Tinha uma idéia dentro daquela xícara de café
Uma idéia que piscava, dourada no fundo negro
Piscava tanto que não se revelava
Era preciso firmá-la, mas de que jeito?
Bebi o café e a idéia sumiu
Para reaparecer depois, por alguns instantes,
e sumir novamente.
Continuava a piscar
só que
mais lento
quase definindo
os contornos.
Na segunda xícara,
o piscar
alongou-se.
A idéia se espreguiçava na rede dos meus neurônios
irradiando dourado pelas sinapses desbotadas
e no momento em que eu ia tirar a foto
a idéia caiu
da rede.
Os rastros de dourado
se dissolveram
lentamente
na escuridão
Fiquei de câmera na mão, esperando o retorno da idéia
mas ela não voltou. Nem com mais xícaras.
Quando larguei a câmera, cansado de esperar
Senti um peteleco na orelha
E vi dela escorrerem
gotas de dourado.
Peguei o violão e dos meus dedos saíram melodias luminosas
mas quando quis gravá-las
elas voltaram
ao cinza habitual.
Desisti de registrar a idéia.
Apenas sigo seus rastros
quando ela inventa
de (des)aparecer
numa xícara de café.
quarta-feira, maio 14, 2008
terça-feira, maio 06, 2008
Recife, Marcha da Maconha e a vela que não se apaga
Recife é uma cidade cheia de curiosidades canábicas. Capital do estado do polígono da maconha, a cidade disputa com Porto Alegre o primeiro lugar em apreciadores do tapinha que não dói, mas deixa a boca seca de tanta polêmica. Honrando sua herança colonial holandesa¹, a capital pernambucana sediou no último domingo (04/05) a marcha da maconha de maior apelo das massas (mais de 1000 pessoas, de acordo com o Globo Online) e maior tranqüilidade do país.
Recife, a rocha marítima, em inglês é reef, palavra também usada para os enroladinhos de camarão de Cabrobó, vendidos como joints para os turistas anglófilos nos coffee shops de Amsterdã, e conhecidos como coisinha, mulher de adão, coloseimas, a massa, presença (dentre outros) no estado de Lampião, que também quebra um galho na ausência de isqueiro. A quantidade de usuários na cidade causaria um infarto no Capitão Nascimento – faltariam viaturas e celas para enjaular todos os “financiadores dessa merda”.
De acordo com o anti-herói mais carismático do cinema nacional, ídolo da classe média apavorada², quem usa drogas acende os pavios de bomba da violência, ao dar dinheiro para bandidos. É um fato, mas qual a melhor maneira de lidar com ele? Matar ou prender traficantes e jogar os usuários na cadeia? Não existe time com mais peças de reposição do que o tráfico, e os usuários já mostraram que nem a possibilidade de ter a vida estragada por “férias numa colônia penal” retira deles o hábito.
A guerra contra as drogas é como soprar aquelas velinhas de aniversário que nunca se apagam. E a cada nova flama é derramado o sangue de culpados, suspeitos e inocentes. Enquanto isso, rios de dinheiro caem nas contas dos mega-traficantes de que fala Bnegão, pessoas que não têm seus lares invadidos por policiais do Bope.
A oposição à proibição das drogas não é exclusividade dos usuários. Políticos como Jeferson Péres e advogados como Evandro Lins e Silva concordam que a política atual é um desastre. Sua meta, a erradicação do consumo, é impossível de ser alcançada – sempre houve e sempre haverá pessoas propensas a usar drogas, que não abrem mão desse direito por uma lei que consideram ilegítima.
A legalização aparece como uma alternativa, mas encontra muita resistência. Alguns dizem que “viraria zona”, como se o atual nível de violência fosse um modelo de ordem desejável. Outros apontam para a possibilidade dos criminosos tirarem o prejuízo da não-venda das drogas em outras atividades, como seqüestros e assaltos. Fica parecendo que a proibição é uma maneira de manter a violência em “níveis toleráveis”, já que a maior parte das vítimas não ganha capas de revista, nem passeatas pela paz.
A marcha da maconha veio com o intuito de promover o debate sobre a questão. Há muita irreflexão sobre o assunto, que vai do “maconheiro tem que morrer” ao “vamos babilonizar o mundo”. É preciso dissipar toda essa fumaça que cerca o tema. É preciso sentar o dedo nessa porra de preconceitos.
1: Expressão emprestada do músico e filosófo Domingos Sávio, infatigável defensor do verde.
2: Expressão emprestada do cartunista Arnaldo Branco, criador do Capitão Presença, que aparece na animação da Marcha da Maconha.
Essa reportagem mostra o uso da canabis na medicina popular. Os velhinhos comovem a quem assiste.
Recife, a rocha marítima, em inglês é reef, palavra também usada para os enroladinhos de camarão de Cabrobó, vendidos como joints para os turistas anglófilos nos coffee shops de Amsterdã, e conhecidos como coisinha, mulher de adão, coloseimas, a massa, presença (dentre outros) no estado de Lampião, que também quebra um galho na ausência de isqueiro. A quantidade de usuários na cidade causaria um infarto no Capitão Nascimento – faltariam viaturas e celas para enjaular todos os “financiadores dessa merda”.
De acordo com o anti-herói mais carismático do cinema nacional, ídolo da classe média apavorada², quem usa drogas acende os pavios de bomba da violência, ao dar dinheiro para bandidos. É um fato, mas qual a melhor maneira de lidar com ele? Matar ou prender traficantes e jogar os usuários na cadeia? Não existe time com mais peças de reposição do que o tráfico, e os usuários já mostraram que nem a possibilidade de ter a vida estragada por “férias numa colônia penal” retira deles o hábito.
A guerra contra as drogas é como soprar aquelas velinhas de aniversário que nunca se apagam. E a cada nova flama é derramado o sangue de culpados, suspeitos e inocentes. Enquanto isso, rios de dinheiro caem nas contas dos mega-traficantes de que fala Bnegão, pessoas que não têm seus lares invadidos por policiais do Bope.
A oposição à proibição das drogas não é exclusividade dos usuários. Políticos como Jeferson Péres e advogados como Evandro Lins e Silva concordam que a política atual é um desastre. Sua meta, a erradicação do consumo, é impossível de ser alcançada – sempre houve e sempre haverá pessoas propensas a usar drogas, que não abrem mão desse direito por uma lei que consideram ilegítima.
A legalização aparece como uma alternativa, mas encontra muita resistência. Alguns dizem que “viraria zona”, como se o atual nível de violência fosse um modelo de ordem desejável. Outros apontam para a possibilidade dos criminosos tirarem o prejuízo da não-venda das drogas em outras atividades, como seqüestros e assaltos. Fica parecendo que a proibição é uma maneira de manter a violência em “níveis toleráveis”, já que a maior parte das vítimas não ganha capas de revista, nem passeatas pela paz.
A marcha da maconha veio com o intuito de promover o debate sobre a questão. Há muita irreflexão sobre o assunto, que vai do “maconheiro tem que morrer” ao “vamos babilonizar o mundo”. É preciso dissipar toda essa fumaça que cerca o tema. É preciso sentar o dedo nessa porra de preconceitos.
*******
1: Expressão emprestada do músico e filosófo Domingos Sávio, infatigável defensor do verde.
2: Expressão emprestada do cartunista Arnaldo Branco, criador do Capitão Presença, que aparece na animação da Marcha da Maconha.
Essa reportagem mostra o uso da canabis na medicina popular. Os velhinhos comovem a quem assiste.
quarta-feira, abril 30, 2008
As Reticências de Renato
Já tinha um tempo que Renato vinha tentando escrever textos afirmativos, daqueles preto-no-branco, sem espaço para vaguezas. O problema é que vaguezas eram só o que ele tinha. Isso já ficava claro pelos cumprimentos no trabalho:
-Bom dia, doutor Renato!
-Bom dia...
Aos 40 e tantos, os colegas de Renato eram todos afirmações exclamativas: salários altos, carros do ano, parceiras gostosas. Renato também ganhava bem, mas não trocava de carro há mais de 5 anos, para irritação de sua filha adolescente:
-Me deixa um quarteirão antes, que eu não vou chegar no bar nessa banheira velha.
-Tudo bem...
A vida de Renato seguia a cartilha com primor: um bom emprego, uma esposa carinhosa, uma filha estudiosa e chateosa como a idade manda. Mas nosso doutor, por mais que tentasse, não conseguia escrever um texto afirmativo, não conseguia se afirmar diante da vida. Sobravam reticências onde faltavam conclusões:
-Querida, o leite está frio...
-Amor, eu sei que você consegue! Repita comigo: O leite está frio!
-Eu acabei de dizer, ele tá frio...
-Não! Pare com essas malditas reticências! Diga que a porcaria do leite está frio! F-R-I-O! Se aprume, ômi!
-Perdi a vontade de beber leite... - disse nosso doutor, se voltando para seu texto incompleto.
Ele estava intrigado com a própria incapacidade conclusiva. Tentou escrever frases curtas soltas, só pelo ponto final: "The book is on the table" - e quando ele colocava o ponto final, a mão tremia rapidamente e lá estavam os dois infames pontinhos ao lado. "Eu não consigo..." - e nem ao escrever a constatação de um fato conseguia evitar as malditas reticências.
Desanimado, Renato foi pensar na vida caminhando pelo bairro. Talvez fosse uma questão de dar ordens. Ordens exigem uma exclamação, no mínimo um ponto final. Mas o doutor era um cara politizado, avesso à exploração do homem pelo homem. Quem ele iria comandar? Sua esposa não se sujeitaria, sua filha muito menos. Foi aí que Renato teve um lampejo exclamativo:
-Mas é claro, um cachorro!
Dirigiu-se empolgado ao centro de adoção de cães. Logo ao entrar teve o olhar fisgado por um cãozinho que não parava de andar em círculos, numa eterna caça ao próprio rabo. Indicou-o ao vendedor, que ordenou:
-Quieto, cãozinho! - o vendedor abrira a gaiola com a coleira na mão, mas o cãozinho não parava de andar em círculos. O vendedor gritou duas, três vezes, mas o pequinês nem mudava a marcha. Renato ficou impaciente:
- Vamos lá, meu chapinha... - no terceiro instante de pausa representado pelo último pontinho, o cãozinho parou. Parou e ficou olhando para Renato, com a língua de fora, abanando o rabo, satisfeito. O doutor pegou a coleira do vendedor, o pequinês saiu da gaiola na direção de seu novo dono.
Chegando em casa com seu novo amigo, Renato correu para o seu texto. Constatou que continuava incapaz de evitar as reticências. Mas entendeu que elas podiam fazer com que sua estória parasse de andar em círculos, como fizeram com seu cãozinho, a quem resolveu chamar de Reti...
-Bom dia, doutor Renato!
-Bom dia...
Aos 40 e tantos, os colegas de Renato eram todos afirmações exclamativas: salários altos, carros do ano, parceiras gostosas. Renato também ganhava bem, mas não trocava de carro há mais de 5 anos, para irritação de sua filha adolescente:
-Me deixa um quarteirão antes, que eu não vou chegar no bar nessa banheira velha.
-Tudo bem...
A vida de Renato seguia a cartilha com primor: um bom emprego, uma esposa carinhosa, uma filha estudiosa e chateosa como a idade manda. Mas nosso doutor, por mais que tentasse, não conseguia escrever um texto afirmativo, não conseguia se afirmar diante da vida. Sobravam reticências onde faltavam conclusões:
-Querida, o leite está frio...
-Amor, eu sei que você consegue! Repita comigo: O leite está frio!
-Eu acabei de dizer, ele tá frio...
-Não! Pare com essas malditas reticências! Diga que a porcaria do leite está frio! F-R-I-O! Se aprume, ômi!
-Perdi a vontade de beber leite... - disse nosso doutor, se voltando para seu texto incompleto.
Ele estava intrigado com a própria incapacidade conclusiva. Tentou escrever frases curtas soltas, só pelo ponto final: "The book is on the table" - e quando ele colocava o ponto final, a mão tremia rapidamente e lá estavam os dois infames pontinhos ao lado. "Eu não consigo..." - e nem ao escrever a constatação de um fato conseguia evitar as malditas reticências.
Desanimado, Renato foi pensar na vida caminhando pelo bairro. Talvez fosse uma questão de dar ordens. Ordens exigem uma exclamação, no mínimo um ponto final. Mas o doutor era um cara politizado, avesso à exploração do homem pelo homem. Quem ele iria comandar? Sua esposa não se sujeitaria, sua filha muito menos. Foi aí que Renato teve um lampejo exclamativo:
-Mas é claro, um cachorro!
Dirigiu-se empolgado ao centro de adoção de cães. Logo ao entrar teve o olhar fisgado por um cãozinho que não parava de andar em círculos, numa eterna caça ao próprio rabo. Indicou-o ao vendedor, que ordenou:
-Quieto, cãozinho! - o vendedor abrira a gaiola com a coleira na mão, mas o cãozinho não parava de andar em círculos. O vendedor gritou duas, três vezes, mas o pequinês nem mudava a marcha. Renato ficou impaciente:
- Vamos lá, meu chapinha... - no terceiro instante de pausa representado pelo último pontinho, o cãozinho parou. Parou e ficou olhando para Renato, com a língua de fora, abanando o rabo, satisfeito. O doutor pegou a coleira do vendedor, o pequinês saiu da gaiola na direção de seu novo dono.
Chegando em casa com seu novo amigo, Renato correu para o seu texto. Constatou que continuava incapaz de evitar as reticências. Mas entendeu que elas podiam fazer com que sua estória parasse de andar em círculos, como fizeram com seu cãozinho, a quem resolveu chamar de Reti...
quinta-feira, abril 24, 2008
Malandros Otários
Procurando por programas de gravação de audio na web, me deparo com um de nível profissional, disponível gratuitamente para teste: depois de cerca de um mês você precisa registrá-lo para continuar funcionando, o que implica em pagar 25 dólares. Mas eu sou um internauta ixperto, com mais de 10 anos pegando onda nas praias virtuais, sem nunca reduzir minhas modestas economias. Fui atrás de um cracker para desbloquear o programa, uma malandragem virtual poupadora de verdinhas. Acontece que o cracker que baixei era na verdade um vírus, que lascou o meu pc e me fez gastar 60 reais para consertá-lo, mais do que o custo para registrar o programa oficialmente.
Eu fiquei com tanta raiva de ter feito tamanho papél de trouxa que adoeci, a desarmonia psíquica derrubou meu sistema imunológico. Aí fiquei pensando que conquistei meus maiores troféus de otário justamente na busca das vantagens malandrosas. Existem os inocentes que não percebem os golpes alheios, tornando-se alvo preferencial dos tubarões. E existem as sardinhas que se acham tubarões, e vivem a tomar caldo das jogadas em que se arriscam.
Eu já passei pelos três papéis. A condição de inocente é frustrante, ninguém gosta de ser passado para trás. Mas através dos fumos que levamos vamos ampliando nosso repertório, o que nos impede de cair nos mesmos trambiques (embora algumas pessoas fujam a essa regra), e permite aplicá-los no otário mais perto, seguindo a moral do mundo livre, de acordo com Fred 04: "ou você explora o próximo, ou o próximo é você". Ser tubarão é divertido, até os outros descobrirem. Os que sabem da sua condição de vigarista tendem a se afastar, e a alertar os incautos sobre suas patifarias. Cedo ou tarde todos saberão de que se trata de um pilantra, e aí as coisas vão ficar feias pro seu lado.
O outro problema é que todo tubarão é uma sardinha em potencial. Basta um erro de avaliação, uma falha em perceber o preju disfarçado de lucro, e tchibum! - lá vai o ixperto levar caldo da própria ixperteza. É mais negócio, portanto, usar a malandragem para se defender, e não para atacar. Como já disse Jorge Ben: "Se o malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem".
Eu fiquei com tanta raiva de ter feito tamanho papél de trouxa que adoeci, a desarmonia psíquica derrubou meu sistema imunológico. Aí fiquei pensando que conquistei meus maiores troféus de otário justamente na busca das vantagens malandrosas. Existem os inocentes que não percebem os golpes alheios, tornando-se alvo preferencial dos tubarões. E existem as sardinhas que se acham tubarões, e vivem a tomar caldo das jogadas em que se arriscam.
Eu já passei pelos três papéis. A condição de inocente é frustrante, ninguém gosta de ser passado para trás. Mas através dos fumos que levamos vamos ampliando nosso repertório, o que nos impede de cair nos mesmos trambiques (embora algumas pessoas fujam a essa regra), e permite aplicá-los no otário mais perto, seguindo a moral do mundo livre, de acordo com Fred 04: "ou você explora o próximo, ou o próximo é você". Ser tubarão é divertido, até os outros descobrirem. Os que sabem da sua condição de vigarista tendem a se afastar, e a alertar os incautos sobre suas patifarias. Cedo ou tarde todos saberão de que se trata de um pilantra, e aí as coisas vão ficar feias pro seu lado.
O outro problema é que todo tubarão é uma sardinha em potencial. Basta um erro de avaliação, uma falha em perceber o preju disfarçado de lucro, e tchibum! - lá vai o ixperto levar caldo da própria ixperteza. É mais negócio, portanto, usar a malandragem para se defender, e não para atacar. Como já disse Jorge Ben: "Se o malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem".
domingo, abril 13, 2008
Bloqueio Criativo
Basta escrever meio verso
para a mente dizer que está péssimo
que pioro idéias que já tive.
Procuro pelos mestres seletos
suas lições me soam como tcheco
nenhum sentido me atinge.
Dormência no ouvido interno
Frequência perdida no aéreo
Nervoso que nada imprime.
para a mente dizer que está péssimo
que pioro idéias que já tive.
Procuro pelos mestres seletos
suas lições me soam como tcheco
nenhum sentido me atinge.
Dormência no ouvido interno
Frequência perdida no aéreo
Nervoso que nada imprime.
quarta-feira, abril 09, 2008
Quebra de Mecanizações
Tem horas que fico enjoado do meu jeito de falar. A música da fala, as entonações, as subidas e descidas, tudo isso fica tão mecânico, tão automático, que cansa. E aí o falar sai do prazer para o fardo, terminando o quanto antes, como toda obrigação inadiável. E eu lembro bem da satisfação de brincar com as teclas verbais, compondo frases que soam bem aos ouvidos. tornando muitas conversas corriqueiras um momento de deleite. A lembrança do que falta só incomoda quando já se teve.
Eu tive a sorte poder quebrar essa mecanização 2x por ano, quando viajava para passar as férias com minha família em Belo Horizonte. As brincadeiras com meu sotaque nordestino me levaram a mudá-lo nessas ocasiões, trocando o "ti" e "di" por "tchi" e "dchi", e o "esse" chiado pelo sibilado. Era bem divertido, me permitia degustar as palavras de outro jeito, e ao voltar para meu sotaque natural, a quebra da mecanização também lhe dava um sabor especial.
Com a adolescência e suas demandas de afirmação de identidade, mudar o sotaque me parecia falso, uma demonstração da insegurança que eu queria combater. Abandonei as quebras, embora notando que meu falar nordestino dirigido à minha família do sudeste não era exatamente o mesmo do praticado com meus conterrâneos. As quebras ficaram restritas às imitações caricatas dos outros sotaques, brincadeira que ainda hoje me diverte um bocado, não dispenso uma oportunidade de falar bobagem em carioquês.
Descobri uma nova quebra falando inglês. Me divirto conversando, lendo textos em voz alta, e noto que em inglês eu faço menos rodeios, e me sinto mais à vontade para expressar certas idéias. É como se em português eu ignorasse as idéias comuns, buscando as brilhantes, enquanto que em inglês as idéias comuns me soam boas de serem ditas.
Pertencer a um lugar, a um sotaque, à uma cultura, traz mais ônus do que bônus? Me parece que quem está muito preso na própria sente dificuldade em apreciar outras. E quebra mecanizações com muito menos frequência.
Eu tive a sorte poder quebrar essa mecanização 2x por ano, quando viajava para passar as férias com minha família em Belo Horizonte. As brincadeiras com meu sotaque nordestino me levaram a mudá-lo nessas ocasiões, trocando o "ti" e "di" por "tchi" e "dchi", e o "esse" chiado pelo sibilado. Era bem divertido, me permitia degustar as palavras de outro jeito, e ao voltar para meu sotaque natural, a quebra da mecanização também lhe dava um sabor especial.
Com a adolescência e suas demandas de afirmação de identidade, mudar o sotaque me parecia falso, uma demonstração da insegurança que eu queria combater. Abandonei as quebras, embora notando que meu falar nordestino dirigido à minha família do sudeste não era exatamente o mesmo do praticado com meus conterrâneos. As quebras ficaram restritas às imitações caricatas dos outros sotaques, brincadeira que ainda hoje me diverte um bocado, não dispenso uma oportunidade de falar bobagem em carioquês.
Descobri uma nova quebra falando inglês. Me divirto conversando, lendo textos em voz alta, e noto que em inglês eu faço menos rodeios, e me sinto mais à vontade para expressar certas idéias. É como se em português eu ignorasse as idéias comuns, buscando as brilhantes, enquanto que em inglês as idéias comuns me soam boas de serem ditas.
Pertencer a um lugar, a um sotaque, à uma cultura, traz mais ônus do que bônus? Me parece que quem está muito preso na própria sente dificuldade em apreciar outras. E quebra mecanizações com muito menos frequência.
terça-feira, março 04, 2008
Notas decompostas no tempo
Quanto tempo gasto com as malditas músicas. Inúmeras horas roubadas pelas canções, roubadas dos estudos, dos esportes, dos namoros e outras atividades importantes para o desenvolvimento humano. Para quê? Para saber decorado dezenas de letras que minha pouca afinação me impede de (en)cantar? Para construir identidades etéreas, me sentindo maloqueiro com Racionais, sedutor com Chico Buarque ou religioso com Clara Nunes? Eu me esforço para descobrir as vantagens que isso trouxe. Saber cantar uns versos bonitos, mesmo que desafinados, dá algum ibope com algumas gatinhas. Mas saber dançar forró dá muito mais ibope com muito mais gatinhas. Bom, eu sempre me dei bem em interpretações de texto, e talvez meu queimatempo sonoro tenha ajudado um tanto nisso. Um possível pró, para diversos e concretos contras... Se eu tivesse dividido todo o tempo de escutador em 5 partes, e tivesse gasto 1/5 nos estudos, 1/5 nos esportes, 1/5 dançando forró, para gastar o quarto quinto nos namoros, ainda me sobraria um quinto para escutar o que quisesse, o que seria suficiente para ouvir todas as músicas já ouvidas nesse tempo todo, se não repetisse nenhuma. Muito mais inteligente do que ouvir dezenas de músicas dezenas de vezes... mas nesse caso, eu não saberia nenhuma letra decorada, e as identidades etéreas se dissipariam antes mesmo de se formar, não me sentiria nem maloqueiro, nem sedutor, nem religioso, nem outras dezenas de personagens. Eu olho com inveja para esse eu hipotético, mas tenho a impressão de que ele olharia do mesmo modo para mim.
sábado, fevereiro 09, 2008
Rota Imprevisível
Ela não sabe, e não serei eu quem dirá
Dançamos no mesmo espaço, ela lá, eu cá
cada um com seu outro par.
Não se deve mostrar cartas antes do fim da aposta
É melhor deixar no ar algumas questões sem resposta
Um dia elas emergem na costa.
Por enquanto elas navegam no oceano do inexprimível
Em busca da correnteza que as leve ao lago do audível
Uma rota de duração imprevisível.
Dançamos no mesmo espaço, ela lá, eu cá
cada um com seu outro par.
Não se deve mostrar cartas antes do fim da aposta
É melhor deixar no ar algumas questões sem resposta
Um dia elas emergem na costa.
Por enquanto elas navegam no oceano do inexprimível
Em busca da correnteza que as leve ao lago do audível
Uma rota de duração imprevisível.
segunda-feira, janeiro 28, 2008
Paródias da vida.
Seres competitivos como eu têm dificuldades em assimilar uma derrota. Minha expressão pode estar tranqüila como a de um monge budista, mas é pura fachada. Por dentro eu estou repassando raivosamente as falhas, e seus respectivos acertos perdidos, que ficarão congelados na minha mente por um período diretamente proporcional à minha sede de vitória. E se eu estou jogando, é pra ganhar, embora a gana varie de acordo com diversos fatores, como escrotice do adversário, pessoas para impressionar na platéia, ou derrotas acumuladas anteriormente. Eu só não jogo para ganhar quando sou ruim na disputa em questão. Afinal, é sempre bom conjugar expectativas com realidade.
Esse apego pela vitória me leva a só entrar em disputas onde tenho chances razoáveis. Maus perdedores não experimentam muito, preferem ficar em terreno conhecido, onde sabem para onde vai. E cada vez que eu deixo de tentar algo novo para não exibir a minha inabilidade, uma parte de mim fica com raiva. Há um pequeno aventureiro dentro de todos nós, mesmo que só ande com três seguranças num carro blindado por ruas vigiadas por câmeras. Esse pixote a quem nego o novo vai buscar sua satisfação por outras vias tortas, como um fã de jiló obrigado a comer aspargo. Corre pros velhos jogos, esses companheiros de amargor, com seus golpes de sorte e habilidade a parodiar certos aspectos da vida. Às vezes uma paródia da vida é tudo que precisamos.
Esse apego pela vitória me leva a só entrar em disputas onde tenho chances razoáveis. Maus perdedores não experimentam muito, preferem ficar em terreno conhecido, onde sabem para onde vai. E cada vez que eu deixo de tentar algo novo para não exibir a minha inabilidade, uma parte de mim fica com raiva. Há um pequeno aventureiro dentro de todos nós, mesmo que só ande com três seguranças num carro blindado por ruas vigiadas por câmeras. Esse pixote a quem nego o novo vai buscar sua satisfação por outras vias tortas, como um fã de jiló obrigado a comer aspargo. Corre pros velhos jogos, esses companheiros de amargor, com seus golpes de sorte e habilidade a parodiar certos aspectos da vida. Às vezes uma paródia da vida é tudo que precisamos.
terça-feira, janeiro 22, 2008
A sabedoria da inércia introspectiva
Não saber aonde ir
Com que linhas traçar o caminho
Sem destino.
Porque metas são como estrelas-do-mar:
cada pedaço cortado gera uma nova
E a mente é viciada no jogo:
"O que fazer agora?"
Muitas relizações para um ego "satisfeito"...
Um corpo bem alimentado...
Confortos assegurados...
A certeza de uma vida bem vivida
na hora da morte.
Quando nos esforçamos para lembrar os momentos plenos
E esquecemos de como são poucos em relação ao todo
Por tudo isso, em alguns momentos,
reservo-me o direito de sair do jogo.
Elucidando a viciada pela ausência de sua dose
E tentando ir para de onde nada se sabe.
Com que linhas traçar o caminho
Sem destino.
Porque metas são como estrelas-do-mar:
cada pedaço cortado gera uma nova
E a mente é viciada no jogo:
"O que fazer agora?"
Muitas relizações para um ego "satisfeito"...
Um corpo bem alimentado...
Confortos assegurados...
A certeza de uma vida bem vivida
na hora da morte.
Quando nos esforçamos para lembrar os momentos plenos
E esquecemos de como são poucos em relação ao todo
Por tudo isso, em alguns momentos,
reservo-me o direito de sair do jogo.
Elucidando a viciada pela ausência de sua dose
E tentando ir para de onde nada se sabe.
sexta-feira, janeiro 04, 2008
A busca por credibilidade
Paulo Coelho e um pessimo escritor, de acordo com muitas pessoas que jamais leram um livro dele. Nao gostar de Paulo Coelho e exibir senso critico apurado, e se colocar fora da ingenua massa consumidora de livros de auto-ajuda e discos do Jorge Vercilo. Pouco importa se o objeto do desgosto nao foi sequer tocado. Exibicoes nao precisam ser verdadeiras.
Nossas preferencias dizem muito sobre quem somos, ou queremos ser. E ninguem quer ser ingenuo - os fas declarados de Paulo Coelho ou ignoram ou nao se importam com o baixo valor literario atribuido ao antigo parceiro de Raul Seixas. Nao se preocupam em fazer parte da "elite intelectual", ou talvez se sintam parte justamente por ler o bruxo.
Avaliar arte com propriedade e uma tarefa para poucos - um grupo bem menor do que os que desgostam de Paulo Coelho. Claro que nao e preciso saber avaliar com propriedade para desgostar de uma obra. O problema e que muitos desgostam de Paulo Coelho para demonstrar que sabem diferenciar literatura boa da ruim, embora nao sejam capazes de explicar a distincao. Demonstracoes tambem nao precisam ser verdadeiras.
Quando adolescente, nao admitia que gostava de Oasis porque isso diminuiria minha credibilidade entre meus amigos grunge-metaleiros. Hoje ja nao me importo em dizer que sou fa. Paulo Coelho? Li apenas um livro, Veronika Decide Morrer, na mesma epoca em que ocultava meu apreco pelos irmaos Gallagher. Gostei muito. Mas nunca li mais nada dele, talvez por medo de gostar e ter que lidar com o desmonoramento da minha credibilidade intelectual. Em alguns aspectos, ainda tenho 14 anos.
Nossas preferencias dizem muito sobre quem somos, ou queremos ser. E ninguem quer ser ingenuo - os fas declarados de Paulo Coelho ou ignoram ou nao se importam com o baixo valor literario atribuido ao antigo parceiro de Raul Seixas. Nao se preocupam em fazer parte da "elite intelectual", ou talvez se sintam parte justamente por ler o bruxo.
Avaliar arte com propriedade e uma tarefa para poucos - um grupo bem menor do que os que desgostam de Paulo Coelho. Claro que nao e preciso saber avaliar com propriedade para desgostar de uma obra. O problema e que muitos desgostam de Paulo Coelho para demonstrar que sabem diferenciar literatura boa da ruim, embora nao sejam capazes de explicar a distincao. Demonstracoes tambem nao precisam ser verdadeiras.
Quando adolescente, nao admitia que gostava de Oasis porque isso diminuiria minha credibilidade entre meus amigos grunge-metaleiros. Hoje ja nao me importo em dizer que sou fa. Paulo Coelho? Li apenas um livro, Veronika Decide Morrer, na mesma epoca em que ocultava meu apreco pelos irmaos Gallagher. Gostei muito. Mas nunca li mais nada dele, talvez por medo de gostar e ter que lidar com o desmonoramento da minha credibilidade intelectual. Em alguns aspectos, ainda tenho 14 anos.
quarta-feira, dezembro 26, 2007
Reticencias da retina
10 dias sem postar e o blog vai acumulando as teias de aranha que fazem o numero de visitas despencar... Isso nao e bom, afinal eu quero ve-lo crescendo firme, forte e sadio... Nao e facil conciliar demandas turisticas e etilicas com atualizacoes frequentes, mas...

Fontana de Trevi, em Roma. Sou mais a antiga fonte da Praca do Derby!

Coliseu, tambem em Roma, local do teatro e dos Ultimate Fightings da antiguidade.

Alhambra, em Granada, um palacio construido pelos arabes no tempo em que ocuparam a Espanha, bem diferente dos outros palacios e castelos europeus.

Jardim na Alhambra, em Granada.

Esse tomou uma manguaca tao grande que ta vomitando ate hoje...
Fontana de Trevi, em Roma. Sou mais a antiga fonte da Praca do Derby!
Coliseu, tambem em Roma, local do teatro e dos Ultimate Fightings da antiguidade.
Alhambra, em Granada, um palacio construido pelos arabes no tempo em que ocuparam a Espanha, bem diferente dos outros palacios e castelos europeus.
Jardim na Alhambra, em Granada.
Esse tomou uma manguaca tao grande que ta vomitando ate hoje...
sábado, dezembro 15, 2007
Versos Sobrios
Quanto alcool na procura pela musa!
Quanta gente descontente se nao usa
aditivos para a mente colorir.
Preto e branco e a vida desses tantos
So melhora na hora de se divertir
Quem cria desconfia que o talento
se solta com a escolta dum veneno
e gera obra onde sobra a tal magia;
Ruim e quando o encanto so se da
aos que vagam com a mesma bengala do artista
Quanta gente descontente se nao usa
aditivos para a mente colorir.
Preto e branco e a vida desses tantos
So melhora na hora de se divertir
Quem cria desconfia que o talento
se solta com a escolta dum veneno
e gera obra onde sobra a tal magia;
Ruim e quando o encanto so se da
aos que vagam com a mesma bengala do artista
sábado, dezembro 08, 2007
Os problemas da tranquilidade
Nao gosto de fazer as coisas com pressa. Nao vejo o sentido em elevar os niveis de estresse e nervosismo para terminar as tarefas uns poucos minutos antes. Alguns chamam isso de lerdeza. Eu chamo de tranquilidade, e tenho ao meu lado autoridades do calibre de Dorival Caymmi e Dalai Lama confirmando a sabedoria da minha atitude.
Pois bem, o que se faz num domingo de sol quando se esta ao lado do Vaticano? Ver o discurso do Papa, e claro. Chego na praca redonda, vejo aquela multidao e ouco aquela voz profunda, de todas as direcoes. Mas cade o diabo do Papa? Olho em todas as direcoes, mas nao encontro nem sinal da autoridade eclesiastica. Bom, daqui a pouco eu acho, o Papa vai surgir na minha frente como uma revelacao espiritual. Ouco o seu Bento agradecer aos falantes de lingua espanhola, portuguesa, as caravanas deliram, parece um show pop, mas sem a histeria das tietes.Finalmente eu noto que o povo no centro da praca esta olhando em uma direcao que nao e a do telao, onde aparecia as legendas do discurso. Vou ao centro, olho na mesma direcao do olhar do povo, e ei-lo! O Papa em toda a sua magnitude, percebida como um binoculo ao contrario, devido a grande distancia entre a praca e a janela papal. Sem problema, com a ajuda do zoom da camera, vou tirar a primeira foto de celebridade da minha viagem.
Foi ai que descobri porque os Paparazzi nao sao pessoas tranquilas, o mesmo valendo para fotografos jornalisticos. Saquei a camera, e nesse exato instante o papa encerrou o discurso! Enquanto eu tirava a camera da capa alguem retirava o tapete catolico da janela, de modo que quando tirei a foto, nao havia nenhum sinal da presenca do Papa, e ele estava ali 30 segundos antes.
Publico a foto sabendo que pessoas religiosas enxergam alem da capacidade do olho. Tente voltar a foto 30 segundos com o controle remoto espiritual, e voce tera uma nitida imagem do Papa, como eu tive. Acredite em mim, eu tenho credito na praca.

Bem-aventurados sao aqueles cuja fe nao depende dos olhos.
Pois bem, o que se faz num domingo de sol quando se esta ao lado do Vaticano? Ver o discurso do Papa, e claro. Chego na praca redonda, vejo aquela multidao e ouco aquela voz profunda, de todas as direcoes. Mas cade o diabo do Papa? Olho em todas as direcoes, mas nao encontro nem sinal da autoridade eclesiastica. Bom, daqui a pouco eu acho, o Papa vai surgir na minha frente como uma revelacao espiritual. Ouco o seu Bento agradecer aos falantes de lingua espanhola, portuguesa, as caravanas deliram, parece um show pop, mas sem a histeria das tietes.Finalmente eu noto que o povo no centro da praca esta olhando em uma direcao que nao e a do telao, onde aparecia as legendas do discurso. Vou ao centro, olho na mesma direcao do olhar do povo, e ei-lo! O Papa em toda a sua magnitude, percebida como um binoculo ao contrario, devido a grande distancia entre a praca e a janela papal. Sem problema, com a ajuda do zoom da camera, vou tirar a primeira foto de celebridade da minha viagem.
Foi ai que descobri porque os Paparazzi nao sao pessoas tranquilas, o mesmo valendo para fotografos jornalisticos. Saquei a camera, e nesse exato instante o papa encerrou o discurso! Enquanto eu tirava a camera da capa alguem retirava o tapete catolico da janela, de modo que quando tirei a foto, nao havia nenhum sinal da presenca do Papa, e ele estava ali 30 segundos antes.
Publico a foto sabendo que pessoas religiosas enxergam alem da capacidade do olho. Tente voltar a foto 30 segundos com o controle remoto espiritual, e voce tera uma nitida imagem do Papa, como eu tive. Acredite em mim, eu tenho credito na praca.
Bem-aventurados sao aqueles cuja fe nao depende dos olhos.
domingo, dezembro 02, 2007
A cegueira da visao
Artes visuais nao me dizem muita coisa. Pinturas, esculturas, arquitetura, tudo isso nao me fascina. Em museus, sao raras as vezes em que nao tenho que driblar o tedio. Ouvir e ler as explicacoes sobre os quadros me estimulam mais do que olha-los.
Tenho visto muito quadros e esculturas famosas nessa viagem. Minha reacao padrao a maior parte e um "que bonito!" desempolgado. Fico imaginando como Paulo Mineiro - que tem apetite para artes visuais equivalente ao meu para artes escritas e sonoras - reagiria. Provavelmente derreteria em extase contemplativo.
Sei que posso, investindo algum tempo e energia, me divertir mais com meus olhos miopes. Apreciar arte e um prazer que pode ser cultivado, como tomar vinho. Mas existem dezenas de prazeres que podem ser cultivados. Porque deveria eu escolher esses dois? Nunca fiz questao de fazer parte do sofisticado grupo de apreciadores de artes e vinho - razao que leva a maior parte dos que nao tem gosto natural pela coisa a fazer o esforco de plantar a semente em solo inospito.
No momento venho fazendo o esforco porque estou tendo a oportunidade de ver todas essas maravilhas in loco - seria um crime nao conhece-las, e quase uma obrigacao de turista. E tudo muito bonito. Mas as estorias do Neil Gaiman me divertem bem mais do que os quadros do Da Vinci.
Tenho visto muito quadros e esculturas famosas nessa viagem. Minha reacao padrao a maior parte e um "que bonito!" desempolgado. Fico imaginando como Paulo Mineiro - que tem apetite para artes visuais equivalente ao meu para artes escritas e sonoras - reagiria. Provavelmente derreteria em extase contemplativo.
Sei que posso, investindo algum tempo e energia, me divertir mais com meus olhos miopes. Apreciar arte e um prazer que pode ser cultivado, como tomar vinho. Mas existem dezenas de prazeres que podem ser cultivados. Porque deveria eu escolher esses dois? Nunca fiz questao de fazer parte do sofisticado grupo de apreciadores de artes e vinho - razao que leva a maior parte dos que nao tem gosto natural pela coisa a fazer o esforco de plantar a semente em solo inospito.
No momento venho fazendo o esforco porque estou tendo a oportunidade de ver todas essas maravilhas in loco - seria um crime nao conhece-las, e quase uma obrigacao de turista. E tudo muito bonito. Mas as estorias do Neil Gaiman me divertem bem mais do que os quadros do Da Vinci.
quarta-feira, novembro 28, 2007
Visualizando as andancas

Relogio Astronomico, na antiga Prefeitura de Praga.

Jesus na ponte Charles, tambem em Praga.

O capeta na cerveja Belga, em Budapeste. Reparem na pose intelectual do Tinhoso, a mao no queixo, o ar de planejamentos maquiavelicos...

Veneza, a Recife Italiana. Meus conterraneos que me desculpem, amo minha cidade, mas a rival comedora de pizza e bem mais bonita...

Segurando a Torre de Pisa, gracas a vitamina de banana. Creditos a Pedro Cuomo, que tirou a foto mais elogiada da minha camera.
sexta-feira, novembro 23, 2007
Plantas de plastico
Melancolia e quase um pecado nos dias atuais. Se voce passar dois minutos em silencio, sao grandes as chances de ouvir "o que ha de errado com voce?". Principalmente se voce for jovem, porque se espera do jovem uma atitude Wild On perante a vida - ha melancolia o bastante esperando por ele na velhice.
Alegria e a melhor coisa que existe, cantava Vinicius, com toda razao. Mas a obrigacao de estar alegre o tempo todo e bem triste, e dessa tristeza nao sai samba, so a impressao de que alegrias fabricadas em serie sao como plantas de plastico: pode ate ser bonito, dar ibope, mas nao ha vida de verdade, so uma imitacao.
A felicidade precisa de vento soprando, tambem cantou o Poetinha. E natural buscar os pontos mais ventilados no nosso caminho, mas a "alegria" de que falo aqui e como um ventilador conectado a uma esteira com uma pessoa em cima suando horrores para produzir o vento - sem sair do canto.
A lei do contraste faz a melancolia necessaria para melhor apreciar a alegria, mas nao se trata de buscar uma ou outra - se trata de se livrar do esforco em parecer feliz ou triste. Afinal, nao faz sentido aguar plantas de plastico.
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Alegria e a melhor coisa que existe, cantava Vinicius, com toda razao. Mas a obrigacao de estar alegre o tempo todo e bem triste, e dessa tristeza nao sai samba, so a impressao de que alegrias fabricadas em serie sao como plantas de plastico: pode ate ser bonito, dar ibope, mas nao ha vida de verdade, so uma imitacao.
A felicidade precisa de vento soprando, tambem cantou o Poetinha. E natural buscar os pontos mais ventilados no nosso caminho, mas a "alegria" de que falo aqui e como um ventilador conectado a uma esteira com uma pessoa em cima suando horrores para produzir o vento - sem sair do canto.
A lei do contraste faz a melancolia necessaria para melhor apreciar a alegria, mas nao se trata de buscar uma ou outra - se trata de se livrar do esforco em parecer feliz ou triste. Afinal, nao faz sentido aguar plantas de plastico.
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domingo, novembro 18, 2007
Sem palavras
Budapeste, vista do alto da montanha do castelo. As construcoes da cidade sao de uma opulencia impressionante, e ao mesmo tempo varios carros bem fubecas trafegam pelas ruas, contraste do Imperio Austro-Hungaro x Periodo pos-guerra/comunismo.
Um museu no "Quarteirao dos Herois", a parte de Budapeste que mais gostei.
Parlamento em Viena, uma das cidades mais chinfrosas, em termos da magnitude das construcoes. Aqui ja nao se ve tantos carros fubecas...
Na Noruega vi neve, mas acho que ainda nao tinha enfrentado temperaturas abaixo de zero. Sente o drama e o trabalho que e sair de carro no Inverno, limpar toda a neve em cima e embaixo do veiculo, alem das ruas derrapantes... Pra que, se o transporte publico te leva para todo lugar, com seguranca?
Os Austriacos sabem o quanto a musica classica pode ser inspiradora. Por isso montaram um banheiro onde voce pode fazer sua arte ouvindo o melhor das sinfonias Europeias.
sábado, novembro 10, 2007
Primeira a esquerda depois do desencanto
Estive no Museu do Comunismo, em Praga. Bem facil de achar, ao lado de uma McDonalds e um cassino. Esperava encontrar uma visao proxima de "uma ideia nobre que nao funcionou economicamente". Longe disso. Marx e descrito como um romantico boemio de fantasias apocalipticas e teorias obsoletas, Lenin como um revolucionario cuja unica motivacao era vingar o assassinato do irmao por homens do Czar, e o Comunismo como um periodo nefasto da historia Tcheca que, gracas a Deus (ou a God), acabou. Igualdade social, saude, educacao, emprego e alimento para todos, os pontos positivos do Comunismo sao retratados como resultado da maquina de propaganda do Estado Sovietico, tambem ocupada em esconder a truculencia repressora do regime e endemonizar os Estados Unidos.
Muita gente se incomoda com o fato de existir tanta gente tentando sobreviver em condicoes sub-humanas. Essas pessoas tendem a ter simpatia pela Esquerda. A ideia de Esquerda = combate as injusticas sociais e Direita = manutencao dos privilegios esta introjetada na cabeca de muitos. E um enorme desprazer, portanto, quando se descobre que a Esquerda, no poder, nao age de acordo com os nobres ideais que a identificam. A desilusao pode ser tao grande a ponto de causar uma inversao nas conviccoes politicas, ou ate mesmo uma desistencia em tentar entender e se posicionar no jogo sujo.
Hoje em dia, Esquerda e Direita sao termos que nao dizem muito - A Direita tem discurso social, a Esquerda tem compromisso com os bancos. O Liberalismo e visto como "o jeito certo" de gerir a economia e o Comunismo virou historia - um tanto sombria para os que o viveram de fato, um tanto dourada para os que o imaginam como uma alternativa de mundo melhor, mais justo. Sonhos dourados, realidade sombria, o grande erro do Comunismo foi nao ter investido pesado na industria cultural.
Muita gente se incomoda com o fato de existir tanta gente tentando sobreviver em condicoes sub-humanas. Essas pessoas tendem a ter simpatia pela Esquerda. A ideia de Esquerda = combate as injusticas sociais e Direita = manutencao dos privilegios esta introjetada na cabeca de muitos. E um enorme desprazer, portanto, quando se descobre que a Esquerda, no poder, nao age de acordo com os nobres ideais que a identificam. A desilusao pode ser tao grande a ponto de causar uma inversao nas conviccoes politicas, ou ate mesmo uma desistencia em tentar entender e se posicionar no jogo sujo.
Hoje em dia, Esquerda e Direita sao termos que nao dizem muito - A Direita tem discurso social, a Esquerda tem compromisso com os bancos. O Liberalismo e visto como "o jeito certo" de gerir a economia e o Comunismo virou historia - um tanto sombria para os que o viveram de fato, um tanto dourada para os que o imaginam como uma alternativa de mundo melhor, mais justo. Sonhos dourados, realidade sombria, o grande erro do Comunismo foi nao ter investido pesado na industria cultural.
quarta-feira, outubro 31, 2007
Eu sou o verdadeiro Sub-Zero brasileiro!
Dando sequencia a minha inatividade textual, aproveito o aparecimento de provas incontestaveis para fazer uma importante reivindicacao: eu sou o verdadeiro Sub-Zero brasileiro! Esquecam Lindomar e sua voadora fajuta, que todo mundo que ja jogou Mortal Kombat sabe que nao e exclusividade do Sub-Zero, ja que o Scorpion tambem faz igual, e que qualquer faixa amarela de Tae-Kwen-Do pode fazer parecido. Nao, meus caros, o que torna Sub-Zero unico na historia da carnificinia eletronica e que ele e capaz de congelar seus oponentes com seu sopro. E eu tambem sou capaz de fazer o mesmo! Apos um exaustivo treinamento nas geleiras norueguesas, eu pude aprender a milenar tecnica do sopro congelante, atraves dos ensinamentos de um sabio senhor cuja identidade secreta eu revelarei. Sem mais delongas, apresento as provas inquestionaveis do fato:

Bernardo, o Sub-Zero brasileiro, dispara seu sopro congelante...

...E vejam so o que acontece com o pobre carro. FATALITY!

Este e o sabio senhor que me ensinou a tecnica. Obrigado, Mestre!
Bernardo, o Sub-Zero brasileiro, dispara seu sopro congelante...
...E vejam so o que acontece com o pobre carro. FATALITY!
Este e o sabio senhor que me ensinou a tecnica. Obrigado, Mestre!
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