esta desfrutando os momentos? Sim, mas ha uma confusao aqui, entre a percepcao do tempo na nossa memoria e o momento em si. Na verdade, nao queremos sentir as horas passando devagar: o nome disso e tedio. Nos queremos olhar para tras, para o ano passado, digamos, e sentir que ele nao passou rapido demais. Nossos momentos mais felizes sao aqueles em que paramos de pensar na passagem do tempo completamente, mas depois lembramos deles com tendo durado um tempo deliciosamente longo. Esportes radicais, meditacao, qualquer atividade de alta concentracao vai produzir esse efeito. Mas sentar numa sala escura, remoendo as implicacoes da pesquisa de Cincinnati, nao vai, portando vou tentar parar com isso.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Bomba Balanca Confianca

Um dos pontos altos dessa minha semana em Londres era a visita a sede da BBC, local onde Juliana Rondom trabalha na recepcao, para desgosto de algumas celebridades britanicas que nao sao reconhecidas pela gringa brasileira. Na minha viagem de Brighton a Londres, descobri que o peso da minha bagagem estava intransportavel. Precisava me livrar de algumas das minhas tralhas, e Juliana me salvou de pagar uma fortuna para enviar os itens para o Brasil, se oferecendo para levar o excesso a patria amada no fim do ano. Combinamos que eu levasse as sacolas cheias de revistas, livros e roupas para a emissora inglesa, para encacapar, numa so tacada, as visitas e as quinquilharias.

Chegando la, despejei a carga num cantinho ao lado da recepcao, com a garantia de Juliana que meus pertences estavam seguros naquele local. O que eu nao podia imaginar e que o local estaria em risco por conta dos meus pertences. Ao sair da recepcao para o intervalo do almoco, Juliana esqueceu de informar ao seu colega sobre sobre a natureza inofensiva da minha bagagem. Quando o cara viu aquele monte de sacolas sem dono, o botao vermelho da paranoia-seguranca comecou a piscar enquanto a sirene de "Kill Bill" zunia na cabeca do cidadao, que chamou a seguranca do predio para lidar com o possivel desastre. Os homens vieram com detectores anti-bomba que seriam ativados caso houvesse um barbeador eletrico no meio da bagunca, e ai eles teriam que evacuar o predio por conta da iminente explosao. Programas seriam cancelados com enorme prejuizo para e emissora, talvez o emprego de Juliana tambem explodiria pelo custoso alarme falso. Tudo isso aconteceu enquanto eu e e ela caminhavamos tranquilamente pelos estudios da BBC.

Felizmente Juliana so teve que ouvir um sermao do senhor da seguranca sobre a possibilidade do panico geral, e eu pude reaver minhas sacolas sem maiores problemas. Passado o susto, assisti num dos estudios um programa chamado Golden Ball. E um jogo com premio em dinheiro, onde os participantes recebem bolas douradas com diferentes valores, e precisam descobrir quem esta mentindo para seguir em diante. A cada rodada eles votam em um jogador para abandonar a brincadeira, ate que so restem dois dos quatro no final, quando ocorre uma etapa curiosa: os finalistas tem que escolher entre "roubar" ou "dividir" sem revelar a escolha para o outro. Se os dois escolhem "dividir", cada um recebe metade da grana acumulada. Se um escolhe "dividir" e o outro "roubar", o que roubou leva toda a grana, um verdadeiro incentivo a desonestidade. E se os dois escolhem "roubar", ninguem recebe um centavo. Os finalistas eram uma mulher e um cara, e a lady tinha passado o jogo todo dizendo que queria encontrar alguem confiavel para dividir a grana, que ela so queria ir pra casa com algum dinheiro... E o cara concordando, que pra ele tava tranquilo dividir a grana tambem. No ultimo momento, a malandrona escolheu "roubar" e levou toda a bufunfa, o cara acreditou, como todo mundo na plateia, que os dois iam dividir o dim-dim. A cara de odio e decepcao do cara quando isso aconteceu deu pena, uma senhora do meu lado disse que teria batido na madame fuleiragem, que levou pra casa 18.000 libras. "Minha honra permanece intacta", disse o cara, tentando se consolar pelo bolso que permanecia vazio. Que joguinho pilantroso!

sexta-feira, setembro 28, 2007

Mais fotos

Uma das vantagens das fotos e que elas me permitem atualizar o blog sem precisar de muito esforco criativo. To nos meus ultimos dias em Brighton, e nao me parece o momento adequado para dedicar tempo a escrita. Em breve, os textos retornam ao seu lugar.


Duas atracoes turisticas de Brighton: A igreja de Saint Peter e os onibus de dois andares. De vez em quando vejo uns adolescentes nos ultimos bancos do segundo andar, gritando, ouvindo hip-hop e batendo na janela, e me pergunto se os vejo da mesma forma que eu era visto quando perturbava o sossego nos transportes coletivos alguns anos atras.


Uma outra foto do Royal Pavillion, porque a ultima nao deu uma ideia exata da majestosa magnitude da construcao.


Orla de Brighton, com onibus de passeio e uma construcao no mar cujo nome me escapa.
E um passaro no centro, como tinha prometido na foto de algumas semanas atras.


Do lado esquerdo, quatro espanholas; do lado direito, uma austriaca. No meio delas, um brasileiro se perguntando sobre a melhor maneira de admnistrar essa dificilima situacao.

domingo, setembro 16, 2007

Brincadeira e personagem

O controle da respiracao. Quando crianca, ele gostava de brincar com as diversas maneiras do ar entrar pelos pulmoes. Tudo comecou com as aulas de natacao, e as competicoes para ver quem passava mais tempo debaixo d'agua. Era otimo se desconectar do mundo por alguns instantes, flutuando na agua e nos pensamentos que comecavam lentos e iam acelerando, a medida que o tempo sugava o oxigenio dos pulmoes. A calmaria despejada pela urgencia de ar, contagens ate 10 em menos de dois segundos, diversas vezes, ate os musculos respiratorios comecarem suas contracoes involuntarias, uma vez, duas vezes, tres vezes, e o corpo nao podia esperar mais um milesimo de segundo sequer para ser invadido pelo ar. E que ar! Nao ha inspiracao mais prazerosa do que aquela que espera o quanto pode para acontecer. Sentir o pulmao dilatando, como um saco plastico soprado com forca, e por alguns instantes nao ha mundo, nao ha mente, nao ha nada alem de ar penetrando pulmoes, produzindo um orgasmo respiratorio.

Na adolescencia, ele passou a brincar com os estados de espirito. Se podia controlar os pensamentos que por sua vez davam origem aos sentimentos, era possivel escolher o que sentir, ele lera num livro de auto-ajuda, e aquilo fez um sentido enorme. Comecou a brincar com a construcao da identidade, escolhendo caractersiticas que gostaria de incorporar atraves das escolhas do pensar/sentir, como se fosse um personagem de RPG. E durante algum tempo, ele era exatamente quem queria ser, e um monte de gente queria ser como ele, era o que ouvia de vez em quando, e aquilo trazia uma vaidade enorme. Se sempre se sentira diferente da maioria, a diferenca agora parecia ser superioridade, sentimento bem diferente do que experimentava ao ser escolhido por ultimo para os times da Educacao Fisica, poucos anos antes, mas que pareciam bem distantes dessa epoca dourada. Agora a sociabilidade e o intelecto funcionavam tao bem que a inaptidao nos esportes nao incomodava mais. Quando questionado se jogava bola, respondia que isso e coisa para atleta. "E voce e o que?" "Sou boemio!", afirmava risonho, fazendo os outros rirem junto com ele.

A vaidade trouxe outro tipo de brincadeira: provocar reacoes nas pessoas. Quando percebeu que conseguia ganhar a maior parte das discussoes, mesmo estando errado, ficou viciado no brinquedo. Logo descobriu que, as vezes, argumentos nao sao a melhor forma de levar os outros a agir ou sentir o esperado. Passou a brincar com a linguagem corporal, aprendendo o quanto um sorriso, um tom de voz, um toque ou um olhar podem produzir efeitos inalcancaveis pelo verbo.

Chegou um momento em que a brincadeira ficou seria. Parte do processo era antecipar as reacoes das pessoas, ler o que estava sendo comunicado nao-verbalmente. Um dia essa etapa passou a ter muito mais a ver com a imaginacao dele do que com a realidade, fenomeno tambem conhecido como paranoia. Comecava a desconstrucao do personagem, a identidade desejada dando lugar a uma nova pessoa, algumas caracteristicas desaparecendo, outras retornando. Era um processo do qual nao tinha controle, com o qual nao podia brincar, e que levou um longo tempo para se habituar com seus efeitos.

Hoje, ele sente saudades do seu personagem, e de vez em quando tenta reaver algumas de suas qualidades, quase sempre sem muito sucesso. Mas vive bem melhor agora, moderando a vaidade e as brincadeiras. Identidade, afinal, e muito mais descoberta do que construcao. E personagens funcionam melhor na ficcao.