quinta-feira, dezembro 28, 2006
Gentileza não é Frescura
Diversos homens se sentem desconfortáveis com a gentileza, receosos de que ela lhes comprometa a masculinidade. Talvez por isso os gays sejam tão populares com as mulheres, não esquecendo, é claro, que a ausência de risco predatório eleva bastante o grau de intimidade e cumplicidade. Essa grosseria masculina prejudica as conversas, visto que é a gentileza que deita o prego, embora alguns só o façam quando vão à cama ou a nocaute, o que os torna desmerecedores de boas conversas. Quando dois deles se encontram, não há conversa e sim dois monólogos, um tentando superar o outro na milenar arte da preguice.
Claro que a grosseria tem seu lugar nas boas conversas, principalmente como recurso humorístico. Tirar onda com o próximo também é ótimo, desde que a gréia vise o sorriso de todos, e não apenas a cara amarrada do greiado, cabendo a ele recusar o papel de estilão. Mas não falo da grosseria engraçada, e sim da praticada por receio de implicações baitolísticas. Acabemos com essa bobagem de uma vez por todas: gentileza não é frescura.
quarta-feira, dezembro 27, 2006
Contagem Regressiva
Para realidade se tornar?
Horas e meninas levadas eu vejo
No devaneio em cuja tela
Não me canso de pintar
Anos podem passar carentes do fato
O quadro pendurado na parede do inviável
A espera nunca é vista com agrado
Contagem regressiva cujo fim é variável
Tentando adivinhar, em más horas emudeço
Fico cego para a via em que devo caminhar
Uma bola de querer esperando o arremesso
Eis que uma música qualquer me lança contra a parede
Onde o quadro pendurado está cansado de aguardar...
... e a parede cede ao fato do consumado desejo.
quarta-feira, dezembro 13, 2006
Racionalização
A notícia não poderia ser mais noticiável: “Garota reage e mata estuprador” (Capa do Diário de Pernambuco, de 12/12/06). Sexo, sangue e singularidade, os três esses do sucesso, também do Six Six Six, the number of the beast, pra adequar a viagem aos meus leitores metaleiros. Confesso que fiquei com uma simpatia enorme pela menina. Que coragem! Em casos de estupro, eu concordo com o filósofo Jeremias, (http://www.youtube.com/watch?v=87xcp4FeQSI) quando declara que “quem é safado tem que morrer”, e quando a execução é feita em legítima defesa pela vítima.
Não fiz nenhuma pesquisa de campo para comprovar minha teoria. Mas, no Acaiaca, onde volta e meia o galego que vende cd pirata coloca Racionais pra tocar, noto que os “elementos suspeitos” cantam com especial prazer o refrão “hoje eu sou ladrão/pratico 157/as cachorra me ama/os playboy se derrete”. (http://www.box.net/public/9lad39fuez) O protagonista da letra morre no final, e Brown recomenda estudo e distância do crime à molecada da favela, mas ainda não vi ninguém nem cantar, quanto mais se empolgar com essa parte. Isso me fez repensar minha teoria.
Ouvir Racionais, por um lado, dá uma certa “credibilidade das ruas” ao ouvinte burguês, ou pelo menos é isso que ele acha: imagina o bandido vindo assaltar o “burguês-mala” e ele tentando se defender com um “pera ae mano, eu ouço Racionais!”. Provavelmente ouviria um “Ah é? Então canta Capítulo 4 Versículo 3 (http://www.box.net/public/i7sska1pau) enquanto eu te deixo de cueca!” (alguém aí lembrou do grande Boça, de Hermes e Renato? :D). Certo, esse parágrafo não tem nada a ver com a teoria, mas é que eu achei a piada boa e não encontrei lugar melhor pra ela. A coisa volta a ficar séria no próximo.
O problema é que o lado construtivo das letras dos Racionais, e aqui eu faço uma extensão a todo hip-hop que retrata a bandidagem, pode se diluir na exaltação da vida do crime. As letras em primeira pessoa encarnam criminosos, eles acabam se estrepando no fim, muitas vezes arrependidos. Mas o cara que ta pensando em ser bandido vai escutar bem alto a saga criminosa e bem baixo a lição final, de acordo com minha insuficiente amostragem do Acaiaca.
Claro que, dentre as variáveis que levam ao crime, a (distorcida) recepção das mensagens dos Racionais não deve ter grande peso. Pobreza, apelos do consumo e ostentação são os lutadores de sumô, no caso. Mas não dá pra deixar de notar que os crimes vêm ficando mais violentos. Hoje mesmo aconteceu outro assalto com ferido, na Av. Boa Viagem. Isso sem falar na cachoeira de sangue que despenca nas periferias e não ganha da mídia a mesma cobertura dos “sangue-azul”. E não dá pra deixar de notar que Racionais e outros hip-hops violentos têm se tornado cada vez mais populares. Alguma conexão entre os fatos? Só uma boa pesquisa de campo pode responder. Fica como promessa para quando a preguiça me abandonar.
sexta-feira, dezembro 08, 2006
Falta Poesia em Minha Vida
Aquele clarão da cortina que levanta
com algo explodindo dentro, me fazendo rir.
Isso não acontece há algum tempo.
Talvez um precoce desencanto com o mundo
tenha retirado da minha pupila a capacidade de filtrar a luz.
Ou talvez meu ego tenha me deixado cego.
Parece que só consigo falar dele.
Falta poesia em minha vida.
Os livros permanecem não lidos.
O trago não traz encantamento.
Os caminhos me levam sempre ao mesmo ponto.
Caminho em círculos, sem prestar atenção.
Me visto de blasé, mesmo sem gostar da roupa.
Procuro água numa fonte que já secou.
Escondo as mágoas em lugares que tento esquecer...
Mas não esqueço, não expresso, não resolvo
Permaneço imanifesto, fingindo não dar valor
Ator despreparado que não sai do mesmo papél
Dirigido pelo tolo que meu ego se tornou...
...por deixar a poesia faltar em minha vida.
sexta-feira, dezembro 01, 2006
Astronautas
"Vencer na vida" é a medida pela qual as pessoas normalmente avaliam umas às outras. Significa um bom emprego, que viabilize seu sustento e garanta o acesso a supérfluos que já se tornaram essenciais. Significa ter alguém para amar, mesmo que esse "alguém" se alterne em vários ao longo do tempo. Significa ser visto com respeito e simpatia pelos outros, cabendo aí alguma inveja da sua posição. Significa ter superado os vários obstáculos que separam a maioria das pessoas desse objetivo (algumas pessoas já nascem com a "vida vencida", mas elas são estatisticamente desprezíveis). Aos 40 anos, espera-se que você tenha "chegado lá", ou pelo menos subido uns bons degraus na escada. Essa é a visão dominante.
Há quem discorde. Existem os que querem nada mais que "uma casa no campo, onde possam plantar seus amigos, discos e livros" (http://www.box.net/public/7v6r0kfiui). Ou os que sabem "o quanto é difícil encontrar, de 10 homens ricos, apenas 1 com uma mente satisfeita" (http://www.box.net/public/q56e34l8hy). Ou ainda os que dizem "que não é preciso achar solução para vida, ela não é uma equação, não tem de ser resolvida" (http://www.box.net/public/rtmt8kjtfj). Estas idéias alimentam os que não querem medir a si e aos outros pelo critério "vencer na vida". Não querem fazer parte desse sistema, e são vistos como astronautas pelos adeptos dele. "Se antene, se ligue, caia fora". E então chegamos à questão das drogas.
A realidade nos afeta a partir do modo pelo qual a percebemos. Se alteramos essa percepção, a sensação é a de alterar a realidade, embora isso não aconteça de fato. A realidade permanece a mesma, embora ofereça incontáveis maneiras de ser percebida. Podemos ir embora para Pasárgada no fim do dia, para aliviar as pressões do cotidiano, ou simplesmente porque lá é melhor que aqui. No entanto, a passagem de ida para Pasárgada, oferecida pelas drogas, não custa o mesmo que a passagem de volta, se você resolveu morar de vez na cidade. Para ir, basta algum dinheiro. Para voltar, é preciso uma tremenda força de vontade, que a própria estadia em Pasárgada já fez questão de enfraquecer.
"O refúgio em Pasárgada é um consolo para os fracassados que não conseguiram vencer na vida", diriam os poderosos, do alto da escada. "Prefiro viver em Pasárgada do que fazer parte da podridão que alimenta esse sistema", diria um hóspede de longa data da cidade. "Eu prefiro um galope soberano à loucura do mundo me entregar" (http://www.box.net/public/cpf9nukyuv), já disse Zé Ramalho, que volta e meia vai para Pasárgada, mas sempre volta a esse "mundo louco", para contar o que viu por lá. Ele prova que astronautas podem viver bem na terra. É só não se perder no espaço.
domingo, novembro 26, 2006
Espertos e Otários
"Rir das ironias com que a vida nos confronta". Clichezão de auto-ajuda, sem dúvida. Mas eu sempre me perguntei: por que esses livros vendem tanto? Depois de ler alguns, descobri que eles fazem você se sentir bem. Todo mundo deseja progressos para si. Tornar-se uma pessoa melhor. Mas esta é uma idéia muito abstrata. O que esses livros fazem é indicar ações concretas que levam à idéia abstrata. Como as religiões. Só que não procuram convencer por meio de uma fé que pouco explicam. Não, eles são cheios de explicações, algumas convincentes, outras nem tanto, mas que, das duas, uma: ou te fazem se sentir bem ou te fazem pensar que o autor acha que você é um otário. O engraçado é que o otário se sente bem com a leitura, enquanto o cético se irrita. E, se o lema é "sinta-se bem o quanto puder", o otário é o esperto e o cético é o otário.
Eu gostei dessa idéia, achei esperta. Queria ter pensado nela naquela noite, acho que impressionaria as paulistas, e quem sabe elas não decidiriam desembarcar em Recife, inclusive porque o tempo lá estaria melhor, segundo a previsão, ou melhor, segundo meu relato da previsão. Mas não, não pensei nisso na hora, não impressionei as meninas, e a improvável flechada do desembarque não teve a menor chance de atingir o alvo, porque nem chegou a sair do arco. Diga aí, se eu tivesse conseguido mudar o destino das paulistas. Iria me achar a "lâmpida" de Adoniran. (http://www.box.net/public/2n9kssk4zd) Meu ego iria na altura do de Justin Timberlake ("Faço o 'Sexy' voltar/esses putos vêem como ataco/se a mina é sua, melhor se cuidar/porque ela me quer e isso é fato").
Vendo por esse lado, que bom que não tive a idéia na hora, ela poderia comprometer meus projetos de humildade e desenvolvimento espiritual. Até parece... até parece que sou otário.
sábado, novembro 25, 2006
A Verdade sobre a Babilônia
O contexto real da palavra, no entanto, não é esse. Pensei em fazer um texto pra jogar luz no assunto, mas já há um texto que fala tudo o que é necessário saber sobre a questão. E, de quebra, o texto vem inserido num dub de primeira. Trata-se de “Muita falta de anti-profissionalismo dub”, faixa do disco Piratão, do Quinto Andar, cantada por Bnegão. Ouçam, e descubram a verdade sobre a Babilônia.
http://www.box.net/public/q39g5bdjnh (para os não muito habituados à tecnologia, é só clicar no link e clicar em "play" :P)
quinta-feira, novembro 23, 2006
Promessa de fim de ano
Tava observando os intervalos entre os posts desse meu blog. Volta e meia, eles ficam enomes. O engraçado é que quase todo dia eu entro para checar o número de visitas, mas passo semanas sem colocar nada de novo. Como diria um amigo meu, tô querendo pegar o gabarito sem ter feito a prova. Ou colher o que não plantei.
Essa tal de inspiração é curiosa. Todo mundo que faz algo criaivo com regularidade sabe como é bom trabalhar inspirado. Você tropeça nas idéias, são tantas que é até difícil escolher, e elas parecem se desenvolver por elas mesmas, como se você tivesse apenas aberto a represa, e deixado o rio seguir seu fluxo.
O danado é que volta e meia essa represa não abre de jeito nenhum. Você força, reforça, e não destroça a barreira. Quer dizer, eu devo admitir que não forço muito não. Se tá muito difícil, prefiro esperar até ficar mais fácil. E isso às vezes leva um bom tempo.
O problema não é tanto o tempo de espera, eu não tenho pressa, minha fase Devotos já passou. O problema é o tempo de treino (logo, de desenvolvimento) que vai sendo desperdiçado. A sensação de não estar desenvolvendo satisfatoriamente minhas potencialidades. Isso me incomoda um bocado.
Por isso resolvi colocar em prática a frase de Crumb, e comprar mais ações de persistência, da qual minha bolsa de valores carece. Postar todo dia pra mim é quase uma utopia, mas fica como meta que, mesmo não alcançada, já vale pela busca. O blog tá na Web, mas a web não deve acumular no blog. Meu futuro agradece.
terça-feira, novembro 07, 2006
Veredas da Babilônia
pretensões de diamante, realidade de vidro.
Desejos debatendo-se na teia
prisões decoradas com estilo.
Gargalhadas estridentes como quem receia
o pecado de pela melancolia ser atingido.
Vaidades lutando por brincadeira
encantos desprovidos de sentido.
O vazio é imenso para quem tateia
pelas veredas da Babilônia, perdido.
A fome não é suprida por tanta ceia
a alma não se sacia com o divertido.
segunda-feira, outubro 09, 2006
O Opositor
Ou melhor, um conhecido de quem sei pouco.
Ele gosta de sombras, eu prefiro não jogar luz.
Algumas vezes ele me diz o que fazer
Noutras, ele mesmo faz no meu lugar
Ele é metade o que desejo ser... metade o que tenho medo de me tornar.
É difícil encará-lo de frente
compreender suas razões
e poder agir em desacordo.
Quando o olho, ele se aproxima do meu olhar...
chega tão perto que deixo de vê-lo.
E o que nos separa desaparece.
Sei mais sobre ele do que penso;
pensar sobre ele que é difícil.
Louvado saber que não vem do pensar.
Sabendo-me fraco diante dele
busco outra maneira de me livrar
do seu peso a me afastar das metas.
domingo, setembro 24, 2006
Desorientação Universitária
"Pouca grana, muita gana", é o acertado título da reportagem. De onde vem essa gana, e por que ela é escassa entre os mais favorecidos ? Para alguns, a universidade é o pedaço de madeira com o qual vão construir um barco capaz de lhes tirar do córrego das privações e levá-los ao mar da prosperidade, através do rio da ascensão social. Outros, já nascidos no mar, empurram o pedaço de madeira com a barriga, ou o usam para surfar as divertidas ondas que o mar oferece.
Inúmeras vezes, nas universidades, tenho a sensação de estar perdendo tempo. A aula vazia, a presença necessária, o aprendizado inexistente. É difícil dizer até onde é incompetência do professor ou desinteresse do aluno, um alimenta o outro. Imagino um desses bons alunos de escola pública, no meu lugar, como agiria. Provavelmente não teria deixado de entregar o resumo da última quinta-feira. Talvez, no lugar do tédio, sentisse aquela curiosidade instigante, a tal fome de saber; não é necessário nenhum professor brilhante para acender essa chama nele - e ela resiste à mediocridade docente. Admiro esse meu colega, queria ser como ele. Por enquanto, sou mais um dos que não sabem o que fazer com o pedaço de madeira, e que desaprenderam a manter a chama acesa em algum momento do ensino médio.
sexta-feira, setembro 08, 2006
Cenosidade
O rótulo vem com uma pitadinha de fel para o reino da alegria. Quem usa o termo não faz parte da cena, e a frustração disso é que criou o rótulo, diriam os cenosos, com boas chances de acertar. Dá pra entender: a vida cenosa é deslumbrante, ao menos para quem está de fora. Do lado dos cenosos, a chinfra também não é pouca: é difícil ver um deles apagado, brilham o tempo todo, encantam lindas mulheres... a cenosidade é charme forte.
Claro que isso é prato cheio para os invejosos de plantão criticarem os cenosos sob os mais variados pretextos. A cena ganha sua anti-cena, que tenta disfarçar pela crítica a vontade de ser cena também. Do outro lado, há os defensores da cena, que buscam fazer parte dela através de elogios também carentes de critério. O diálogo entre os dois lados é divertidíssimo. Os interessados podem colher na comunidade do Orkut "Eu odeio Mombojó" (http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1193883) uma ótima amostra dessa dialética da cenosidade.
Contra ou a favor, a cena se fortalece com os que se importam com ela. E o fortalecimento da cena é do interesse não só dos cenosos ou aspirantes, mas de todos que apreciam o agito por ela promovido. Com ou sem chinfra, é ótimo poder ouvir as pedras do samba, acompanhadas pelas lindezas dançantes. Mesmo que, no final, elas só queiram dançar com eles (cenosos) e dizer que é sem compromisso... vida de cenoso é boa demais!
segunda-feira, setembro 04, 2006
Janelas Fechadas
Arthur gostava de dar conselhos. E desgostava de ver Tiago assim, como quem nada quer, desagradando com seu silêncio. Tiago tinha a mania de fechar as janelas, apagar as luzes e passar longos momentos no escuro.
-Isso o quê? - Tiago pergunta, ainda de janelas fechadas.
-Essa sua mania de se enterrar em seus devaneios e ficar cego e surdo para o mundo.
-Ah, é verdade... eu devia parar com isso. - responde Tiago, abrindo as janelas à contragosto.
-Você já parou pra pensar na quantidade de coisas que você perde com isso? Você sabe que o seu silêncio ajudou um bocado as meninas a irem embora mais cedo, né ?
-Por que, você acha impossível elas terem de estudar pra prova de amanhã ?
-Prova de amanhã, Tiago?! A sugestão de que nós quatro fôssemos dar uma volta na praia, você nem ouviu, né ?
-Volta na praia ? Acho que não...
-Quem sugeriu foi aquela menina, que passou os últimos 40 minutos na sua frente, esperando alguma atitude sua. Você ignorar a sugestão era o que faltava para ela lembrar de repente dessa prova e ir embora com a amiga.
-Ah, bem que eu tava achando estranho essa sua repentina preocupação comigo... você só tá aborrecido porque o que esperava não aconteceu.
-E você, aonde espera chegar desse jeito ? Vai deixar o tempo passar na janela, desperdiçar as oportunidades que a vida te oferece, pra ficar sonhando acordado, calado, isolado ? Se ao menos você compartilhasse seus sonhos...
Tiago não respondeu. Sabia que Arthur tinha razão. Ele próprio já pensara bastante no assunto, nos romances que deixou de ter... aquela menina mexia com ele, e ele a deixou ir embora... como tantas vezes já fizera. Compartilhar sonhos... será que ela gostaria de ouvir ?
-"Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém..." - Arthur cantava, na intenção de provocar o amigo. Mas Tiago já fechara as janelas novamente, apesar e por causa do verso. Ele já saíra de dentro de si, e foi tanta felicidade... que logo logo desmoronou. Um pássaro que cai no melhor do seu primeiro vôo, e passa a se defender do voar. Voa baixinho, quase pulos mais demorados, e morre de saudade de quando voou de verdade.
-Deu 27 reais, Tiago. Tu tem trocado ?
Teria trocado... algumas cervejas e boa conversa por um pouco de alívio para solidão.
terça-feira, agosto 22, 2006
Liberdade
O que não se desejava eram os efeitos colaterais da ausência de lutas pela liberdade. Se não se batalha para conquistar, a conquista não tem valor. Muitos dos nascidos após a queda do monstro foram criados com muita liberdade e pouca racionalização. Não fazer isso era afinar-se com o autoritarismo que tanto se quis derrubar.
Em nome da liberdade, a permissividade tomou conta. A geração que já nasceu com seu monstro derrubado carrega um vazio, e tenta preenchê-lo "erguendo estranhas catedrais". Não reconhecem batalhas além das do prazer imediato; as outras são fardos a serem suportados, se muito.
É preciso meditar sobre a frase de Lênin. Talvez ela não aponte apenas para o autoritarismo extremo que desejamos manter no passado. Talvez ela aponte para uma disciplina interna, onde o indivíduo reconhece seus monstros e assume a luta contra eles. Porque a vida sem batalha se transforma em espaços de tédio que os pincéis do entretenimento tentam preencher, mas não conseguem.
domingo, agosto 13, 2006
Dança Furtiva
Imaginado, ponderado ficou
na suspensão das hipóteses, e seus prováveis efeitos...
tão bons de se imaginar, o ego a inflar sem motivos reais...
derrapando nos sinais, a indicar o que não admitirias.
Nem eu admito, tão estranho que seria
o que imagino com ardor de desejo reprimido.
desprezando admissões, nossos olhos se provocam
dizem claro o que a boca insiste em disfarçar
e me levam a preparar frases belas que não direi.
Nada dito no sentido que importa
importância que é melhor fingir não haver
para além do fingimento, o sentido dança furtivo
imaginando o prazer de ser descoberto
e constatando que descoberto não pode ser.
terça-feira, agosto 08, 2006
Ansiedade de Desempenho
A preocupação com o desempenho tanto pode melhorá-lo quanto piorá-lo. Cada atividade exige determinado equilíbrio entre estresse e relaxamento, para correr bem.
Terminado o ato, com resultado abaixo do esperado, começa a projeção do que estava errado, para uma melhora futura. Processo saudável, evolutivo, mas angustiante para aquelas pessoas que sofrem com a ansiedade de desempenho. Cada erro é uma culpa, um espaço onde se falhou ao ocupar. Cada culpa se dilata durante a projeção, com a cena do que deveria ter sido feito. “Isso é uma bobagem, o que passou, passou; deve-se deixar ir embora”, nos recomenda o bom-senso. Mas a mente de muitos parece programada para não atender às recomendações.
Pessoas com ansiedade de desempenho são receosas em sair de seu território habitual. Novidade e erro costumam andar juntos. Por isso preferem se dedicar a poucas atividades, as que já dominam. E sofrem com a vontade de fazer o que não sabem, reprimida pelo medo da frustração decorrente do desempenho ruim.
Lembro que, quando criança, sempre ficava de fora quando a turma jogava futebol. Lembro que a coordenadora da escola, observando meu isolamento, me incentivou a participar: “Depois, quando a gente cresce, quer voltar a esses momentos de criança. Se prive não...”. Dos momentos que não me privei, muitos nem lembro mais, e os que lembro me confortam com a sensação de algo preenchido. Já o desconforto do vazio dos momentos em que me privei, esse não me deixa esquecer. Daí a necessidade de se marcar o futebol com meus amigos perna-de-pau. Porque minha ansiedade de desempenho não me deixa jogar com quem manda bem, e por querer tentar, simbolicamente, preencher a lacuna do passado no presente. Preferencialmente, marcando o gol da vitória que vai impressionar a menina bonita a olhar a partida.
segunda-feira, julho 31, 2006
O poço encantado
aquele rapaz de rosto sombrio
andava como se encontrado o poço
encantado desejo da palavra sutil
Tão bela a menina do primeiro verso
que o ego transbordava feito navio
quando se rompe a proteção do imerso
e o mar invade tudo que era vazio
Tão rápido a poesia se transformou
o mar virou sertão que preferiu
o cinismo ao amor que não vingou
amar sempre foi um ato imbecil
Tão demorada a ferida sarou
sertão irrigado por estreito rio
estreita também a poesia ficou
o poço encantado na areia sumiu.
quinta-feira, julho 27, 2006
A soberba humildade
Alguns consideram a humildade incompatível com uma auto-estima elevada. Se sua vida vai bem nas diversas áreas que lhe importam, não lhe faltam motivos para mandar a humildade para bem longe, certo ? A soberba é divertida, e a humildade é apenas o refúgio daqueles que não são tão bons quanto você.
Quando nos consideramos de fato bons em algo, a soberba nos tira para dançar, assim como nas vitórias importantes. Poucos recusam o convite. Recusar por quê, se a dança é instigante, embriaga o ego, faz sentir-se importante? Podemos até aparentar modéstia, porque uma arrogância descarada atrai antipatia, enquanto dizemos para nós mesmos como somos os tais.
Há, porém, uma razão soberba para manter a soberba afastada: ela atrai infortúnio. A vida logo procura ensinar aos arrogantes que salto alto não é bom para trilhar seus caminhos. Quantas trajetórias promissoras não foram desperdiçadas pelo deslumbramento? Isso fica evidente em competições. Já observei que o momento em que relaxo por achar que a partida está ganha muitas vezes é seguido de uma virada inesperada. Lidar com derrotas, então, é um problema para os “assoberbados”. Eles procuram, com ansiedade e frustração, uma razão para o seu desempenho pior, porque não aceitam que o desempenho adversário tenha sido melhor por méritos do oponente. Afinal, o oponente não pode ter mais méritos do que eles próprios.
“O sábio abandona a obra assim que ela se termina”. Desapego do resultado. Manter a serenidade quando algo dá muito errado já não é fácil, mas o mais complicado é manter a serenidade quando algo dá muito certo. E é nessa serenidade perdida que floresce o infortúnio, adubado pela arrogância que descuida do que trouxe o bom resultado. A menina está rindo, gostando do papo. No momento em que você “se acha” por isso, o papo começa a declinar, o foco não mais está onde deveria.
Este texto, por exemplo, teria ficado muito melhor se eu não tivesse “me achado” pelo jogo de palavras do título.
quinta-feira, julho 20, 2006
A voz de dentro
não é aquela que toca na sua mente
o trecho das canções preferidas
ou as conversas de fim de tarde.
A voz de dentro não gosta de chamar atenção.
fala pra quem escuta, sem repetir ou aumentar o tom
o oposto daquela voz que toca na sua mente.
Sempre gritando, clamando por atenção... e consegue
que a voz de dentro se cale, por falta de atenção
ou a falta de atenção nos impede de ouvir o seu falar ?
Quando conseguimos escutar a voz de dentro
convém prestar atenção;
pela raridade do momento
pela tranquilidade da sensação.
Não há tédio quando se a escuta;
tédio é coisa daquela voz
que faz tudo que pode na luta
para afastar o silêncio de nós
porque a ausência de som a apavora.
Mas é só nele que se encontra o remédio
oferecido por aquela senhora
que não fala muito alto, não gosta de chamar atenção.