quarta-feira, agosto 08, 2007

Fotologueando

Durante todo esse tempo eu resisti a tentacao de fotologuear meu blog, afastando com isso as visitas de pessoas que nao se sentem atraidas por quilos de textos sem imagens. Bem, chegou a hora de ceder, lembrando a definicao de "abstemio" de Ambrose Bierce: Uma pessoa fraca que cai na tentacao de negar a si propria um prazer. Seguem algumas fotos das minhas andancas aqui em Brighton.




Da esquerda para direita: Lidia, espanhola; Alex, espanhol; Johana, Romena mas vivendo na Espanha; Maria Rose, Espanhola; Eu, Brasileiro; Rossi, Espanhol. Uma otima tarde na praia, excluindo o fato do povo falar em espanhol muito rapido, me impedindo de entender as conversas boa parte do tempo.



No Babylon Lounge, boate a beira mar: Eu, Maria Rose, Alex, Gemma (espanhola tb), Lidia e Rossi. Ah, essa noite podia ter terminado diferente... :P

terça-feira, julho 31, 2007

Curiosidades britanicas

O transito na Inglaterra parece ter sido criado para aumentar as chances de atropelamento de estrangeiros. Aqui os carros "sobem" pelo lado esquerdo e "descem" pelo lado direito. Nao foram poucas as vezes que vi incautos atravessarem a rua olhando para o lado errado, apenas para ouvir a buzina irritada do carro vindo no no sentido contrario. Ah, e aquela estoria de "colocou o pe na rua os carros param" e lenda, pelo menos aqui em Brighton: serve apenas para disparar as buzinas irritadas.

Mas o transito silencioso e verdade mesmo: os britanicos, ao contrario dos brasileiros, sao pouco propensos a praticar percussao nas buzinas de seus carros. Elas servem apenas para previnir acidentes com pedestres incautos ou motoristas barbeiros. O contagio percussivo dos engarrafamentos brasileiros inexiste por aqui, os ingleses esperam a fila andar em silencio.

Um outro detalhe que me impressionou e que quase todas as paradas de onibus tem uma placa eletronica informando em quanto tempo cada onibus vai chegar. Nada de esperar por seculos e comecar a se perguntar se todos os onibus da linha quebraram: aqui eles chegam rapido e te dizem em quantos minutos. Algumas vezes a placa erra, mas na maior parte das vezes ela acerta, o que ja e espantoso o bastante.

Eu sempre ouvi dizer que os britanicos sao um povo muito pragmatico. Um excelente exemplo disso sao os banheiros dos bares e boates: neles ha uma maquininha onde se compram camisinhas, viagras e remedios para ressaca e dor de cabeca. Voce coloca as moedinhas e garante a seguranca das suas colocacoes libidinosas. Faz muito sentido, afinal as chances de encontrar coleguinhas para brincar sao muito maiores nos bares e boates do que nas farmacias. Espertinhos, esses ingleses.

terça-feira, julho 17, 2007

Celulares perdidos

Durante os preparativos para a viagem, resolvi nao ouvir o conselho do meu pai sobre comprar um despertador. Para que, se meu celular cumpre essa funcao? Embora ele nao funcione como um telefone por aqui, ainda assim e util como despertador, calculadora, agenda, minigame... Comprar um despertador e nao levar o celular simplesmente nao fazia sentido.

O que eu nao podia imaginar e que o meu celular e muito velho para a avancada tecnologia britanica. Fui em duas lojas, e eles disseram que eu nao encontraria baterias para ele, "because it's too old". Eu me senti o dono de um artefato pre-historico. Devido ao alto indice de roubo de celulares em Recife, eu fazia questao de ter o modelo mais barato, e tapava os ouvidos para o canto da sereia dos equipamentos mais modernos.

Como eu queria o celular essencialmente para funcionar como despertador, resolvi recusar a oferta de um modernoso por 30 libras, para comprar um modesto despertador de 3 libras. Antes da compra, no onibus voltando para casa, embaixo dos jornais jogados no banco, eis que encontro um celular perdido que, se nao era a ultima novidade no mercado, certamente era bem mais avancado que o meu.

Passeando com os botoes pela tela colorida, eu assistia o anjinho e o diabinho discutindo sobre o que fazer com o achado. Nao havia ninguem perto, nada que me impedisse de colocar o celular no bolso. Mas nao o fiz, o anjinho ganhou a briga logo no comeco, e eu nao sei explicar direito o porque. Pensei no dono feliz ao recuperar sua perda, senti que minha consciencia pesaria caso ficasse com o equipamento. Alem disso, eu tinha a certeza que ao entregar o celular para o motorista, eles dariam um jeito de entrega-lo ao dono. Nao sei se agiria da mesma forma caso estivesse no Brasil. Sei que boa parte dos meus amigos devem achar que fui otario, que deveria ter ficado com o eletronico. Essa e a opiniao do meu brother britanico. E voce, o que acha?

sábado, julho 14, 2007

Spray contra timidez

Cientistas inventaram um spray para combater a timidez. Ele imita um hormonio do bem estar (Oxytocin, em ingles) que dewixa as pessoas calmas. O hormonio e produzido naturalmente quando estamos apaixonados, a versao sintetica foi desenvolvida apos quase 10 anos de pesquisa na Universidade de Zurique. O invento foi testado em 70 pessoas. Elas deixaram de se sentir ansiosas e tiveram grande melhora no desempenho em dificeis situacoes sociais. O produto sera testado em escalas maiores, e se confirmado seu funcionamento, podera estar a venda nos proximos cinco anos.

Ou seja, em nao muito tempo, na hora de falar com aquela pessoa, algumas borrifadas no nariz vao eliminar o nervosismo que retira da boca as frases certeiras. Falar em publico deixara de ser um drama. Os bloqueios da timidez serao removidos pelo avanco da ciencia.

Suponhamos que o produto cumpra o que promete com perfeicao, sem nenhum efeito colateral. Um aumento na autoconfiana acessivel a qualquer hora. Frio na barriga? Spray na venta! Me vem logo na cabeca os versos de Raul Seixas: "E onde e que esta a vida? Onde esta a experiencia? Ja te entregam tudo pronto, sempre em nome da ciencia, sempre em troca da vivencia..."

Claro que o invento sera maravilhoso para os que sofrem de fobia social cronica, que ja tentaram e nao conseguiram superar suas limtacoes atraves do proprio esforco. Mas uma infinidade de gente vai deixar de tentar se superar, porque a superacao vira em spray. Pessoas que poderiam aprender a lidar e se livrar dos seus bloqueios, e ter com isso uma experiencia formidavel. Mas quem liga para experiencias? O que interessa sao resultados, embora o que torne a vida fantastica nao seja seu resultado (a morte), mas os caminhos que percorremos... Avancos como esse spray percorrem boa parte do caminho por nos.

terça-feira, julho 10, 2007

O cara chamado O Rafa

O cara se foi. Rafael Virgínio Torres, mais conhecido como O Rafa, morreu nas vésperas da minha viagem à Inglaterra e do seu aniversário de 25 anos. Foi o segundo amigo muito próximo que desencarnou prematuramente. O primeiro, Felipe Braga, sofria de leucemia e sua saída deste mundo era anunciada pelo próprio, que tinha plena consciência disso. O Rafa também tinha uma doença rara. Mas ninguém imaginava que ela pudesse tirar sua vida tão cedo, o ataque cardíaco fulminante pegou todo mundo de surpresa.

Durante minha festa de despedida, ele sentiu dores e achou que era gastrite. Não era, era o coração mandando o alerta, e esse conhecimento tardio traz uma dor extra para os que estavam presentes, que poderiam tê-lo levado para o hospital a tempo se soubessem, e para os que saberiam o que fazer caso estivessem presentes, mas só tomaram conhecimento do caso quando o tempo dele já havia se esgotado.

Lembro-me do início do meu tempo compartilhado com ele, quando eu era um nerd iniciante querendo saber mais sobre RPG, e ele um nerd mais experiente na arte de viver aventuras em mundos imaginários. Ambos passamos pela libertação da nerdice atraves do rock e seu tão conhecido pacote. O Rafa já desenvolvia seu enorme talento musical em bandas folclóricas, como Trissomia e El Matador. Era o cara que ia para rodas de choro com a camisa do Ramones (na verdade, ele usava essa camisa para quase tudo que fazia). Até hoje sei tocar um trecho de Jacob do Bandolim que ele me ensinou, entre cigarros e pedestres da Av. Inácio Monteiro.

Com a Mombojó, O Rafa ficou famoso. Eu o chamava de cenoso, e morria de inveja do sucesso que ele fazia com as gatinhas culturais do Burburinho/Capitão Lima. Ele dizia que eu era uma promessa da cenosidade, e deveria voltar aos holofotes. Eu já não o via com tanta frequência, o tempo do cara estava tomado pelos seus diversos trabalhos musicais. Há tempos vinha tentando marcar uma sinuca com ele. Poderíamos ter jogado na minha despedida, mas não jogamos, acabou não acontecendo.

O que ainda aconteceria na vida do cara é uma enorme interrogação, que traz consigo um doloroso vazio. Mas a grandeza da interrogação é por conta da exclamação, muito maior, que foi sua vida, tocada com a sensibilidade de seu ouvido absoluto. O choro aqui foi grande, mas lá onde ele está, ao lado daqueles bambas todos, a melodia deve estar emocionando até o tempo que o levou.

domingo, junho 24, 2007

Presunçoso preguiçoso

Eu às vezes penso que quanto mais obras se conhece
Mais se chega à sensação de que tudo já foi feito
Às vezes desmentida por um criativo que esquece
De se amarrar por aquilo que já se transformou em êxito

Todos os destaques da área que apetece
Lançam sobre quem cria dois distintos efeitos
Vontade de se firmar ao lado do tal mestre
Ou desânimo de ver fora do alcance tal respeito

Por mais que um atleta se esforce
O ouro exige mais que dedicação
Muitos darão o melhor de si e não conseguirão

Por isso o presunçoso preguiçoso nem se move
"Para quê batalhar por uma inatingível posição?"
E deixa de saber onde o levaria a vocação.

sábado, junho 23, 2007

3 sons chapantes

Tem uma música do Black Alien que vem fazendo minha cabeça inúmeras vezes nos últimos dias. Chama-se “From Hell do Céu”. Ouça e repare na riqueza das rimas do cara, que já fisga a atenção nos primeiros versos: “Me parece agora que eles perderam o controle/Nessa corrida de ratos sei muito bem quem tá na pole/Se agride ou agrada/O seu lugar no gride de largada, não muda nada...”.

Do rap ao samba, do Rio à Bahia, outro som tem batido recordes de execução nos meus auto-falantes. “Oxossi”, de Roque Ferreira, me chapa não pela letra, cheia de referências ao candomblé que desconheço, mas pelo ritmo, pela reverência do cara ao cantar, como se comandasse um ritual religioso – acho que, na verdade, é isso que ele está fazendo mesmo. Catarse garantida.

Por último, uma música de Paulinho da Viola, gravada por Marisa Monte: “Para ver as meninas”. Uma amiga defende que Marisa Monte é irritante, por deixar as músicas todas perfeitinhas. Bom, nessa música a excelência técnica dela, junto à singeleza da letra, passam um feeling assombroso.

domingo, junho 17, 2007

Espinha Ereta

Nada como uma boa postura. “É tudo uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”, diz o samba “Coração Tranqüilo”, do compositor Walter Franco. Ele está certíssimo. Uma coluna saudável responde mais pela felicidade do que qualquer bem de consumo ou estado alterado de consciência. Pergunte a quem sofre de dor nas costas.

Quando pequeno, minha mãe sempre alertava: “Bernardo, olha a postura!”. Ela sabia do que estava falando. Descuidou da coluna ao longo da vida, e hoje sofre as dolorosas conseqüências. Eu, que sempre tive um “Do Contra” abobalhado dentro de mim, não dava bola e continuava envergado. E hoje, aos 22, já sofro um pouco pelo hábito nocivo.

Boa postura devia ser ensinada nas escolas. Passamos boa parte do tempo sentados vendo aulas, e uma coluna ereta exige atenção e disciplina, porque a tendência é deixar a gravidade agir e os ombros caírem, plantando a semente do sofrimento futuro. Não adianta só estimular os esportes, se boa parte do tempo será gasto sentado, diante do caderno ou da mesa de trabalho.

Todos os lugares em que as pessoas passam muito tempo sentadas deveriam ter uma faixa com a letra de “Coração Tranqüilo” escrita em letras garrafais, com “espinha ereta” em negrito. E todos os pais deveriam alertar seus filhos feito minha mãe, cabendo aos rebentos não serem trouxas como eu e seguirem o conselho.

segunda-feira, junho 11, 2007

Orgasmos Intelectuais

Venho observando que as artes não têm mexido muito comigo ultimamente. Artes visuais nunca me despertaram grandes coisas. Mas a música e a literatura, que já me provocaram aquelas viagens em que você sente o seu mundo interno se expandindo e transbordando de uma espécie de êxtase, bem definido por um antigo professor como "orgasmo intelectual", mesmo elas não têm me trazido sensações incomuns. Me pergunto se houve queda na qualidade das obras que aprecio, e vejo que, na verdade, é minha sensibilidade perdendo seu poder de encantamento.

Não sei explicar. Talvez uma defesa contra fortes sentimentos negativos tenha prejudicado a percepção dos positivos. Afinal, o canal é o mesmo: se há uma barragem para conter as águas sujas, vai bloquear as águas limpas que também passam por ali.

Sei que a atual falta de encantamento gera uma nostalgia que já está ultrapassando os limites do tolerável. O retrovisor dourado, que deixa o atual percurso sem graça. Ou a não-graça do percurso que me faz dourar o retrovisor. De todo modo, é preciso diminuir o peso das memórias. Senão fica difícil alcançar os orgasmos intelectuais.

sexta-feira, junho 01, 2007

Dentro da Bolha

A gente vai vivendo dentro da bolha, e quando se dá conta, já deixou de percebê-la... Fazendo os mesmos trajetos, porque a violência não recomenda certos caminhos, a violência é parceira da bolha, elas dividem os lucros no fim do mês. E esse mundo, vasto mundo, vai se tornando pequeno, como aquelas paredes dos desenhos animados, que vão diminuindo o espaço até que o herói escape por uma passagem secreta, evitando por segundos o esmagamento.

A bolha, o mundo pequeno... Neste momento, 22h46min, eu gostaria de caminhar pelas proximidades da minha casa, prestando atenção nos caminhos, em busca da passagem secreta. Mas em qualquer esquina pode haver uma armadilha mortal, ou pelo menos essa é a idéia corrente, e o medo, principal componente da bolha, me leva a não conferir o risco.

Falando assim, pareço um pirralho de condomínio rico, desconhecedor do mundo fora das cercas eletrificadas. Nada, eu já fui maloqueiro, andava pelas madrugadas de ônibus, e nem faz tanto tempo assim. A violência aumentou um bocado de lá pra cá, eu mudei de bairro, a bolha cresceu, ou melhor, a bolha diminuiu o meu mundo.

Tem hora que dá uma vontade danada de dizer: “que nada! Dane-se a violência, aqui quem comanda é a gente!”, como na época em que eu andava pelas madrugadas de ônibus, protegido pela inocência de me achar maloqueiro, ou pela violência ainda não tão grande. Era uma proteção bem melhor que a da bolha.

O que se pode fazer para sair da bolha? Correr risco ao andar pelas madrugadas de um bairro violento da capital mais violenta do Brasil? Só se for de carro, que meu escudo-de-inocência-maloqueira já se quebrou. Fazer trabalho social nas comunidades próximas à minha casa, ganhando o respeito da bandidagem e passe-livre pelas redondezas, além de contribuir um pouquinho para minimizar a violência? É uma boa opção, embora o tal respeito possa não passar de viagem minha. Mas a bolha, além de reduzir o mundo, e talvez exatamente por isso, também deixa apático. Descontente com a situação, mas sem energia para combatê-la. Até porque meus atos quase nada mudariam, e a estória de fazer a minha parte, embora bonita, é insuficiente para me tirar da inércia.

“Então morra na bolha, preguiçoso maldito!” – é o que escuto, de longe, do jovem inconformado que ainda não teve seu idealismo destroçado pelo mundo. Não faz tanto tempo que sua voz era próxima, quase saindo da minha própria boca, quando andava de ônibus pelas madrugadas da cidade. Pena que foi ficando distante, não por coincidência, à medida que fui me deixando aprisionar pela parceira da violência, com quem divide os lucros no fim do mês.

quarta-feira, maio 23, 2007

Idéias Próprias

Lembro-me de uma versão para videogame do desenho Beavis and Butthead. Quando você ficava muito tempo sem movimentar o personagem, surgia um balão de pensamentos, daqueles de histórias em quadrinhos, completamente vazio. Uma imagem perfeita para “não ter nada na cabeça”. A principal maneira de evitar esse vazio mental, todos nós sabemos, é através de boas leituras.

Mas não é bem assim. De acordo com o professor Rubem Alves, na sua coluna na Folha de São Paulo, o excesso de leitura pode fazer com que a pessoa deixe de pensar por si própria. Ele conta o caso de quando selecionava candidatos a doutorado, e teve a idéia de fazer uma única pergunta a todos eles: “Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar”. Os candidatos entraram em pânico, não sabiam o que responder. Uma mulher chegou a citar várias partes de um livro da bibliografia obrigatória, achando que a pergunta era uma brincadeira.

A idéia é que, ao ler, estamos acompanhando o pensamento de outros. Se passamos a maior parte do tempo lendo, a menor parte do nosso tempo é dedicada a nossos próprios pensamentos. A conseqüência é que nossa mente fica habituada a papaguear pensamentos alheios, enquanto nossas idéias próprias são pouco produzidas, tendendo a desaparecer.

Uma questão interessante é: até onde nossas idéias são de fato “nossas”? Mesmo aquelas a que chegamos não por leituras, mas pelos “próprios méritos”. Existe o provérbio que afirma: “Do nada, nada sai”. Se tivéssemos acesso ao processo mental que levou àquela idéia original, veríamos que ela caiu do céu como um raio de inspiração, ou que foi fruto do trabalho mental, que lida com elementos preexistentes, saberes anteriormente adquiridos de algum modo, seja leitura, experiência, filmes, discos, conversas...? Ou será que ela irrompe desse subterrâneo a que não temos acesso direto, que é o nosso inconsciente?

Sobre a questão da originalidade, vale a pena conferir a tira do Arnaldo Branco.

sexta-feira, maio 04, 2007

Escrevendo o trivial

A preguiça já foi elogiada, agora bateu o cansaço de não fazer nada. Somado ao longo tempo desse blog cultivando teias de aranha. Já tem alguns dias que eu digo pra mim mesmo que preciso escrever algo. Mas sempre esbarro no “o quê?”, e rendo-me à frustração do bloqueio criativo.

É aquela velha lei do menor esforço, que limita minhas ações àquilo que penso fazer bem e com pouco trabalho, ou melhor, sem grandes obstáculos no caminho. Escrever apenas quando surge alguma fagulha de inspiração, falar somente quando tem algo de interessante para dizer. E os momentos pedindo qualquer texto, não importa se desinteressante, irrelevante, lugar-comum ou repetição. Tem horas que qualquer coisa é melhor que coisa alguma.

Quando se quer ser brilhante o tempo todo, são grandes as chances de se tornar um tolo. Eu tenho o hábito de tentar prever o resultado de tudo que faço, mania adquirida pelo gosto por xadrez e Sherlock Holmes. Só que ações criativas são imprevisíveis, ou melhor, tentar calculá-las é uma boa maneira de estragá-las, já que nelas a intuição é bem mais importante que o cálculo, e um processo anula o outro.

Um conselho a todos que só falam quando lhe ocorrem grandes sacadas: falem merda, daquelas bem idiotas, que lhe renderiam um babau na quinta série. Livre-se da obrigação de ser “cabeça”. É um fardo que não vale a pena carregar: você se diverte menos, acaba se levando muito a sério, torna-se uma pessoa pesada, e isso não o torna mais inteligente.

O mesmo vale pra quem escreve, principalmente quando a criatividade está bloqueada por pretensões cabeçudas. Permita-se escrever algo trivial. É melhor do que ficar sem escrever, esperando por inspirações incertas.

terça-feira, abril 17, 2007

A graça do The Playboys

O show do The Playboys, na última noite do 15º Abril pro Rock, foi o destaque negativo das bandas pernambucanas no festival. Essa é a opinião do jornalista Renato L, impressa na contracapa do Viver, caderno cultural do Diário de Pernambuco. “A banda precisa tornar corrosivo seu humor “colegial”, quase inofensivo, para não passar outros 10 anos longe do Abril”, afirmou o parceiro de Chico Science e Fred 04 na elaboração do manifesto “Caranguejo com Cérebro”, marco inicial do movimento Manguebeat.

A versão musical do manifesto é a faixa “Monólogo ao Pé do Ouvido”, que abre o primeiro disco de Chico Science e Nação Zumbi, Da Lama ao Caos. O The Playboys fez uma paródia curiosa dessa música, ironizando as imitações do mangueboy que tomaram conta da cena pernambucana, após a morte dele. É difícil encontrar humor mais corrosivo. Infelizmente, no show do Abril, essa letra foi mudada, perdendo um bocado de sua acidez. Em vez de desacatar alguns mangues, especificamente, tiraram onda com os indies, genericamente.

O humor “colegial” da banda fez rir a maior parte da platéia. As letras debochadas, com os personagens típicos da cena local, são o ponto forte das estrelas do movimento do “alto dos apartamentos de Boa Viagem”, como costumavam anunciar nos shows da época em que Devotos e o Alto José do Pinho eram destaque.

Eu achei estranho a banda ser criticada justamente naquilo que tem de melhor: o humor. Na cobertura do festival feita pelo Recife Rock, a avaliação do show é oposta a de Renato L. Talvez isso se explique porque os responsáveis pelo site são mais jovens que o jornalista do Diário, riem com mais facilidade das brincadeiras de adolescência. Ou talvez Renato L não ache graça numa banda fazendo piada de algo que ele ajudou a formar. Considerando que Roger, que também é um jovem de outrora, assistiu ao show soltando várias risadas, tendo a acreditar na segunda opção.

sábado, abril 14, 2007

Futebol no Abril pro Rock

Abril pro Rock de 2007, 15ª edição. A Nação Zumbi estava no meio de seu compacto show de abertura para os Mutantes. De repente, Lúcio Maia tira da sua guitarra o hino do Santa Cruz, time que caiu para a série B ano passado, fez um péssimo campeonato pernambucano, mas conseguiu a proeza de acabar com a invencibilidade do Sport no último jogo, ou, como preferem os mais diretos, tirou o cabaço do leão.

A maior parte da platéia levantou a mão numa dedada, em resposta ao hino da cobrinha. O Sport tem a maior torcida do estado, e os rubro-negros, embora bicampeões pernambucanos, ainda estavam sentindo o veneno da cobra tricolor, espalhado nas provocações das torcidas rivais.

Lúcio Maia não se intimidou e tocou o hino novamente, afirmando que "torcedor bom é aquele que torce quando o time tá perdendo". Frase bonita, mas que ficou com cara de média para os desgostosos da platéia, pois é difícil imaginar o hino sendo tocado se o Santa tivesse perdido o último jogo.

O show continuou, os dedos baixaram, e eu achei o incidente divertidíssimo. Mas houve quem tivesse a noite estragada pela gréia musical. Sérgio Bernardo, estudante de jornalismo de credibilidade inquestionável, me contou de um cara ao seu lado que ficou transtornado com as notas da dança da cobrinha. "Eu paguei, po! Não tinha que ouvir isso, fuleiragem da porra!", gritava o rubro-negro emputecido, que minutos antes estava cantando feliz as músicas da banda.

Rivalidade no futebol é um lance muito curioso. Para mim, que sou indiferente à questão, é difícil entender como o desempenho de seu time, ou as provocações adversárias, podem causar terremotos tão fortes no humor das pessoas. Ao mesmo tempo, acho arretadas as gréias esportivas, as provocações bem humoradas, e os entusiasmos de torcedor. Próxima semana devo ir a um estádio, lugar onde nem lembro quando entrei pela última vez. Quero ver se sinto a energia que faz tanta gente vibrar, torcendo para que não seja preciso deixar de curtir um belo show por conta disso.

quarta-feira, março 28, 2007

Medo do Futuro

É duro reconhecer a mediocridade
Formando-se na preguiça do teu gênio
Que evita o esforço na atividade
Adiando-o até o último momento

É duro ver cair a confiança
Numa mente, outrora vigorosa,
Hoje, como ex-atleta que descansa
Afundado na poltrona prazerosa

É duro perceber-se tão contente
Com os pífios resultados do versejo
Quando basta ler alguns mais competentes
Para ver que não há motivos pra festejo

É duro procurar na poesia
preencher a lacuna do labor
Tentar compensar com fantasias
O mal que a moleza lhe deixou

É duro discernir o que é preciso
Para livrar-me da própria corrente
Que me prende a caminhos antigos
E amarra o que viria pela frente.

sábado, março 24, 2007

Clara Nunes, a maior cantora do Brasil


Do Contra é um dos personagens mais divertidos de Maurício de Souza. Tem muita graça em querer ser sempre diferente. É comum ser do contra na adolescência, antes de amadurecer e perder a graça. Mas alguns seguem cultivando esse prazer infantil, fazendo objeções pelo prazer de ver as pessoas lidando com elas.

Uma unanimidade inteligente é que Elis Regina é a maior cantora do Brasil. Afinação, interpretação, feeling e técnica olímpicos, qualidade do repertório, são muitas as razões do consenso.

Eu discordo. Não da qualidade de Elis, mas dela sozinha no topo. Tem uma mineira chamada Clara Nunes, que não perde um centímetro para a divindade gaúcha nos critérios acima citados, com a vantagem decisiva de que seu timbre e seu repertório soam melhor aos ouvidos deste que vos escreve.

Para os que desconhecem a maior cantora do Brasil, seguem algumas preciosidades selecionadas por mim, na convicção de que algumas discordâncias não têm preço.

Preciosidades Selecionadas

quinta-feira, março 15, 2007

Tempo e cigarros

Astolfo e Olarico caminhavam sem destino. Era um bom programa de fim de tarde; bairro tranquilo, poucos carros, alguma brisa. Astolfo parara de fumar há alguns meses; Olarico continuava sem perder a oportunidade de soltar fumaça com gracinhas.

- Desde que tu parou de fumar que tás assim, nessa apatia de anta paralítica.

- Claro, lascar meu organismo pra nada me dava uma energia indescritível.

Olarico tragou forte, e fez aquela cara de sabedor dos grandes segredos, que todo fumante faz:

- Essa é a questão, você não tava nem aí se dentinho ia amarelar, ou se pulmão ia ficar pretinho, nem pensava no câncer ou no efisema. Você era um fumante despreocupado e divertido, agora é um ex-fumante preocupado e apático. Que progresso, heim?

Era por coisas como essa que Astolfo tinha grande consideração por Olarico, o rei dos contrapontos divertidos.

- Minha apatia não tem nada a ver com cigarro, meu caro. Tem a ver com onde estou, e onde deveria estar, e não saber onde quero estar.

Olarico deu outra profunda tragada, prenúncio de outra "grande verdade", mas calou-se. No fundo se sentia como o amigo, embora não curtisse muito conversar sobre isso. Preferia pensar a respeito sozinho, com tragadas profundas, mas sem grandes verdades.

Astolfo continuou: - Sabe quando você olha para quem você era há oito anos, e sente vontade de voltar a ser aquele cara? Isso é normal acontecer - quando se tem cinquenta, pensando nos vinte e poucos.

- Eu diria que há oito anos você não tava nem aí se era normal ou não. Aliás, a maior parte das pessoas diria que não.

- É, eu sei, mas não é esse o ponto. O lance é o entusiasmo, a paixão pela vida, que era imensa há oito anos, e hoje mal levanta uma caneta. Não deveria ser assim. Era para eu estar no auge agora, nos meus vinte e poucos.

- Talvez você tenha vivido seus vinte e poucos há oito anos, e agora se encontre em plena crise da meia idade.

- E o que me aguarda depois disso?

Olarico acendeu outro cigarro: - Sei lá. A cova?

- Pra essa você vai na frente, com sua chaminé.

- É melhor queimar do que apagar aos poucos.

- Última frase do bilhete suicida de Kurt Cobain.

Olarico deu outra tragada forte: - É, mas a frase é de uma música de Neil Young, que continua vivo e cantante.

- Eu sei disso... Há oito anos que eu sei disso.

- E há oito anos que eu peguei seu Nevermind emprestado, sem sua permissão, e nunca devolvi.

- Disso eu não sabia.

- Pois é. Tem coisas que é melhor não saber.

domingo, março 04, 2007

Sem tomar Aspirina

Conforta imaginar um si mesmo aperfeiçoado, calejado dos erros cometidos, acostumado com dificuldades já experimentadas. Conforta imaginar um know-how crescente, uma experiência acumulada que não só melhora suas ações, como também protege do sofrimento gerado pelo si mesmo. Conforta viver sob as leis da evolução, tornando-se uma criatura mais apta a sobreviver, com a passagem do tempo.

O que desconforta é saber que o carro do aprimoramento não anda em linha reta rumo ao topo. Saber que às vezes ele desce a estrada, em vez de subir. Saber que noutras, simplesmente enguiça, o tempo indo e o carro ficando. Mecânicos são chamados, empurrões tentam, mas o carro não dá partida, definindo um período do qual a lembrança é uma única paisagem congelada.

Lembranças que ajudam o carro a retomar o movimento. Lembranças que fazem com que seja gasto mais tempo com o retrovisor do que com a estrada à frente. Lembranças que gostaríamos de perder, ou de jogar para o futuro. Lembranças freio-de-mão, lembranças quinta marcha.

Após umas cervejas, quase no fim da tarde, contemplando o mar, me invadiu uma plenitude, como se toda a trajetória, com suas subidas, descidas e paradas, fizesse algum sentido. Poucas horas depois, em plena dor de cabeça, a conclusão que eu chegava é que não fazia sentido algum. Meio sentido, resolvi escrever esse texto. E então a dor de cabeça passou.

domingo, fevereiro 25, 2007

Elogio da Preguiça

Para quê preencher a folha em branco
Se há tanto canto para ouvir?
Para quê forçar a busca de palavras
Se não há uma meta certa a atingir?

Não há caos para organizar
Recalques para extravasar
Castelos para se demolir

Tudo ordem, tudo em paz
Ilusão breve que satisfaz
Quem não gosta de se iludir?

Quando deito na minha rede
Nenhuma fome, nenhuma sede
Um sorriso... o paraíso é aqui

Deixo a mente passear
Vários fatos contemplar
Nada que me abale em si

Essa vida proibida
Que o sustento inviabiliza
Se tu não é o Dorival Caymmi

Traz um bem estar danado
Leva aos noventa em bom estado
Talvez cem se resistir

Se o planeta está morrendo
Quem só dorme o polui bem menos
Deveria ser pago pra dormir

O trabalho é inimigo da natureza
Disso o índio já tinha certeza
Não é sábio quem divergir

Pelo seu bem e bem do mundo
Faça um avanço profundo
Deixe a preguiça lhe invadir!

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Sidney Miller

Seu nome é Sidney Miller. Segundo a Wikipédia, madrinha de preguiçosos em geral, o compositor estreante na década de 60 era comparado com um tal de Chico Buarque, também estreante, pela timidez e pelo cuidado na construção das letras. A primeira música que ouvi dele foi “A Estrada e o Violeiro” (Ouça), que é arrepiante de tão linda, dueto do cara com Nara Leão. Depois de meu pai elogiar entusiasmado, resolvi ir atrás de mais coisas dele. Aí a internet, grande mãe dos curiosos, infinito baú de tesouros esquecidos, me trouxe diversas músicas do rapaz, que não teve tempo de atingir o status de seu companheiro de timidez: morreu aos 35 anos.

Seguem mais duas músicas do gênio: “Pois é, Pra que” (Ouça) e “Nós os Foliões”, (Ouça) essa com um trechinho em fita cantado pelo próprio, depois com o timbre pacificador de Paulinho da Viola. Ouçam, e me agradeçam depois.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Carnaval fora de órbita

A pancadaria na orla de Boa Viagem, no show de Ivete Sangalo, teve divulgação nacional. Após 3 anos sem trio elétrico na praia mais famosa de Recife, o tumulto deu fortes razões para as prévias carnavalescas continuarem longe do mar preferido dos tubarões. O saldo foi de 150 ocorrências policiais na delegacia de Boa Viagem (o triplo do normal), um homem baleado e cerca de 20 feridos, além da depredação de bancos e banheiros públicos.

Tão ferida quanto os 20 ficou a imagem de Recife – a barbárie de Boa Viagem alertando sobre o que pode acontecer no carnaval da cidade. A prefeitura deve estar se lamentando por não ter deslocado mais policiais para cobrir o evento, de modo a evitar o filme queimado que pode afastar turistas.

Tanto os organizadores do bloco Balança Rolha, responsável pela vinda de Ivete, quanto a Secretaria de Defesa Social admitiram que subestimaram o público da festa – eram esperadas 200.000 pessoas, apareceram cerca de 500.000. Realmente, era difícil prever que uma artista obscura como Ivete Sangalo iria atrair tanta gente. Mas o organizador do bloco, o deputado André Campos, disse que mesmo que o público fosse metade do esperado, ainda assim o policiamento seria insuficiente.

A violência em Recife chegou a um ponto em que qualquer multidão desperta receios. Há quem responsabilize a ausência/ineficiência da polícia como a grande culpada. A impunidade para os criminosos faz com que o cidadão comum veja os direitos humanos com ironia – o criminoso desrespeita os direitos humanos e é protegido por eles. A impunidade joga álcool na fogueira da vingança, alimentando o discurso de que “bandido bom é bandido morto”.

Não é preciso muito esforço para ver a importância que a (falta de) educação tem nesse quadro. E essa lacuna é observada mesmo entre os que freqüentaram os melhores colégios, as melhores universidades. As pessoas estão cada vez mais míopes para as necessidades do outro – normas básicas de convivência deixaram de ser praticadas. E não há indício de melhoria geral, não enquanto vigorar o “consiga o que queres a qualquer preço, passando por cima de quem estiver no caminho”. Não enquanto a Ética continuar sendo um conjunto de princípios bonitos que não se aplicam à realidade.

Enquanto isso, brinquemos o carnaval – torcendo para que não chovam garrafas.

terça-feira, janeiro 30, 2007

"Morte do Pai"

Diante do Pai, somos todos meninos
Ansiosos em mostrar o quanto somos bons.
Mas nossos melhores momentos são longe de sua presença
Da paralisia da expectativa, suposta ou real
Que negamos para poder andar, mesmo em círculos, mesmo a lugar algum
Que seguimos para nos ajustar, o trilho existe antes de nós
Que encaramos quando fortes o suficiente
para a psicológica “Morte do Pai”.

domingo, janeiro 07, 2007

Juízos Musicais

Todo mundo conhece Radiohead. Bem, pelo menos todo mundo interessante. Eita, lá vou eu denovo fazer juízos de valor das pessoas a partir de seus gostos musicais. Bobagem minha, claro. Nada impede as pessoas de gosto musical medíocre de não fazer jus às suas preferências. "Diga-me o que ouves e eu direi o que és" é tolice de quem superestima o papel da música na vida das pessoas. Besteira de pessoas cujas identidades as músicas ajudaram/ajudam a construir. Muitas pessoas tem muito mais o que fazer do que ouvir música, usando-a apenas para fins recreativos, e isso não as diminui em nada, a não ser para os bobalhões que acham a música o caminho para Iluminação, a verdade das criancinhas, o encontro com o self submerso no inconsciente.

Mas eu falava do Radiohead. Eu nunca gostei do Kid A, o sucessor do OK Computer. Ouvi pela primeira vez procurando por guitarras, e a ausência delas me frustrou a ponto de não querer ouvir denovo. Passei a meter o pau no disco sempre que tinha oportunidade, chamava-o de remédio contra insônia, e por aí vai. Mas ouvia muita gente com gosto musical interessante falar bem do disco. Resolvi ouvi-lo denovo. e descobri uma música que é o caminho para iluminação, a verdade das criancinhas, o encontro com o self submerso no inconsciente. É a faixa 4: How to Disappear Completely.

Como bem observou Doutor Domingos, a letra é bem budista, mas naquele clima de angústia radioheadiano. É uma tristeza que vai tão fundo que torna a música mortalmente perigosa para quem pensa em suicídio. Ao mesmo tempo, a letra conforta, com bons motivos para não puxar o gatilho. Quando a descobri, achei que teria que engolir tudo que falei do Kid A, mas Doutor Domingos me informou que ela é "a menos Kid A do disco", informação que foi recebida com especial alegria por alguém que adora música e odeia dar o braço a torcer.

ps: Não consegui uplodear a música, pra deixar o link pra vcs. O que uso tem limite de 10mb para upload, a música tem 10.3 mb, infelizmente.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Poesia tem que ser escrita à mão

Teclados são para redações
Prosas onde as palavras jorram
Exigindo correções
Poesia tem que ser escrita à mão.

O deslizar da caneta sobre a folha
Desenha a imagem poética na mente
Teclando você deleta essa escolha
Sua tela interna esvazia a cada enter

Não estou certo se termina diferente
Já que sinapses podem terminar
Antes da mão começar a se mover

Talvez dê no mesmo lugar
Mas à mão é pela beira-mar
E à tecla é por lugar de se esconder.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Paixão pela Vida

Em alguns, a paixão pela vida
É forte e desinibida
Desfile ciente do brilho.

Noutros, frágil como o barro
Modelado por desalegrias
Vagar em passo tímido.

A vida entre os extremos varia
Provando que a identidade
É uma constante mutação.

Mas a mudança é necessidade
Igual ao caleidoscópio que gira
Repetindo o mesmo padrão.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Gentileza não é Frescura

Gentileza não é frescura. As melhores conversas são as horizontais (não essa que pensais, ó mente profana), aquelas em que os falantes estão no mesmo nível. As diferenças de status, poder, dinheiro ou talento devem ser deixadas de lado, ou levadas na brincadeira, para o bem da conversa. Senão, a conversa fica vertical, como um prego na areia, facilmente derrubável pelo mais insignificante dos ventos. Já o prego na horizontal, sob o mais forte vendaval, apenas mudaria de local, podendo flutuar, ao lembrar da sonhada mulher, para logo em seguida desabar, ao vê-la nos braços de um outro qualquer.

Diversos homens se sentem desconfortáveis com a gentileza, receosos de que ela lhes comprometa a masculinidade. Talvez por isso os gays sejam tão populares com as mulheres, não esquecendo, é claro, que a ausência de risco predatório eleva bastante o grau de intimidade e cumplicidade. Essa grosseria masculina prejudica as conversas, visto que é a gentileza que deita o prego, embora alguns só o façam quando vão à cama ou a nocaute, o que os torna desmerecedores de boas conversas. Quando dois deles se encontram, não há conversa e sim dois monólogos, um tentando superar o outro na milenar arte da preguice.

Claro que a grosseria tem seu lugar nas boas conversas, principalmente como recurso humorístico. Tirar onda com o próximo também é ótimo, desde que a gréia vise o sorriso de todos, e não apenas a cara amarrada do greiado, cabendo a ele recusar o papel de estilão. Mas não falo da grosseria engraçada, e sim da praticada por receio de implicações baitolísticas. Acabemos com essa bobagem de uma vez por todas: gentileza não é frescura.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Contagem Regressiva

Quanto tempo leva um desejo
Para realidade se tornar?
Horas e meninas levadas eu vejo
No devaneio em cuja tela
Não me canso de pintar

Anos podem passar carentes do fato
O quadro pendurado na parede do inviável
A espera nunca é vista com agrado
Contagem regressiva cujo fim é variável

Tentando adivinhar, em más horas emudeço
Fico cego para a via em que devo caminhar
Uma bola de querer esperando o arremesso

Eis que uma música qualquer me lança contra a parede
Onde o quadro pendurado está cansado de aguardar...

... e a parede cede ao fato do consumado desejo.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Racionalização

A notícia não poderia ser mais noticiável: “Garota reage e mata estuprador” (Capa do Diário de Pernambuco, de 12/12/06). Sexo, sangue e singularidade, os três esses do sucesso, também do Six Six Six, the number of the beast, pra adequar a viagem aos meus leitores metaleiros. Confesso que fiquei com uma simpatia enorme pela menina. Que coragem! Em casos de estupro, eu concordo com o filósofo Jeremias, (http://www.youtube.com/watch?v=87xcp4FeQSI) quando declara que “quem é safado tem que morrer”, e quando a execução é feita em legítima defesa pela vítima.

Até os próprios bandidos repudiam estupradores, de acordo com os Racionais Mc´s (http://www.box.net/public/uoo2p27mzm), grupo de rap que faz da violência o grande tema de suas letras. Para mim, burguês metido a mala, ouvir Racionais foi daquelas experiências inesquecíveis, um universo que eu precisava conhecer, irresistivelmente. Eu conseguia enxergar, naquelas letras retratando a bandidagem, a indicação de outros caminhos que não o crime. Ao dissecá-lo, coisa que fazem muito bem, Mano Brown e Cia mostram que ele não vale a pena, apesar das vantagens imediatas que oferece – o preço pago é alto demais, e a cobrança vem mais cedo ou mais tarde. Eu acreditava que, se os bandidos em potencial ouvissem Racionais, aquilo os faria parar pra pensar, e possivelmente optar por ficar longe do crime.

Não fiz nenhuma pesquisa de campo para comprovar minha teoria. Mas, no Acaiaca, onde volta e meia o galego que vende cd pirata coloca Racionais pra tocar, noto que os “elementos suspeitos” cantam com especial prazer o refrão “hoje eu sou ladrão/pratico 157/as cachorra me ama/os playboy se derrete”. (http://www.box.net/public/9lad39fuez) O protagonista da letra morre no final, e Brown recomenda estudo e distância do crime à molecada da favela, mas ainda não vi ninguém nem cantar, quanto mais se empolgar com essa parte. Isso me fez repensar minha teoria.

Ouvir Racionais, por um lado, dá uma certa “credibilidade das ruas” ao ouvinte burguês, ou pelo menos é isso que ele acha: imagina o bandido vindo assaltar o “burguês-mala” e ele tentando se defender com um “pera ae mano, eu ouço Racionais!”. Provavelmente ouviria um “Ah é? Então canta Capítulo 4 Versículo 3 (http://www.box.net/public/i7sska1pau) enquanto eu te deixo de cueca!” (alguém aí lembrou do grande Boça, de Hermes e Renato? :D). Certo, esse parágrafo não tem nada a ver com a teoria, mas é que eu achei a piada boa e não encontrei lugar melhor pra ela. A coisa volta a ficar séria no próximo.

O problema é que o lado construtivo das letras dos Racionais, e aqui eu faço uma extensão a todo hip-hop que retrata a bandidagem, pode se diluir na exaltação da vida do crime. As letras em primeira pessoa encarnam criminosos, eles acabam se estrepando no fim, muitas vezes arrependidos. Mas o cara que ta pensando em ser bandido vai escutar bem alto a saga criminosa e bem baixo a lição final, de acordo com minha insuficiente amostragem do Acaiaca.

Claro que, dentre as variáveis que levam ao crime, a (distorcida) recepção das mensagens dos Racionais não deve ter grande peso. Pobreza, apelos do consumo e ostentação são os lutadores de sumô, no caso. Mas não dá pra deixar de notar que os crimes vêm ficando mais violentos. Hoje mesmo aconteceu outro assalto com ferido, na Av. Boa Viagem. Isso sem falar na cachoeira de sangue que despenca nas periferias e não ganha da mídia a mesma cobertura dos “sangue-azul”. E não dá pra deixar de notar que Racionais e outros hip-hops violentos têm se tornado cada vez mais populares. Alguma conexão entre os fatos? Só uma boa pesquisa de campo pode responder. Fica como promessa para quando a preguiça me abandonar.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Falta Poesia em Minha Vida

Falta poesia em minha vida.
Aquele clarão da cortina que levanta
com algo explodindo dentro, me fazendo rir.
Isso não acontece há algum tempo.

Talvez um precoce desencanto com o mundo
tenha retirado da minha pupila a capacidade de filtrar a luz.
Ou talvez meu ego tenha me deixado cego.
Parece que só consigo falar dele.

Falta poesia em minha vida.
Os livros permanecem não lidos.
O trago não traz encantamento.
Os caminhos me levam sempre ao mesmo ponto.

Caminho em círculos, sem prestar atenção.
Me visto de blasé, mesmo sem gostar da roupa.
Procuro água numa fonte que já secou.
Escondo as mágoas em lugares que tento esquecer...

Mas não esqueço, não expresso, não resolvo
Permaneço imanifesto, fingindo não dar valor
Ator despreparado que não sai do mesmo papél
Dirigido pelo tolo que meu ego se tornou...

...por deixar a poesia faltar em minha vida.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Astronautas

Vi um filme muito bacana essa semana. Os Astronautas. É a história de um viciado em heroína que, aos 40 anos, decide largar o vício. Ele não tem um emprego, mora num cortiço, sozinho. E carrega o estigma de ser visto pelas outras pessoas como um louco - ele realmente se comporta como um, em algumas situações. Poeta, com algum talento para artes plásticas e amante da música underground, ele é o que os americanos chamam de fracassado. Alguém que não conseguiu vencer na vida. E isso nos leva a alguns pontos interessantes.

"Vencer na vida" é a medida pela qual as pessoas normalmente avaliam umas às outras. Significa um bom emprego, que viabilize seu sustento e garanta o acesso a supérfluos que já se tornaram essenciais. Significa ter alguém para amar, mesmo que esse "alguém" se alterne em vários ao longo do tempo. Significa ser visto com respeito e simpatia pelos outros, cabendo aí alguma inveja da sua posição. Significa ter superado os vários obstáculos que separam a maioria das pessoas desse objetivo (algumas pessoas já nascem com a "vida vencida", mas elas são estatisticamente desprezíveis). Aos 40 anos, espera-se que você tenha "chegado lá", ou pelo menos subido uns bons degraus na escada. Essa é a visão dominante.

Há quem discorde. Existem os que querem nada mais que "uma casa no campo, onde possam plantar seus amigos, discos e livros" (http://www.box.net/public/7v6r0kfiui). Ou os que sabem "o quanto é difícil encontrar, de 10 homens ricos, apenas 1 com uma mente satisfeita" (http://www.box.net/public/q56e34l8hy). Ou ainda os que dizem "que não é preciso achar solução para vida, ela não é uma equação, não tem de ser resolvida" (http://www.box.net/public/rtmt8kjtfj). Estas idéias alimentam os que não querem medir a si e aos outros pelo critério "vencer na vida". Não querem fazer parte desse sistema, e são vistos como astronautas pelos adeptos dele. "Se antene, se ligue, caia fora". E então chegamos à questão das drogas.

A realidade nos afeta a partir do modo pelo qual a percebemos. Se alteramos essa percepção, a sensação é a de alterar a realidade, embora isso não aconteça de fato. A realidade permanece a mesma, embora ofereça incontáveis maneiras de ser percebida. Podemos ir embora para Pasárgada no fim do dia, para aliviar as pressões do cotidiano, ou simplesmente porque lá é melhor que aqui. No entanto, a passagem de ida para Pasárgada, oferecida pelas drogas, não custa o mesmo que a passagem de volta, se você resolveu morar de vez na cidade. Para ir, basta algum dinheiro. Para voltar, é preciso uma tremenda força de vontade, que a própria estadia em Pasárgada já fez questão de enfraquecer.

"O refúgio em Pasárgada é um consolo para os fracassados que não conseguiram vencer na vida", diriam os poderosos, do alto da escada. "Prefiro viver em Pasárgada do que fazer parte da podridão que alimenta esse sistema", diria um hóspede de longa data da cidade. "Eu prefiro um galope soberano à loucura do mundo me entregar" (http://www.box.net/public/cpf9nukyuv), já disse Zé Ramalho, que volta e meia vai para Pasárgada, mas sempre volta a esse "mundo louco", para contar o que viu por lá. Ele prova que astronautas podem viver bem na terra. É só não se perder no espaço.

domingo, novembro 26, 2006

Espertos e Otários

Chovia muito, naquela noite. Duas paulistas ao meu lado no avião, iam curtir as férias em Natal. Eu tinha visto a previsão do tempo para a semana, e resolvi prepará-las para o pior. Sempre faço isso. Acho que é uma boa forma de diminuir frustrações. Contei em tom de piada, elas sorriram... meio amarelo no começo, mas logo estavam rindo de verdade da situação.

"Rir das ironias com que a vida nos confronta". Clichezão de auto-ajuda, sem dúvida. Mas eu sempre me perguntei: por que esses livros vendem tanto? Depois de ler alguns, descobri que eles fazem você se sentir bem. Todo mundo deseja progressos para si. Tornar-se uma pessoa melhor. Mas esta é uma idéia muito abstrata. O que esses livros fazem é indicar ações concretas que levam à idéia abstrata. Como as religiões. Só que não procuram convencer por meio de uma fé que pouco explicam. Não, eles são cheios de explicações, algumas convincentes, outras nem tanto, mas que, das duas, uma: ou te fazem se sentir bem ou te fazem pensar que o autor acha que você é um otário. O engraçado é que o otário se sente bem com a leitura, enquanto o cético se irrita. E, se o lema é "sinta-se bem o quanto puder", o otário é o esperto e o cético é o otário.

Eu gostei dessa idéia, achei esperta. Queria ter pensado nela naquela noite, acho que impressionaria as paulistas, e quem sabe elas não decidiriam desembarcar em Recife, inclusive porque o tempo lá estaria melhor, segundo a previsão, ou melhor, segundo meu relato da previsão. Mas não, não pensei nisso na hora, não impressionei as meninas, e a improvável flechada do desembarque não teve a menor chance de atingir o alvo, porque nem chegou a sair do arco. Diga aí, se eu tivesse conseguido mudar o destino das paulistas. Iria me achar a "lâmpida" de Adoniran. (http://www.box.net/public/2n9kssk4zd) Meu ego iria na altura do de Justin Timberlake ("Faço o 'Sexy' voltar/esses putos vêem como ataco/se a mina é sua, melhor se cuidar/porque ela me quer e isso é fato").

Vendo por esse lado, que bom que não tive a idéia na hora, ela poderia comprometer meus projetos de humildade e desenvolvimento espiritual. Até parece... até parece que sou otário.

sábado, novembro 25, 2006

A Verdade sobre a Babilônia

Muita gente usa a palavra “Babilônia” de forma equivocada. Uma festa enfumaçada, potencialmente orgiástica, “é a Babilônia!”, para muitos. Nesse sentido, Babilônia seria algo positivo, diversão da fera.

O contexto real da palavra, no entanto, não é esse. Pensei em fazer um texto pra jogar luz no assunto, mas já há um texto que fala tudo o que é necessário saber sobre a questão. E, de quebra, o texto vem inserido num dub de primeira. Trata-se de “Muita falta de anti-profissionalismo dub”, faixa do disco Piratão, do Quinto Andar, cantada por Bnegão. Ouçam, e descubram a verdade sobre a Babilônia.

http://www.box.net/public/q39g5bdjnh (para os não muito habituados à tecnologia, é só clicar no link e clicar em "play" :P)

quinta-feira, novembro 23, 2006

Promessa de fim de ano

"Há sempre uma musa ordinária esperando para ser trabalhada. Quem fica sentado esperando ser fulminado por um raio de inspiração não persiste." - Robert Crumb

Tava observando os intervalos entre os posts desse meu blog. Volta e meia, eles ficam enomes. O engraçado é que quase todo dia eu entro para checar o número de visitas, mas passo semanas sem colocar nada de novo. Como diria um amigo meu, tô querendo pegar o gabarito sem ter feito a prova. Ou colher o que não plantei.

Essa tal de inspiração é curiosa. Todo mundo que faz algo criaivo com regularidade sabe como é bom trabalhar inspirado. Você tropeça nas idéias, são tantas que é até difícil escolher, e elas parecem se desenvolver por elas mesmas, como se você tivesse apenas aberto a represa, e deixado o rio seguir seu fluxo.

O danado é que volta e meia essa represa não abre de jeito nenhum. Você força, reforça, e não destroça a barreira. Quer dizer, eu devo admitir que não forço muito não. Se tá muito difícil, prefiro esperar até ficar mais fácil. E isso às vezes leva um bom tempo.

O problema não é tanto o tempo de espera, eu não tenho pressa, minha fase Devotos já passou. O problema é o tempo de treino (logo, de desenvolvimento) que vai sendo desperdiçado. A sensação de não estar desenvolvendo satisfatoriamente minhas potencialidades. Isso me incomoda um bocado.

Por isso resolvi colocar em prática a frase de Crumb, e comprar mais ações de persistência, da qual minha bolsa de valores carece. Postar todo dia pra mim é quase uma utopia, mas fica como meta que, mesmo não alcançada, já vale pela busca. O blog tá na Web, mas a web não deve acumular no blog. Meu futuro agradece.

terça-feira, novembro 07, 2006

Veredas da Babilônia

Identidades construídas com areia
pretensões de diamante, realidade de vidro.
Desejos debatendo-se na teia
prisões decoradas com estilo.

Gargalhadas estridentes como quem receia
o pecado de pela melancolia ser atingido.
Vaidades lutando por brincadeira
encantos desprovidos de sentido.

O vazio é imenso para quem tateia
pelas veredas da Babilônia, perdido.
A fome não é suprida por tanta ceia
a alma não se sacia com o divertido.

segunda-feira, outubro 09, 2006

O Opositor

Carrego comigo um desconhecido.
Ou melhor, um conhecido de quem sei pouco.
Ele gosta de sombras, eu prefiro não jogar luz.

Algumas vezes ele me diz o que fazer
Noutras, ele mesmo faz no meu lugar
Ele é metade o que desejo ser... metade o que tenho medo de me tornar.

É difícil encará-lo de frente
compreender suas razões
e poder agir em desacordo.

Quando o olho, ele se aproxima do meu olhar...
chega tão perto que deixo de vê-lo.
E o que nos separa desaparece.

Sei mais sobre ele do que penso;
pensar sobre ele que é difícil.
Louvado saber que não vem do pensar.

Sabendo-me fraco diante dele
busco outra maneira de me livrar
do seu peso a me afastar das metas.

domingo, setembro 24, 2006

Desorientação Universitária

Uma reportagem de Abril da Carta Capital mostra que alunos da Unicamp, saídos de escolas públicas, tiveram rendimento melhor que seus colegas saídos de escolas particulares. É bem curioso: no vestibular, em apenas 5 dos cursos os alunos de escola pública conseguiram maior pontuação, em média, que os de escolas particulares. Uma vez na universidade, terminado o primeiro semestre, os de escola pública já tinham rendimento médio maior que os demais em 29 cursos.

"Pouca grana, muita gana", é o acertado título da reportagem. De onde vem essa gana, e por que ela é escassa entre os mais favorecidos ? Para alguns, a universidade é o pedaço de madeira com o qual vão construir um barco capaz de lhes tirar do córrego das privações e levá-los ao mar da prosperidade, através do rio da ascensão social. Outros, já nascidos no mar, empurram o pedaço de madeira com a barriga, ou o usam para surfar as divertidas ondas que o mar oferece.

Inúmeras vezes, nas universidades, tenho a sensação de estar perdendo tempo. A aula vazia, a presença necessária, o aprendizado inexistente. É difícil dizer até onde é incompetência do professor ou desinteresse do aluno, um alimenta o outro. Imagino um desses bons alunos de escola pública, no meu lugar, como agiria. Provavelmente não teria deixado de entregar o resumo da última quinta-feira. Talvez, no lugar do tédio, sentisse aquela curiosidade instigante, a tal fome de saber; não é necessário nenhum professor brilhante para acender essa chama nele - e ela resiste à mediocridade docente. Admiro esse meu colega, queria ser como ele. Por enquanto, sou mais um dos que não sabem o que fazer com o pedaço de madeira, e que desaprenderam a manter a chama acesa em algum momento do ensino médio.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Cenosidade

Recife ferve, e o vapor é um barato. O povo das artes agita, instiga e promove a tão falada cena da cidade. Na música, em especial, a euforia é grande. E tem razão de ser, já que várias bandas estão dando certo, no melhor sentido da expressão. A cena acena, sorridente, para quem quiser ver, e com internet é possível ser vista pelo mundo. E quem faz a cena são os cenosos.

O rótulo vem com uma pitadinha de fel para o reino da alegria. Quem usa o termo não faz parte da cena, e a frustração disso é que criou o rótulo, diriam os cenosos, com boas chances de acertar. Dá pra entender: a vida cenosa é deslumbrante, ao menos para quem está de fora. Do lado dos cenosos, a chinfra também não é pouca: é difícil ver um deles apagado, brilham o tempo todo, encantam lindas mulheres... a cenosidade é charme forte.

Claro que isso é prato cheio para os invejosos de plantão criticarem os cenosos sob os mais variados pretextos. A cena ganha sua anti-cena, que tenta disfarçar pela crítica a vontade de ser cena também. Do outro lado, há os defensores da cena, que buscam fazer parte dela através de elogios também carentes de critério. O diálogo entre os dois lados é divertidíssimo. Os interessados podem colher na comunidade do Orkut "Eu odeio Mombojó" (http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1193883) uma ótima amostra dessa dialética da cenosidade.

Contra ou a favor, a cena se fortalece com os que se importam com ela. E o fortalecimento da cena é do interesse não só dos cenosos ou aspirantes, mas de todos que apreciam o agito por ela promovido. Com ou sem chinfra, é ótimo poder ouvir as pedras do samba, acompanhadas pelas lindezas dançantes. Mesmo que, no final, elas só queiram dançar com eles (cenosos) e dizer que é sem compromisso... vida de cenoso é boa demais!

segunda-feira, setembro 04, 2006

Janelas Fechadas

-Cara, você precisa parar com isso.

Arthur gostava de dar conselhos. E desgostava de ver Tiago assim, como quem nada quer, desagradando com seu silêncio. Tiago tinha a mania de fechar as janelas, apagar as luzes e passar longos momentos no escuro.

-Isso o quê? - Tiago pergunta, ainda de janelas fechadas.

-Essa sua mania de se enterrar em seus devaneios e ficar cego e surdo para o mundo.

-Ah, é verdade... eu devia parar com isso. - responde Tiago, abrindo as janelas à contragosto.

-Você já parou pra pensar na quantidade de coisas que você perde com isso? Você sabe que o seu silêncio ajudou um bocado as meninas a irem embora mais cedo, né ?

-Por que, você acha impossível elas terem de estudar pra prova de amanhã ?

-Prova de amanhã, Tiago?! A sugestão de que nós quatro fôssemos dar uma volta na praia, você nem ouviu, né ?

-Volta na praia ? Acho que não...

-Quem sugeriu foi aquela menina, que passou os últimos 40 minutos na sua frente, esperando alguma atitude sua. Você ignorar a sugestão era o que faltava para ela lembrar de repente dessa prova e ir embora com a amiga.

-Ah, bem que eu tava achando estranho essa sua repentina preocupação comigo... você só tá aborrecido porque o que esperava não aconteceu.

-E você, aonde espera chegar desse jeito ? Vai deixar o tempo passar na janela, desperdiçar as oportunidades que a vida te oferece, pra ficar sonhando acordado, calado, isolado ? Se ao menos você compartilhasse seus sonhos...

Tiago não respondeu. Sabia que Arthur tinha razão. Ele próprio já pensara bastante no assunto, nos romances que deixou de ter... aquela menina mexia com ele, e ele a deixou ir embora... como tantas vezes já fizera. Compartilhar sonhos... será que ela gostaria de ouvir ?

-"Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém..." - Arthur cantava, na intenção de provocar o amigo. Mas Tiago já fechara as janelas novamente, apesar e por causa do verso. Ele já saíra de dentro de si, e foi tanta felicidade... que logo logo desmoronou. Um pássaro que cai no melhor do seu primeiro vôo, e passa a se defender do voar. Voa baixinho, quase pulos mais demorados, e morre de saudade de quando voou de verdade.

-Deu 27 reais, Tiago. Tu tem trocado ?

Teria trocado... algumas cervejas e boa conversa por um pouco de alívio para solidão.

terça-feira, agosto 22, 2006

Liberdade

"A liberdade é algo tão importante que deve ser racionada". A frase de Lênin aponta para o autoritarismo. Seus extremos, na forma de ditaduras truculentas, tiveram como resposta a luta pela liberdade. Tempos românticos, artistas agigantavam-se para lutar contra o monstro da opressão. Foi grande a festa, até Deus veio olhar "a evolução da liberdade até o dia clarear", quando a ditadura caiu. A liberdade, agora, era um direito inegociável, lutar por ela tornou-se desnecessário. O combate já terminara, com resultado desejado.

O que não se desejava eram os efeitos colaterais da ausência de lutas pela liberdade. Se não se batalha para conquistar, a conquista não tem valor. Muitos dos nascidos após a queda do monstro foram criados com muita liberdade e pouca racionalização. Não fazer isso era afinar-se com o autoritarismo que tanto se quis derrubar.

Em nome da liberdade, a permissividade tomou conta. A geração que já nasceu com seu monstro derrubado carrega um vazio, e tenta preenchê-lo "erguendo estranhas catedrais". Não reconhecem batalhas além das do prazer imediato; as outras são fardos a serem suportados, se muito.

É preciso meditar sobre a frase de Lênin. Talvez ela não aponte apenas para o autoritarismo extremo que desejamos manter no passado. Talvez ela aponte para uma disciplina interna, onde o indivíduo reconhece seus monstros e assume a luta contra eles. Porque a vida sem batalha se transforma em espaços de tédio que os pincéis do entretenimento tentam preencher, mas não conseguem.

domingo, agosto 13, 2006

Dança Furtiva

O que não foi dito.
Imaginado, ponderado ficou
na suspensão das hipóteses, e seus prováveis efeitos...
tão bons de se imaginar, o ego a inflar sem motivos reais...
derrapando nos sinais, a indicar o que não admitirias.

Nem eu admito, tão estranho que seria
o que imagino com ardor de desejo reprimido.
desprezando admissões, nossos olhos se provocam
dizem claro o que a boca insiste em disfarçar
e me levam a preparar frases belas que não direi.

Nada dito no sentido que importa
importância que é melhor fingir não haver
para além do fingimento, o sentido dança furtivo
imaginando o prazer de ser descoberto
e constatando que descoberto não pode ser.

terça-feira, agosto 08, 2006

Ansiedade de Desempenho

Algumas pessoas não se sentem bem se não estiverem no controle. Outras precisam brilhar todo tempo. “Holofotes, por favor, não me deixem ficar triste”. Existem os que desabam se não fazem tudo da melhor maneira possível. E há os que não se importam se algo não está da melhor maneira, mas se condenam com torturas paralisantes se algo está abaixo do regular.

A preocupação com o desempenho tanto pode melhorá-lo quanto piorá-lo. Cada atividade exige determinado equilíbrio entre estresse e relaxamento, para correr bem.
Terminado o ato, com resultado abaixo do esperado, começa a projeção do que estava errado, para uma melhora futura. Processo saudável, evolutivo, mas angustiante para aquelas pessoas que sofrem com a ansiedade de desempenho. Cada erro é uma culpa, um espaço onde se falhou ao ocupar. Cada culpa se dilata durante a projeção, com a cena do que deveria ter sido feito. “Isso é uma bobagem, o que passou, passou; deve-se deixar ir embora”, nos recomenda o bom-senso. Mas a mente de muitos parece programada para não atender às recomendações.

Pessoas com ansiedade de desempenho são receosas em sair de seu território habitual. Novidade e erro costumam andar juntos. Por isso preferem se dedicar a poucas atividades, as que já dominam. E sofrem com a vontade de fazer o que não sabem, reprimida pelo medo da frustração decorrente do desempenho ruim.

Lembro que, quando criança, sempre ficava de fora quando a turma jogava futebol. Lembro que a coordenadora da escola, observando meu isolamento, me incentivou a participar: “Depois, quando a gente cresce, quer voltar a esses momentos de criança. Se prive não...”. Dos momentos que não me privei, muitos nem lembro mais, e os que lembro me confortam com a sensação de algo preenchido. Já o desconforto do vazio dos momentos em que me privei, esse não me deixa esquecer. Daí a necessidade de se marcar o futebol com meus amigos perna-de-pau. Porque minha ansiedade de desempenho não me deixa jogar com quem manda bem, e por querer tentar, simbolicamente, preencher a lacuna do passado no presente. Preferencialmente, marcando o gol da vitória que vai impressionar a menina bonita a olhar a partida.

segunda-feira, julho 31, 2006

O poço encantado

Tão poético era quando mais moço
aquele rapaz de rosto sombrio
andava como se encontrado o poço
encantado desejo da palavra sutil

Tão bela a menina do primeiro verso
que o ego transbordava feito navio
quando se rompe a proteção do imerso
e o mar invade tudo que era vazio

Tão rápido a poesia se transformou
o mar virou sertão que preferiu
o cinismo ao amor que não vingou
amar sempre foi um ato imbecil

Tão demorada a ferida sarou
sertão irrigado por estreito rio
estreita também a poesia ficou
o poço encantado na areia sumiu.

quinta-feira, julho 27, 2006

A soberba humildade

Soberba, um dos sete pecados capitais. Segundo São Tomás de Aquino, o mais problemático, pois impede que se reconheça todos os outros. O elemento que “se acha” muito se empenha pouco em melhorar. Afinal, não há muito o que melhorar, ele já é “O” cara...

Alguns consideram a humildade incompatível com uma auto-estima elevada. Se sua vida vai bem nas diversas áreas que lhe importam, não lhe faltam motivos para mandar a humildade para bem longe, certo ? A soberba é divertida, e a humildade é apenas o refúgio daqueles que não são tão bons quanto você.

Quando nos consideramos de fato bons em algo, a soberba nos tira para dançar, assim como nas vitórias importantes. Poucos recusam o convite. Recusar por quê, se a dança é instigante, embriaga o ego, faz sentir-se importante? Podemos até aparentar modéstia, porque uma arrogância descarada atrai antipatia, enquanto dizemos para nós mesmos como somos os tais.

Há, porém, uma razão soberba para manter a soberba afastada: ela atrai infortúnio. A vida logo procura ensinar aos arrogantes que salto alto não é bom para trilhar seus caminhos. Quantas trajetórias promissoras não foram desperdiçadas pelo deslumbramento? Isso fica evidente em competições. Já observei que o momento em que relaxo por achar que a partida está ganha muitas vezes é seguido de uma virada inesperada. Lidar com derrotas, então, é um problema para os “assoberbados”. Eles procuram, com ansiedade e frustração, uma razão para o seu desempenho pior, porque não aceitam que o desempenho adversário tenha sido melhor por méritos do oponente. Afinal, o oponente não pode ter mais méritos do que eles próprios.

“O sábio abandona a obra assim que ela se termina”. Desapego do resultado. Manter a serenidade quando algo dá muito errado já não é fácil, mas o mais complicado é manter a serenidade quando algo dá muito certo. E é nessa serenidade perdida que floresce o infortúnio, adubado pela arrogância que descuida do que trouxe o bom resultado. A menina está rindo, gostando do papo. No momento em que você “se acha” por isso, o papo começa a declinar, o foco não mais está onde deveria.

Este texto, por exemplo, teria ficado muito melhor se eu não tivesse “me achado” pelo jogo de palavras do título.

quinta-feira, julho 20, 2006

A voz de dentro

A voz de dentro não fala muito alto;
não é aquela que toca na sua mente
o trecho das canções preferidas
ou as conversas de fim de tarde.
A voz de dentro não gosta de chamar atenção.
fala pra quem escuta, sem repetir ou aumentar o tom
o oposto daquela voz que toca na sua mente.
Sempre gritando, clamando por atenção... e consegue
que a voz de dentro se cale, por falta de atenção
ou a falta de atenção nos impede de ouvir o seu falar ?

Quando conseguimos escutar a voz de dentro
convém prestar atenção;
pela raridade do momento
pela tranquilidade da sensação.
Não há tédio quando se a escuta;
tédio é coisa daquela voz
que faz tudo que pode na luta
para afastar o silêncio de nós
porque a ausência de som a apavora.
Mas é só nele que se encontra o remédio
oferecido por aquela senhora
que não fala muito alto, não gosta de chamar atenção.

sexta-feira, julho 14, 2006

Brainstorm

Consciência, cara ? Consciência é uma loucura. Neste momento escrevo sem o crivo da censura, o que vem à mente direto para o papel, o chamado Brainstorm. O desafio é não parar o deslizar da caneta sobre o papel. O sentido é prejudicado, mas o tédio é afastado e eu me satisfaço. Já li não lembro onde que Brainstorm é bom para organizar e liberar o fluxo de idéias. Me ocorre que o funcionamento da mente não é lógico, ou melhor, não se reduz ao lógico. Talvez um grande fator de insatisfação mental seja o esforço de reduzir a mente ao lógico. Nossa irracionalidade se revolta com isso, e puxa os cordões de nossos instintos, fazendo-nos pular de um lado pro outro, como marionetes-baratas-tontas. Será ? Eu acho que sim. Agora por exemplo, que finalizei essa idéia, não me vem a mente um tópico relacionado, como seria de se esperar se a mente fosse só lógica. O que me vem a mente é um verso do GOG, que me arrepia: "Moleque um momento, ainda há tempo se conserta/Moleque, um momento, fique atento ouça o alerta/As notícias da favela não são nada animadoras/Há guerra todo, mais cruel devastadora". E na sequência, a mente informa que tal verso foi para driblar a ausência de pensamento do momento. E que tal ausência vem da vontade de se pensar algo interessante, inteligente, LÓGICO. Então voltamos à idéia anterior. Talvez a mente funcione em círculos, ou em pentágonos, hexágonos. Hexa ? Vexame, decepção, cabeçada de Zidane no italiano mamão. Mamão uma ova, o cara foi que garantiu o tetra. Feio que doeu, como costuma ser o futebol da Itália, mas o tetra de 94 também não foi belo. Talvez seja destino, o tetra de todos ser medíocre. Mas a comemoração independe da beleza do futebol. A aula está acabando, boa hora pra finalizar o brainstorm. Na próxima vou cronometrar os minutos, e vender a idéia como solução milagrosa para estudantes tediosos. Vou ficar rico.

segunda-feira, junho 19, 2006

Espantando o Tédio

Escrever para espantar o tédio. Escrever para atingir um estado alterado de consciência. Diferente daqueles que se alcança por atalhos. Trata-se de uma atividade que envolve esforço, e, portanto, benefícios mais duradouros. Uma maneira sadia de dialogar consigo mesmo, trazendo para superfície conteúdos imersos no inconsciente.

Deixar a linguagem em forma melhora a qualidade do pensamento. Seria razão suficiente para dedicar algum tempo à leitura e à escrita, se não houvessem milhares de distrações, hipnotizantes e estéreis. Tornamo-nos reféns de nossas maneiras de fugir do tédio. E a maioria delas não nos acrescenta nada.

A loucura do mundo X o desenvolvimento espiritual. Para um monge tibetano, que nada faz além de meditar, a iluminação é meta árdua e incerta. Para nós, do caos urbano, iluminação só se for a dos postes. Queria ver o Dalai Lama cultivando a serenidade e o amor ao próximo com 15 carros buzinando no seus tímpanos e um possível assaltante se aproximando suspeitamente no sinal fechado. Tudo bem que existe uma consciência que media a resposta ao estímulo. Mas tem estímulo que chega pra consciência e diz: "Ó, tu fica aí, quietinha, sem encher o saco da resposta, que vai sair do jeito que EU quero". Se assim não fosse, não haveria condicionamento.

Lembrei do verso de Drummond: "Escrever, verbo que atrapalha a conjugação de tantos outros verbos". Será que eu me tornarei um ser humano melhor quando terminar esse texto ? E os pratos que não lavei, o assunto que não estudei, a corrida que não dei e o amor que não declarei ? Ora, que preocupação ridícula. Ninguém age para se tornar um ser humano melhor. Ou melhor, ninguém pode medir o impacto do que deixou de fazer na melhoria do seu ser. A velha questão: até onde é possível modificar, pela vontade, o próprio ser ? Responder, muitos já o fizeram, de Platão ao Dalai Lama, passando por Freud e pelo slogan da Nike. Difícil é demonstrar a possibilidade. Eu, que nem respondo nem demonstro, e na falta de final melhor para esse texto, desejo a todos um ótimo jogo do Brasil, com 3 gols de El Gordito, para tostar a língua de seus detratores. Maneira garantida de espantar o tédio.

terça-feira, maio 30, 2006

Considerações sem Foco

Paixões deformam
são lentes amadas, odiadas
a editar o mundo.

Ausência de paixões
pode, um dia, vir a ser o Nirvana
quase sempre é só vazio.

Ego = sofrimento
não conseguimos viver sem egos
o mundo entraria em colapso.

Ditadura do prazer
instantes de satisfação
por períodos de inquietude.

Considerações sem foco
exercício estéril
fortalece o ego

que já inflou, já explodiu e torna a inflar
que a sabedoria manda esvaziar
e a vaidade não mede esforços em recompor.

sábado, maio 27, 2006

Manutenção

A conquista é estimulante. Qualquer conquista. Emprego, afeto, status, mercado, poder. Há um objetivo em mente, estratégias para alcançá-lo. Enfim, chega-se aonde quer. E agora? Agora entra em cena a tal da Manutenção, sempre a exigir uma contribuição, tal qual um fiscal da Receita Federal. Bastam algumas faltas com ela para todas as conquistas irem por água abaixo. Ela não tem muita paciência para caloteiros.

Os motivos do calote não importam muito, porque dona Manutenção parte da idéia que sempre há algo que você pode fazer para pagar o imposto que ela cobra. Se não o fez, é porque não era importante o suficiente. Se não é importante o suficiente, não há motivos para manter.
Não dá pra tirar a razão dela. Em última análise, é isso mesmo. Alguns percebem isso logo, e agem de acordo com as regras da Dona. Há, porém, os que têm maior obediência a uma outra senhora, chamada Liberdade. Tão permissiva quanto Manutenção é intransigente, ela está sempre a indicar caminhos diferentes, que muitas vezes passam longe dos pedágios de Manutenção. As pessoas com preferência por Dona Liberdade acabam castigadas por Dona Manutenção, com a perda de suas conquistas.

É uma maneira mais excitante de se viver, diriam alguns. O movimento de perda e recuperação das conquistas parece bem mais aventureiro do que a segurança da conquista que persiste no tempo, protegida por Manutenção. Mais excitante e mais doloroso, por ter que enfrentar a dor da perda das conquistas diversas vezes.

Pesquisas apontam que muito de nossa personalidade depende mais dos genes do que das experiências. Deve haver um cromossomo responsável pela preferência entre Manutenção e Liberdade. É a desculpa perfeita para quem não quer mudar.

Para os que querem mudar, o carimbo genético tem quer se desconsiderado. Afinal, a imagem que fazemos de algo tem muito mais efeito sobre nós do que o algo em si. Se acho Genética uma bobagem, não tenho porque acreditar na tirania de um cromossomo. Se não acredito, não existe para mim. Logo, a mudança é possível.

Da possibilidade à concretização, vai um longo caminho. A ser preenchido com estratégias, para alcançar o objetivo em mente. Chegando aonde se quer, impossível não perguntar: e agora ? Talvez seja o caso de relembrar os caminhos percorridos, e honestamente agradecer a oportunidade da viagem.

segunda-feira, maio 22, 2006

Seminário de Rádio e Tv

Os ataques do PCC em São Paulo mostram o que séculos de injustiças sociais podem produzir. Revelam a fragilidade do estado, incapaz de lidar com terrorismo bem articulado. Confirmam o poder desse estado paralelo, que dita as leis dos presídios e favelas do Brasil.
Aconteceu em São Paulo, mas poderia ter ocorrido em várias capitais. Talvez ocorra muito em breve. E o mais assustador é saber que a situação só tende a piorar. Achar que mais policiais e penitenciárias resolverão o problema é como achar que o combate aos sintomas pode curar a doença. Essa hemorragia não pode ser estancada por PMs, Civis, Federais ou Militares. A ferida é bem mais grave, e só pode ser curada com a melhoria das condições sociais.
Não existe cura a curto prazo para tal doença. E são poucos os sinais de avanço para a cura a longo prazo. Talvez seja preciso uma guerra civil, com milhares de mortos por todo o país. Mas é melhor acreditar que eventos como o de São Paulo ajudem a sociedade a acordar. E começar a tratar a doença de fato. A sociedade brasileira precisa de um tratamento de choque. Bom seria se documentários como Meninos do Tráfico chocassem o suficiente para levar à ação. Infelizmente, só olharemos para o monstro que criamos quando ele ameaçar nos engolir.

segunda-feira, maio 01, 2006

Sentidos

Desejo:
Uma tensão que pede relaxamento.
Em alguns, exige;
Noutros, ordena.

Alma:
Um pedido de renúncia ao desejo.
Sacarifício sem tortura;
Cultivo do desapego.

Mundo:
Um lugar onde alma não importa.
Sonhos de consumo;
Indústrias de sentido.

Sentido:
Bússola de qualquer um.
Um enorme ponteiro material,
Um minúsculo ponteiro espiritual:

rachaduras de angustia constante;
ilusões de satisfação.

quinta-feira, abril 20, 2006

Falcão: meninos do tráfico

Um desenho traçado com canetas roubadas
por um menino nascido no berço da miséria
onde as trajetórias já estão tragicamente traçadas
e as alternativas são desprezadas, ingênuas idéias

O menino pintara um homem em combustão
castigado por transgredir a lei do silêncio
os dentes ainda moles rangeram ante o suplício
o fogo levava embora o seu irmão

A crueldade das imagens parece ficção
Realidade inverossímil para quem dela não faz parte
Ao choque da sociedade deveria suceder o debate
que conjugasse ações e soluções para a questão

Mas um monstro alimentado por décadas
não se mata em um único dia
por mais certeiras que sejam as setas

Enquanto isso, mais canetas serão roubadas
mais vidas serão desperdiçadas
na tragédia em que todo dia um novo ator estréia.

terça-feira, abril 04, 2006

Brincadeira Boa

O que resta dizer ?
O que já foi dito, de forma diferente ?
Um ajuste no passado, para enganar no presente ?
Quantos não disseram antes, e melhor ?
Questões que separam a mão da caneta.

Qual a razão desse uso do tempo ?
Vaidade, elogios dispersos ?
Talvez ser lembrado por meia dúzia de intelectos ?
Desenvolvimento pessoal, estruturar idéias
talvez já escritas em outra língua, outro país, outra época ?

A consciência precisa brincar
Escrever é brincadeira boa
E isso basta.

domingo, março 19, 2006

Malandragem e Responsabilidade

"Se eu precisar algum dia, de ir pro batente, não sei o que será... pois vivo na malandragem, e vida melhor, não há!" Este sambinha me vem à mente nos momentos que reservo para ficar à toa, na sinuca ou no dominó, acompanhado de uma loira gelada e dos colegas de ócio relaxante. "Estes momentos são essenciais para a manutenção do equilíbrio psicológico do cidadão", já cansei de dizer isso, para os outros e para minha consciência, quando há tantas tarefas por fazer e estou altamente atarefado fazendo nada. Nada de responsáel, melhor dizendo, chamar de "nada" algo a que dedico tanto tempo prazeroso seria uma injustiça. Durante muito tempo, busquei o ponto de equilíbrio entre a malandragem e a responsabilidade. Os mais chatos diriam que se trata de equilibrar água com fogo, ou, pra citar outro sambinha, que "o sol não pode viver perto da lua". Mas o que é a vida, além de um equilíbrio entre forças antagônicas ? Equilíbrio idealmente falando, porque o que mais ocorre é um dilema, seguido de exageros para um lado ou outro. E, de fato, se você quiser ser excepcional em algo, terá que optar por ele em detrimento do seu oposto.

Para quem tem ambições mais modestas, a combinação entre os opostos torna-se mais viável. Ainda difícil, porém, já que é bem fácil perder o referencial de equilíbrio, e escorregar além da conta para um dos lados. O conhecimento popular afirma que "tem hora pra tudo", basta saber administrar o tempo adequadamente. Será ? Mesmo as pessoas bastante organizadas, que encontram tempo para muitas atividades diferentes, provavelmente sentem falta da imprevisibilidade da desorganização, das agradáveis surpresas de caminhar ao sabor do vento, algo que uma agenda rígida demais não pode proporcionar.

Talvez o calor da malandragem transforme a água da responsabilidade em vapor. Talvez o vapor só vire chuva quando a vida assim exige, naqueles momentos em que paramos para repensar o caminho que está sendo trilhado. Ou talvez tenhamos um São Pedro dentro de nós, capaz de combinar o calor e a chuva com sabedoria. Talvez ele esteja dormindo, e não acorde com nosso chamado de leitura de manuais de fórmulas de como agir. Talvez não haja fórmula para acordá-lo, e cada um tenha de resolver sozinho esta equação do 7° grau, chegando a diversas soluções. E talvez a solução seja a permanente revisão da equação, aprimorando-a para os vários momentos da vida.

domingo, março 05, 2006

Quinta-feira pós carnaval, aula de literatura portuguesa. A professora tinha pedido para procurar cantigas de amor, de escárnio, de amigo, de mal-dizer... estamos estudando o Trovadorismo. Eu, como bom folião, logicamente nem toquei em livros durante o carnaval. Eis que ela começa a chamar um por um, perguntando sobre a pesquisa:
- E você, Bernardo, o que procurou ?
- Bem professora, devo reconhecer que não procurei nada, porque priorizei o carnaval em detrimento dos compromissos acadêmicos.
(risadas abafadas se espalham pela sala)
- Ah é, né ? Pois então você vai fazer uma cantiga de amor, tendo como tema o carnaval, para próxima aula.
Que maravilha! Fazer a cantiga nem foi problema, a bronca foi ir pra ufpe num sábado, pra ter aula das 7 às 13h, já derrubado pela virose pós carnaval. Mas consegui, heroicamente, honrar meu compromisso.
Eis a cantiga:

Nada além de um devaneio

Tantas ladeiras para fugires do meu olhar
agitado como um frevo, a te buscar na multidão
O calor não incomoda quando noto a tua mão
empunhando o estandarte do bloco que está a tocar
"Você diz que ela é bela, ela é bela sim senhor..."
Tão bela que não faz idéia de como é grande o meu amor
E continua, majestosa, com seus divinos passos a me maltratar

Deus, como queria, a ti na dança me igualar
Fazer o povo parar para acompanhar nosso gingado
Faria tudo para me livrar destas pernas de desengonçado
E contigo arrancar aplausos e assobios da multidão a gritar
Talvez assim olharias pra mim com algum desejo...
E quem sabe, algum dos passos terminaria num beijo
E Olinda ficaria pequena, para tanta alegria abrigar

Sei, no entanto, que isso nunca passará de um devaneio
Me contento em te admirar com o fascínio que teus encantos exigem
Trato a ferida em meu peito com algumas bebidas que dão vertigem
Espero você terminar, e à casa retornar em seu tranquilo passeio
Também eu retorno ao lar, cambaleando pelo álcool e pelo vazio
que tua ausência me traz à alma, soprando-lhe um vento cortante e frio
que suportarei até minha morte, ou até tua morte, o que vier primeiro
Mas disso, ó minha amada, jamais saberás; não te trarei nenhum receio

quarta-feira, março 01, 2006

Laboratório

Se não conseguimos expressar uma idéia com palavras, será que tal idéia de fato existe dentro de nós ? Às vezes ocorre a sensação de que compreendemos algo, mas na hora de transformar este algo em palavras, não conseguimos. Há quem afirme que palavras são a expressão do pensamento; se uma idéia não pode ser comunicada (transformada em palavras), é porque ela não está completa, madura ou clara o suficiente; ainda não existe como deveria.

O que é um sentimento ? Uma variação biológica que produz sensações ? Será que idéias e sentimentos não passam de partículas microscópicas atuando no cérebro, gerando este ou aquele efeito ? Ou existe o tal mundo das idéias, a alma, e as variações biológicas não passam de indícios do que acontece neste mundo inacessível aos sentidos ? Existindo um, ou outro, ou os dois sendo a mesma coisa, que regras regem este laboratório de idéias e sentimentos ? Quantas vezes uma idéia ou sentimento aparece de repente, do nada, como uma paisagem revelada pelo desaparecimento súbito da cortina que a escondia ? E até onde somos capazes de mexer nessas cortinas ?

"A luz negra de um destino cruel / Ilumina o teatro sem cor / onde estou desempenhando o papel / de palhaço do amor". O que foi preciso para que este verso magistral aparecesse na mente de Nelson Cavaquinho ? Um destino generoso, que jogou a cortina longe com um vendaval de inspiração ? Ou será que a cortina foi aberta pouco a pouco, à custa de muitas cervejas e guardanapos de bar ? É um mistério, ninguém sabe onde termina a inspiração e começa a transpiração. Quando desvendarem os mistérios do tal laboratório, se é que um dia o farão, a humanidade ganhará muito em conforto e bem-estar. E perderá a mesma coisa em fascínio e aventura. Haja tecnologia para driblar tanto tédio.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Apreço pelo silêncio

A maioria das pessoas não lida bem com o silêncio. É comum, durante conversas, exigirem da pessoa calada: "fala alguma coisa!" ou "fulano fala tanto que meu ouvido dói". Quando o calado se encontra em silêncio por timidez, isso provoca sorrisos de desconforto, seguidos de uma ou outra frase breve. Às vezes o silêncio é medo de demonstrar ignorância; neste caso, são comuns os "ahams", e os acenos de cabeça indicando concordância. Afinal, um tolo calado oculta mais facilmente sua tolice do que um tolo falante. Como se vê, o silêncio é frequentemente associado à idéias negativas: timidez, tédio, ignorancia, falta de assunto.

O valor de um vaso, copo, ou garrafa está justamente nos seus espaços vazios, que dão utilidade a tais objetos. Na música os silêncios são tão importantes quanto as notas; eles são modeladores decisivos da sonoridade. É o uso dos silêncios que vai diferenciar duas frases musicais com as mesmas notas; desrespeitá-los destrói a beleza de uma melodia.

Atualmente os estímulos são tão variados e tão atraentes que as pessoas não conseguem passar vinte minutos paradas, em silêncio, na companhia da própria mente. Esta vai perdendo sua capacidade de gerar significados e com eles preencher os vazios, devido ao bombardeio de estímulos de significação descartável. As pessoas procuram estar o tempo todo ocupadas, distraídas com o que quer que seja, porque ficar a sós com a própria mente é inquietante, entediante, angustiante.

Osho dizia que a mente é como nuvens, sempre a turvar nossa visão, impedindo-nos de perceber as coisas claramente. A iluminação seria o desenvolvimento da "não-mente", o emergir de uma consciência livre das ilusões que a mente não cansa de fabricar. E o caminho para isso seria a meditação.

Esta iluminação parece algo inatingível para a maioria das pessoas. Talvez de fato seja um privilégio para poucos. Mas parece possível observar a mente, seus medos e desejos, o angustiante vazio que ela se esforça para preencher. E, em vez de tratá-los com paliativos, aprender a conviver com eles. Desenvolver o apreço pelo silêncio, em vez de passar a vida fugindo dele, em vão.

domingo, janeiro 29, 2006

Talento e Disciplina

Ontem, na casa de Tina, Manuel deu uma divertida bronca em Paulo Mineiro. Manuel está conseguindo ganhar grana através da arte. E indigna-se com Mineiro, que é "artista duas ou três vezes na sua frente" (palavras do próprio Manuel), e está parado, sem grana e sem agir para ter uma produção rentável. "Com o talento que você tem, tá vacilando", foi o veredicto de Manuel. E todos que conhecem Mineiro e sua arte estão de acordo.

No documentário "Vinícius", Toquinho relata um encontro do poetinha com João Cabral de Melo Neto. Este o aconselhava a trabalhar com mais seriedade e disciplina na poesia, afirmando que se existisse um poeta com o talento de Vinícius e a disciplina de João Cabral, o Brasil teria um poeta insuperável.

Talento e disciplina muitas vezes não caminham juntos. E a falta de disciplina pode levar o talento à estagnação. Medíocres esforçados normalmente vão mais longe que talentosos preguiçosos, a não ser quando se trata dum Romário da vida, cujo talento não há indisciplina que ofusque. Não ofusca, mas nega oportunidades, por causa dela o baixinho ficou fora da Copa de 2002. Já o disciplinado Belletti, mesmo sem um décimo do futebol de Romário, teve a alegria de ser pentacampeão.

Talento, costuma-se dizer, a gente já nasce com ele. Tudo bem que o ser humano tem uma incrível capacidade para aprender e desenvolver novas habilidades. Mas os talentosos aprendem muito mais rápido e com menos esforço do que os sem talento. Só que essa facilidade traz consigo a armadilha do acomodamento: como o talentoso, com menos empenho, consegue os mesmos resultados da maioria, pode atrofiar o tendão do esforço, que é o principal componente do músculo da disciplina.

Os que driblam a armadilha, estes vão longe. Mas a maioria cai no alçapão, e vai parar na masmorra dos "que poderiam ter sido e não foram". Para sair de lá, só com uma rotina intensiva de exercícios para desatrofiar aquele tendão, pois o músculo precisa estar vigoroso para conseguir derrubar a porta.

Pena que na masmorra encontra-se Dona Preguiça, insinuando-se na cama, com seu mais alto poder de sedução. Difícil levantar para se exercitar, com uma companhia tão paralisante. Como a ocasião pede o clichê, "ninguém disse que seria fácil". Mas disciplina é algo que se pode conquistar. Ao contrário de talento.

PS: Mineiro, mexa o seu traseiro gordo!!!

sábado, janeiro 21, 2006

A soma dos amores que não tive

A soma dos amores que não tive
Quadros pendurados na parede da memória
Clipes editados contando uma outra estória...
Fantasias do desejo que não posso impedir que se fabrique

As paixões da infância, tão despidas de malícia
As paixões da adolescência, tanta coisa não vivida
Seguem comigo adulto, num constante devaneio
Ladrão daqueles instantes em que o sono ainda não veio

Cada rosto num slide de apresentação do Powerpoint
Com legendas de diálogos jamais pronunciados antes
A imaginação preenche o que a realidade deixou em branco
Uma espécie de compensação para minimizar o desencanto

Essa soma, que subtrai meu bem-estar
Adiciona uma esperança numa paixão ainda por chegar
Que transforme os tais quadros em meros rabiscos engraçados...
Sem importância diante do que por tanto tempo foi aguardado

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Partida para continuar

Uma loucura foi contida, convertida em mediocridade
Chateada, ela se foi com o entusiasmo
É bastante procurada pelas saídas da sobriedade
Mas só se encontram paliativos pro marasmo

A vontade enfraqueceu para ajudar a sanidade
Melancolia temperada com sarcasmo
Paranóias controladas, mas persiste uma saudade
De atos mais alegres e ousados

Inevitável imaginar como seria
se tivesse escolhido outro caminho
Lamentável desperdício de energia

A duração do desalento não tardaria
Caso aceitasse as cartas jogadas pelo destino
E parasse de remoer os descartes que hoje não faria

quinta-feira, dezembro 29, 2005

21 anos

21 anos... Esta idade em que o adolecente é subitamente jogado na fase adulta. Já com uma certa distância da eterna brincadeira da infância e bem próximo da doce irresponsabilidade da adolescência. Estou romantizando, reconheço. Recordando com mais cuidado, vejo que a infância e a adolescência tiveram sua cota de angustia, preocupações, frustrações. Acho que o passado, à medida em que fica mais distante, tende a ser enxergado com lentes cor-de-rosa. Os bons momentos parecem irrepetíveis, e os maus momentos bobagens que na epoca não éramos capazes de ver como tais. "Ah, que saudade de quando era menino! Eu era feliz e não sabia"
Ao atingir a idade-embratel, o descaso com o futuro precisa ser trocado pelo compromisso com o amanhã. Claro que esta mudança não se dá automaticamente. Chegar aos 21 não é garantia de preparação para as exigências que se anunciam. E quando o jovem se dá conta de que a partir de agora terá de batalhar pela independência financeira, dá uma saudade danada da época em que a maior preocupação era a prova de química.
Se existisse uma medida para pressão psicólogica, talvez nos surpreendêssemos ao ver que a pressão sentida pelo adulto para arranjar trabalho e pagar suas despesas é a mesma sentida por um garoto de 10 anos ao fazer a prova de sua pior matéria. Esta nos parece bobagem apenas porque já foi superada, e aquela nos amedronta porque não se pode superar um desafio que ainda não veio. Tensão, superação, descontração, nova tensão. A vida segue o ritmo, cabe a nós dançar de acordo.

terça-feira, dezembro 13, 2005

Medo do ridículo

Não digo o que sinto, e sofro com isso
Maltratado pelo "que poderia ter sido e não foi"
Um momento pedindo uma ação que não aconteceu
A cena tatuada na mente
convidando o arrependimento para morar por algum tempo
A energia acumulada, contida e transformada em frustração
As oportunidades desperdiçadas deixam saudades de aventura
Caso retornem, será que as aproveito ?
É preciso perder o medo de parecer bobo
e desfrutar da liberdade que aos bobos se oferece

quinta-feira, novembro 17, 2005

A luz que se perdeu

Queria conseguir desvendar
o mistério de minha mente.
Alguma ferramenta para revelar
as sinapses que não chegam à consciência
mas modelam inúmeros vasos
que despejam devaneios confusos
imagens de um passado recente;
de desejos que não chegaram ao ato
de resgates de um passado acabado
dispersando a atenção do presente.
Uma inquietação que não se torna aparente
e talvez por isso seja tão difícil eliminar.
O afundar dentro de si mesmo
pouco enxergando nas águas turvas
guiando-se por sinais ilusórios
perdendo-se no jogo de espelhos.
Falta vontade, habilidade ou sabedoria
para reencontrar a luz que se perdeu ?

domingo, setembro 11, 2005

Crise de Identidade

O que sou, o que fui, o que serei...
lembranças entristecem comprovando que não evoluí.
O que antes alegrava hoje não passa de um ato mecânico
O brilho do passado lança sombras no presente
Insisto em tentar nadar em águas que a correnteza já levou

O que seria agora se tivesse agido diferente
O futuro cobrará as experiências que evitei.
O longo tempo dedicado a expandir os limites da mente
deixou o que, além de lembranças prazerosas
e ferrugem no raciocínio ?

A eloquência de que sinto falta terá sido mera interpretação ?
Ilusão de adolescente que acreditava poder ser o que quisesse ?
De uns anos para cá muita coisa ficou pelo caminho;
um pedaço de personalidade aqui, outro ali...
Deixando o eu fragmentado, em busca de integração

Crise de identidade, outra vez ? Tô ficando velho pra isso.

domingo, junho 12, 2005

Falta de Inspiração

Ah, a falta de inspiração
Sugando as cores dos dias e o brilho de sua passagem
Alargando vazios onde nada floresce e os minutos aceleram
Períodos de que se lembra pouco

Saudades do entusiasmo, recordações antigas
Coloridas pela imprecisão da memória
Enfraquecida por prazeres fugazes
Que não mais entusiasmam

Sentado na poltrona da sala de jantar
Com o tempo sendo gasto pela variedade de canais
Permaneço em torpor

Esperando algo que só acontecerá por minha ação
Trasnpiração necessária para resgatar a inspiração
Que devolverá aos dias o brilho e a cor.